    
    
    
DAN BROWN
    
   ANJOS e DEMNIOS
    
Publicado originalmente com o ttulo: 
Angels & Demons
Traduo 
Maria Luiza Newlands da Silveira


NOTA
    Este texto, originalmente escaneado por algum no identificado, foi cotejado com a verso em espanhol por S.B. Alm de uma reviso do texto, S.B. re-editou o texto, colocando os dilogos nos lugares adequados. Tambm acrescentou imagens presentes na edio em espanhol e que no foram includas pelo escaneador da verso em portugus. Desse modo, essa edio eletrnica pode ser chamada de verso 1.1.

Para Blythe...

     
    

FATO

    O maior estabelecimento de pesquisa cientfica do mundo  Conseil Europen pour la Recherche Nuclaire (CERN) , na Sua, recentemente conseguiu produzir as primeiras partculas de antimatria. A antimatria  idntica  matria fsica, exceto por ser composta de partculas cujas descargas eltricas so inversas quelas encontradas na matria normal.
    A antimatria  a mais poderosa fonte de energia conhecida pelo homem. Libera energia com 100 por cento de eficincia (a fisso nuclear  1,5 por cento eficiente). A antimatria no  poluente nem radioativa, e bastaria uma gota para abastecer a cidade de Nova York de energia por um dia inteiro.
    H, porm, uma ressalva...
    A antimatria  extremamente instvel. Incendeia-se ao entrar em contato com qualquer coisa, inclusive o ar. Um nico grama de antimatria contm energia igual  de uma bomba nuclear de 20 quilotons  o tamanho da bomba que caiu sobre Hiroshima.
    At bem recentemente, a antimatria tinha sido criada apenas em quantidades bem reduzidas (alguns tomos por vez). Agora, porm, o CERN comeou a trabalhar com o novo desacelerador de antiprtons  um avanado aparelho que promete criar antimatria em quantidades maiores.
    Resta uma pergunta: ser que essa substncia to voltil vai salvar o mundo ou ser usada para gerar a mais mortfera arma de todos os tempos? 

NOTA DO AUTOR

    Todas as referncias a obras de arte, a arquitetura, a tneis e a tumbas em Roma so inteiramente factuais (assim como suas localizaes exatas). Essas obras e monumentos ainda podem ser vistos hoje. A fraternidade dos Illuminati tambm  factual. 
    
    



PRLOGO
    
    O fsico Leonardo Vetra sentiu cheiro de carne queimada e sabia que era a sua. Levantou os olhos, aterrorizado, para a figura sombria que o dominava.
     O que voc quer?
     La chiave  respondeu a voz rascante.  A senha.
     Mas eu no...
    O intruso curvou-se de novo para a frente, pressionando com mais fora o objeto em brasa no peito de Vetra. Ouviu-se um chiado de carne grelhando.
    Vetra gritou alto, agoniado.
     No existe senha nenhuma!  E sentiu que mergulhava na inconscincia.
    O rosto do homem encheu-se de uma fria contida.
     Ne avevo paura. Era o que eu temia.
    Vetra esforou-se para manter os sentidos, mas a escurido envolvia-o pouco a pouco. Seu nico consolo era saber que o agressor jamais obteria o que viera buscar. Um momento mais tarde, porm, o homem fez aparecer uma lmina e ergueu-a diante do rosto de Vetra. A lmina adejou no ar. Precisa. Cirrgica.
     Pelo amor de Deus!  gritou Vetra.
    Mas era tarde demais. 

CAPTULO 1
    
    Do alto da pirmide de Giz, a jovem riu e voltou-se para ele, l embaixo, chamando-o.
     Ande, Robert! Devia ter me casado com um homem mais moo!  O sorriso dela era mgico.
    Ele tentou acompanh-la, mas suas pernas pesavam como se fossem feitas de pedra.
     Espere  pediu.  Por favor...
    Enquanto subia, sua vista comeou a turvar-se. Seus ouvidos latejavam. Preciso alcan-la! Mas, quando olhou de novo para cima, a mulher desaparecera. Em seu lugar havia um velho de dentes estragados. O homem encarou-o, os lbios torcendo-se em uma careta melanclica. E ele deixou escapar um grito de angstia que ressoou pelo deserto.
    Robert Langdon acordou sobressaltado do pesadelo. O telefone ao lado de sua cama estava tocando. Tonto, levou-o ao ouvido.
     Al?
     Gostaria de falar com Robert Langdon  disse uma voz masculina.
    Langdon sentou-se na cama e tentou clarear sua mente.
     Aqui...  Robert Langdon  e apertou os olhos para o mostrador do relgio digital. Eram 5h18 da madrugada.
     Preciso encontr-lo imediatamente.
     Quem est falando?
     Meu nome  Maximilian Kohler. Sou um fsico de Partculas Discretas.
     Um o qu?  Langdon mal conseguia se concentrar.  Tem certeza de que procurou o Langdon certo?
     O senhor  professor de Simbologia Religiosa na Universidade de Harvard. Escreveu trs livros sobre simbologia e...
     Sabe que horas so?
     Peo desculpas. H uma coisa que precisa ver. No posso explicar pelo telefone.
    Um resmungo conformado escapou dos lbios de Langdon. Aquilo j acontecera antes. Um dos perigos de se escrever livros sobre simbologia religiosa era o chamado de fanticos querendo que ele confirmasse o ltimo sinal que haviam recebido de Deus. No ms anterior, uma stripper de Oklahoma prometera a Langdon a melhor sesso de sexo de sua vida se ele pegasse um avio at cidade dela para verificar a autenticidade de uma figura cruciforme que parecera magicamente nos lenis de sua cama. O sudrio de Tulsa, como Langdon a chamara.
     Como conseguiu o nmero do meu telefone?  Langdon tentou ser amvel, apesar da hora.
     Na Internet. No site do seu livro.
    Langdon franziu a testa. Tinha certeza de que o nmero do telefone de sua casa no constava do site de seu livro. O homem obviamente estava mentindo.
     Preciso v-lo  a voz do outro lado insistiu.  Vou pagar bem.
    Agora Langdon estava ficando furioso.
     Sinto muito, mas eu...
     Se sair agora, pode estar aqui por volta de...
     No vou a lugar nenhum! So cinco horas da manh!
    Langdon desligou e caiu de volta na cama. Fechou os olhos e tentou adormecer novamente. No adiantou. O sonho estava entranhado em sua mente. relutante, vestiu um roupo e desceu.
    
    Robert Langdon perambulou descalo por sua casa deserta, uma construo vitoriana em Massachusetts, segurando seu remdio habitual contra a insnia: uma caneca de chocolate instantneo fumegante. O luar de abril filtrava-se pelas janelas da sacada e formava desenhos nos tapetes orientais. Os colegas de Langdon sempre brincavam que o lugar parecia mais um museu de antropologia do que uma casa. As prateleiras estavam cheias de artefatos religiosos de todo o mundo  um ekuaba de Gana, uma cruz dourada da Espanha, um dolo cicladense do Egeu e um ainda mais raro boccus de Bornu, o smbolo da perptua juventude de um jovem guerreiro.
    Sentado em uma arca de lato maharishi e saboreando o chocolate quente, deu com o seu reflexo nas vidraas das janelas. A imagem estava distorcida e plida... como a de um fantasma. Um fantasma envelhecido, pensou, sendo cruelmente lembrado de que o seu esprito da mocidade vivia dentro de um invlucro mortal.
    Apesar de no ser propriamente bonito no sentido clssico, Langdon, com seus quarenta e cinco anos, possua o que as colegas do sexo feminino classificavam de um encanto erudito  mechas grisalhas misturadas ao espesso cabelo castanho, perspicazes olhos azuis, uma voz grave atraente e o sorriso forte e despreocupado de um atleta universitrio. Membro da equipe de mergulho da faculdade, Langdon ainda tinha um corpo de nadador, um metro e oitenta de boa forma, que ele mantinha cuidadosamente com 2.500 metros dirios de exerccio na piscina da universidade.
    Seus amigos sempre o viram como uma espcie de enigma  um homem que pertencia a sculos diferentes. Nos fins de semana, viam-no andando pelo ptio da universidade vestido de jeans e conversando sobre computao grfica e histria religiosa com os alunos; outras vezes, aparecia com seu palet de tweed e colete paisley nas pginas de importantes revistas de arte em aberturas de exposies de museus para as quais era convidado a dar palestras.
    Mesmo sendo um professor rigoroso e muito severo quanto  disciplina, Langdon era o primeiro a acolher o que chamava de a arte perdida de uma boa brincadeira Apreciava os momentos de divertimento com um fanatismo contagiante, o que lhe valera uma aceitao fraternal entre seus alunos. Seu apelido no campus, Golfinho, era uma referncia tanto  sua natureza afvel quanto  sua lendria capacidade de mergulhar em uma piscina e confundir a estratgia de toda a equipe adversria em um jogo de plo aqutico.
    Enquanto estava ali, sozinho, olhando distrado para a escurido, o silncio da casa foi quebrado novamente, dessa vez pelo toque da mquina de fax. Exausto demais para se incomodar, Langdon forou uma risadinha cansada. 
    O povo de Deus, pensou. Dois mil anos de espera pelo Messias e eles ainda so de uma persistncia infernal.
    Entediado, deixou a caneca vazia na cozinha e foi andando devagar para seu escritrio revestido de painis de carvalho. O fax recm-chegado estava na bandeja da mquina. Suspirando, pegou a folha de papel e olhou para ela.
    No mesmo instante foi tomado por uma onda de nusea.
    A imagem na pgina era a de um cadver humano. O corpo fora despido e a cabea fora torcida, virada completamente para trs. No peito da vtima havia uma terrvel queimadura. O homem fora marcado a fogo... com uma nica palavra. Uma palavra que Langdon conhecia bem, muito bem. Ele olhou fixamente, incrdulo, para as letras desenhadas.
     
    
     Illuminati  ele gaguejou, o corao batendo forte.  No pode ser...
    Lentamente, temendo o que estava para presenciar, Langdon girou o papel 80 graus. Olhou para a palavra de cabea para baixo.
    E quase perdeu o flego. Era como se tivesse sido atropelado por um caminho. Mal acreditando em seus olhos, virou a folha de novo, lendo a palavra nas duas posies.
     Illuminati  murmurou.
    Aturdido, deixou-se cair em uma cadeira. Ficou ali por um momento, totalmente desnorteado. Aos poucos, sua ateno voltou-se para a luz vermelha que piscava na mquina. Quem mandara o fax ainda estava na linha... esperando para falar. Langdon contemplou durante longo tempo o ponto luminoso piscando.
    Depois, trmulo, levantou o fone. 

CAPTULO 2 
    
     Vai me dar ateno agora?  disse o homem quando Langdon finalmente atendeu o telefone.
     Sim, senhor, com certeza, agora vou. Pode explicar melhor?
     Foi o que tentei lhe contar antes  a voz era rgida, mecnica.  Sou fsico. Dirijo uma organizao de pesquisas. Aconteceu um crime e o senhor viu o fax.
     Como me encontrou?  Langdon mal conseguia se concentrar na conversa. Sua mente estava na imagem no fax.
     J lhe disse. Na Internet, no site de seu livro A arte dos Illuminati.
    Langdon procurou reunir seus pensamentos. Seu livro era praticamente desconhecido nos crculos literrios convencionais mas tivera uma repercusso bastante significativa on-line. Ainda assim, a explicao no fazia sentido.
     A pgina no traz informaes para contato  Langdon desafiou-o.
     Tenho certeza disto.
     No laboratrio tenho gente que  especialista em extrair informaes sobre os usurios da Internet.
    Langdon ainda estava meio ctico.
     Parece que seu laboratrio sabe tudo sobre a Internet.
     Claro  o outro disparou , fomos ns que a inventamos.
    Algo na voz do homem dizia que ele no estava brincando.  Preciso v-lo  insistiu.  No  assunto para se tratar pelo telefone. Meu laboratrio fica a apenas uma hora de vo de Boston.
    Na penumbra de seu escritrio, Langdon analisou o fax que tinha em mos. A imagem era estarrecedora, talvez representasse a maior descoberta epigrfica do sculo, uma dcada de suas pesquisas confirmada em um nico smbolo.
      urgente  a voz pressionou-o.
    Os olhos de Langdon estavam fixos na queimadura. Illuminati, ele lia sem parar. Seu trabalho sempre se baseara no equivalente simblico dos fsseis  documentos antigos e boatos histricos , mas aquela imagem diante dele representava o hoje. O tempo presente. Sentia-se como um paleontlogo que d de cara com um dinossauro vivo.
     Tomei a liberdade de mandar um avio busc-lo  disse a voz.  Vai estar em Boston dentro de 20 minutos.
    Langdon sentiu a boca seca. Uma hora de vo...
     Por favor, desculpe minha impertinncia  continuou o homem.  Preciso do senhor aqui.
    Langdon olhou outra vez para a imagem no fax  um antigo mito confirmado em preto-e-branco. As implicaes eram assustadoras. Levantou um olhar ausente para as janelas. Os primeiros vestgios da aurora insinuavam-se por entre os galhos das btulas dos fundos de sua casa, mas a vista de alguma forma parecia diferente naquela manh.  medida que uma estranha mistura de medo e animao ia tomando conta dele, Langdon percebeu que no tinha escolha.
     O senhor me convenceu  falou ele.  Agora me diga onde encontrar o avio. 

CAPTULO 3 
    
    A milhares de quilmetros dali, dois homens encontravam-se.
    O aposento era escuro. Medieval. De pedra.
     Benvenuto  disse o encarregado. Estava sentado nas sombras, fora de viso.  Foi bem-sucedido?
     Si  respondeu o vulto.  Perfectamente.  Suas palavras soavam duras como as paredes de pedra.
     E no haver dvidas quanto  responsabilidade?
     Nenhuma.  Excelente. Trouxe o que pedi?
    Os olhos do assassino brilharam, negros como petrleo. Pegou um pesado aparelho eletrnico e colocou-o sobre a mesa.
    O homem nas sombras pareceu satisfeito.
     Voc se saiu bem.
     Servir  fraternidade  uma honra  disse o assassino.
     A fase dois vai comear logo. Procure descansar um pouco. Esta noite vamos mudar o mundo. 
    

CAPTULO 4
    
    O Saab 900S de Robert Langdon saiu do tnel Callahan no lado leste do porto de Boston, perto da entrada para o Aeroporto Logan. Verificando o endereo, Langdon encontrou a Aviation Road e dobrou  esquerda depois do prdio da Eastern Airlines. Na estrada de acesso, uns 300 metros adiante, um hangar surgiu na escurido. Pintado nele, um grande nmero 4. Langdon parou no estacionamento e saiu do carro.
    Um homem de rosto redondo vestindo um uniforme azul de vo saiu de trs da construo.
     Robert Langdon?  indagou.
    A voz era amigvel, com um sotaque peculiar que Langdon no conseguiu identificar.
     Eu mesmo  respondeu ele, trancando o carro.
     Clculo perfeito  disse o homem.  Acabei de aterrissar. Venha comigo, por favor.
    Ao rodearem o prdio, Langdon sentiu-se tenso. No estava acostumado a receber telefonemas enigmticos nem a marcar encontros secretos com estranhos. Sem saber o que esperar, envergara seu traje habitual de dar aulas  calas de algodo, camisa de gola rol e um palet de tweed. Enquanto caminhavam, pensou no fax no bolso de seu palet, ainda incapaz de acreditar na imagem que apresentava.
    O piloto pareceu perceber a ansiedade de Langdon.
     Voar no  problema para o senhor, ou ?
     De jeito nenhum  Langdon replicou. Corpos marcados a fogo  que so. Voar no  nada. O homem conduziu Langdon at o outro lado do hangar. Contornaram um dos cantos e saram na pista de pouso.
    Langdon estacou, boquiaberto diante da aeronave estacionada na pista.
     Vamos nisso a?
    O homem sorriu.
     Gostou dele?
    Langdon ficou parado olhando algum tempo.
     Dele? Que diabos  isso?
    
    O avio era enorme. Lembrava um pouco o nibus espacial, exceto pelo topo, que parecia ter sido raspado fora, deixando-o perfeitamente plano. Estacionado ali, parecia uma cunha gigantesca. A primeira sensao de Langdon foi a de que estava sonhando. O veculo dava a impresso de ser to capaz de voar quanto um Buick. As asas praticamente no existiam  apenas dois atarracados estabilizadores verticais na traseira da fuselagem. Um par de pequenos lemes dorsais erguia-se na r. O resto do avio era apenas casco  cerca de sessenta metros de ponta a ponta , sem janelas, nada mais alm de casco.
     Pesa 250 toneladas com o tanque de combustvel cheio  adiantou-se o piloto, como um pai se gabando do filho recm-nascido.  Movido a hidrognio. O casco  feito de um molde de titnio com fibras de carbureto de silcio. Arremete com um coeficiente de empuxo de 20:1; a maioria dos jatos s chega a 7:1.0 O diretor deve estar com uma pressa danada de encontrar o senhor. Ele no costuma mandar o possante assim  toa.
     Essa coisa voa?  espantou-se Langdon.
    O piloto riu.
     Se voa!
    Conduziu Langdon pela pista na direo do avio.
     Chega a assustar, eu sei, mas  bom ir se acostumando. Daqui a cinco anos,  s o que se vai ver  os HSCT, High Speed Civil Transports (Transporte Civil de Alta Velocidade). Nosso laboratrio  um dos primeiros a ter um.
    Deve ser um tremendo laboratrio  pensou Langdon.
     Este  um prottipo do Boeing X-33  continuou o piloto , mas existem dezenas de outros: o National Aero Space Plane, o Scramjet dos russos, o Hotol dos ingleses. O futuro est aqui, s vai levar algum tempo para chegar ao setor pblico. Pode ir se despedindo dos jatos convencionais.
    Langdon examinou o avio com ar desconfiado.  Acho que teria preferido um jato convencional.
    O piloto apontou para a escada de embarque.
     Vamos subir, por favor, senhor Langdon. Cuidado com os degraus.
    
    Minutos depois, Langdon estava sentado dentro da cabine vazia. O piloto instalou-o na primeira fila e encaminhou-se para a frente do avio.
    Surpreendentemente, a cabine em si parecia-se com a de um grande jato comercial comum. A nica exceo era o fato de no possuir janelas, o que incomodava Langdon bastante. A vida inteira fora perseguido por uma leve claustrofobia, vestgio de um incidente de infncia jamais superado por completo.
    Sua averso por espaos fechados no chegava a atrapalhar, mas sempre fora causa de algumas frustraes. Manifestava-se de formas sutis. Ele evitava a prtica de esportes de quadras fechadas, como o squash, e pagara de bom grado uma pequena fortuna por sua casa vitoriana, arejada e com p-direito alto, embora houvesse pronta disponibilidade de moradia mais econmica para professores da universidade. s vezes, suspeitava que sua atrao pelo mundo da arte desde muito jovem devia-se ao seu gosto pelos amplos espaos abertos dos museus.
    Os motores roncaram sob os seus ps causando um estremecimento profundo que percorreu todo o corpo do avio. Langdon engoliu em seco e aguardou. Sentiu o avio comear a taxiar. Acima de sua cabea espalhou-se suavemente o som de msica country com instrumentos de sopro.
    Um telefone na parede a seu lado tocou duas vezes. Langdon pegou o fone e levou-o ao ouvido.
     Al?
     Est confortvel, senhor Langdon?
     Nem um pouco.
     Procure relaxar. Vamos chegar l em uma hora.
     E onde exatamente  l?  perguntou Langdon, percebendo que no tinha noo de para onde estavam indo.
     Genebra respondeu o piloto, acelerando os motores.  O laboratrio  em Genebra.
     Genebra  repetiu Langdon, sentindo-se um pouco melhor.  No norte do estado de Nova York. Tenho parentes perto do lago Sneca. No sabia que havia um laboratrio de Fsica em Genebra.
    O piloto deu uma risada.
     No  a Genebra de Nova York, senhor Langdon. Estamos indo para a Genebra da Sua. A palavra demorou um longo momento para ser assimilada.
     Sua?  O pulso de Langdon acelerou-se.  Mas voc no disse que o laboratrio ficava s a uma hora de viagem?
     E fica, senhor Langdon.  Ele deu mais uma risadinha.  Este avio voa a Mach 15. 

CAPTULO 5 
    
    Em uma movimentada rua europia o assassino deslocava-se de maneira sinuosa atravs da multido. Era um homem vigoroso. Moreno e forte. De uma agilidade dissimulada. Seus msculos ainda estavam tensos pela emoo do encontro.
    Correu tudo bem, disse a si mesmo. Embora seu empregador no tivesse em nenhum momento mostrado o rosto, o assassino sentia-se honrado por estar em sua presena. Fazia realmente apenas 15 dias que haviam feito o primeiro contato? O assassino ainda lembrava cada palavra da conversa...
     Meu nome  Janus  dissera a pessoa que telefonara.  Estamos de certa forma ligados pelos mesmos laos. Temos um inimigo comum. Soube que se pode contratar seus servios profissionais.
     Depende de quem voc representa  replicou o assassino.
    O interlocutor disse um nome.
     No acho graa nessa brincadeira.
     Vejo que j ouviu falar de ns  observou o homem.
     Claro que sim. A fraternidade  lendria.
     E mesmo assim noto que voc duvida que eu seja um membro genuno.
     Todos sabem que os irmos foram reduzidos a p.
     Um ardil para desviar a ateno. O inimigo mais perigoso  aquele que ningum teme.
    O matador mostrou-se ctico.
     A fraternidade ainda subsiste?
     Mais s ocultas do que nunca. Nossas razes esto infiltradas em tudo o que voc v... at na fortaleza sagrada de nosso inimigo mais declarado.
     Impossvel. Eles so invulnerveis.
     Nosso brao  longo.
     Nenhum brao chega to longe.
     Logo voc vai acreditar. Uma demonstrao irrefutvel do poder da fraternidade j veio a pblico. Um nico ato de traio e de prova.
     O que vocs fizeram?
    O homem contou-lhe.
    O matador arregalou os olhos.
     Uma tarefa impossvel.
    No dia seguinte, os jornais do mundo inteiro estampavam a mesma manchete. O matador passou a acreditar.
    Agora, 15 dias depois, a f do matador consolidara-se alm de qualquer sombra de dvida. A fraternidade subsiste, pensou. Hoje  noite eles viro  tona para revelar seu poder.
    Caminhando pelas ruas, seus olhos negros brilhavam, cheios de expectativa. Uma das fraternidades mais ocultas e temidas que j haviam existido neste mundo convocara seus servios. Escolheram com sabedoria, refletiu. Sua reputao de saber guardar segredo s era superada pela de infalibilidade.
    At ali, servira-os nobremente. Fizera a execuo e entregara o objeto a Janus como fora solicitado. Agora, cabia a Janus lanar mo de seu poder para providenciar a instalao do objeto.
    A instalao...
    O assassino se perguntava como Janus realizaria aquela tarefa to assombrosa. O homem certamente tinha contatos l dentro. Os domnios da fraternidade pareciam ilimitados.
    Janus, pensou ele. Um codinome, sem dvida. Seria uma referncia, ocorreu-lhe, ao deus romano de duas faces... ou  lua de Saturno? No que fizesse qualquer diferena. Janus exercia um poder insondvel. Dera provas irrefutveis disso.
    Enquanto andava, o assassino imaginava seus prprios ancestrais rindo para ele. Ele estava lutando a mesma batalha deles, era o mesmo inimigo contra o qual haviam lutado durante sculos, talvez desde o sculo XI... quando os exrcitos dos cruzados haviam comeado a pilhar suas terras, violentando e matando seu povo, declarando-o impuro, despojando seus templos e deuses.
    Seus antepassados haviam formado um pequeno mas mortfero exrcito para se defender. Esse exrcito tornou-se famoso na regio, seus membros eram vistos como protetores  hbeis carrascos que percorriam o pas trucidando o inimigo onde quer que o encontrassem. Eram afamados no s por seus extermnios brutais, como por celebr-los entregando-se ao entorpecimento causado pelo uso de drogas. A droga escolhida era uma potente substncia inebriante a que chamavam de hashish, o haxixe.
     medida que sua notoriedade se espalhava, esses homens letais passaram a ser conhecidos por uma nica denominao: Hassassin  literalmente, os seguidores do haxixe O nome Hassassin tornou-se sinnimo de morte em quase todas as lnguas da terra. A palavra ainda  usada hoje, at nas lnguas modernas... porm, assim como a arte de matar, o termo evoluiu.
    Hoje pronuncia-se assassino. 

CAPTULO 6
    
    Sessenta e quatro minutos se passaram e um incrdulo e ligeiramente nauseado Robert Langdon desceu a escada do avio na pista banhada pelo sol. Uma brisa fresca fez ondular as lapelas de seu palet de tweed. A sensao de espao aberto era maravilhosa. Ele apertou os olhos para ver melhor o vale coberto de verde e, acima, os picos cobertos de neve que rodeavam inteiramente o local onde estavam.
    Estou sonhando, disse a si mesmo. Vou acordar a qualquer momento.
     Bem-vindo  Sua  gritou o piloto acima do rudo dos motores HEDM do X-33 por trs deles.
    Langdon conferiu o horrio. Eram 7h07 da manh.
     O senhor acabou de cruzar seis fusos horrios  explicou o piloto.  J passa um pouco de uma hora da tarde aqui.
    Langdon acertou o relgio.
     Como est se sentindo?
    Ele esfregou o estmago.
     Como se tivesse comido um pedao de isopor.
    O piloto assentiu.
     Por causa da altitude. Estvamos a 60 mil ps. A gente fica 30 por cento mais leve l. Sorte que foi apenas um pulinho de nada. Se tivssemos ido para Tquio, eu teria subido o mximo possvel  mais de 160 mil metros. Isso  que deixa o estmago embrulhado para valer.
    Langdon fez um gesto cansado de cabea e apreciou a sua boa sorte. De modo geral, o vo fora surpreendentemente comum. Exceto pela sensao de esmagamento acelerado nos ossos do corpo durante a decolagem, o movimento no interior do avio fora bem caracterstico  uma leve turbulncia de vez em quando, umas poucas mudanas de presso enquanto ganhavam altura, mas nada que indicasse que estavam cortando o espao a uma atordoante velocidade de 20 mil quilmetros por hora.
    Uma poro de tcnicos aproximou-se correndo para cuidar do X-33. O piloto acompanhou Langdon at um Peugeot sed preto estacionado atrs da torre de controle. Pouco depois, seguiam por uma estrada asfaltada que se estendia atravs da parte baixa do vale. Um amontoado indistinto de construes delineava-se  distncia. Do lado de fora do carro, os campos relvados passavam depressa, um borro verde.
    Langdon observou espantado o piloto fazer o velocmetro alcanar 170 quilmetros por hora.
    Qual seria o problema daquele sujeito com relao  velocidade?  ponderou ele.
     So cinco quilmetros at o laboratrio  disse o piloto.  Vai estar l em dois minutos.
    Langdon procurou em vo o cinto de segurana.
    Por que no em trs minutos para chegarmos vivos?
    O carro seguia em disparada.
     O senhor gosta de Reba?  perguntou o piloto, empurrando uma fita cassete no toca-fitas do carro.
    Uma mulher comeou a cantar:  s o medo de estar s...
    Esse medo eu no tenho, pensou Langdon, distrado. Suas colegas costumavam caoar que sua coleo de peas de museu no passava de uma tentativa evidente de encher uma casa vazia, uma casa que, segundo elas, seria muito favorecida pela presena de uma mulher. Langdon sempre ria disso, lembrando-lhes que j tinha trs amores em sua vida: a simbologia, o plo aqutico e o celibato, sendo o ltimo uma liberdade que lhe permitia viajar pelo mundo, dormir at a hora que bem entendesse e desfrutar de noites sossegadas em casa com uma bebida e um bom livro.
     Aqui  como se fosse uma cidade pequena  explicou o piloto, arrancando Langdon de seu devaneio.  No existe s o laboratrio. Temos supermercados, um hospital e at um cinema.
    Langdon balanou vagamente a cabea e voltou a ateno para o aglomerado de construes que se aproximava.
     Na realidade  o piloto acrescentou , temos aqui a maior mquina do mundo.
      mesmo?  Langdon correu os olhos pelo campo.
     No d para v-la daqui, senhor.  O homem sorriu.  Est enterrada a uns 20 metros de profundidade. Langdon no teve tempo de perguntar mais nada. Sem avisar, o piloto pisou firme no freio. O carro derrapou e parou junto a uma cabine reforada de segurana.
    Langdon leu a placa diante deles: 
SCURIT. ARRETEZ.
    Foi tomado por uma sbita onda de pnico ao se dar conta de onde estava.
     Meu Deus! Eu no trouxe meu passaporte!
     No  necessrio  o motorista garantiu.  Temos um acordo com o governo suo.
    Langdon, pasmo, viu seu motorista entregar um carto de identificao ao guarda, que o passou em um aparelho eletrnico de autenticao. Uma luz verde se acendeu na mquina.
     Nome do passageiro?
     Robert Langdon  respondeu o motorista.
     Convidado de quem?
     Do diretor.
    O guarda arqueou as sobrancelhas. Virou-se e examinou uma lista impressa, conferindo o que lera nos dados da tela de seu computador. Depois, voltou para a janela.
     Boa estada, senhor Langdon.
    O carro disparou outra vez, acelerando mais uns 200 metros em torno de um amplo acesso circular que levava  entrada principal das instalaes. Diante deles erguia-se uma estrutura retangular ultramoderna toda feita de vidro e ao. Langdon admirou a notvel construo transparente. Sempre fora um grande apreciador de arquitetura.
     A Catedral de Vidro  explicou seu acompanhante.
     Uma igreja?
     Que nada. Igreja  uma coisa que no temos aqui. A religio deste lugar  a Fsica. Pode usar o nome de Deus em vo quanto quiser  riu ele , mas no se atreva a falar mal de quarks nem de msons.
    O motorista fez a curva e parou na frente do prdio de vidro. Langdon estava atnito. Quarks e msons? Fronteira sem controle? Jato Mach 15? QUEM so esses caras, afinal? E leu a resposta gravada em uma placa de granito na fachada do prdio: 
    CERN
    Conseil Europen pour la Recherche Nuclaire
     Pesquisa nuclear?  perguntou Langdon, certo de que traduzira corretamente.
    O motorista no respondeu. Inclinado para o painel do carro, ocupava-se em ajustar o toca-fitas. 
     O senhor fica aqui. O diretor vem encontr-lo nesta entrada.
    
    Langdon viu um homem em uma cadeira de rodas saindo do prdio. Parecia ter pouco mais de 60 anos. Magro e plido, inteiramente calvo e com um rosto severo, vestia um jaleco branco e calava sapatos sociais, que apoiava com firmeza no suporte da cadeira. Mesmo de longe, seus olhos pareciam sem vida, como duas pedras cinzentas.
      ele?  Langdon perguntou.
    O motorista ergueu os olhos, virou-se e deu um sorriso agourento para Langdon.
     Falando do diabo...
    Sem saber muito bem o que o esperava, Langdon desceu do carro.
    O homem da cadeira de rodas apressou-se na direo de Langdon e estendeu-lhe a mo fria e mida.
     Senhor Langdon? Fui eu quem falou com o senhor ao telefone. Meu nome  Maximilian Kohler. 
    
CAPTULO 7
    
    Pelas costas, Maximilian Kohler, diretor-geral do CERN, era chamado de Der Knig  rei, em alemo. O ttulo devia-se mais ao medo do que  reverncia pela figura que governava o seu domnio sentado em um trono de rodas. Embora poucos o conhecessem pessoalmente, a horrvel histria da maneira como ficara aleijado era uma lenda no CERN, e tambm poucos ali o culpavam por sua amargura... ou por sua dedicao declarada  pura cincia.
    Apenas alguns minutos na presena de Kohler bastaram para fazer Langdon notar que o diretor era um homem que se mantinha  distncia. Langdon quase precisou correr para acompanhar a cadeira eltrica em direo  entrada principal. Era um tipo de cadeira de rodas que ele nunca vira antes  equipada com uma bancada de aparelhos eletrnicos, como um telefone com diversas linhas, um sistema de pager, uma tela de computador e at uma pequena cmara de vdeo destacvel. O centro eletrnico de comando do rei Kohler.
    Passaram por uma porta mecnica e entraram no descomunal saguo principal do CERN.
    A Catedral de Vidro, Langdon refletiu, levantando os olhos para o alto. L em cima, o teto de vidro azulado cintilava ao sol da tarde, lanando raios que formavam padres geomtricos no ar e davam ao local uma sensao de grandiosidade. Sombras angulares projetavam-se em forma de veias na cermica das paredes e no piso de mrmore. O ar tinha um cheiro limpo, esterilizado. Havia alguns cientistas circulando por ali, apressados, o som de suas passadas ecoando no espao.
     Venha por aqui, senhor Langdon, por favor.  A voz soava quase computadorizada. Seu sotaque era rgido e preciso como os traos severos de seu rosto. Kohler tossiu e enxugou a boca em um leno branco, fixando os olhos cinzentos e mortios em Langdon.  Por favor, vamos depressa.  A cadeira de rodas parecia saltar sobre as lajotas do cho.
    Langdon seguiu-o por incontveis corredores que se ramificavam a partir do saguo principal. Todos esses corredores fervilhavam de atividade. Os cientistas que cruzavam com Kohler pareciam surpresos e olhavam para Langdon tentando imaginar quem seria ele para estar em tal companhia.
    Langdon tentou puxar conversa.
     Confesso que estou encabulado por nunca ter ouvido falar do CERN.
     No  de espantar  replicou Kohler, a resposta cortante soando spera e eficiente.  A maioria dos americanos no v a Europa como lder mundial em pesquisa cientfica e sim como um pitoresco distrito de compras, nada mais do que isso. O que  estranho, considerando-se as nacionalidades de homens como Einstein, Galileu e Newton.
    Langdon ficou sem saber muito bem o que responder. Tirou o fax do bolso.
     Esse homem na fotografia, o senhor poderia...
    Kohler interrompeu-o com um gesto.
     Por favor. Aqui, no. Estou levando o senhor at onde ele est agora.  Estendeu a mo.  Talvez seja melhor eu ficar com isso.
    Langdon entregou-lhe o fax e continuou a caminhar em silncio.
    Kohler dobrou  esquerda bruscamente e enveredou por um corredor largo em cujas paredes estavam pendurados prmios e comendas. Uma placa de bronze particularmente grande dominava a entrada. Quando passaram por ela, Langdon diminuiu o ritmo para ler o que estava gravado.
PRMIO ARS ELETRNICA
Por Inovao Cultural na Era Digital
Concedido a Tim Berners Lee e ao CERN
pela inveno da
WORLD WIDE WEB
    Diabo! O sujeito no estava brincando!  pensou Langdon ao ler o texto. Sempre pensara que a Internet fosse uma inveno norte-americana. No entanto, seu conhecimento a respeito limitava-se ao site de seu prprio livro e a uma ocasional explorao do Louvre e do Prado em seu velho Macintosh.
     A Internet comeou aqui  disse Kohler, tossindo novamente e enxugando a boca  como uma rede interna de computadores. Permitia a cientistas de diferentes departamentos partilhar as descobertas dirias uns com os outros.  claro, o mundo inteiro imagina que a Internet  tecnologia norte-americana.
    Langdon seguia-o pelo corredor.
     Por que no esclarecem essa questo?
    Kohler deu de ombros, aparentemente desinteressado.
     Um equvoco insignificante a respeito de uma tecnologia insignificante. O CERN  muito maior do que uma conexo global de computadores. Nossos cientistas produzem milagres quase todos os dias.
    Langdon lanou-lhe um olhar interrogador.
     Milagres?  A palavra milagre no fazia parte do vocabulrio dos freqentadores do Edifcio de Cincias Fairchild, em Harvard. Milagres eram com a Escola de Teologia.
     O senhor parece ctico  disse Kohler.  Pensei que fosse um simbologista religioso. No acredita em milagres?
     Sou um tanto indeciso quanto a milagres  Langdon respondeu. Principalmente quanto aos que se realizam em laboratrios cientficos.
     Talvez milagre no seja a palavra certa. Eu estava simplesmente tentando falar a sua lngua.
     Minha lngua?  Langdon de repente se sentiu incomodado.  No quero desapont-lo, senhor, mas estudo simbologia religiosa. Sou um acadmico, no um sacerdote.
    Kohler diminuiu a velocidade e se virou, o olhar suavizando-se um pouco.
      claro. Que tolice a minha. No  preciso ter cncer para se analisar os sintomas da doena.
    Langdon nunca ouvira a questo ser apresentada daquela forma.
    Enquanto seguiam pelo corredor, Kohler fez um leve gesto de aceitao com a cabea.
     Acho que vamos nos entender perfeitamente, senhor Langdon. De alguma forma, Langdon duvidava disso.  medida que os dois avanavam, Langdon comeou a perceber um rudo surdo adiante. O barulho foi ficando mais intenso a cada passo, reverberando pelas paredes. Parecia vir do final do corredor em frente a eles.
     O que  isso?  Langdon finalmente perguntou, tendo de gritar. Tinha a impresso de que se aproximavam de um vulco em erupo.
     Tnel de Queda Livre  respondeu Kohler, a voz oca cortando o ar sem esforo.
    Langdon no perguntou mais. Estava exausto e Maximilian Kohler no parecia interessado em ganhar nenhum prmio de hospitalidade. Langdon procurou lembrar-se do motivo pelo qual estava ali. Illuminati. Presumiu que haveria um cadver em algum ponto daquela organizao colossal... um cadver marcado com um smbolo que ele viajara uns cinco mil quilmetros para ver.
    
    Ao se aproximarem do fim do corredor, o rudo tornou-se quase ensurdecedor, vibrando atravs das solas dos sapatos de Langdon. Contornaram uma pilastra e uma galeria de observao apareceu  direita. Quatro portais de grossas vidraas haviam sido encaixados em uma parede curva, como janelas de submarino. Langdon parou e espiou por uma das aberturas.
    O professor Robert Langdon j vira algumas coisas esquisitas em sua vida, mas aquela era a mais esquisita de todas. Deu umas piscadelas, achando que estivesse tendo alucinaes. Encontrava-se diante de uma enorme cmara circular. Dentro da cmara, flutuando como se fossem desprovidas de peso, havia pessoas. Trs. Uma delas acenou e deu uma cambalhota no ar.
    Deus do cu, pensou, estou na Terra de Oz.
    O piso da cmara era feito de uma tela reticulada, como uma gigantesca cerca de galinheiro. Visvel sob a tela, o borro metlico de uma hlice imensa.
      um tnel de queda livre  disse Kohler, parando para esperar por ele.   um tnel vertical de vento, um simulador de pra-quedismo para aliviar a tenso.
    Langdon olhava, estupefato. Uma das pessoas, uma mulher obesa, manobrou o corpo em direo  janela. Estava sendo fustigada por correntes de ar, mas deu um sorriso e fez um sinal com o polegar para cima. Langdon sorriu amarelo e devolveu o gesto, pensando se ela saberia que aquele era o antigo smbolo flico de virilidade masculina.
    A mulher era a nica usando o que aparentava ser um pra-quedas em miniatura. A faixa de tecido ondulava acima dela como se fosse um brinquedo.
     Para que serve o pequeno pra-quedas?  Langdon perguntou a Kohler.
     No deve ter mais de um metro de dimetro.
     Frico  Kohler respondeu.  Diminui a aerodinmica para que o ventilador possa erguer a pessoa.  E voltou a andar pelo corredor.  Um metro quadrado de algo que oferea resistncia ao ar retarda a queda de um corpo em quase 20 por cento.
    Langdon assentiu mecanicamente com a cabea.
    Jamais poderia imaginar que mais tarde, na mesma noite, em um pas a centenas de quilmetros de distncia, aquela informao iria salvar-lhe a vida. 

CAPTULO 8
     
    Quando Langdon e Kohler saram pelos fundos do conjunto principal do CERN para a luminosidade crua do sol da Sua, Langdon sentiu-se como se tivesse sido levado de volta para casa. A cena diante dele era igual  de um campus da Ivy League.
    Um gramado em declive estendia-se na direo de uma vasta extenso de terreno plano, com rvores sombreando ptios quadrangulares cercados por prdios de dormitrios e caminhos de pedestres. Pessoas com aparncia de universitrios, carregadas com pilhas de livros, entravam e saam dos edifcios. Como para acentuar a atmosfera, dois hippies de cabelos compridos jogavam um frisbee para l e para c enquanto a Quarta Sinfonia de Mahler soava em alto volume vinda de uma das janelas de um prdio.
     Esses so nossos prdios residenciais  explicou Kohler, acelerando sua cadeira de rodas pelo caminho que ia dar nos edifcios.  Temos mais de trs mil fsicos aqui. O CERN sozinho emprega mais da metade dos fsicos de partculas do mundo, as mentes mais brilhantes do mundo: alemes, japoneses, italianos, holandeses, todos, enfim. Nossos fsicos representam mais de quinhentas universidades e sessenta nacionalidades.
    Langdon estava impressionado.
     E como se comunicam?
     Em ingls, naturalmente. A lngua universal da cincia.
    Langdon sempre ouvira dizer que a matemtica era a lngua universal da cincia, mas estava cansado demais para discutir. Seguiu Kohler obedientemente pelo caminho.
    Quase chegando na parte de baixo, um rapaz cruzou com eles correndo, fazendo exerccio. Na camiseta dele, a mensagem: 
SEM TOE, SEM GLRIA!
    Langdon acompanhou-o com o olhar, intrigado.
     TOE?
     Theory of Everything, Teoria sobre Tudo  disse Kohler em tom de gracejo.
     Sei  disse Langdon, sem saber coisa alguma.
     Tem alguma noo de Fsica de Partculas, senhor Langdon?
    Langdon encolheu os ombros.
     Tenho noes sobre Fsica geral, queda dos corpos pesados e coisas assim.
     Sua experincia de mergulho dera-lhe um profundo respeito pelo poder impressionante da acelerao gravitacional.  A Fsica das Partculas  o estudo dos tomos, no ?
    Kohler balanou a cabea.
     Os tomos parecem planetas se comparados com as coisas com que lidamos. Nosso interesse est no ncleo do tomo, apenas dez milionsimos do tamanho do todo.  Tossiu de novo, parecendo adoentado.  Os homens e mulheres do CERN esto aqui para encontrar respostas para as mesmas perguntas que o homem vem fazendo desde o comeo dos tempos. De onde viemos? De que somos feitos?
     E as respostas esto em um laboratrio de Fsica?
     O senhor ficou surpreso?
     Fiquei. Essas respostas parecem pertencer mais ao domnio do espiritual.
     Senhor Langdon, todas as perguntas algum dia foram espirituais. Desde o princpio dos tempos, a espiritualidade e a religio preencheram as lacunas que a cincia no compreendia. O nascer e o pr do Sol eram outrora atribudos a Helios e sua carruagem de fogo. Terremotos e maremotos deviam-se  ira de Poseidon. A cincia provou que esses deuses eram falsos dolos. Logo ser provado que todos os deuses so falsos dolos. A cincia acabou fornecendo respostas para quase todas as perguntas que o homem pode fazer. Restam apenas algumas poucas, que so as esotricas. De onde viemos? O que estamos fazendo aqui? Qual o sentido da vida e do universo?
    Langdon era s perplexidade.
     E so essas as perguntas que o CERN est tentando responder?
     Corrigindo: so as perguntas que estamos respondendo.
    Langdon calou-se e os dois continuaram a circular atravs dos ptios das residncias. Enquanto andavam, um frisbee veio voando e caiu bem na frente deles. Kohler ignorou-o e prosseguiu.
    Uma voz chamou do outro lado do ptio.
     Sil vous plat! 
    Langdon olhou na direo da voz. Um homem idoso de cabelos brancos, vestido com um agasalho esportivo onde se lia COLLEGE PARIS, acenou para ele. Langdon pegou o frisbee e lanou-o habilmente de volta. O senhor apanhou-o com um dedo e, depois de gir-lo uma ou duas vezes, atirou-o por cima do ombro de volta para seu parceiro.
     Merci!  gritou para Langdon.
     Parabns  disse Kohler, quando Langdon finalmente o alcanou.  O senhor acabou de jogar com um ganhador do Prmio Nobel, George Charpak, inventor da cmara de mltiplas ligaes proporcionais.
    Langdon sacudiu a cabea. Hoje  meu dia de sorte.
    
    Levaram mais uns trs minutos para chegar a seu destino, um grande prdio bem cuidado em meio a um bosque de choupos. Comparada s outras, essa construo era at luxuosa. Em uma placa de pedra em frente ao prdio lia-se, em letras entalhadas: EDIFCIO C.
    Cheio de imaginao, pensou Langdon.
    Apesar do nome inexpressivo, o Edifcio C estava bem de acordo com o gosto de Langdon em matria de estilo de arquitetura: slido e conservador. A fachada era de tijolo vermelho e o edifcio possua uma balaustrada decorada e era emoldurado por sebes vivas simtricas bem aparadas. Quando os dois homens subiram o caminho de pedra que levava  entrada, passaram por uma estrutura formada por um par de colunas de mrmore. Algum pregara um bilhete adesivo em uma delas. 
ESTA COLUNA  INICA
    Grafite de fsicos?  refletiu Langdon, examinando a coluna e dando uma risadinha baixa.
      um alvio saber que at os fsicos mais brilhantes cometem erros.
    Kohler virou a cabea.
     O que quer dizer?
     Quem escreveu esse bilhete cometeu dois erros: a grafia correta  jnica. E essa coluna  d rica, a equivalente grega. As colunas jnicas so de largura uniforme. Essa  afunilada. Um erro bem comum.
    Kohler no sorriu.
     O autor do bilhete estava brincando, senhor Langdon. Inico significa que contm ons, partculas carregadas de eletricidade. A maioria dos objetos os contm.
    Langdon virou-se para a coluna l atrs e resmungou em voz baixa.
    
    Langdon ainda se sentia um idiota quando saltou do elevador no ltimo andar do Edifcio C. Seguiu Kohler por um corredor bem decorado. O estilo da decorao  francs colonial tradicional  surpreendeu-o: um div cor de cereja, ornamentao em volutas de madeira e um jarro de porcelana.
     Gostamos de manter com conforto nossos cientistas contratados  Kohler explicou.
    D para notar, pensou Langdon.
     Ento, o homem do fax morava aqui? Era um dos seus funcionrios de alto nvel?
     Exato  disse Kohler.  Ele no compareceu a uma reunio comigo esta manh e no respondeu a seu pager. Vim procur-lo e o encontrei morto no meio da sala.
    Langdon sentiu um arrepio sbito quando se deu conta de que ia ver um cadver. Seu estmago nunca fora muito robusto, uma fraqueza que descobrira quando era estudante de arte ao ouvir de um professor em sala de aula que Leonardo da Vinci adquirira sua experincia sobre as formas humanas exumando corpos e dissecando msculos.
    Kohler chegou ao fim do corredor. Havia ali uma nica porta.
     Apartamento de cobertura, como vocs chamam  anunciou ele, enxugando uma gota de suor na testa.
    Langdon leu a placa na porta de carvalho:
LEONARDO VETRA
     Leonardo Vetra  disse Kohler  iria fazer 58 anos na semana que vem. Era um dos cientistas mais brilhantes de nosso tempo. Sua morte  uma grande perda para a cincia.
    Por um instante, Langdon pensou ter visto uma nota de emoo no rosto duro de Kohler. Entretanto, aquilo se foi to depressa quanto veio. Kohler enfiou a mo no bolso e comeou a examinar um grande chaveiro.
    Um estranho pensamento passou pela mente de Langdon. O prdio parecia deserto.  Onde est todo mundo?  perguntou.
    A ausncia de atividade no era o que ele esperava, considerando-se que estavam prestes a entrar no local de um crime.
     Os residentes esto em seus laboratrios  respondeu Kohler, encontrando a chave certa.
     Estou falando da polcia  Langdon esclareceu.  J foi embora?
    Kohler parou, a chave a meio caminho da fechadura.
     A polcia?
     Sim, a polcia. O senhor me mandou um fax sobre um homicdio. Deve ter chamado a polcia.
     Claro que no.
     O qu?
    Os olhos cinzentos de Kohler assumiram uma expresso penetrante.
     A situao  complexa, senhor Langdon.
    Uma onda de apreenso tomou conta de Langdon.
     Mas... com certeza, algum mais tem conhecimento do fato!
     Sim. A filha adotiva de Leonardo. Ela tambm  fsica aqui no CERN. Divide um laboratrio com o pai. Trabalham em parceria. A senhorita Vetra passou esta semana fora fazendo pesquisa de campo. J lhe comuniquei a morte de seu pai e ela est a caminho, vindo para c.
     Mas um homem foi assassin...
     Uma investigao formal  interrompeu Kohler com voz firme  ser realizada. Entretanto, certamente vai envolver uma busca no laboratrio de Vetra, um espao que ele e a filha consideram altamente privado. Portanto, vou esperar at que a senhorita Vetra chegue. Acho que devo a ela pelo menos essa pequena manifestao de discrio.
    E virou a chave na fechadura.
    Quando a porta se abriu, uma lufada de ar glido penetrou no vestbulo e atingiu direto o rosto de Langdon. Ele recuou, espantado. Encontrava-se no limiar de um mundo desconhecido. O apartamento  sua frente estava imerso em uma nvoa branca e espessa. A nvoa rodopiava formando espirais em torno dos mveis e envolvia o ambiente em um vu opaco.
     Que diabo...?  gaguejou Langdon.
     Sistema de resfriamento por fron  Kohler explicou.  Esfriei o apartamento para preservar o corpo.
    Langdon abotoou o palet de tweed para se proteger do frio. Estou em Oz, pensou. E esqueci de trazer meus sapatos mgicos. 

CAPTULO 9
    
    O cadver no cho diante de Langdon era horrendo o falecido Leonardo Vetra estava deitado de costas, de barriga para cima, despido, a pele de um cinzento-azulado. Os ossos do pescoo projetavam-se para fora no ponto onde tinham sido quebrados e a cabea fora totalmente virada para trs, apontando para o lado errado. No se via seu rosto, voltado para o cho. O homem jazia em uma poa congelada da prpria urina, os plos em torno de seus rgos genitais enrugados cobertos de gotas geladas.
    Reprimindo a nusea, Langdon pousou os olhos no peito da vtima. Embora j tivesse olhado dezenas de vezes para a ferida simtrica no fax, a queimadura era infinitamente mais impressionante na vida real. A carne queimada e inchada fora delineada com perfeio... o smbolo formara-se sem uma falha sequer.
    Langdon no sabia se o frio intenso que o acometia era por causa do ar-condicionado ou por sua absoluta perplexidade com o significado do que contemplava naquele momento.

    Seu corao batia forte enquanto rodeava o corpo para ler a palavra ao contrrio, confirmando a genialidade da simetria. O smbolo parecia ainda mais inconcebvel visto de perto.
     Senhor Langdon?
    Ele no escutou. Estava em um outro mundo... seu mundo, onde histria, mito e fato iam de encontro um ao outro, inundando seus sentidos. As engrenagens entraram em funcionamento.
     Senhor Langdon?  Kohler observava-o, cheio de expectativa.
    Langdon no ergueu os olhos, sua ateno agora intensificada, totalmente concentrado.
     O que o senhor j sabe de fato sobre o assunto?
     S o que li no seu site. A palavra Illuminati significa os esclarecidos  o nome de uma espcie de confraria antiga.
    Langdon concordou.  J tinha ouvido esse nome antes?
     No, at v-lo marcado no senhor Vetra.
     E ento o senhor foi fazer uma busca na Internet para saber o que era?
     Fui.
     E verificou que o nome aparece em centenas de sites, sem dvida.
     Milhares  disse Kohler.  O seu site, porm, mencionava Harvard, Oxford, uma editora respeitvel, bem como trazia uma lista de publicaes relacionadas ao assunto. Como cientista, aprendi que a informao s  valiosa se a fonte tambm . Suas referncias pareciam autnticas.
    Os olhos de Langdon ainda estavam fixos no corpo.
    Kohler parou de falar. Apenas acompanhava os movimentos de Langdon, aparentemente esperando que ele pudesse produzir algum esclarecimento sobre a cena que se apresentava diante deles.
    Langdon levantou a cabea e correu os olhos pelo apartamento gelado.
     Quem sabe poderamos falar sobre o assunto em um lugar mais quente?
     Aqui est bom.  Kohler parecia indiferente ao frio.  Vamos conversar aqui mesmo.
    Langdon franziu o cenho. A histria dos Illuminati no era nada simples. Vou congelar tentando explicar tudo. Olhou de novo para a marca, mais uma vez com uma sensao de assombro.
    Apesar de existirem relatos lendrios sobre o smbolo dos Illuminati na moderna simbologia, nenhum acadmico jamais o vira de fato. Antigos documentos descreviam a insgnia como um ambigrama  ambi, ambos , significando que seria legvel de ambos os lados. E embora os ambigramas fossem comuns na simbologia  susticas, yin-yang, estrelas-de-davi, cruzes simples , a idia de que uma palavra pudesse ser trabalhada para formar um ambigrama parecia totalmente impossvel. A maioria dos acadmicos chegara  concluso de que a existncia do smbolo era um mito.
     Afinal, quem eram os Illuminati?  perguntou Kohler.
    Sim, pensou Langdon, quem seriam realmente?  e comeou seu relato.
    
     Desde o comeo da histria  explicou Langdon , sempre existiu uma profunda brecha entre cincia e religio. Cientistas como Coprnico, que no tinham papas na lngua...
     Foram assassinados  interrompeu Kohler.  Assassinados pela Igreja por revelar verdades cientficas. A religio sempre perseguiu a cincia.  Sim, mas por volta de 1500, um grupo de homens em Roma revidou e lutou contra a Igreja. Alguns dos homens mais esclarecidos da Itlia  fsicos, matemticos, astrnomos  comearam a promover encontros secretos para discutir suas preocupaes sobre os ensinamentos errados difundidos pela Igreja. Temiam que o monoplio da verdade pela Igreja ameaasse a difuso dos conhecimentos acadmicos pelo mundo afora. Fundaram o primeiro think tank cientfico do mundo, chamando a si mesmos de os esclarecidos
     Os Illuminati.
     Exato  concordou Langdon.  As mentes mais cultas da Europa... dedicadas  busca da verdade cientfica.
    Kohler calou-se.
     Evidentemente, os Illuminati eram caados impiedosamente pela Igreja Catlica. Somente atravs de ritos extremamente sigilosos  que os cientistas se mantinham seguros. Os rumores se espalharam pelo submundo acadmico e a fraternidade dos Illuminati cresceu, incluindo cientistas de toda a Europa. Eles encontravam-se regularmente em Roma em um refgio ultra-secreto a que chamavam de Igreja da Iluminao
    Kohler tossiu e remexeu-se na cadeira.
     Muitos dos Illuminati  Langdon prosseguiu  queriam combater a tirania da Igreja com atos de violncia, mas seu membro mais reverenciado persuadiu-os a no agir assim. Era um pacifista e um dos mais famosos cientistas da Histria.
    Langdon estava certo de que Kohler reconheceria o nome. At os que no pertenciam ao mundo cientfico conheciam o malfadado astrnomo que fora preso e quase executado pela Igreja por ter declarado que o Sol, e no a Terra, era o centro do sistema solar. Embora seus dados fossem irrefutveis, o astrnomo fora severamente punido por insinuar que Deus no instalara a humanidade no centro de seu universo.
     Seu nome era Galileu Galilei  disse Langdon.
     Galileu?  espantou-se Kohler.
     Ele mesmo. Galileu era um Illuminatus. E tambm um catlico fervoroso. Tentou abrandar a posio da Igreja com relao  cincia proclamando que a cincia no prejudicava a noo da existncia de Deus mas, ao contrrio, reforava-a. Escreveu certa vez que, quando olhava os planetas girando atravs de seu telescpio, conseguia ouvir a voz de Deus na msica das esferas. Sustentava que a cincia e a religio no eram inimigas e sim aliadas, duas linguagens diferentes que contavam a mesma histria, uma histria de simetria e equilbrio: cu e inferno, noite e dia, quente e frio, Deus e Sat. Tanto a cincia quanto a religio exultavam com a simetria de Deus, o infindvel confronto da luz e das trevas.  Langdon fez uma pausa, batendo com os ps no cho para se aquecer.
    Kohler permaneceu sentado em sua cadeira de rodas olhando para ele.
     Infelizmente  Langdon acrescentou , a unificao da cincia e da religio no era o que a Igreja queria.
     Claro que no  interrompeu Kohler.  A unio teria invalidado a pretenso da Igreja de ser o nico veculo atravs do qual o homem poderia compreender Deus. Assim, a Igreja acusou Galileu de heresia, condenou-o e colocou-o em priso domiciliar permanente. Estou bastante a par da histria cientfica, senhor Langdon. S que isso tudo aconteceu sculos atrs. O que tem a ver com Leonardo Vetra?
    A pergunta de um milho de dlares. Langdon tentou abreviar.
     A priso de Galileu causou uma convulso entre os Illuminati. Cometeram alguns erros e a Igreja descobriu as identidades de quatro membros, que foram capturados e interrogados. Mas os quatro cientistas nada revelaram, nem sob tortura.
     Tortura?
    Langdon assentiu.
     Foram marcados a fogo. No peito. Com o smbolo da cruz.
    Os olhos de Kohler arregalaram-se e ele lanou um rpido olhar para o corpo de Vetra.
     Em seguida, os cientistas foram brutalmente assassinados e seus corpos lanados s ruas de Roma como advertncia para os que ainda cogitassem se unir aos Illuminati. Com a Igreja fechando o cerco, os Illuminati que restavam fugiram da Itlia.
    Langdon fez outra pausa, dessa vez para causar o efeito que desejava. Olhou direto para os olhos sem vida de Kohler.
     Os Illuminati mergulharam fundo na clandestinidade, onde comearam a se misturar a outros grupos que haviam fugido dos expurgos da Igreja Catlica:
    msticos, alquimistas, ocultistas, muulmanos, judeus. Ao longo dos anos, os Illuminati absorveram novos membros. Surgiu um outro tipo de Illuminati, mais soturno, profundamente anticristo. Tornaram-se muito poderosos, praticando ritos misteriosos, sigilo mortal e jurando um dia se erguerem outra vez e se vingarem da Igreja Catlica. Seu poder cresceu a ponto de serem considerados a mais perigosa fora anticrist do mundo. O Vaticano acusou publicamente a fraternidade de Shaitan.
     Shaitan?
      um termo islmico. Significa adversrio... adversrio de Deus. A Igreja escolheu o nome islmico porque era uma lngua que eles consideravam suja.  Langdon hesitou.  Shaitan  a origem de uma palavra bem conhecida: Sat. Uma expresso de inquietude passou pelo rosto de Kohler.
    Langdon falou com voz dura.
     Senhor Kohler, no sei como essa marca apareceu no peito desse homem, nem por que, mas o que o senhor est vendo  o smbolo h muito esquecido do mais antigo e mais poderoso culto satnico do mundo. 

CAPTULO 10
    
    A viela era estreita e deserta. O Hassassin caminhava depressa, os olhos negros cheios de expectativa. Enquanto percorria o caminho que o aproximava de seu destino, as palavras de despedida de Janus ecoavam em sua mente. A fase dois vai comear em breve. Procure descansar um pouco.
    O Hassassin deu um sorriso presunoso. Ficara acordado a noite inteira, mas sono era a ltima coisa em que pensava. Sono era para os fracos. Ele era um guerreiro como seus ancestrais, e seu povo nunca dormia depois que a batalha comeava. Aquela batalha com certeza acabara de comear, e ele tivera a honra de ser o primeiro a derramar sangue. Agora tinha duas horas para comemorar sua glria antes de voltar ao trabalho.
    Dormir? H maneiras muito melhores de relaxar...
    Um apetite por prazeres hedonsticos fora algo que herdara de seus ancestrais. Seus antepassados regalavam-se com haxixe, mas ele preferia um tipo diferente de gratificao. Orgulhava-se de seu corpo, mquina bem ajustada e letal que, apesar de sua hereditariedade, ele se recusava a poluir com narcticos. Desenvolvera um vcio mais revigorante do que as drogas, uma recompensa muito mais saudvel e satisfatria.
    Sentindo crescer dentro de si a ansiedade j familiar, o Hassassin andou com mais rapidez pela rua. Chegou a uma porta comum e tocou a campainha. Uma fenda retangular abriu-se na porta e dois belos olhos castanhos avaliaram-no, fazendo uma estimativa. Ento, a porta foi aberta.
     Seja bem-vindo  disse a mulher bem vestida. Levou-o para uma sala de estar impecavelmente mobiliada e com iluminao suave. O ambiente recendia a perfume caro e almscar.  Fique  vontade.  Entregou-lhe um lbum de fotografias.  Chame quando tiver escolhido.
    E saiu.
    O Hassassin sorriu.
    Quando se sentou no div de pelcia e colocou o lbum no colo, sentiu a fome carnal intensificar-se. Seu povo no comemorava o Natal, mas essa deveria ser a sensao que as crianas crists experimentavam diante de uma pilha de presentes, prestes a descobrir os mistrios que continham. Ele abriu o lbum e examinou as fotos. Um mundo de fantasias sexuais oferecia-se a ele.
    Mansa. Uma deusa italiana. Ardente. Uma jovem Sophia Loren. Sachiko. Uma gueixa japonesa. Dcil. Sem dvida, habilidosa. Kanara. Uma estonteante viso negra. Musculosa. Extica.
    Viu o lbum duas vezes e fez sua escolha. Apertou o boto na mesa a seu lado. Um minuto depois, a mulher que o recebera reapareceu. Ele apontou a escolhida. Ela sorriu.
     Venha comigo.
    Depois de resolver os acertos financeiros, a mulher fez uma discreta ligao telefnica. Esperou alguns minutos e ento o conduziu por uma escadaria de mrmore em espiral at um luxuoso vestbulo.
      a porta dourada no final  disse ela.  O senhor tem gostos caros.
    Claro, pensou ele, sou um connoisseur.
    As passadas do Hassassin pelo corredor pareciam as de uma pantera que aguarda uma refeio atrasada. Ao chegar  porta, sorriu intimamente. A porta j estava entreaberta, convidando-o a entrar. Ele a empurrou e ela se abriu sem rudo.
    Quando viu o que escolhera, soube que havia decidido bem. Ela estava exatamente como ele solicitara: nua, deitada de costas, os braos amarrados aos balastres da cama com grossos cordes de veludo.
    Ele atravessou o quarto e correu o dedo escuro pelo abdome claro como marfim. Matei na noite de ontem, pensou. Voc  minha recompensa. 

CAPTULO 11
    
     Satnico?  Kohler enxugou a boca e se remexeu, desconfortvel,
    na cadeira.  Esse smbolo  de um culto satnico? Langdon andava de um lado para o outro no aposento gelado para se aquecer.
     Os Illuminati eram satnicos. Mas no no sentido moderno da palavra.
    De modo sucinto, Langdon explicou que a maioria das pessoas imaginava que os cultos satnicos fossem rituais de adorao do demnio e, no entanto, os satanistas eram historicamente homens instrudos que assumiam sua posio de adversrios da Igreja. Shaitan. Os rumores sobre sacrifcios satnicos de animais, magia negra e rituais do pentagrama no passavam de mentiras disseminadas pela Igreja como parte de uma campanha de difamao contra seus inimigos. Ao longo do tempo, outros adversrios da Igreja, querendo imitar os Illuminati, comearam a acreditar nessas mentiras e a praticar os supostos rituais. Dessa forma, nasceu o satanismo moderno.
    Kohler resmungou abruptamente:
     Isso tudo  histria antiga. Quero saber como esse smbolo veio parar aqui.
    Langdon respirou fundo.
     O smbolo em si foi criado por um artista annimo do sculo XVI, um dos Illuminati, como um tributo ao amor pela simetria de Galileu. Uma espcie de logomarca sagrada dos Illuminati. A fraternidade manteve o desenho em segredo, alegando que somente o revelaria quando tivesse reunido poder suficiente para ressurgir e levar adiante seu objetivo final.
    Kohler mostrou-se perturbado.
     Quer dizer que esse smbolo significa que a fraternidade dos Illuminati est ressurgindo?
    O rosto de Langdon se tornou sombrio.
     Acho impossvel. H um captulo da histria dos Illuminati que ainda no expliquei.
    Com intensidade na voz, Kohler disse:
     Ento, faa o favor de explicar.
    Langdon esfregou as palmas das mos uma na outra, revendo mentalmente as centenas de documentos que lera ou escrevera sobre os Illuminati.
     Os Illuminati eram sobreviventes. Quando fugiram de Roma, viajaram por toda a Europa procurando um lugar seguro para se reagruparem. Foram acolhidos por uma outra sociedade secreta, uma fraternidade de ricos pedreiros bvaros chamados franco-maons.
     Os maons?  espantou-se Kohler.
    Langdon concordou, nem um pouco surpreso que Kohler tivesse ouvido falar do grupo. A fraternidade dos maons tinha mais de cinco milhes de membros no mundo inteiro, sendo que a metade deles nos Estados Unidos e mais de um milho na Europa.  Os maons com toda a certeza no so satnicos  Kohler declarou, de repente parecendo ctico.
     Claro que no. Eles foram vtimas de sua prpria benevolncia. Depois de receberem os cientistas refugiados nos anos 1700, os maons, sem saber, tornaram-se uma fachada para os Illuminati. Estes cresceram em suas fileiras, assumindo gradualmente posies de poder dentro das lojas. Na surdina, restabeleceram sua fraternidade cientfica no seio da maonaria, uma espcie de sociedade secreta dentro de outra sociedade secreta. Em seguida, os Illuminati usaram a rede mundial de lojas manicas para espalhar sua influncia.
    Langdon respirou fundo o ar frio e prosseguiu.
     Eliminar o catolicismo era o compromisso principal dos Illuminati. A fraternidade sustentava que os dogmas supersticiosos impostos pela Igreja eram os maiores inimigos da humanidade. Temia que o progresso cientfico cessasse de vez caso a Igreja continuasse a promover mitos piedosos como se fossem fatos absolutos, e que dessa forma a humanidade fosse condenada a um futuro sem perspectivas, com guerras santas sem o menor sentido.
     Mais ou menos o que acontece hoje em dia.
    Kohler tinha razo. As guerras santas ainda freqentavam as manchetes dos jornais. Meu Deus  melhor do que o seu Deus. Parecia sempre haver uma estreita relao entre crentes fervorosos e altos nmeros de mortos.
     Continue  disse Kohler.
    Langdon organizou outra vez seus pensamentos e retomou a narrativa.
     Os Illuminati ficaram mais poderosos na Europa e voltaram a ateno para a Amrica, cujo governo ainda novato tinha maons como lderes  George Washington, Benjamim Franklin , homens honestos, tementes a Deus, que ignoravam que a sociedade manica era o reduto dos Illuminati. Estes aproveitaram a possibilidade de infiltrao e ajudaram a fundar bancos, universidades e indstrias para financiar a realizao de seu objetivo mximo.  Langdon fez uma pausa.  A criao de um nico estado mundial unificado, uma espcie de Nova Ordem Mundial secular.
    Kohler mantinha-se imvel.
     Uma Nova Ordem Mundial  repetiu Langdon  baseada em conhecimentos cientficos, em um novo Iluminismo. Chamavam-na de Doutrina Luciferiana. A Igreja alega que Lcifer era uma referncia ao demnio, mas a fraternidade insistia que sua inteno era o significado literal da palavra, em latim, aquele que traz a luz. Ou Iluminador.
    Kohler suspirou e sua voz de repente ficou solene.
     Senhor Langdon, por favor, sente-se. Langdon sentou-se como pde em uma cadeira j esbranquiada por uma camada de gelo.
    Kohler aproximou-se dele em sua cadeira de rodas.
     No sei se compreendi bem tudo o que o senhor acabou de me contar, mas de uma coisa eu sei. Leonardo Vetra era um dos maiores trunfos do CERN. E era tambm meu amigo. Preciso que me ajude a localizar os Illuminati.
    Langdon no sabia o que responder.
     Localizar os Illuminati?  Ele s pode estar brincando.  Receio, senhor Kohler, que isto seja totalmente impossvel.
    Uma ruga surgiu na testa de Kohler.
     Como assim? O senhor no...
     Senhor Kohler  Langdon inclinou-se na direo dele, sem saber muito bem como faz-lo compreender o que iria dizer , no terminei minha histria. Apesar das aparncias,  bastante improvvel que essa marca tenha sido feita pelos Illuminati. No houve comprovao da existncia deles por mais de meio sculo e a maioria dos estudiosos afirma que a fraternidade dos Illuminati est extinta h muitos anos.
    As palavras foram recebidas com silncio. Kohler olhava atravs da nvoa com uma expresso entre estupefata e enraivecida.
     Que diabos, como pode dizer que esse grupo est extinto quando o nome dele est marcado a fogo no peito daquele homem?
    Aquela era a pergunta que Langdon vinha fazendo a si mesmo a manh inteira. O aparecimento do ambigrama dos Illuminati era espantoso. Os simbologistas de todo o mundo ficariam fascinados. Ainda assim, o acadmico em Langdon compreendia que a reemergncia da marca no provava absolutamente nada sobre os Illuminati.
     Os smbolos de forma alguma confirmam a presena de seus criadores originais.
     O que quer dizer com isso?
     Quando filosofias organizadas como a dos Illuminati deixam de existir, seus smbolos permanecem... prontos para serem adotados por outros grupos. Chama-se a isso de transferncia.  muito comum em simbologia. Os nazistas tomaram a sustica dos hindus, os cristos adotaram a cruz dos egpcios, os...
     Esta manh  provocou Kohler , quando digitei a palavra Illuminati no computador, obtive milhares de referncias atuais. Ao que parece, muita gente ainda pensa que o grupo est vivo.
     Mania de conspirao  replicou Langdon.
    Sempre o irritara a superabundncia de teorias conspiratrias que circulavam na moderna cultura pop. Os meios de comunicao adoravam manchetes apocalpticas, e pessoas que se autoproclamavam especialistas em cultos ainda estavam faturando  custa da intensa publicidade em torno da mudana do milnio com histrias sobre os Illuminati estarem vivos, gozando de excelente sade e organizando sua Nova Ordem Mundial. Recentemente, o New York Times publicara matria sobre laos sinistros com a maonaria mantidos por inmeros personagens famosos: sir Arthur Conan Doyle, o duque de Kent, Peter Sellers, Irving Berlin, o prncipe Philip, Louis Armstrong e mais um panteo de conhecidos magnatas, industriais e banqueiros modernos.
    Kohler apontou com ar zangado para o corpo de Vetra.
     Considerando-se as evidncias, eu diria que talvez as teorias conspiratrias estejam corretas.
     A impresso que se tem  realmente esta  disse Langdon, o mais diplomaticamente possvel.  A explicao mais plausvel, porm,  que alguma outra organizao tenha assumido a marca dos Illuminati e a esteja usando para seus prprios objetivos.
     Que objetivos? O que esse assassinato prova?
    Boa pergunta, pensou Langdon. Ele tambm estava intrigado, imaginando onde algum teria desencavado a marca dos Illuminati depois de 400 anos.
     S posso lhe dizer que, mesmo que os Illuminati estivessem ativos hoje em dia, e isso eu posso praticamente garantir que no esto, jamais teriam qualquer envolvimento com a morte de Leonardo Vetra.
     No teriam?
     No. Os Illuminati podem ter acreditado na abolio do cristianismo, mas exerciam seu poder por meios polticos e financeiros, no atravs de atos terroristas. Alm disso, os Illuminati seguiam um rigoroso cdigo moral com relao ao tipo de pessoas que viam como inimigos. Tinham os homens de cincia na mais alta conta. No haveria possibilidade de assassinarem um companheiro cientista como Leonardo Vetra.
    O rosto de Kohler petrificou-se.
     Talvez eu tenha deixado de mencionar que Leonardo Vetra era mais do que um cientista comum.
    Langdon suspirou, paciente.
     Senhor Kohler, estou certo de que Leonardo Vetra era brilhante em muitos aspectos, mas o fato  que...
    Sem aviso, Kohler girou a cadeira de rodas e saiu em disparada da sala, deixando atrs de si um rastro de espirais de fria nvoa branca ao desaparecer por um corredor.
    Pelo amor de Deus.... gemeu Langdon, seguindo-o. Kohler esperava por ele em um pequeno nicho no fim do corredor.  Aqui era o gabinete de trabalho de Leonardo  disse Kohler, fazendo um gesto em direo a uma porta de correr.  Depois de v-lo, talvez o senhor compreenda as coisas de outra maneira.
    Com um resmungo desajeitado, Kohler deu um empurro e a porta deslizou, abrindo-se.
    Langdon correu os olhos pelo interior do aposento e sentiu sua pele se arrepiar. Santa Me de Deus, disse para si mesmo. 

CAPTULO 12
    
    Em um outro pas, um jovem guarda estava sentado pacientemente diante de uma ampla bancada de monitores de vdeo. Observava as imagens surgirem uma aps a outra, emitidas ao vivo de centenas de cmeras de vdeo sem fio que inspecionavam o extenso conjunto de construes. As imagens sucediam-se numa progresso infindvel.
    Um corredor decorado. Um escritrio particular. Uma cozinha industrial.
     medida que as imagens passavam, o guarda lutava contra os devaneios que o acometiam. Estava prximo o fim de seu planto e mesmo assim ele ainda estava vigilante. Estar de servio era uma honra. Algum dia lhe concederiam sua recompensa definitiva.
    Com seus pensamentos fluindo, uma imagem  sua frente registrou um alerta. Sbito, com um reflexo brusco com o qual ele mesmo se espantou, sua mo apertou um boto no painel de controle. A imagem imobilizou-se. Inclinou-se em direo  tela para ver melhor, os nervos tensos. No monitor, leu que a imagem estava sendo transmitida da cmera 86  uma cmera que deveria estar posicionada para um corredor.
    Mas o que via naquele momento decididamente no era um corredor. 

CAPTULO 13
    
    Langdon olhava atnito para o gabinete de trabalho  sua frente.
     Que lugar  este?
    A despeito da bem-vinda lufada de ar quente em seu rosto, um tremor o agitava quando ele passou pela porta.
    Kohler seguiu-o sem dizer palavra.
    Langdon correu os olhos pelo ambiente sem conseguir entender o que via, O aposento continha a mais peculiar mistura de objetos que jamais encontrara. Na parede do fundo, dominando a decorao, havia um enorme crucifixo de madeira, que Langdon classificou como sendo espanhol, do sculo XIV. Acima do crucifixo, pendurado no teto, encontrava-se um mbile feito de metal representando os planetas em rbita.  esquerda havia uma pintura a leo da Virgem Maria e, ao lado desta, uma tabela peridica dos elementos feita de material laminado. Na parede lateral, mais duas cruzes de bronze ladeavam um pster de Albert Einstein com sua famosa citao: 
DEUS NO JOGA DADOS COM O UNIVERSO.
     medida que andava pelo aposento, mais se surpreendia. Na escrivaninha de Vetra, uma Bblia de capa de couro fazia companhia a um modelo atmico de Bohr e a uma rplica em miniatura do Moiss de Michelangelo.
    Isso  que  ser ecltico, pensou Langdon. O calor era agradvel, mas alguma coisa no ambiente causava mais arrepios em Langdon. Tinha a impresso de estar presenciando o choque de dois tits filosficos, uma confuso indistinta de foras opostas. Examinou os ttulos dos livros na estante: A partcula de Deus, O Tao da Fsica e Deus: a prova.
    Em um dos suportes de livros estava escrita a citao:
A VERDADEIRA CINCIA DESCOBRE DEUS  ESPERA ATRS DE CADA PORTA.
PAPA PIO XII
     Leonardo era um padre catlico  disse Kohler.
    Langdon virou-se para ele.
     Padre catlico? Achei que tivesse dito que ele era fsico.
     Era as duas coisas. H outros precedentes na histria de religiosos que eram tambm homens de cincia. Leonardo era um deles. Considerava a Fsica a lei natural de Deus Alegava que a escrita de Deus era visvel na ordem natural de tudo o que nos cerca. Atravs da cincia, ele esperava provar a existncia de Deus para as massas incrdulas. Via a si mesmo como teofsico.
    Teofsico? Para Langdon, a expresso parecia um incrvel oxmoro.
     O campo da Fsica de Partculas  explicou Kohler  fez algumas descobertas de grande impacto ultimamente, descobertas de implicao muito espiritual. Leonardo foi responsvel por muitas delas.
    Langdon estudou o diretor do CERN, ainda tentando processar o bizarro ambiente.
     Espiritualidade e fsica?
    Langdon passara sua carreira estudando histria religiosa e, se havia um tema recorrente, era o que afirmava que cincia e religio haviam sido desde sempre como o leo e a gua, arquiinimigas, nunca se misturavam.
     Vetra estava na vanguarda da Fsica de Partculas  acrescentou Kohler.
     Estava comeando a fundir fsica e religio, demonstrando que uma complementava a outra de maneiras jamais previstas. Chamava a esse campo Nova Fsica.
    Kohler tirou um livro da prateleira e o entregou a Langdon. Ele examinou a capa e leu o ttulo: Deus, milagres e a Nova Fsica, por Leonardo Vetra.
     O campo  restrito  Kohler prosseguiu , mas tem trazido novas respostas para algumas velhas perguntas. Sobre a origem do universo e sobre as foras que ligam todos ns. Leonardo acreditava que sua pesquisa tinha potencial para converter milhes de pessoas a uma vida mais espiritual. No ano passado, ele provou categoricamente a existncia de uma forma de energia que une todos ns. Demonstrou de fato que estamos todos fisicamente vinculados uns aos outros, que as molculas de seu corpo esto entrelaadas s molculas do meu, que uma nica fora se move dentro de todas as pessoas.
    Langdon ficou desconcertado. E o poder de Deus unir todas as gentes.
     O senhor Vetra realmente descobriu uma forma de demonstrar que as partculas esto ligadas?
     Descobriu provas conclusivas. Um artigo recente da Scientific American saudou a Nova Fsica como um caminho mais seguro para se chegar a Deus do que a prpria religio.
    O comentrio calou fundo. Langdon de repente se viu pensando nos Illuminati anti-religiosos. Relutantemente, forou-se a realizar uma momentnea incurso intelectual ao impossvel. Se os Illuminati ainda estivessem ativos, teriam matado Leonardo para impedi-lo de levar sua mensagem religiosa s massas? Langdon descartou a idia. Absurdo! Os Illuminati so histria antiga! Todos os acadmicos sabem disso!  Vetra tinha uma poro de inimigos no mundo cientfico  continuou Kohler.  Muitos cientistas puristas desprezavam-no. At aqui, no prprio CERN. Achavam que usar fsica analtica como apoio para princpios religiosos era trair a cincia.
     Mas no  verdade que os cientistas de hoje esto um pouco menos na defensiva com relao  Igreja?
    Kohler resmungou, irritado.
     Que motivos teramos para isso? A Igreja pode no estar mais queimando cientistas na fogueira, mas, se acha que afrouxaram seu domnio sobre a cincia, por que ser que a metade das escolas em seu pas no est autorizada a ensinar a evoluo? Por que ser que a Coalizo Crist dos EUA  o lobby mais influente contra o progresso cientfico no mundo? A batalha entre cincia e religio ainda est em andamento, senhor Langdon, s que saiu dos campos de batalha para as salas de reunio das diretorias.
    Langdon percebeu que Kohler tinha razo. Na semana anterior, a Escola de Teologia de Harvard fizera uma manifestao de protesto no prdio de Biologia contra a incluso de engenharia gentica no programa de graduao. O diretor do Departamento de Biologia, o famoso ornitlogo Richard Aaronian, defendeu seu currculo pendurando uma enorme faixa na janela de seu escritrio. A faixa mostrava um peixe, o smbolo cristo, modificado, com quatro pequenos ps, um tributo, segundo Aaronian,  evoluo dos peixes dipnicos africanos para a terra firme. Sob os peixes, em vez da palavra Jesus, a proclamao DARWIN!
    O som de um bipe agudo cortou o ar e Langdon levantou a cabea. Kohler voltou a ateno para o equipamento eletrnico em sua cadeira de rodas. Tirou um pequeno aparelho de seu suporte e leu a mensagem que chegara.
     timo.  a filha de Leonardo. A senhorita Vetra est chegando no heliponto neste momento. Vamos ao encontro dela. Acho melhor que ela no venha aqui e veja seu pai nesse estado.
    Langdon concordou. Seria um choque que nenhum filho merecia receber.
     Vou pedir  senhorita Vetra que explique o projeto em que ela e seu pai vinham trabalhando, e talvez isso lance alguma luz sobre o motivo por que ele foi morto.
     Acha que mataram Vetra por causa do trabalho dele?
      bem possvel. Leonardo contou-me que estava trabalhando em algo pioneiro. S me disse isso. Andava cheio de segredos sobre o projeto. Tinha um laboratrio particular e exigia isolamento, o que eu de bom grado lhe concedi por causa de seu brilhantismo. Seu trabalho ultimamente vinha consumindo uma quantidade enorme de energia eltrica, mas eu me abstive de question-lo sobre o assunto.  Kohler girou a cadeira na direo da porta do gabinete.  H uma coisa, porm, que o senhor precisa saber antes de sair deste apartamento.
    Langdon no estava muito certo se queria escutar o que era.
     Algo foi roubado de Vetra por seu assassino.
     Algo?
     Venha comigo.
    O diretor dirigiu sua cadeira de volta para a sala enevoada. Langdon foi atrs, sem saber o que esperar. Kohler manobrou at ficar a centmetros do corpo de Vetra e ento parou. Fez um sinal para que Langdon se aproximasse. Langdon veio para perto, a blis subindo-lhe  garganta por causa do cheiro da urina congelada da vtima.
     Olhe o rosto dele  disse Kohler.
    Olhar o rosto dele? Langdon no compreendia. Pensei que alguma coisa tivesse sido roubada.
    Hesitante, Langdon ajoelhou-se. Tentou enxergar o rosto de Vetra, mas a cabea fora torcida 180 graus para trs e o rosto estava pressionado contra o tapete.
    Lutando contra sua deficincia, Kohler inclinou-se e virou com cuidado a cabea gelada de Vetra. Estalando, o rosto do morto girou e ficou  mostra, contorcido de agonia. Kohler manteve-o naquela posio por um momento.
     Meu Deus!  exclamou Langdon, recuando horrorizado.
    O rosto de Vetra estava coberto de sangue. Um nico olho castanho devolveu-lhe um olhar sem vida. A outra rbita estava estraalhada e vazia.
     Roubaram o olho dele? 
    
CAPTULO 14
    
    Langdon saiu do Edifcio C para o ar livre, contente por estar fora do apartamento de Vetra. O sol ajudou a dissipar a imagem da rbita ocular vazia que ficara gravada em sua mente.
     Por aqui, por favor  Kohler falou, dando uma guinada e enveredando por uma subida ngreme. A cadeira de rodas eltrica acelerava sem esforo.  A senhorita Vetra vai chegar a qualquer momento.
    Langdon corria para acompanh-lo.
     Ento  perguntou Kohler , ainda duvida do envolvimento dos Illuminati? Langdon no sabia mais coisa alguma. O fato de Vetra ser religioso era inegavelmente perturbador, mas ainda assim Langdon no se convencia a deixar de lado todas as evidncias acadmicas que sempre pesquisara. Alm disso, havia o olho...
     Ainda acho  declarou, com mais nfase do que pretendia  que os Illuminati no so responsveis por esse crime, O olho que falta  uma prova disso.
     O qu?
     Mutilao aleatria  explicou Langdon   um ato muito pouco caracterstico dos Illuminati. Os especialistas em cultos dizem que a desfigurao sem propsito  tpica de seitas marginais, de fanticos que cometem atos de terrorismo ao acaso. Os Illuminati sempre demonstraram mais deliberao.
     Deliberao? Remover cirurgicamente o globo ocular de algum no  demonstrar deliberao?
     No transmite nenhuma mensagem clara. No serve a nenhum objetivo maior.
    A cadeira de rodas de Kohler parou subitamente no alto da ladeira. Ele se virou.
     Senhor Langdon, acredite, aquele olho que falta serve realmente a um objetivo maior, muito maior.
    Quando os dois homens atravessaram a elevao coberta de grama, ouviu-se o rudo das hlices de um helicptero a oeste. O aparelho apareceu e descreveu um arco no vale aberto, vindo na direo deles. Inclinou-se bastante para um lado e depois diminuiu a velocidade, pairando acima de um heliponto pintado na grama.
    Langdon observava, distante, sua mente em um redemoinho como o das hlices, pensando se uma boa noite de sono seria capaz de acabar com aquela desorientao, tornar suas idias mais claras. De alguma forma, duvidava muito disso.
    A aeronave tocou o cho, um piloto saltou e comeou a descarregar material. Havia um bocado de bagagem: apetrechos de acampamento bolsas impermeveis de vinil, cilindros de oxignio e engradados que pareciam conter equipamento de alta tecnologia para mergulho.
    Langdon ficou confuso.
     Esse  o equipamento da senhorita Vetra?  gritou para Kohler em meio ao rudo dos motores.
    Kohler assentiu e gritou de volta:  Ela estava fazendo pesquisas biolgicas no mar Balear.
     Pensei que tivesse dito que ela era fsica!
     E . Ela  biofsica de Quantum Entanglement, ou emaranhamento quntico. Estuda a interconexo dos sistemas de vida. O trabalho dela est intimamente relacionado com o do pai. Recentemente, ela refutou uma das teorias fundamentais de Einstein usando cmeras atomicamente sincronizadas para observar um cardume de atuns.
    Langdon examinou o rosto de seu anfitrio em busca de qualquer vestgio de humor. Einstein e atuns? Ele comeava a se questionar se o avio espacial X-33 no o teria deixado no planeta errado por engano.
    Um momento depois, Vittoria Vetra saiu do helicptero. Robert Langdon percebeu que aquele seria realmente um dia de interminveis surpresas. Ao descer da aeronave, de short cqui e blusa branca sem mangas, Vittoria Vetra em nada se parecia com a cientista circunspecta que ele esperava. gil e graciosa, era alta, com pele morena e longos cabelos negros, que o vento dos rotores agitava. Seu rosto era inegavelmente italiano, sem ser bonita demais porm com traos largos e fortes que, mesmo  distncia, transpiravam uma sensualidade crua. As lufadas de ar colavam sua roupa ao corpo, acentuando-lhe o torso esbelto e os seios pequenos.
     A senhorita Vetra  uma mulher de tremenda fora pessoal  disse Kohler, parecendo notar a fascinao de Langdon.  Passa meses a fio trabalhando em sistemas ecolgicos perigosos.  uma vegetariana rigorosa e o guru residente de hata-ioga do CERN.
    Hata-ioga? Langdon ponderou. A antiga arte budista de meditao e alongamento parecia uma estranha habilidade para uma fsica filha de um padre catlico.
    Langdon observou-a enquanto se aproximava. Obviamente, ela estivera chorando, seus olhos escuros e profundos cheios de emoes que Langdon no saberia identificar. Ainda assim, movia-se em direo a eles com mpeto e firmeza. Seus braos e pernas eram fortes e de msculos bem trabalhados, irradiando a saudvel luminosidade da pele mediterrnea que passara muitas horas ao sol.
     Vittoria  disse-lhe Kohler , meus sentimentos.  uma perda terrvel para a cincia e para todos ns aqui no CERN.
    Vittoria agradeceu com um gesto de cabea. Quando falou, sua voz era macia, com um sotaque gutural.
     J sabe quem  o responsvel?
     Ainda estamos trabalhando nisso.
    Ela se voltou para Langdon, estendendo-lhe a mo esguia.
     Meu nome  Vittoria Vetra. O senhor deve ser da Interpol? Langdon apertou a mo dela, momentaneamente enfeitiado por seu olhar profundo.
     Robert Langdon  apresentou-se, sem saber o que dizer mais.
     O senhor Langdon no est com as autoridades  explicou Kohler.  Ele  um especialista vindo dos Estados Unidos. Est aqui para nos ajudar a localizar o responsvel por esta situao.
    Vittoria pareceu meio insegura.
     E a polcia?
    Kohler suspirou, mas no disse nada.
     Onde est o corpo?  exigiu ela.
     Sendo cuidado.
    A mentira caridosa surpreendeu Langdon.
     Quero v-lo  disse Vittoria.
     Vittoria  instou Kohler , seu pai foi brutalmente assassinado. Seria melhor que se lembrasse dele como era.
    Ela comeou a falar, mas foi interrompida.
     Ei, Vittoria  vozes chamaram de longe.  Seja bem-vinda de volta!
    Ela se virou. Um grupo de cientistas que passava perto do heliponto acenou alegremente.
     Desmentiu mais alguma teoria de Einstein?  gritou um deles.
     Seu pai deve estar orgulhoso!
    Vittoria acenou, sem jeito, quando eles passaram. Ento, voltou-se para Kohler, o rosto com uma expresso confusa.
     Ningum sabe ainda?!
     Decidi que discrio era fundamental.
     O senhor no contou  equipe que meu pai foi assassinado?  Agora havia uma certa raiva no seu tom de voz.
    Kohler replicou com dureza:
     Talvez tenha esquecido, senhorita Vetra, que, assim que eu comunicar a morte de seu pai, haver uma investigao no CERN. Incluindo uma vistoria completa neste laboratrio. Sempre procurei respeitar a privacidade de seu pai. Ele me contou apenas duas coisas sobre o seu projeto atual: que tem potencial para trazer milhes de francos para o CERN em contratos de licena na prxima dcada e que no est pronto para divulgao pblica porque ainda  uma tecnologia de risco. Considerando-se esses dois fatos, preferiria no ter gente estranha bisbilhotando o laboratrio dele e, quem sabe, roubando o trabalho dele ou morrendo ao faz-lo e tornando o CERN responsvel por isso em seguida. Ficou bem claro? 
    Vittoria parou, calada. Langdon percebeu nela um respeito e uma aceitao relutantes pela lgica de Kohler.
     Antes de comunicarmos qualquer coisa s autoridades  disse Kohler , preciso saber em que vocs dois estavam trabalhando. Preciso que nos leve ao seu laboratrio.
     O laboratrio  irrelevante  disse Vittoria.  Ningum sabia o que meu pai e eu estvamos fazendo. A experincia no poderia de jeito algum ter a ver com a morte dele. 
    A respirao de Kohler soou irritada, aflita.
     No  o que indicam as evidncias.
     Evidncias? Que evidncias? Langdon fazia-se a mesma pergunta.
    Kohler mais uma vez enxugou a boca.
     Por enquanto, vai ter de confiar em mim.
    Estava claro, pela intensidade do olhar, que ela no confiava. 

CAPTULO 15

    Langdon caminhou em silncio atrs de Vittoria e Kohler na volta para o saguo principal onde sua estranha visita comeara. As pernas de Vittoria moviam-se com fluida eficincia  como a de um mergulhador olmpico , sem dvida, imaginou Langdon, como resultado da flexibilidade e controle obtidos com a prtica da ioga. Notou que ela respirava lenta e deliberadamente, como se tentasse filtrar sua dor.
    Langdon queria dizer-lhe alguma coisa, apresentar suas condolncias. Ele tambm j sentira o vazio abrupto de perder um pai inesperadamente. Lembrava-se sobretudo do dia do enterro, cinzento e chuvoso. Dois dias depois de seu aniversrio de 12 anos. A casa ficou cheia de homens do escritrio, vestidos com ternos escuros, homens que apertavam sua mo com fora demais. Todos murmuravam palavras como cardaco e estresse. Sua me, com os olhos cheios de lgrimas, brincava que conseguia acompanhar o mercado de aes s segurando a mo de seu marido... o pulso dele era sua fita particular do registrador de cotaes da bolsa.
    Certa vez, quando seu pai era vivo, Robert escutara a me pedindo-lhe que parasse um pouco para sentir o perfume das rosas. Naquele ano, Langdon comprou para o pai no Natal uma pequena rosa de vidro soprado. Era o objeto mais lindo que o menino j vira... encantou-se com a maneira como o sol se refletia nela, lanando um arco-ris de cores na parede.  linda dissera o pai ao abrir o presente, beijando a testa de Robert. Vamos procurar um lugar seguro para ela: Ento, seu pai colocou cuidadosamente a rosa em uma prateleira alta e empoeirada no ponto mais escuro da sala de estar. Dias mais tarde, Langdon subiu em um banco, apanhou a rosa e devolveu-a  loja. O pai nunca percebeu que ela no estava mais l.
    O som da campainha do elevador trouxe-o de volta ao presente. Vittoria e Kohler estavam  sua frente, entrando no elevador. Langdon hesitou diante da porta aberta.
     Alguma coisa errada?  perguntou Kohler, mais impaciente do que preocupado.
     No, nada  disse Langdon, forando-se a embarcar no cubculo apertado. S usava elevadores quando absolutamente necessrio. Preferia os espaos mais abertos das escadarias.
     O laboratrio do doutor Vetra  subterrneo  esclareceu Kohler.
    Maravilha, pensou Langdon ao entrar, sentindo um vento gelado subir das profundezas do poo. As portas se fecharam e o elevador comeou a descer.
     Seis andares  disse Kohler inexpressivamente, como uma mquina.
    Langdon imaginou a escurido do poo abaixo deles. Tentou bloquear o pensamento olhando para o painel numerado dos andares. Curiosamente, o painel do elevador s indicava duas paradas. TRREO e LHC.
     O que quer dizer LHC?  perguntou Langdon, esforando-se para no parecer nervoso.
     Large Hadron Collider, o Grande Colisor de Hdrons  respondeu Kohler.
     Um acelerador de partculas.
    Acelerador de partculas? O termo era-lhe vagamente familiar. Ouvira-o pela primeira vez em um jantar com colegas na Dunster House, em Cambridge. Um fsico amigo deles, Bob Brownell, chegara enfurecido naquela noite.
     Os malditos imbecis cancelaram tudo!  praguejou Brownell.
     Cancelaram o qu?  perguntaram os outros.
     OSCS!
     O qu?
     O Super Colisor Supercondutor!
    Algum deu de ombros.
     No sabia que Harvard estava construindo um.  No  Harvard!  exclamou.  So os Estados Unidos! Seria o acelerador de partculas mais poderoso do mundo! Um dos mais importantes projetos cientficos do sculo! Puseram dois bilhes de dlares nisso e o Senado dispensou o projeto! Aqueles lobistas desgraados, protestantes fundamentalistas!
    Quando Brownell finalmente se acalmou, explicou que um acelerador de partculas  um grande tubo circular dentro do qual partculas subatmicas eram aceleradas. Dentro do tnel, ms so ativados e desativados em rpida sucesso para empurrar as partculas adiante at que alcancem velocidades. As partculas totalmente aceleradas circulam pelo tubo a quase 300 mil quilmetros por segundo.
     Mas  quase a velocidade da luz  exclamou um dos professores.
      isso a  disse Brownell.
    E continuou a falar, explicando que, ao acelerar duas partculas em direes opostas  volta do tubo e depois faz-las colidir, os cientistas podem desintegrar as partculas nas partes em que so constitudas e assim ter uma noo a respeito dos componentes fundamentais da natureza.
     Os aceleradores de partculas  declarou Brownell  so cruciais para o futuro da cincia. A coliso de partculas  a chave para se compreender os blocos de que  formado o universo.
    O Poeta Residente de Harvard, um homem sossegado chamado Charles Pratt, no se impressionou muito.
     Para mim, isso parece mais  disse Pratt  uma abordagem cientfica de Neanderthal... igual a espatifar relgios para conhecer o mecanismo interno deles.
    Num rompante, Brownell largou o garfo e saiu da sala pisando duro.
    Quer dizer que o CERN tem um acelerador de partculas?  pensou Langdon, conforme o elevador descia. Um tubo circular para despedaar partculas. Gostaria de saber por que era subterrneo.
    Quando o elevador parou, Langdon ficou feliz em sentir terra firme de novo sob os ps. Assim que as portas se abriram, porm, seu alvio evaporou-se. Encontrava-se outra vez em um mundo totalmente estranho.
    O corredor estendia-se indefinidamente em ambas as direes, esquerda e direita. Tratava-se de um tnel revestido de cimento liso, largo o suficiente para permitir a passagem de um caminho de cinco eixos. Profusamente iluminado no ponto onde estavam, mais adiante o corredor tornava-se negro como breu. Um vento mido, sussurrando, vinha da escurido  um lembrete inquietante de que se encontravam agora muitos metros abaixo do solo. Langdon quase sentia o peso da terra e das pedras acima de sua cabea. Por um instante, voltou a ter nove anos de idade, a escurido forando-o a voltar s cinco horas de trevas sufocantes que ainda o assombravam. Cerrando os punhos, lutou contra aquela sensao.
    Vittoria manteve-se em silncio ao sair do elevador e seguir sozinha sem hesitar para o corredor escuro. No teto, conforme ela passava, as luzes fluorescentes iam aos poucos se acendendo para iluminar seu caminho. O efeito era perturbador, como se o corredor estivesse vivo, prevendo cada um dos movimentos dela. Langdon e Kohler seguiam-na a certa distncia. As luzes apagavam-se automaticamente atrs deles.
     Esse acelerador de partculas  disse Langdon em voz baixa  est aqui embaixo neste tnel?
     Est ali.  Kohler apontou para a sua esquerda, onde um tubo cromado, polido, corria pela parede interna do tnel.
    Langdon olhou para o tubo, perplexo.
     Isso  o acelerador?
    No era nem um pouco como ele havia imaginado. Completamente reto, com uns noventa centmetros de dimetro, estendia-se na horizontal pela extenso visvel do tnel at desaparecer na escurido. Lembra mais um cano de esgoto high-tech, pensou Langdon.
     Achei que os aceleradores de partculas fossem circulares.
     Este acelerador  circular  disse Kohler.  Parece ser reto, mas isto  uma iluso de tica. A circunferncia deste tnel  to grande que a curva  imperceptvel. Como a da Terra.
    Langdon estava admirado.
     Isto  um crculo? Mas ento... deve ser imenso!
     O LHC  a maior mquina do mundo.
    Langdon olhou de novo o tubo para ter certeza de que no se enganara. Lembrou-se do motorista do CERN comentando sobre uma enorme mquina sob a terra. No entanto...
     Tem mais de oito quilmetros de dimetro e vinte e sete quilmetros de extenso.
    Langdon virou rapidamente a cabea para o diretor, depois para o tnel escuro  sua frente.
     Vinte e sete quilmetros? Este tnel tem vinte e sete quilmetros de comprimento?
    Kohler concordou.
     Cavados em um crculo perfeito. Vai at a Frana e volta para c. As partculas aceleradas percorrem o tubo mais de dez mil vezes em um nico segundo antes de colidirem.
    As pernas de Langdon ficaram bambas ao olhar para a abertura negra do tnel.
     Est dizendo que o CERN removeu milhes de toneladas de terra s para espatifar partculas minsculas?
    Kohler ergueu os ombros.
     s vezes, para encontrar a verdade,  preciso remover montanhas. 

CAPTULO 16

    A quilmetros do CERN, uma voz soou atravs de um walkie-talkie.
     OK, estou no corredor.
    O tcnico que monitorava as telas de vdeo apertou o boto de seu transmissor e disse:
     A cmera que voc est procurando  a 86. Deve estar no fim do corredor. Seguiu-se um longo silncio no rdio. Um ligeiro suor cobriu o rosto do tcnico que esperava. Finalmente, seu rdio deu um estalido.
     A cmera no est no lugar  disse a voz.  Mas d para ver onde estava instalada. Algum deve t-la tirado daqui.
    O tcnico respirou fundo.
     Obrigado. Espere s mais um segundo, est bem?
    Suspirando, voltou a ateno para as telas de vdeo  sua frente. Grande parte do conjunto de prdios era aberta ao pblico, e cmeras sem fio j haviam sumido antes, em geral roubadas por visitantes engraadinhos em busca de suvenires. Entretanto, assim que a cmera saa dos prdios e ficava fora de alcance, o sinal se perdia e a tela ficava em branco. Perplexo, o tcnico olhava para o monitor. Uma imagem clara como gua ainda vinha da cmera 86.
    Se a cmera foi roubada, refletia ele, como ainda estamos recebendo o sinal? Sabia que s havia uma explicao para isso. A cmera ainda estava dentro dos prdios, algum apenas a trocara de lugar. Mas quem? E por qu?
    Estudou o monitor durante algum tempo. Por fim, pegou seu walkie-talkie.
     H algum armrio embutido nesse poo de escada? Algum mvel com portas, algum nicho escuro? A voz que respondeu parecia um tanto espantada.
     No. Por qu?
    O tcnico fez uma cara feia.
     Por nada. Obrigado pela ajuda.
    Desligou o walkie-talkie e apertou os lbios.
    Considerando-se o tamanho pequeno da cmera de vdeo e o fato de no ter fio, o tcnico sabia que a cmera 86 podia estar transmitindo de qualquer lugar do fortemente vigiado complexo de construes  um conjunto compacto de 32 prdios independentes em um raio de 800 metros. A nica pista  que a cmara parecia ter sido posta em um lugar escuro. Claro que isso no ajudava grande coisa. Havia milhares de lugares escuros ali  armrios de manuteno, dutos de aquecimento, galpes de utenslios de jardinagem, armrios de quartos de dormir e at um labirinto de tneis subterrneos. Poderiam levar semanas para encontrar a cmera 86.
    Mas esse  o menor dos meus problemas.
    Alm do dilema da nova localizao da cmera, havia outra questo muito mais preocupante a resolver. O tcnico levantou o olhar para a imagem que a cmera perdida estava transmitindo. A de um objeto imvel. Um aparelho moderno que no se parecia com nada que o tcnico conhecesse. Ele examinou o mostrador eletrnico que piscava na base do aparelho.
    Embora o guarda tivesse passado por um rigoroso treinamento que o preparava para situaes de tenso, ainda assim sentia seu pulso acelerando. Disse a si mesmo para no entrar em pnico. Tinha de haver uma explicao. O objeto parecia pequeno demais para oferecer perigo significativo. De qualquer forma, sua presena ali dentro era perturbadora. Muito perturbadora, na verdade.
    Logo hoje, pensou.
    Segurana era sempre uma prioridade para seu empregador, mas hoje, mais do que em qualquer outro dia nos ltimos 12 anos, segurana era uma questo da maior importncia. O tcnico observou o objeto durante muito tempo e escutou o rudo de trovoadas de uma tempestade que se aproximava ao longe.
    Ento, suando, discou para seu superior. 

CAPTULO 17

    Poucas crianas podem dizer que se lembram do dia em que encontraram seu pai, mas Vittoria Vetra podia. Tinha oito anos e morava no lugar de sempre, o Orfanotrofio di Siena, um orfanato catlico perto de Florena, abandonada por pais que nunca conhecera. Estava chovendo naquele dia. As freiras j tinham chamado por ela duas vezes para ir jantar, mas ela fingia no ouvir. Continuava l fora, deitada no ptio, com o rosto voltado para o alto, para as gotas de chuva, sentindo-as bater em seu corpo, tentando adivinhar onde iriam cair em seguida.
    As freiras chamaram de novo, ameaando-a de pegar uma pneumonia, o que tornaria aquela criana insuportavelmente cabea-dura muito menos curiosa sobre a natureza.
    No estou escutando vocs, pensava Vittoria.
    Estava encharcada quando o jovem padre saiu para busc-la. Ele era novo ali. Vittoria esperou que ele viesse arrast-la para dentro. Mas ele no o fez. Para surpresa dela, deitou-se ao seu lado, molhando a batina em uma poa.
     Disseram que voc faz uma poro de perguntas  disse o moo.
    Vittoria replicou, mal-humorada:
     E  ruim fazer perguntas?
    Ele riu.
     Acho que no.
     O que voc est fazendo aqui fora?
     O mesmo que voc: pensando por que as gotas de chuva caem.
     No estou pensando por que elas caem! Eu j sei!
    O padre olhou espantado para ela.
     Voc sabe?
     A irm Francisca disse que as gotas de chuva so lgrimas dos anjos que caem para lavar nossos pecados.
     Puxa!  ele disse, em um tom admirado.  Ento, est explicado.
     No, no est!  disparou a menina.  As gotas caem porque tudo cai! Tudo! No  s a chuva!
    O padre coou a cabea.
     Sabe, mocinha, voc tem razo. Tudo cai mesmo. Deve ser a gravidade.
     Deve ser o qu?
    Ele olhou para ela com ar incrdulo.
     Voc nunca ouviu falar da gravidade?  No.
    O padre fez um gesto decepcionado.
      uma pena. A gravidade responde a uma poro de perguntas.
    Vittoria sentou-se.
     O que  gravidade?  perguntou, exigente.  Diga para mim!
    O padre piscou o olho para ela.
     E se eu explicar a voc durante o jantar?
    O jovem padre era Leonardo Vetra. Embora tivesse ganho prmios de Fsica quando aluno da universidade, ouvira um outro chamado e fora para o seminrio. Leonardo e Vittoria tornaram-se grandes amigos, por mais improvvel que fosse, naquele mundo solitrio de freiras e regulamentos. Vittoria fazia Leonardo rir e ele tomou-a sob sua proteo, ensinando-lhe que belas coisas como o arco-ris e os rios tinham muitas explicaes. Falou-lhe sobre a luz, os planetas, as estrelas e toda a natureza, tanto do ponto de vista de Deus quanto do da cincia. O intelecto e a curiosidade inatos de Vittoria faziam dela uma aluna cativante. Leonardo a protegia como a uma filha.
    Vittoria tambm estava feliz. Nunca sentira a alegria de ter um pai. Enquanto todos os outros adultos respondiam s suas perguntas com um ar de repreenso, Leonardo passava horas mostrando-lhe livros. At perguntava o que ela achava, quais eram suas idias sobre os assuntos. Ento, certo dia, seu pior pesadelo virou realidade. Padre Leonardo disse-lhe que iria sair do orfanato.
     Vou me mudar para a Sua  explicou ele.  Recebi uma subveno para estudar Fsica na Universidade de Genebra.
     Fsica?  exclamou Vittoria.  Pensei que voc amasse a Deus!
     Eu amo, e muito. Por isso  que quero estudar suas regras divinas. As leis da Fsica so a tela que Deus estendeu para pintar sua obra-prima.
    Vittoria ficou arrasada. Mas o padre Leonardo tinha mais novidades. Disse a Vittoria que conversara com seus superiores e eles haviam concordado que Leonardo a adotasse.
     Voc gostaria que eu a adotasse?  perguntou Leonardo.
     O que significa adotar?  perguntou Vittoria por sua vez.
    O padre Leonardo explicou.
    Vittoria abraou-o durante cinco minutos seguidos, chorando de alegria.
     Ah, eu quero, quero sim!
    E ele disse que teria de partir e ficar longe por algum tempo, at instalar seu novo lar na Sua, mas que mandaria busc-la dentro de seis meses. Seria a mais longa espera da vida de Vittoria, mas Leonardo manteve a palavra. Cinco dias antes de seu aniversrio de nove anos, Vittoria mudou-se para Genebra. Freqentava a Escola Internacional de Genebra durante o dia e estudava com seu pai  noite.
    Trs anos depois, Leonardo Vetra foi contratado pelo CERN. Vittoria e Leonardo mudaram-se para um pas das maravilhas como jamais a pequena Vittoria pudera imaginar.
    Vittoria Vetra sentia seu corpo entorpecido enquanto percorria o tnel do LHC. Via nele o reflexo de sua imagem silenciosa e percebia a ausncia de seu pai. Normalmente, ela vivia em um estado de profunda calma, em harmonia com o mundo  sua volta. Agora, porm, de repente, nada mais fazia sentido. As ltimas trs horas haviam sido como um borro indistinto.
    Eram dez da manh quando a chamada de Kohler chegou nas ilhas Baleares. Seu pai foi assassinado. Volte imediatamente para casa. A despeito do calor abafado no convs do barco de mergulho, ela gelara at os ossos com aquelas palavras, o tom de voz de Kohler, despojado de qualquer emoo, ferindo-a tanto quanto a notcia.
    Agora, ela voltara para casa. Mas que casa, afinal? O CERN, seu mundo desde os 12 anos, parecia de repente estrangeiro. Seu pai, o homem que o tornara mgico, estava morto.
    Respire fundo, disse a si mesma, mas no conseguia acalmar sua mente. As perguntas sucediam-se uma  outra cada vez mais depressa. Quem matara seu pai? E por qu? Quem era aquele especialista americano? Por que Kohler insistia em ver o laboratrio?
    Kohler dissera que existiam evidncias de que o assassinato de seu pai estava relacionado com o projeto em curso. Que evidncias? Ningum sabia em que estvamos trabalhando! E, mesmo que algum descobrisse, por que o matariam?
    Andando pelo tnel do LHC a caminho do laboratrio de seu pai, Vittoria se deu conta de que estava prestes a revelar o trabalho mais importante de seu pai sem que ele estivesse presente. Imaginara aquele momento de forma muito diferente: seu pai convocando os maiores cientistas do CERN, mostrando-lhes sua descoberta, vendo as expresses de admirao e respeito em seus rostos. Em seguida, radiante de orgulho paterno, ele explicaria a eles como havia sido uma idia de Vittoria que o ajudara a transformar o projeto em realidade... que a participao de sua filha havia sido essencial naquele trabalho pioneiro. Vittoria sentiu um n na garganta. Meu pai e eu deveramos estar juntos dividindo este momento. E l estava ela sozinha. Sem colegas. Sem rostos felizes. S um americano estranho e Maximilian Kohler.
    Maximilian Kohler. Der Knig.
    Mesmo quando criana, Vittoria no simpatizava com ele. Embora tivesse aprendido a respeitar seu intelecto poderoso, aquelas maneiras glidas sempre lhe pareceram desumanas, a anttese exata do comportamento caloroso de seu pai. Kohler buscava na cincia a lgica imaculada; seu pai, o deslumbramento espiritual. E, no entanto, por estranho que fosse, sempre parecera existir um tcito respeito entre os dois homens. Algum explicara a ela que o gnio aceita outro gnio incondicionalmente.
    Gnio, pensou ela. Meu pai... papai. Morto.
    A entrada para o laboratrio de Leonardo Vetra era um comprido e assptico corredor inteiramente revestido de azulejos brancos. Langdon teve a impresso de estar entrando em uma espcie de asilo de loucos subterrneo. Alinhadas nas paredes do corredor havia dezenas de imagens em preto-e-branco emolduradas. Langdon construra sua carreira estudando imagens, mas aquelas lhe eram inteiramente desconhecidas. Pareciam negativos caticos de riscos e espirais aleatrios. Arte moderna?  arriscou ele. Jackson Pollock depois das anfetaminas?
     So diagramas de disperso  disse Vittoria, notando o interesse de Langdon.  Representaes em computador da coliso de partculas. Esta  a partcula Z  disse ela, apontando para um leve trao, quase invisvel na confuso.  Meu pai descobriu-a faz cinco anos. Pura energia, sem massa nenhuma. Pode muito bem ser o menor bloco estrutural na natureza. A matria nada mais  do que energia capturada.
    Matria  energia? Langdon inclinou a cabea para um lado. Isto soa muito zen. Examinou o minsculo trao na fotografia e imaginou o que diriam seus amigos no Departamento de Fsica de Harvard quando lhes contasse que passara o fim de semana em um grande colisor de hdrons admirando partculas Z.
     Vittoria  falou Kohler quando se aproximaram da imponente porta de ao do laboratrio , tenho de avis-la que vim aqui esta manh procurar seu pai.
    Vittoria enrubesceu ligeiramente.
     Veio?
     Sim. E fiquei muito surpreso ao ver que ele trocou a fechadura de segurana padronizada do CERN por algo diferente.
    Kohler indicou um aparelho eletrnico complicado ao lado da porta.
     Desculpe  disse ela.  Mas sabe como ele se preocupava com a privacidade. No queria que mais ningum alm de ns dois tivesse acesso ao laboratrio. 
     Muito bem  disse Kohler.  Abra a porta.
    Vittoria ficou parada por algum tempo. Ento, respirando fundo, encaminhou-se para o mecanismo instalado na parede.
    Langdon no estava preparado para o que aconteceu em seguida.
    Vittoria aproximou-se do aparelho e, com cuidado, alinhou seu olho direito com uma lente protuberante que parecia um telescpio. Depois, apertou um boto. Ouviu-se um estalido dentro da mquina. Um facho de luz oscilava de um lado para outro, escaneando o globo ocular dela como se fosse uma mquina copiadora.
      um scanner de retina  explicou ela.  Segurana infalvel. Programado para aceitar apenas dois padres de retina, o meu e o do meu pai.
    Robert Langdon parou, horrorizado com a revelao. A imagem de Leonardo Vetra voltou-lhe  cabea em detalhes assustadores  o rosto ensangentado, o nico olho castanho fitando-o de volta, a rbita vazia. Tentou recusar a verdade bvia, mas ento viu no cho de azulejos brancos, abaixo do scanner, minsculas gotas vermelhas. Sangue seco.
    Vittoria, ainda bem, nada percebeu.
    A porta de ao abriu-se deslizando e ela entrou.
    Kohler fixou em Langdon um olhar implacvel. A mensagem era clara:  como eu lhe disse. O olho que falta serve realmente a um objetivo maior. 

CAPTULO 18

    As mos da mulher estavam amarradas, os pulsos agora roxos e inchados por causa do atrito. O Hassassin de pele cor de mogno estava deitado ao lado dela, esgotado, admirando sua presa nua. Pensava se aquele sono leve a que ela estava entregue no momento no seria um truque, uma tentativa pattica de evitar prestar-lhe mais servio.
    Ele no se importava. J se recompensara o suficiente. Saciado, sentou-se na cama. Em seu pas, as mulheres eram propriedades, posses. Fracas. Instrumentos de prazer. Escravas para serem negociadas como gado. E sabiam qual era o lugar delas. Mas ali, na Europa, elas fingiam ter uma fora e uma independncia que o divertiam e excitavam ao mesmo tempo. For-las  submisso fsica era uma gratificao que ele sempre apreciava. Agora, a despeito do contentamento sexual, o Hassassin percebia que um outro apetite crescia dentro dele. Ele matara na noite anterior, matara e mutilara, e para ele matar era como herona, cada ocasio satisfazendo-o apenas temporariamente antes de aumentar sua nsia por mais. A animao da vspera havia passado. O desejo ardente estava de volta.
    Analisou a mulher adormecida perto dele. Correndo a palma da mo por seu pescoo, excitou-o saber que poderia acabar com a vida dela em um instante. Que importncia isso teria? Ela era subumana, apenas um veculo de prazer e servios. Seus dedos fortes envolveram a garganta dela, saboreando sua pulsao delicada. Ento, lutando contra o desejo, ele retirou a mo. Tinha um trabalho a fazer. Servir a uma causa mais elevada que seu prprio desejo.
    Saiu da cama e exultou com a honra da tarefa que o aguardava. Ainda no era capaz de avaliar a influncia desse homem chamado Janus e da antiga fraternidade que ele comandava. Maravilhava-se com o fato de ter sido escolhido por essa fraternidade. De alguma forma, conheciam seu dio e suas habilidades. Como, ele nunca saberia. Suas razes estendem-se at muito longe.
    Haviam concedido a ele a honra mxima. Ele seria suas mos e sua voz. Seu assassino e seu mensageiro. Aquele a que seu povo chamava de Malak al-haq, o Anjo da Verdade. 

CAPTULO 19

    O laboratrio de Vetra era extremamente futurstico.
    Todo branco e rodeado por todos os lados de computadores e equipamento eletrnico especializado, lembrava uma sala de cirurgia. Langdon perguntava a si mesmo que segredos aquele lugar guardaria que justificassem algum arrancar o olho de uma pessoa para entrar ali.
    Kohler mostrava-se apreensivo, esquadrinhando o ambiente como se procurasse um intruso. Mas o laboratrio estava deserto. Vittoria tambm se movia devagar, parecendo desconhecer o laboratrio sem seu pai.
    A ateno de Langdon concentrou-se imediatamente no centro do aposento, onde uma srie de colunas baixas erguia-se do cho. Como uma miniatura de Stonehenge, umas 10 ou 12 colunas de ao polido formavam um crculo no meio da sala. Tinham cerca de 90 centmetros de altura, semelhantes s que os museus utilizam para expor pedras preciosas. Aquelas colunas, porm, no se destinavam a jias valiosas. Cada uma servia de apoio a um tubo transparente do tamanho aproximado de uma lata de bolas de tnis. Aparentemente, os tubos estavam vazios.
    Kohler olhou para os tubos com um ar de incompreenso. Pareceu ter decidido ignor-los a princpio. Voltou-se para Vittoria:
     Alguma coisa foi roubada?
     Roubada? Como?  argumentou ela.  O scanner de retina s permite a nossa entrada.
     D uma olhada.
    Vittoria suspirou e correu os olhos pela sala durante uns poucos momentos. Deu de ombros.
     Tudo est como meu pai sempre deixa. Um caos ordenado.
    Langdon via que Kohler pesava suas opes, como se avaliasse at que ponto levar Vittoria e o que deveria contar-lhe. E que mais uma vez resolvera adiar a deciso. Moveu sua cadeira de rodas para o centro da sala e examinou o misterioso agrupamento de tubos supostamente vazios.
     Segredos  disse ele finalmente  so um luxo que no podemos mais nos permitir.
    Vittoria inclinou a cabea assentindo, de repente parecendo emocionada, como se estar ali lhe trouxesse um mar de lembranas.
    D um minuto a ela, pensou Langdon.
    Preparando-se para o que ia revelar, Vittoria fechou os olhos e respirou fundo. E respirou fundo mais uma vez. E outra vez...
    Langdon observava-a, comeando a ficar preocupado. Ser que ela est passando bem? Relanceou os olhos para Kohler, que se mostrava imperturbvel, talvez por j ter presenciado aquele ritual antes. Passaram-se dez segundos at Vittoria reabrir os olhos.
    A metamorfose foi incrvel. Vittoria Vetra transformara-se. Seus lbios cheios descontraram-se, os ombros relaxaram-se, o olhar suavizou-se. Tinha-se a impresso de que ela realinhara todos os msculos de seu corpo para aceitar a situao. O claro de ressentimento e angstia apagara-se de alguma forma sob uma frieza de guas profundas.
     Por onde comear...  disse ela, imperturbvel, com seu sotaque.
     Pelo comeo  pediu Kohler.  Conte-nos sobre as experincias de seu pai.
     Alinhar a cincia com a religio sempre foi o sonho da vida de meu pai  disse Vittoria.  Ele esperava provar um dia que cincia e religio so dois campos totalmente compatveis, duas abordagens diferentes para se encontrar a mesma verdade.  Fez uma pausa, como se mal acreditasse no que iria dizer a seguir.  E, recentemente, ele concebeu um modo de fazer isto.
    Kohler no fez nenhum comentrio.
     Ele arquitetou um invento com que tinha esperanas de resolver um dos conflitos mais amargos da histria da cincia e da religio.
    Langdon perguntou-se que conflito seria esse. Havia tantos.
     O criacionismo  declarou Vittoria.  A batalha sobre como surgiu o universo.
    Ah, pensou Langdon, o Grande Debate.
     A Bblia,  claro, afirma que Deus criou o universo  explicou.  Deus disse:
    Faa-se a luz e tudo o que vemos surgiu de um grande vazio. Infelizmente, uma das leis fundamentais da Fsica declara que a matria no pode ser criada do nada.
    Langdon j lera sobre esse impasse. A idia de que Deus supostamente criara algo do nada era totalmente contrria s leis aceitas pela Fsica moderna e, portanto, alegavam os cientistas, o Gnese era cientificamente absurdo.
     Senhor Langdon  disse Vittoria, voltando-se para ele.  Presumo que conhea a Teoria do Big-Bang?
     Mais ou menos.
    O que ele sabia sobre o Big-Bang  que era o modelo cientificamente aceito para explicar a criao do universo. No o compreendia realmente, mas, de acordo com a teoria, um nico ponto de energia intensamente concentrada estourava em uma exploso cataclsmica, expandindo-se para formar o universo. Ou algo assim.
    Vittoria continuou.
     Quando a Igreja Catlica apresentou pela primeira vez a Teoria do Big-Bang em 1927, o...
     Desculpe!  Langdon interrompeu, antes que pudesse se conter.  Disse que o Big-Bang foi uma idia catlica?
    A pergunta surpreendeu Vittoria.
     Claro. Apresentada por um monge catlico, Georges Lemaitre, em 1927.
     Mas eu pensei...  ele hesitou.  A Teoria do Big-Bang no foi apresentada por um astrnomo de Harvard, Edwin Hubble?
    Kohler fechou a cara.
     Mais uma vez, a arrogncia cientfica dos norte-americanos. Hubble publicou seu trabalho em 1929, dois anos depois de Lemaitre.
    Langdon zangou-se.
    O telescpio chama-se Hubble, senhor, e nunca ouvi falar de nenhum telescpio Lemaitre!
     O senhor Kohler tem razo  disse Vittoria , a idia pertenceu a Lemaitre. Hubble somente a comprovou reunindo as provas de que o Big-Bang era cientificamente provvel.
     Ah  disse Langdon, imaginando se os fanticos por Hubble no Departamento de Astronomia de Harvard alguma vez mencionavam Lemajtre em suas palestras.
     Quando Lemaitre apresentou pela primeira vez a Teoria do Big-Bang  Vittoria prosseguiu , os cientistas afirmaram que era absolutamente ridcula. A matria, dizia a cincia, no podia ser criada a partir do nada. Assim, quando Hubble chocou o mundo provando cientificamente que o Big-Bang era verdade, a Igreja cantou vitria, alardeando isso como prova de que a Bblia era cientificamente correta. A verdade divina.
    Langdon balanou a cabea concordando e agora escutando com toda a ateno.
      claro que no agradou nada aos cientistas ver suas descobertas usadas pela Igreja para promover a religio, de modo que imediatamente matematizaram a Teoria do Big-Bang, removeram-lhe todas as implicaes religiosas e tomaram-na para si. Lamentavelmente, para a cincia, suas equaes ainda hoje tm uma sria deficincia que a Igreja gosta de apontar.
    Kohler resmungou:
     A singularidade.  Ele pronunciou a palavra como se aquilo fosse a maldio de sua existncia.
     Sim, a singularidade  repetiu Vittoria.  O exato momento da criao. A hora zero. At hoje, a cincia no conseguiu compreender o momento inicial da criao. Nossas equaes explicam o universo inicial com bastante eficincia, mas, quando recuamos no tempo e nos aproximamos da hora zero, nossa matemtica se desintegra e tudo deixa de ter sentido.
     Correto  disse Kohler, mordaz.  E a Igreja sustenta que essa deficincia  a prova do miraculoso envolvimento de Deus. V direto ao ponto.
    A expresso de Vittoria ficou distante.
     Meu pai sempre acreditou no envolvimento de Deus no Big-Bang. Embora a cincia fosse incapaz de compreender o divino momento da criao, ele acreditava que algum dia isso aconteceria.  Ela se encaminhou para uma frase impressa em papel pregada na parede da rea de trabalho de seu pai.  Meu pai costumava abanar este papel diante de meu rosto toda vez que eu tinha dvidas.
    Langdon leu a mensagem:
A CINCIA E A RELIGIO NO ESTO EM DESACORDO.
 QUE A CINCIA AINDA  MUITO JOVEM PARA COMPREENDER. 
     Meu pai queria levar a cincia a um nvel mais elevado, um nvel em que a cincia corroborasse o conceito de Deus.  Ela passou a mo pelo cabelo comprido com ar melanclico.  Resolveu dedicar-se a algo que nenhum cientista jamais pensara em realizar. E que ningum at ento tivera tecnologia para realizar.  Fez uma pausa, sem saber muito bem como pronunciar as palavras seguintes.  Ele criou uma experincia para provar que o Gnese era possvel.
    Provar o Gnese?, pensou Langdon. Que se faa a luz? Matria a partir do nada?
    O olhar mortio de Kohler cruzou a sala.
     Como disse?
     Meu pai criou um universo... a partir do nada.
    Kohler virou a cabea em todas as direes.
     O qu?
     Ou melhor, ele recriou o Big-Bang.
    Kohler parecia prestes a ficar de p.
    Langdon estava oficialmente perdido. Criar um universo? Recriar o Big-Bang?
     Foi feito em muito menor escala, evidentemente  disse Vittoria, agora falando mais depressa.  O processo era extremamente simples. Ele acelerou dois feixes de partculas ultrafinas em direes opostas no tubo acelerador. Os dois feixes colidiram de frente a uma extraordinria velocidade, entrando um pelo outro e comprimindo toda a sua energia em um nico ponto. Assim, ele conseguiu obter densidades extremas de energia.
    Ela comeou a citar uma longa sucesso de unidades e os olhos do diretor se arregalaram.
    Langdon esforava-se para acompanhar o assunto.
    Quer dizer que Leonardo Vetra estava simulando o ponto comprimido de energia a partir do qual o universo supostamente nasceu.
     O resultado  disse Vittoria  foi nada mais nada menos do que maravilhoso. Quando for publicado, vai abalar a prpria estrutura da Fsica moderna.
     Ela passou a falar devagar, saboreando a dimenso daquilo que estava revelando.  De repente, dentro do tubo do acelerador, desse ponto de energia altamente concentrada, partculas de matria comearam a aparecer do nada.
    Kohler no esboava qualquer reao, olhava para ela esttico.
     Matria  repetiu Vittoria.  Brotando do nada. Um incrvel espetculo de fogos de artifcio subatmicos. Um universo em miniatura desabrochando para a vida. Meu pai no s provou que a matria pode ser criada do nada, como demonstrou que o Big-Bang e o Gnese podem ser explicados se simplesmente aceitarmos a presena de uma imensa fonte de energia.
     Voc quer dizer Deus?  perguntou Kohler.  Deus, Buda, A Fora, Iav, a singularidade, o ponto de unicidade, chame como quiser, o resultado  o mesmo. Cincia e religio apiam a mesma verdade: a energia pura  a me da criao.
    Quando Kohler finalmente falou, sua voz era soturna.
     Vittoria, voc me deixou perdido. Ser que est mesmo me dizendo que seu pai criou matria... a partir do nada?
     Estou.  Vittoria apontou para os tubos.  A prova est ali. Naqueles tubos, h espcimes da matria que ele criou.
    Kohler tossiu e dirigiu-se para os tubos como um animal desconfiado rodeando alguma coisa que, por instinto, pressente no ser boa.
     Eu devo ter perdido alguma parte da sua explicao  disse ele.  Como quer que eu acredite que esses tubos contm partculas de matria criada por seu pai? Poderiam ser partculas vindas de qualquer lugar.
     Na verdade  disse Vittoria, confiante , no poderiam. Essas partculas so nicas. So um tipo de matria que no existe em nenhum lugar da Terra, portanto, s poderiam ter sido criadas.
    O rosto de Kohler tornou-se sombrio.
     Vittoria, o que quer dizer com um tipo de matria? S existe um tipo, e...
     Kohler parou de falar.
    Vittoria tinha uma expresso triunfante no rosto.
     O senhor mesmo falou sobre o assunto em suas palestras, diretor. O universo contm dois tipos de matria.  um fato cientfico.  Vittoria voltou-se para Langdon.  Senhor Langdon, o que a Bblia diz sobre a criao? O que Deus criou?
    Langdon ficou embaraado, sem saber o que aquilo tinha a ver com a questo.
     Humm, Deus criou... luz e trevas, cu e inferno...
     Exato  interrompeu Vittoria. Deus criou tudo em opostos. Em simetria. Em perfeito equilbrio.  Voltou-se novamente para Kohler.  Diretor, a cincia afirma o mesmo que a religio, que o Big-Bang criou tudo no universo com um oposto.
     Inclusive a prpria matria  Kohler murmurou, como se falasse para si mesmo.
    Vittoria balanou a cabea.
     E quando meu pai realizou essa experincia, indiscutivelmente, dois tipos de matria apareceram.
    Langdon especulava o que isso significaria. Leonardo Vetra criou o oposto da matria?
    Kohler parecia zangado.
     A substncia a que voc se refere s existe em algum outro lugar do universo. Certamente no na Terra. E possivelmente nem na nossa galxia!  Exatamente  replicou Vittoria.  O que prova que as partculas que esto nesses tubos teriam de ser criadas.
    O rosto de Kohler endureceu.
     Vittoria, voc no pode estar dizendo que esses tubos contm espcimes de verdade?
     Estou  e ela olhou com orgulho para os tubos.  Diretor, o senhor est diante dos primeiros espcimes de antimatria do mundo. 

CAPTULO 20

    Fase dois, pensou o Hassassin, caminhando a passos largos pelo tnel escuro.
    A tocha na mo dele era um exagero, ele sabia. Mas servia para causar efeito. Efeito era tudo. O medo, aprendera, era seu aliado. O medo mutila mais depressa do que qualquer implemento de guerra.
    No havia nenhum espelho no caminho para ele apreciar seu disfarce, mas, pela sombra ondulante do manto, dava para perceber que estava perfeito. Misturar-se s pessoas fazia parte do plano, parte da depravao da intriga. Em seus sonhos mais loucos, jamais imaginara desempenhar aquele papel.
    Duas semanas antes, teria considerado a tarefa que o esperava no final daquele tnel como sendo impossvel. Uma misso suicida. Entrar desarmado no covil do leo. Mas Janus transformara a definio de impossvel.
    Os segredos que Janus partilhara com o Hassassin nas duas ltimas semanas haviam sido muitos  aquele tnel era um deles. Antigo, mas ainda perfeitamente usvel.
     medida que se aproximava de seu inimigo, o Hassassin ponderava se o que o esperava l dentro seria mesmo to fcil quanto Janus prometera. Janus garantira que algum no interior faria os arranjos necessrios. Algum no interior. Incrvel. Quanto mais refletia, mais chegava  concluso de que seria brincadeira de criana.
    Wahad... tintain.. thalatha... arbaa, disse para si mesmo em rabe ao se aproximar do final. Um... dois... trs... quatro... 
    
CAPTULO 21
   
     Imagino que j tenha ouvido falar de antimatria, no , senhor Langdon?  Vittoria estudava-o, sua pele morena contrastando nitidamente com a brancura do laboratrio.
    Langdon levantou a cabea. Estava bastante zonzo.
     Sim, isto , mais ou menos.
    Um ligeiro sorriso aflorou-lhe aos lbios.
     O senhor v Jornada nas Estrelas.
    Langdon enrubesceu.
     Bem, meus alunos gostam...  Ele franziu a testa.  Antimatria  o combustvel da Enterprise?
    Ela concordou com um gesto.
     A boa fico cientfica tem suas razes na boa cincia.
     Quer dizer que existe antimatria?
     Um fato da natureza. Tudo tem seu oposto. Os prtons tm os eltrons. Os up-quarks tm os down-quarks. H uma simetria csmica no nvel subatmico. A antimatria  o yin do yang da matria. Equilibra a equao fsica.
    Langdon lembrou Galileu e sua crena na dualidade.
     Os cientistas sabem desde 1918  explicou ela  que dois tipos de matria foram criados no Big-Bang. Um deles  o que vemos aqui na Terra, formando rochas, rvores, pessoas. O outro  o inverso, idntico  matria em todos os sentidos, exceto que as cargas de suas partculas so invertidas.
    Kohler falou como se emergisse de um nevoeiro, a voz instvel.
     Existem enormes barreiras tecnolgicas para se armazenar antimatria. E quanto  neutralizao?
     Meu pai criou um vcuo de polaridade inversa para puxar os psitrons de antimatria para fora do acelerador antes que se desintegrassem.
    Kohler objetou.
     Mas o vcuo tambm puxaria a matria para fora. No haveria como separar as partculas.
     Ele aplicou um campo magntico. A matria arqueia-se para a direita, a antimatria, para a esquerda. Tm polaridades opostas.
    Naquele instante, abriu-se uma brecha na muralha de dvidas de Kohler. Ele levantou os olhos para Vittoria claramente espantado e, em seguida, foi tomado por um acesso de tosse.  Ina... credi... tvel  disse, enxugando a boca.  No entanto...  parecia que sua lgica ainda resistia , mesmo que o vcuo funcionasse, esses tubos so feitos de matria. A antimatria no pode ser armazenada dentro de tubos feitos de matria. A antimatria reagiria de imediato com...
     O espcime no est tocando o tubo  disse Vittoria, que j devia esperar a pergunta.  A antimatria est suspensa. Os tubos so chamados de armadilhas de antimatria porque literalmente prendem a antimatria no centro do tubo, suspendendo-a a uma distncia segura das laterais e do fundo.
     Suspensa? Mas... como?
     Na interseo de dois campos magnticos. Venha, d uma olhada aqui.
    Vittoria atravessou a sala e apanhou um grande aparelho eletrnico. Lembrou a Langdon uma espcie de pistola luminosa para projetar desenhos animados: um cano largo parecido com o de um canho, um visor no topo e um emaranhado de dispositivos eletrnicos pendurado atrs. Vittoria alinhou o visor com um dos tubos, olhou pela lente e calibrou alguns botes. Depois, afastou-se para Kohler poder olhar. Este perguntou, pasmo:
     Vocs coletaram pores visveis?
     Cinco mil nanogramas  respondeu Vittoria.  Plasma lquido contendo milhes de psitrons.
     Milhes? Mas umas poucas partculas foi tudo o que j se detectou... em qualquer lugar.
     Xennio  disse Vittoria, categrica.  Ele acelerou um feixe de partculas atravs de um jato de xennio, separando os eltrons. Insistia em manter em segredo o procedimento exato, mas este implicava injetar simultaneamente eltrons puros no acelerador.
    Langdon estava perdido, tinha a impresso de que no falavam mais a mesma lngua.
    Kohler parou, as linhas de sua testa aprofundando-se. Sbito, prendeu rapidamente a respirao e seus ombros se curvaram, como se tivesse sido atingido por uma bala.
     Tecnicamente, isso deixaria...
    Vittoria sacudiu a cabea.
     . Um bocado.
    Kohler voltou a ateno para o tubo diante dele. Vacilante, ergueu o corpo na cadeira e colocou um olho no visor. Ficou olhando durante muito tempo sem dizer palavra. Quando afinal se sentou, sua testa estava coberta de suor. As linhas em seu rosto haviam desaparecido. Sua voz era um sussurro.
     Meu Deus... Voc conseguiu mesmo.
    Vittoria corrigiu-o.
     Meu pai conseguiu.
     Nem sei o que dizer.
    Vittoria virou-se para Langdon.
     Gostaria de dar uma espiada?  E fez um gesto para o aparelho.
    Sem saber o que tinha pela frente, Langdon aproximou-se. A dois passos de distncia, o tubo parecia vazio. O que quer que houvesse l dentro, era diminuto. Ele encostou o olho no visor. Levou um instante at a imagem entrar em foco.
    Ento, ele viu. O objeto no estava no fundo do recipiente como ele esperava, mas flutuando no meio, suspenso no ar, um glbulo tremeluzente de um lquido parecido com mercrio. Pairando como em um passe de mgica, o lquido agitava-se no espao. Pequenas ondulaes metlicas percorriam a superfcie da gotcula. O fluido em suspenso trouxe  mente de Langdon um vdeo em que vira uma gota de gua em gravidade zero. Mesmo sabendo que o glbulo era microscpico, podia acompanhar cada mudana de forma  medida que a bola de plasma ia se movimentando vagarosamente.
     Est flutuando  disse.
      bom que esteja  replicou Vittoria.  A antimatria  altamente instvel. Do ponto de vista energtico, a antimatria  a imagem espelhada da matria, de modo que as duas instantaneamente se cancelam uma  outra se entram em contato. Manter a antimatria isolada da matria  sem dvida um desafio, porque tudo na Terra  feito de matria. As amostras tm de ser guardadas sem jamais tocarem qualquer coisa, at o ar.
    Langdon estava admirado. Imagine trabalhar no vcuo.
     Esses recipientes da antimatria  interrompeu Kohler, deslizando um dedo plido em volta de uma das bases , foi seu pai quem os projetou?
     No, na verdade, fui eu.
    Kohler encarou-a.
    A voz dela soava despretensiosa.
     Meu pai produziu as primeiras partculas de antimatria, mas viu-se em apuros para armazen-las. Eu sugeri esses recipientes. Cpsulas hermticas nanocompsitas com eletromagnetos opostos em cada extremidade.
     Parece que a genialidade de seu pai passou para voc.
     Na verdade, no. Tirei a idia da natureza. As caravelas, ou guas-vivas, capturam peixes entre seus tentculos usando cargas de lquido urticante de nematocistos. Temos o mesmo princpio aqui. Cada tubo tem dois eletroms, um em cada extremidade. Seus campos magnticos opostos cruzam-se no centro do tubo e mantm a antimatria ali, suspensa no vcuo. 
    Langdon voltou-se mais uma vez para o tubo. Antimatria flutuando no vcuo, sem tocar coisa alguma. Kohler tinha razo. Era genial.
     Onde est a fonte de energia para os ms?  perguntou Kohler.
    Vittoria apontou.
     Na coluna que fica embaixo de cada tubo. Os tubos so aparafusados em mdulos de acoplamento que os recarregam continuamente, de modo que os magnetos nunca param de funcionar.
     E se o campo magntico parar de funcionar?
     Acontece o bvio. A antimatria cai, atinge o fundo do tubo e d-se um aniquilamento.
    Langdon apurou os ouvidos e repetiu:
     Aniquilamento?  A palavra no lhe soava nada bem.
    Vittoria no demonstrava preocupao.
     Sim. Se a antimatria e a matria entram em contato uma com a outra, ambas so destrudas instantaneamente. Os fsicos chamam a esse processo de aniquilamento, ou desmaterializao.
     Ah.
      a reao mais simples da natureza, uma partcula de matria e uma partcula de antimatria combinam-se para liberar duas novas partculas, chamadas ftons. Um fton  na verdade uma diminuta chispa de luz.
    Langdon j lera sobre ftons  partculas de luz , a mais pura forma de energia. Resolveu no perguntar sobre o uso de torpedos de ftons pelo capito Kirk contra os Klingons.
     Ento, se a antimatria cair, vemos uma minscula centelha de luz?
     Depende do que chama de minscula. Veja, vou mostrar como .
    E ela comeou a desatarrachar um dos tubos da coluna condutora de eletricidade que o mantinha carregado.
    Kohler deu um grito apavorado e atirou-se para a frente, empurrando as mos dela.
     Vittoria! Voc enlouqueceu?! 

CAPTULO 22

    Kohler, por incrvel que pudesse parecer, ficou de p por um momento, cambaleando nas duas pernas atrofiadas. Seu rosto estava branco de medo.  Vittoria! Voc no pode tirar esse tubo da!
    O pnico repentino do diretor assustou Langdon.
     Quinhentos nanogramas!  exclamou Kohler.  Se voc interromper o campo magntico...
     Diretor  Vittoria tranqilizou-o ,  totalmente seguro. Cada tubo tem um dispositivo de segurana, uma bateria prpria para o caso de ser removido de seu recarregador. O espcime continua em suspenso mesmo que eu tire o tubo da coluna.
    Kohler no parecia muito convencido. Depois, hesitante, instalou-se de volta na cadeira.
     As baterias so ativadas automaticamente  continuou Vittoria  quando o tubo  retirado do recarregador. Funcionam durante 24 horas. Como um tanque de reserva de gasolina.  Ela se virou para Langdon, percebendo sua preocupao.  A antimatria tem algumas caractersticas surpreendentes, senhor Langdon, que a tornam um bocado perigosa. Calcula-se que uma amostra de dez miligramas, do tamanho de um gro de areia, contenha tanta energia quanto umas 200 toneladas de combustvel comum de foguetes.
    A cabea de Langdon estava girando outra vez.
      a fonte de energia do futuro. Mil vezes mais poderosa do que a energia nuclear. Cem por cento eficiente. Sem produzir derivados, subprodutos. Sem produzir radiao. Sem produzir poluio. Alguns gramas bastariam para suprir de energia uma grande cidade durante uma semana.
    Gramas? Langdon recuou alguns passos, inquieto.
     No se preocupe  repetiu Vittoria.  Essas amostras so fraes minsculas de um grama, milionsimos. Relativamente inofensivas.  Ela estendeu a mo novamente para o tubo e desencaixou-o de sua plataforma de recarregamento.
    Kohler estremeceu ligeiramente, mas no interferiu. Quando o tubo foi solto, ouviu-se um bipe agudo e acendeu-se um pequeno mostrador luminoso perto da sua base. Os dgitos vermelhos piscavam, em uma contagem regressiva de 24 horas.
    24:00:00...
    23:59:59...
    23:59:58...
    Inquietante como uma bomba-relgio, pensou Langdon, acompanhando a seqncia descendente dos nmeros.
     A bateria  explicou Vittoria  vai funcionar durante 24 horas completas antes de acabar. Para recarreg-la, basta colocar o tubo de volta no lugar. Foi projetada como medida de segurana, mas tambm  conveniente para transporte.  Transporte?  Kohler parecia ter sido fulminado por um raio.  Voc leva isso para fora do laboratrio?
     Claro que no  disse Vittoria.  Mas a mobilidade nos permite estud-lo.
    Vittoria levou os dois para a extremidade da sala, puxou uma cortina atrs da qual havia uma janela, que por sua vez revelou um amplo quarto. As paredes, o piso e o teto haviam sido inteiramente revestidos de ao. Langdon lembrou-se do tanque de um petroleiro em que viajara para Papua, Nova Guin, para estudar a pintura corporal Hanta.
      um tanque de aniquilamento  declarou Vittoria.
    Kohler levantou a cabea.
     Voc consegue observar de fato os aniquilamentos?
     Meu pai era fascinado pela fsica do Big-Bang. Uma enorme quantidade de energia vinda de minsculos gros de matria.  Vittoria puxou uma gaveta de ao embutida sob a janela. Colocou o tubo dentro dela e fechou-a. Em seguida, moveu uma alavanca ao lado da gaveta. Logo depois, o tubo apareceu do outro lado do vidro, deslizando suavemente em um amplo movimento circular pelo cho de metal at parar perto do centro do aposento.
    Vittoria deu um sorriso tenso.
     Vocs esto prestes a assistir a seu primeiro aniquilamento matria-antimatria. Alguns milionsimos de grama. Uma amostra relativamente minscula.
    Langdon olhou para o tubo de antimatria pousado no cho do enorme tanque. Kohler tambm se virou para a janela, com ar de incerteza.
     Normalmente  explicou Vittoria , teramos de esperar as 24 horas completas at a bateria acabar, mas esta cmara tem ms sob o piso que podem anular o efeito da bateria, fazendo a antimatria sair do estado de suspenso. E, quando matria e antimatria se tocam...
     Aniquilamento  murmurou Kohler.
     Mais uma coisa  disse ela.  A antimatria libera energia pura.  100 por cento de converso de massa em ftons. Por isso, no olhem diretamente para a amostra. Protejam os olhos.
    Langdon costumava ser cuidadoso, mas achou que Vittoria estava sendo teatral demais. No olhem direto para a amostra! O tubo encontrava-se a mais de 30 metros de distncia, atrs de uma parede de plexiglas fum. Alm do mais, a partcula nem se enxergava dentro do tubo, invisvel, microscpica. Proteger meus olhos? O quanto de energia aquele gr ozinho poderia...
    Vittoria apertou um boto.
    E a claridade cegou Langdon instantaneamente. Um ponto brilhante de luz cintilou no tubo e depois explodiu para fora em uma onda de choque de luz que se irradiou em todas as direes, indo de encontro  janela diante dele com uma fora tremenda. Ele recuou quando a detonao sacudiu a cmara. A luz ofuscou por um momento, incandescente, cortante, e depois se recolheu depressa, absorvendo-se em si mesma e transformando-se em um cisco diminuto que desapareceu, virou um nada. Langdon piscou, com dor, aos poucos recuperando a viso. Apertou os olhos. O tubo que estivera no cho desaparecera completamente. Evaporara-se. No havia sequer vestgio dele.
    Boquiaberto, ele exclamou:
    -D... Deus!
    Vittoria balanou tristemente a cabea.
     Era exatamente o que meu pai dizia. 

CAPTULO 23

    Kohler estava voltado para a cmara de aniquilamento, completamente embasbacado com o espetculo que acabara de presenciar. Ao lado dele, Robert Langdon parecia ainda mais estupefato.
     Quero ver meu pai  exigiu Vittoria.  J lhe mostrei o laboratrio. Agora, quero ver meu pai.
    Kohler virou-se devagar, aparentemente no a escutando.
     Por que esperaram tanto, Vittoria? Voc e seu pai deveriam ter-me contado logo sobre essa descoberta.
    Vittoria encarou-o. Quantas razes quer que eu apresente?
     Diretor, podemos falar sobre isso mais tarde. Neste momento, quero ver meu pai.
     Sabe o que essa tecnologia implica?
     Claro  respondeu ela, rspida.  Dinheiro para o CERN. Muito. Agora, quero...
     Foi por isso que mantiveram segredo?  perguntou Kohler, claramente tentando faz-la engolir a isca.  Porque temiam que o conselho e eu votssemos para que fosse licenciada?
     Deveria ser licenciada  Vittoria disparou de volta, sentindo-se obrigada a discutir.  A antimatria  uma tecnologia importante. Mas tambm  perigosa. Meu pai e eu queramos tempo para aperfeioar os procedimentos e torn-la segura. 
     Ou seja, vocs no confiaram que o conselho de diretores colocasse a cincia prudente antes da ganncia financeira.
    Vittoria surpreendeu-se com a indiferena no tom de voz dele.
     Havia ainda outras questes a considerar  disse ela.  Meu pai e eu queramos apresentar a antimatria sob uma luz adequada.
     O que quer dizer, exatamente...?
    O que ele acha que quero dizer?
     Matria vinda da energia? Algo vindo do nada?  praticamente uma prova de que o Gnese  uma possibilidade cientfica.
     Ento, seu pai no queria que as implicaes da descoberta se perdessem em uma investida furiosa de comercialismo?
     De certa forma,  isso mesmo.
     E voc?
    As preocupaes dela, ironicamente, eram um tanto contrrias. O comercialismo era crucial para o sucesso de qualquer nova fonte de energia. Embora a antimatria tivesse um tremendo potencial como fonte de energia eficiente e no-poluente, se fosse divulgada prematuramente corria o risco de ser difamada pelos polticos e sofrer os mesmos fracassos de relaes pblicas que haviam arrasado com as energias nuclear e solar. A energia nuclear proliferara antes de se tornar segura, e tinham acontecido acidentes. A energia solar proliferara antes de se tornar eficiente e muita gente perdera dinheiro. As duas tecnologias haviam adquirido m reputao e murchado antes de serem colhidas.
     Meus interesses  disse Vittoria  eram um pouco menos elevados do que o de unir cincia e religio.
     O meio ambiente  sugeriu Kohler, confiante.
     Energia ilimitada. O fim da minerao de carvo de superfcie. O fim da poluio. Da radiao. A tecnologia da antimatria poderia salvar o planeta.
     Ou destru-lo  objetou Kohler, sarcstico.  Dependendo de quem o usasse e para qu.  Uma frieza emanava das formas aleijadas de Kohler.
     Quem mais sabia disso?  perguntou ele.
     Ningum  Vittoria responde.  J lhe disse.
     Ento, por que acha que mataram seu pai?
    Os msculos de Vittoria se retesaram.
     No tenho a menor idia. Ele tinha inimigos aqui no CERN, como sabe, mas no poderia haver nenhuma ligao com a antimatria. Juramos um ao outro manter sigilo durante mais alguns meses at estarmos devidamente preparados.
     E voc tem certeza de que seu pai manteve esse voto de silncio?
    Vittoria zangou-se.  Meu pai soube manter votos mais difceis do que esse!
     E voc no contou a ningum?
     Claro que no!
    Kohler deixou escapar um suspiro. Fez uma pausa, como se tivesse escolhendo as palavras seguintes com cuidado.
     Vamos supor que algum tenha descoberto. E que tenha conseguido entrar no laboratrio. O que voc imagina que essa pessoa poderia querer? Seu pai guardava anotaes aqui embaixo? Alguma documentao sobre o processo criativo?
     Diretor, fui muito paciente. Preciso de algumas respostas agora. O senhor continua falando sobre uma invaso do laboratrio mesmo tendo visto o scanner de retina. Meu pai era muito atento  segurana e ao sigilo.
     Seja um pouco mais tolerante comigo  replicou Kohler, espantando-a.
     O que poderia estar faltando?
     No tenho noo.  Irritada, Vittoria correu os olhos pelo laboratrio. Conferiu todas as amostras de antimatria. A rea de trabalho de seu pai parecia em ordem.  Ningum entrou aqui  declarou ela.  Tudo aqui em cima parece estar bem.
    Kohler ficou surpreso.
     Aqui em cima?
    Vittoria falara sem pensar.
     , aqui no laboratrio de cima.
     Vocs esto usando o laboratrio de baixo tambm?
     Para armazenamento.
    Kohler deslizou sua cadeira na direo dela, tossindo outra vez.
     Voc est usando a cmara Haz-Mat para armazenamento? Armazenamento de qu?
    Material perigoso, ora essa! Vittoria estava perdendo a pacincia.
     Antimatria.
    Kohler ergueu o corpo apoiando-se nos braos de sua cadeira.
     Existem outros espcimes? Por que diabos no me disse?
     Estou dizendo agora  rebateu ela.  E o senhor mal me deu uma oportunidade!
     Temos de verificar esses espcimes  disse Kohler.  Agora.
     Esse espcime  corrigiu Vittoria.  No singular. E o espcime est bem guardado. Ningum jamais poderia...
     S um?  Kohler hesitou.  E por que no est aqui em cima?
     Meu pai queria que ficasse sob o leito de rocha como precauo.  maior do que os outros. Os olhares alarmados que Langdon e Kohler trocaram no passaram despercebidos por Vittoria. Kohler aproximou-se novamente dela:
     Vocs criaram um espcime maior do que o de quinhentos nanogramas?
     Foi necessrio  justificou Vittoria.  Tnhamos de provar que o limiar de subsdio/rendimento poderia ser cruzado com segurana.
    Segundo ela, a questo principal relacionada a novas fontes de combustvel era sempre a de subsdio versus rendimento, ou seja, quanto dinheiro era preciso gastar para obter o combustvel. Instalar uma perfuratriz de petrleo para produzir um nico barril seria um empreendimento perdido. Entretanto, se essa mesma perfuratriz, com um acrscimo mnimo de despesa, conseguisse produzir milhes de barris, ento o negcio valeria a pena. O mesmo se aplicava  antimatria. Ativar 25 quilmetros de eletromagnetos para criar um espcime diminuto de antimatria gastava mais energia do que a antimatria produzida continha. Para provar que a antimatria era eficiente e vivel, fora necessrio criar espcimes de tamanho maior.
    O pai de Vittoria relutara em criar um grande espcime, mas ela insistira muito que o fizesse. Argumentava que, para a antimatria ser levada a srio, eles teriam de provar duas coisas: que era possvel produzir quantidades que tornariam o custo compensador e que os espcimes poderiam ser armazenados com segurana. No final, ela vencera e o pai concordara a contragosto. Entretanto, no sem determinar algumas diretrizes firmes com relao a sigilo e acesso. A antimatria, seu pai fizera questo, ficaria guardada em Haz-Mat  uma pequena cavidade de granito localizada a uns 30 metros mais abaixo do solo. Aquele espcime seria seu segredo particular. E s os dois teriam acesso a ele.
     Vittoria?  insistiu Kohler, a voz tensa.  De que tamanho  esse espcime que voc e seu pai criaram?
    Vittoria sentiu um estranho prazer. Sabia que a quantidade iria chocar at mesmo o grande Maximilian Kohler. Visualizou a antimatria l embaixo. Uma imagem incrvel. Suspensa dentro do tubo, perfeitamente visvel a olho nu, danava uma diminuta esfera de antimatria. No se tratava dessa vez de um gro microscpico. Era uma gotcula do tamanho de uma bateria BB.
    Vittoria respirou fundo.
     Tem 250 miligramas.
    O sangue fugiu do rosto de Kohler.
     O qu!  Ele teve um acesso de tosse.  Duzentos e cinqenta miligramas? Isso se converte em... quase cinco quilotons!
    Quilotons. Vittoria detestava aquela palavra. Ela e o pai nunca a usavam. Um quiloton era igual a 1.000 toneladas de TNT. Quilotons eram para armas. Msseis. Poder destrutivo. Vittoria e seu pai s falavam de eltron-volts e joules, produo construtiva de energia.
     Essa quantidade de antimatria pode literalmente liquidar tudo em um raio de quase um quilmetro!  exclamou Kohler.
     Sim, se for aniquilada toda de uma vez  revidou Vittoria , o que ningum jamais far!
     Exceto quem no tenha conhecimento disso! Ou se as suas baterias falharem!
    Kohler j se dirigia para o elevador.
     Razo por que meu pai a mantinha em Haz-Mat com dispositivos de energia  prova de falhas e um sistema de segurana a mais.
    Kohler virou-se, esperanoso.
     Vocs tm segurana adicional em Haz-Mat?
     Sim, um segundo scanner de retina.
    Kohler s pronunciou trs palavras.
     Vamos descer. Agora.
***
    O elevador de carga despencou como uma pedra mais trinta metros para dentro da terra.
    Vittoria percebeu que havia medo nos dois homens  medida que o elevador descia. O rosto habitualmente impassvel de Kohler estava retesado. Eu sei que o espcime  enorme, pensou ela, mas as precaues que tomamos so...
    Chegaram ao fundo.
    O elevador se abriu e Vittoria saiu na frente pelo corredor mal iluminado. Adiante, o corredor terminava em uma grande porta de ao. Haz-Mat. O scanner de retina era idntico ao do andar de cima. Ela se aproximou. Com cuidado, alinhou seu olho com a lente.
    E recuou. Algo estava errado. A lente em geral imaculada estava respingada, manchada com alguma coisa que se parecia com... sangue? Confusa, ela se virou para os dois homens e deu com seus rostos cor de cera. Tanto Kohler quanto Langdon estavam plidos, os olhos fixos no cho perto dos ps dela.
    Vittoria acompanhou a direo do olhar deles...
     No!  gritou Langdon, inclinando-se para ela. Mas era tarde demais.
    A viso de Vittoria ficou presa ao objeto no cho. Era-lhe ao mesmo tempo totalmente estranho e intimamente familiar.
    Levou apenas um instante.
    Ento, com uma sensao vertiginosa de horror, ela soube o que era. Olhando-a do cho, atirado ali como se fosse lixo, havia um globo ocular. Ela teria reconhecido aquele tom de castanho em qualquer lugar. 

CAPTULO 24

    O tcnico de segurana prendeu a respirao quando seu chefe se inclinou por cima de seu ombro, examinando a bancada de monitores de vigilncia diante dos dois. Passou-se um minuto.
    O silncio do chefe era de se esperar, disse o tcnico para si mesmo. O chefe era um homem que seguia rigidamente o protocolo. No chegara ao comando de uma das foras de segurana de elite do mundo por falar primeiro e pensar depois.
    Mas o que ele estaria pensando?
    O objeto que eles observavam no monitor era um tipo de tubo, um cilindro com laterais transparentes. At a, era fcil. O resto  que era difcil.
    Dentro do recipiente, como se por algum efeito especial, uma pequena gota de lquido metlico parecia flutuar no vazio. A gotcula aparecia e desaparecia com o piscar da luz vermelha robtica de um mostrador digital marcando uma contagem resolutamente descendente, o que fazia o tcnico se arrepiar todo.
     D para clarear o contraste?  perguntou o comandante, fazendo o tcnico sobressaltar-se.
    O tcnico seguiu a instruo e a imagem clareou um pouco. O comandante curvou-se para a frente, fixando os olhos em algo que acabara de se tornar visvel na base do recipiente.
    O tcnico acompanhou o olhar de seu chefe. Quase indistinto, impresso ao lado do mostrador, havia um acrnimo. Quatro letras maisculas brilhavam nos fachos intermitentes de luz.
     Fique aqui  determinou o comandante.  No diga nada a ningum. Eu cuido disso. 

CAPTULO 25

    Haz-Mat. Cinqenta metros abaixo do solo.
    Vittoria Vetra cambaleou para a frente, quase indo de encontro ao scanner. Percebeu que o americano se precipitava para ajud-la, para ampar-la. No cho a seus ps, o globo ocular de seu pai estava voltado para cima. Ela sentiu a presso nos pulmes, o ar escapando. Arrancaram o olho dele! Seu mundo girava em um redemoinho. Kohler falava perto dela, pressionando-a. Langdon guiava-a. Como em um sonho, viu-se olhando no scanner de retina. O mecanismo emitiu um bipe.
    A porta deslizou e se abriu.
    Mesmo com o terror do olho do pai assombrando sua alma, Vittoria pressentiu que um outro motivo de terror a esperava l dentro. Quando ergueu o olhar anuviado para o interior do aposento, confirmou-se o captulo seguinte do pesadelo. A solitria coluna de recarga encontrava-se vazia.
    O tubo que ficava acoplado  coluna se fora. Haviam cortado o olho de seu pai para roub-lo. As implicaes vieram depressa demais para que ela as compreendesse por completo. Tudo resultara contrrio ao esperado. O espcime destinado a provar que a antimatria era uma fonte de energia segura e vivel havia sido roubado. Mas ningum sequer sabia que esse espcime existia! A verdade, contudo, era irrefutvel. Algum descobrira. Ela no conseguia imaginar quem poderia ser. At Kohler, que, dizia-se, sabia de tudo no CERN, claramente desconhecia a existncia do projeto.
    Seu pai estava morto. Assassinado por ser um gnio.
    Enquanto a dor apertava seu corao, uma nova emoo tomava forma na conscincia de Vittoria. Muito pior. Esmagadora. Mortificando-a. Essa emoo era a culpa. Culpa incontrolvel, implacvel. Havia sido ela quem convencera o pai a criar o espcime. A contragosto. E ele morrera por causa disso.
    Um quarto de grama...
    Como qualquer tecnologia  o fogo, a plvora, o motor de combusto , nas mos erradas, a antimatria podia ser nefasta. Muito nefasta. A antimatria era uma arma letal. Potente e incontrolvel. Uma vez removida de sua plataforma de recarga no CERN, comearia a inexorvel marcao regressiva no contador. Seria como um trem desgovernado.
    E quando o tempo se esgotasse...
    Uma luz cegante. O rugido de um trovo. Incinerao espontnea. Apenas o claro... e uma cratera vazia. Uma imensa cratera vazia. A imagem da serena genialidade de seu pai sendo usada como ferramenta de destruio era como um veneno em seu sangue. A antimatria era a arma terrorista por excelncia. No possua peas de metal a serem identificadas por detetores de metal, no continha elementos qumicos que pudessem ser rastreados por ces, no tinha detonador a ser desativado se as autoridades localizassem o recipiente. A contagem regressiva comeara.
    Langdon no sabia mais o que fazer. Pegou seu leno e cobriu com ele o olho de Leonardo Vetra no cho. Vittoria parara na entrada da cmara Haz-Mat, no rosto uma uma mistura de sofrimento e pnico. Langdon dirigiu-se instintiva mente para ela outra vez, mas Kohler interveio.
     Senhor Langdon?  disse ele, a face inexpressiva. Fez sinal para que Langdon se afastasse para no serem ouvidos. O outro seguiu-o relutante, deixando Vittoria entregue a si mesma. 
     O senhor  o especialista  disse Kohler, em um sussurro enftico.  Quero saber o que esses desgraados desses Illuminati pretendem fazer com a antimatria.
    Langdon tentou se concentrar. A despeito de toda a loucura a seu redor, sua primeira reao foi lgica. Rejeio acadmica. Kohler ainda estava fazendo suposies, suposies impossveis.
     Os Illuminati esto extintos, senhor Kohler, eu lhe garanto. Esse crime poderia ter qualquer explicao, talvez um outro funcionrio do CERN tenha descoberto algo sobre o trabalho do senhor Vetra e achado que o projeto seria perigoso demais para prosseguir.
    Kohler admirou-se.
     O senhor acredita que esse seja um crime de conscincia, senhor Langdon? Absurdo. Quem matou Leonardo Vetra queria apenas uma coisa: a amostra de antimatria. E sem dvida tem planos de us-la.
     Quer dizer, terrorismo.
     Com certeza.
     Mas os Illuminati no eram terroristas.
     Diga isso a Leonardo Vetra.
    Havia um fundo de verdade na afirmao. Leonardo Vetra fora de fato marcado a ferro em brasa com o smbolo dos Illuminati. De onde viera aquilo? A marca sagrada seria uma mistificao difcil demais para ser usada por algum que quisesse despistar lanando as suspeitas em outro lugar. Deveria haver uma outra explicao. Mais uma vez, Langdon se viu forado a considerar o implausvel. Se os Illuminati ainda estivessem ativos e se tivessem roubado a antimatria, qual seria a sua inteno? Qual seria o seu alvo? A resposta que sua mente forneceu foi instantnea. Langdon descartou-a igualmente depressa.  verdade que os Illuminati tinham um inimigo bvio, mas um ataque terrorista em larga escala a esse inimigo era inconcebvel. E em total desacordo com o carter da fraternidade. Sim, os Illuminati haviam matado pessoas, mas indivduos, alvos cuidadosamente escolhidos. Destruio em massa, de certa forma, era algo mais grosseiro. Langdon fez uma pausa. Entretanto, refletiu, haveria uma eloqncia majestosa naquilo, a antimatria, proeza cientfica definitiva, sendo usada para fazer desaparecer...
    Recusava-se a aceitar aquele pensamento absurdo. E disse subitamente:
     Existe uma explicao lgica alm do terrorismo.
    Kohler esperou que ele continuasse.
    Langdon procurou pr em ordem o raciocnio. Os Illuminati sempre haviam exercido um poder extraordinrio utilizando-se de recursos financeiros. Eles controlavam bancos. Guardavam lingotes de ouro e prata. Dizia-se inclusive que possuam a pedra preciosa mais valiosa do mundo, o Diamante Illuminati, um diamante de grandes propores, absolutamente perfeito.
     Dinheiro  disse Langdon.  A antimatria pode ter sido roubada para a obteno de ganho financeiro.
    Kohler demonstrou incredulidade.
     Ganho financeiro? Onde se pode vender uma gotcula de antimatria?
     No a amostra  rebateu Langdon.  A tecnologia. A tecnologia da anti-matria deve valer uma fbula. Talvez algum a tenha roubado para analis-la e fazer P&D  Pesquisa e Desenvolvimento.
     Espionagem industrial? Aquele tubo vai durar s 24 horas at as baterias acabarem. Os pesquisadores explodiriam antes de conseguirem descobrir qualquer coisa.
     Poderiam recarreg-las antes que explodissem. Poderiam construir uma plataforma compatvel de recarregamento, igual s daqui do CERN.
     Em 24 horas?  desafiou Kohler  Mesmo que roubassem o projeto, um recarregador como aquele levaria meses para ser construdo, no horas!
     Ele tem razo  disse Vittoria, a voz fraca.
    Os dois homens se viraram. Vittoria aproximava-se, os passos to trmulos quanto suas palavras.
     Ele tem razo. Ningum conseguiria projetar e construir um recarregador como aquele a tempo. S a interface levaria semanas. Filtros de fluxo, sistemas de servocontrole das bobinas, ligas condicionadoras de fora, todos calibrados para o grau de energia especfico da pea.
    Langdon franziu o cenho. No havia mais o que discutir. A pea que continha a antimatria no podia ser simplesmente ligada a uma tomada na parede. Uma vez removido do CERN, o tubo especial iniciava uma viagem de ida sem volta, uma viagem de 24 horas rumo ao fim, ao esquecimento.
    O que deixava apenas uma concluso muito perturbadora.
     Precisamos chamar a Interpol  disse Vittoria. At para si mesma, sua voz soava distante.  Temos de chamar as autoridades competentes. Agora, j.
    Kohler meneou a cabea.
     De jeito nenhum.
    Essas palavras atordoaram-na.
     Por que no?
     Voc e seu pai puseram-me em uma situao muito difcil.
     Diretor, precisamos de ajuda. Temos de encontrar aquele tubo e traz-lo de volta para c antes que algum se machuque.  nossa responsabilidade!
     Temos a responsabilidade de pensar  disse Kohler, com dureza na voz.
     Esta situao pode ter repercusses muito, muito srias para o CERN.
     Est preocupado com a reputao do CERN? Sabe o que aquele material poderia fazer com uma rea urbana? Tem um raio de exploso de oitocentos metros! Nove quarteires!
     Talvez voc e seu pai devessem ter levado isso em considerao antes de criarem o espcime.
    Vittoria teve a sensao de estar sendo apunhalada.
    Mas... ns tomamos todas as precaues.
     Ao que tudo indica, no foram suficientes.
     E ningum sabia da existncia da antimatria.
    Ela se deu conta, evidentemente, de que aquele argumento era absurdo. Claro que algum soubera. Algum descobrira.
    Vittoria no contara a ningum. Restavam ento apenas duas explicaes. Ou seu pai fizera confidncias a algum sem dizer nada a ela, o que no fazia sentido porque havia sido ele quem exigira que jurassem segredo, ou ela e o pai haviam sido monitorados. Quem sabe, pelo telefone celular? Eles haviam falado um com o outro algumas vezes enquanto Vittoria estava viajando. Teriam falado demais? Era possvel. Havia tambm os e-mails de ambos. Mas eles ha via sido discretos, no ? O sistema de segurana do CERN? Teriam sido monitorados sem que soubessem?
    Nada daquilo importava mais. O que fora feito estava feito. Meu pai est morto.
    O pensamento incitou-a a agir. Tirou o telefone celular do bolso do short.
    Kohler acelerou a cadeira em sua direo, tossindo violentamente, os olhos faiscando de raiva.
     Quem voc est chamando?
     A mesa telefnica do CERN. Eles podem nos ligar com a Interpol.
     Pense!  Kohler esgasgou-se, a cadeira freando com um guincho na frente dela.  Ser que  assim to ingnua? Aquele tubo pode estar em qualquer lugar do mundo agora! Nenhum servio secreto vai ser capaz de se mobilizar para encontr-lo a tempo.
     Ento no fazemos nada?  Vittoria sentia remorsos por desafiar um homem de sade to frgil, mas o diretor estava de tal maneira fora dos eixos que ela no o reconhecia mais.
     Fazemos o que  mais inteligente  disse Kohler.  No colocamos a reputao do CERN em risco envolvendo autoridades que de qualquer modo no podem ajudar. Ainda no. No sem antes pensar.
    Vittoria admitia que havia uma certa lgica na argumentao dele, mas sabia que a lgica, por definio, era destituda de responsabilidade moral. Seu pai vivera pela responsabilidade moral: cincia cautelosa, compromisso de prestar contas, f na bondade inerente do homem. Vittoria tambm acreditava nestas coisas, mas as via em termos de carma. Afastou-se de Kohler e abriu o telefone com um gesto rpido.
     Voc no pode fazer isso  ele disse.
     Tente me impedir.
    Ele no saiu do lugar.
    No instante seguinte, Vittoria percebeu por qu. quela profundidade, o celular no tinha sinal.
    Furiosa, ela seguiu para o elevador. 

CAPTULO 26

    O Hassassin encontrava-se no fim do tnel de pedra. Sua tocha ainda ardia, a fumaa misturando-se com o cheiro de musgo e de ar parado. O silncio o rodeava. A porta de ferro que lhe fechava o caminho parecia to velha quanto o prprio tnel, enferrujada mas ainda firme. Ele esperou na penumbra, confiante.
    Estava quase na hora.
    Janus prometera que algum l de dentro abriria a porta. O Hassassin estava encantado com aquela traio. Teria esperado a noite inteira diante da porta para realizar sua tarefa, mas pressentia que isso no seria necessrio. Estava trabalhando para homens determinados.
    Minutos depois, precisamente  hora combinada, ouviu o rudo alto de chaves pesadas entrechocando-se do outro lado. O atrito do metal contra o metal  medida que mltiplas fechaduras se desencaixavam. Uma a uma, trs imensas cavilhas rangeram, abrindo-se. As dobradias estalavam, pois no tinham sido usadas durante sculos. Por fim, tudo foi destrancado.
    Ento, fez-se silncio.
    O Hassassin esperou, paciente, os cinco minutos, exatamente como lhe haviam dito que fizesse. Depois, com eletricidade correndo-lhe no sangue, ele deu um empurro. A grande porta se abriu.

CAPTULO 27

     Vittoria, no vou permitir!  Kohler respirava com dificuldade e foi piorando enquanto o elevador subia.
    Vittoria isolou-se dele. Ansiava por um refgio, por algo familiar naquele local que no se parecia mais com sua casa. Sabia que no poderia ser. Naquele momento, precisava engolir a tristeza e agir. Procure um telefone.
    Robert Langdon encontrava-se a seu lado, silencioso como sempre. Vittoria desistira de tentar adivinhar quem seria ele. Um especialista? Kohler no poderia ter sido menos preciso. O senhor Langdon pode nos ajudar a encontrar O assassino de seu pai. Langdon no estava ajudando em nada. Sua cordialidade e bondade pareciam bastante genunas, mas era evidente que estava escondendo alguma coisa. Os dois homens estavam.
    Kohler investiu contra ela outra vez.
     Como diretor do CERN, tenho responsabilidades com o futuro da cincia. Se voc ampliar isto, transformar a situao em um incidente internacional e o CERN for afetado...
     Futuro da cincia?  Vittoria voltou-se para ele.  O senhor realmente planeja deixar de prestar contas e no admitir que a antimatria saiu do CERN? Pretende ignorar a vida das pessoas que pusemos em perigo?
     Ns no pusemos  contra-atacou Kohler.  Voc, voc e seu pai, sim.
    Vittoria virou o rosto para o lado.
     E no que se refere a vidas em perigo  completou Kohler , a prpria vida  que est em questo. Voc sabe que a tecnologia da antimatria tem enormes implicaes para a vida neste planeta. Se o CERN falir, destrudo por um escndalo, todos saem perdendo. O futuro do homem est nas mos de organizaes como o CERN, de cientistas como voc e seu pai, que trabalham para resolver os problemas do amanh.
    Vittoria j escutara antes as teorias de Kohler a respeito de Deus e a Cincia, e nunca as engolira. A prpria cincia causava a metade dos problemas que tentava resolver. O Progresso era a derradeira doena maligna da Me Terra.
     O avano cientfico traz riscos  argumentava Kohler.  Sempre trouxe. Programas espaciais, pesquisa gentica, medicina, todos cometem erros. A cincia precisa sobreviver a seus prprios enganos e a qualquer custo. Para o bem de todos.
    Vittoria constatou a notvel capacidade de Kohler para ponderar questes morais com imparcialidade cientfica. O intelecto dele parecia ser o produto de um glido divrcio com seu prprio esprito interior.
     O senhor acredita que o CERN seja to crucial para o futuro da Terra que deva ficar imune a responsabilidades morais?
     No me venha falar de moral. Voc passou dos limites quando criou aquele espcime e botou todas as nossas instalaes em risco. Estou tentando proteger no s os empregos dos trs mil cientistas que trabalham aqui, como tambm a reputao de seu pai. Pense nele. Um homem como seu pai no merece ser lembrado como o criador de uma arma de destruio em massa.
    Ele atingira o alvo certo. Fui eu quem convenceu meu pai a criar aquele espcime. A culpa de tudo isso  minha! Quando a porta se abriu, Kohler ainda estava falando. Vittoria saiu do elevador, pegou seu telefone e tentou de novo.
    Nada de sinal. Droga! Ela se encaminhou para a porta.
     Vittoria, pare.  A respirao do diretor soava mais asmtica enquanto ele acelerava sua cadeira atrs da moa.  V mais devagar. Precisamos falar.
     Basta di parlare!
     Pense em seu pai  insistiu Kohler.  O que ele faria?
    Ela continuou andando.
     Vittoria, no fui totalmente sincero com voc.
    Ela diminuiu o ritmo.
     No sei o que eu estava pensando  disse Kohler , s queria proteger voc. Diga o que quer. Temos de trabalhar juntos nesta questo.
    Vittoria parou perto do laboratrio mas no se virou.
     Quero encontrar a antimatria. E quero saber quem matou meu pai.
    Ela ficou esperando. Kohler suspirou.
     Ns j sabemos quem matou seu pai. Sinto muito.
    Surpresa, ela se virou para ele.
     Vocs o qu?
     Eu no sabia como contar a voc.  difcil...
     Vocs sabem quem matou meu pai?
     Temos uma noo, sim. O assassino deixou uma espcie de carto de visitas. Foi por isso que chamei o senhor Langdon. O grupo que assumiu a autoria do crime  a especialidade dele.
     O grupo? Um grupo terrorista?
     Vittoria, eles roubaram duzentos e cinqenta miligramas de antimatria.
    Vittoria olhou para Robert Langdon ali perto, parado. Tudo comeou a se encaixar. Isto explica o sigilo. Como no lhe ocorrera antes? Kohler ento havia chamado as autoridades, afinal. As autoridades. Agora, parecia bvio. Robert Langdon era norte-americano, de boa aparncia, conservador, provavelmente muito sagaz. Quem mais ele poderia ser? Ela deveria ter adivinhado desde o comeo. Sentiu uma renovada esperana ao se dirigir a ele.
     Senhor Langdon, quero saber quem matou meu pai. E tambm se sua agncia pode encontrar a antimatria.
    Langdon ficou embaraado.
     Minha agncia?
     O senhor  do servio secreto americano, suponho.  Na realidade... no, no sou.
    Kohler interveio.
     O senhor Langdon  professor de Histria da Arte na Universidade de Harvard.
    A informao caiu como um balde de gua fria em Vittoria.
     Professor de Arte?
     Ele  especialista em simbologia de cultos  suspirou Kohler.  Vittoria, acreditamos que a morte de seu pai foi parte de um culto satnico.
    As palavras ecoaram na mente dela sem serem assimiladas. Um culto satnico.
     O grupo que assumiu a autoria chama-se Illuminati.
    Vittoria olhou de um para outro, imaginando se seria uma brincadeira de mau gosto.
     Os Illuminati?  perguntou ela.  Como os Illuminati Bvaros?
     Voc j ouviu falar deles? - perguntou Kohler, admirado.
    Ela sentiu as lgrimas de frustrao se formando.
     Os Illuminati Bvaros: a Nova Ordem Mundial. Um jogo de computador. Metade dos fanticos por informtica daqui joga isso na Internet.  A voz dela falhou.  Mas no entendo...
    Langdon concordou.
      um jogo bem popular. Uma antiga fraternidade toma conta do mundo.  semi-histrico. No sabia que estava na Europa tambm.
     De que est falando?  disse Vittoria, exaltada.  Os Illuminati? Mas se trata de um jogo de computador!
     Vittoria  disse Kohler , os Illuminati so o grupo que alega responsabilidade pela morte de seu pai.
    Ela reuniu toda a coragem que pde encontrar para lutar contra as lgrimas. Fez fora para se controlar e avaliar a situao com lgica. Porm, quanto mais se concentrava, menos compreendia. Seu pai fora assassinado. Ocorrera uma grave falha de segurana no CERN. Havia uma bomba em contagem regressiva em algum lugar e ela era responsvel por isso. E o diretor chamara um professor de Histria da Arte para ajud-los a encontrar uma fraternidade mstica de satanistas
    Sentiu-se repentinamente muito s. Virou-se para ir embora, mas Kohler Postou-se  sua frente. Tirou algo do bolso, um papel de fax amassado, e entregou-o a ela.
    Ela cambaleou, horrorizada, ao ver a imagem.
     Eles o marcaram a fogo  disse Kohler.  Os desgraados marcaram o peito dele a fogo. 92 93 

CAPTULO 28

    A secretria Sylvie Baudeloque estava em pnico. Andava de um lado para outro diante da porta da sala vazia do diretor. Onde diabos andar ele? O que fao agora?
    Havia sido um dia esquisito. Claro, todos os dias de trabalho com Maximilian Kohler tinham potencial para serem estranhos, mas o homem estivera em grande forma naquele.
     Encontre Leonardo Vetra!  ordenara ele quando Sylvie chegou naquela manh.
    Obedientemente, Sylvie enviara mensagem pelo pager, telefonara e mandara e-mails para Leonardo Vetra.
    E nada.
    Ento, Kohler sara mal-humorado, tudo indicava que para procurar Vetra ele prprio. Quando surgiu de volta algumas horas mais tarde, Kohler decididamente no parecia bem... no que ele alguma vez de fato parecesse bem, mas parecia pior do que de costume. Trancou-se no escritrio e ela o ouviu telefonar, falar, usar o computador, o fax. Depois, saiu de novo. E ainda no tinha voltado desde ento.
    Sylvie decidira ignorar as extravagncias de mais um melodrama kohleriano, mas ficou preocupada quando ele no apareceu na hora certa de suas injees dirias. O estado de sade do diretor exigia um tratamento regular e, quando ele decidia abusar, os resultados nunca eram agradveis: choque respiratrio, acessos de tosse e uma correria danada para o pessoal da enfermaria. s vezes, Sylvie achava que Maximilian Kohler tinha um desejo inconsciente de morrer.
    Ela considerou a possibilidade de mandar-lhe uma mensagem pelo pager para lembrar as injees, mas havia aprendido que o orgulho de Kohler no tolerava aquele tipo de gesto. Na semana anterior, ele havia ficado to enfurecido com um cientista visitante que demonstrara pena dele a ponto de se equilibrar nas pernas e atirar uma pasta na cabea do homem. O rei Kohler ficava surpreendentemente gil quando estava piss.
    No momento, todavia, a preocupao de Sylvie pela sade do diretor deixara de ser prioridade e fora substituida por um dilema bem mais urgente. A telefonista do CERN ligara cinco minutos antes, frentica, para dizer que tinha uma chamada importantssima para o diretor.
     Ele no est aqui, no pode atender agora  dissera Sylvie. Ento, a telefonista lhe disse quem estava chamando.
    Sylvie deu uma risada alta.
     Est brincando, no ?
    Escutou o que a outra dizia, incrdula.
     E a identificao dessa pessoa confirma...  Sylvie estava intrigada.  Est bem. Ser que voc pode perguntar ao...  Ela suspirou.  No. Est certo. Pea a ele para esperar. Vou localizar o diretor agora mesmo. Sei, j entendi. Vou fazer isso agora.
    Mas Sylvie no conseguira encontrar o diretor. Ligara trs vezes para o seu celular e todas as vezes ouvira a mesma mensagem: A linha est fora de rea ou desligada. Fora de rea? At onde ele poderia ter ido? Ento, Sylvie ligara para o bipe dele. Duas vezes. Sem resposta. Muito esquisito, ele no costumava agir assim. Chegara at a mandar um e-mail para o computador porttil dele. Nada. Como se o homem tivesse desaparecido da face da Terra.
    E agora, o que fao?  pensava, aflita.
    Alm de sair ela prpria procurando pelo CERN inteiro, Sylvie sabia que havia somente uma outra maneira de chamar a ateno do diretor. Ele no ia ficar nada satisfeito, mas o homem ao telefone no era algum que o diretor pudesse deixar esperando. E tambm parecia que a pessoa no estava muito disposta a ouvir que o diretor no fora encontrado.
    Impressionada com a prpria audcia, Sylvie tomou a deciso. Entrou na sala de Kohler e se dirigiu para a caixa de metal na parede atrs da escrivaninha dele. Abriu a portinhola, examinou os controles e encontrou o boto certo.
    Em seguida, respirou fundo e apanhou o microfone. 

CAPTULO 29

    Vittoria no se lembrava como eles haviam chegado ao elevador principal, mas l estavam eles. Subindo. Kohler encontrava-se atrs dela, a respirao ruidosa e difcil. O olhar preocupado de Langdon passava por ela como se atravessasse um fantasma. Ele lhe tirara o fax da mo e enfiara-o no bolso de seu palet, longe de sua vista, mas a imagem ainda lhe queimava a memria.
    Enquanto o elevador se deslocava, o mundo de Vittoria mergulhava na escurido. Papa! Em sua mente, ela ia ao encontro dele. Por um momento, no osis de sua memria, Vittoria estava com ele. Tinha nove anos de idade, correndo por colinas cheias de edelvais, o cu da Sua acima de suas cabeas.
    Papa! Papa!
    Leonardo Vetra estava rindo ao lado dela, radiante.
     O que , meu anjo?
     Papa!  ela ria, aconchegando-se a ele.  Faa uma pergunta sobre a matria!
     Sobre qual matria, filha, como posso saber?  alguma coisa nova que aprendeu na escola?
    E ela imediatamente caiu na gargalhada.
     Ora, papai, pergunte sobre pedras, rvores, tomos, qualquer coisa! Porque tudo  matria! Ah, agora enganei voc! Ele riu com ela.
     Voc inventou isso sozinha?
     Fui bem esperta, no fui?  Minha pequena Einstein!
    Ela fez cara feia.
     Ele tem um cabelo horrvel. Vi um retrato dele.  Mas tem uma boa cabea. J contei a voc o que ele provou?
    Os olhos dela se arregalaram, como se estivesse assustada.
     Papai! Voc prometeu!
     EMC2!  E fez ccegas nela.  E=MC2!
     Matemtica, no! Eu j disse! Detesto matemtica!
     Ainda bem que voc detesta, porque as meninas no tm permisso para aprender matemtica.
    Ela parou na mesma hora.
     No?!
     Claro que no. Qualquer pessoa sabe disso. Meninas brincam com bonecas. Meninos estudam matemtica. Nada de matemtica para as meninas. No tenho autorizao nem para falar sobre matemtica com as meninas.
     O qu? Mas isso no  justo!
     Regras so regras. Absolutamente nada de matemtica para as meninas.
    Vittoria ficou horrorizada.
     Mas brincar de bonecas  muito chato!
     Sinto muito  disse seu pai.  Eu poderia falar sobre matemtica com voc, mas se descobrirem...  E ele inspecionou as colinas desertas fingindo um ar aflito.
    Vittoria acompanhou o olhar dele.
     Est bem  ela cochichou.  Ento fale bem baixinho. Vittoria sobressaltou-se com o movimento do elevador. Abriu os olhos. O pai se fora.
    A realidade abateu-se sobre ela, envolvendo-a com suas garras geladas. Olhou para Langdon. A expresso de sincera preocupao que ele tinha no rosto aqueceu seu corao como a presena de um anjo da guarda, sobretudo em contraste com a frieza de Kohler.
    Um nico pensamento nitidamente consciente comeou a atormentar Vittoria com uma fora implacvel.
    Onde est a antimatria?
    A terrvel resposta viria minutos depois. 

CAPTULO 30

    Maximilian Kohler. Por gentileza, entre em contato com seu escritrio imediatamente.
    Raios de sol resplandecentes ofuscaram a viso de Langdon quando as portas do elevador se abriram no saguo principal. Antes que se dissipasse o eco do aviso no sistema de comunicao interna, todos os aparelhos eletrnicos na cadeira de rodas de Kohler comearam a apitar e zumbir simultaneamente. Seu pager. Seu telefone. Seu e-mail. Kohler ficou meio tonto diante das luzes que piscavam. O diretor voltara  superfcie e estava de novo ao alcance.
    Diretor Kohler. Por favor, ligue para seu escritrio.
    O som de seu nome nas caixas de som pareceu espantar Kohler.
    Ele levantou a cabea com ar zangado que, quase de imediato, se tornou preocupado. Os trs se entreolharam. Ficaram imveis por alguns segundos, como se toda a tenso entre eles se apagasse e fosse substituda por um s pressentimento a uni-los.
    Kohler tirou o telefone encaixado no apoio de brao de sua cadeira. Discou um ramal e esforou-se para conter um novo ataque de tosse. Vittoria e Langdon esperaram.
     Aqui  o diretor Kohler  disse ele, a respirao saindo com um chiado.
     Sim? Eu estava no subterrneo, fora de alcance.  Ele escutou, arregalando os olhos cinzentos.  Quem? Sim, transfira a ligao para mim.  Houve uma pausa.  Al? Aqui  Maximilian Kohler. Sou o diretor do CERN. Com quem estou falando?
    Os outros dois observavam em silncio enquanto ele escutava seu interlocutor.
     No acho prudente  Kohler disse finalmente  falar sobre isso ao telefone. Vou para a imediatamente.  Comeou a tossir outra vez.  Encontre-me no Aeroporto Leonardo Da Vinci. Dentro de 40 minutos.  J lhe faltava a respirao. Foi acometido por um ataque de tosse e, sufocando, mal conseguiu pronunciar as palavras.  Localizem o tubo depressa... estou indo.  E desligou o telefone.
    Vittoria correu para perto de Kohler, mas ele no conseguia mais falar. Ela pegou seu prprio telefone e chamou a enfermaria do CERN. 
    Langdon sentia-se como um navio na periferia de uma tempestade, abalado mas distante.  Encontre-me no Aeroporto Leonardo Da Vinci, ecoaram as palavras de Kohler. 
    Em um instante, as sombras incertas que haviam nublado a mente de Langdon durante toda a manh consolidaram-se em uma imagem vivida. No meio daquela confuso, ele sentiu uma porta se abrir dentro de si, como se algum limiar mstico fosse ultrapassado. O ambigrama. O padre-cientista morto. A antimatria. E agora, o alvo. A meno ao Aeroporto Leonardo Da Vinci s poderia significar uma coisa. Em um lampejo de absoluta conscientizao, ele soube que acabara de cruzar aquele limiar. Agora, acreditava.
    Cinco quilotons. Que se faa a luz.
    Dois paramdicos apareceram correndo pelo saguo vestidos de branco. Ajoelharam-se ao lado de Kohler e colocaram uma mscara de oxignio em seu rosto. Cientistas que circulavam pelo local pararam e postaram-se  distncia, observando.
    Kohler respirou fundo duas vezes, puxou a mscara para o lado e, ainda lutando para respirar, dirigiu-se a Vittoria e Langdon:
     Roma.
     Roma?  perguntou Vittoria.  A antimatria est em Roma? Quem telefonou?
    O rosto de Kohler contorceu-se, os olhos cinzentos marejados.
     A... Sua.
    Ele engasgou ao falar e os paramdicos puseram a mscara de volta em seu rosto. Quando se preparavam para lev-lo, Kohler estendeu a mo e agarrou o brao de Langdon.
    Langdon fez um gesto com a cabea. Ele sabia.
     V...  sussurrou Kohler sob a mscara.  V... Ligue para mim.
    E os paramdicos saram s pressas, empurrando-o. Vittoria permaneceu esttica, vendo-o afastar-se. Ento, voltou-se para Langdon.
     Roma? O que ele quis dizer com a Sua?
    Langdon pousou a mo no brao dela e disse em voz muito baixa:
     A Guarda Sua. As sentinelas juradas da Cidade do Vaticano.

CAPTULO 31

    O avio espacial X 33 decolou com um rudo estrondoso, inclinando-se para o sul em direo a Roma. A bordo, Langdon ia sentado em silncio. Os ltimos 15 minutos haviam sido como um borro. Agora que acabara de resumir para Vittoria a histria dos Illuminati e de seu pacto contra o Vaticano, comeava a se dar conta do alcance da situao.
    Que diabos estou fazendo?, ponderava ele. Deveria ter ido para casa quando ainda era possvel! No fundo, porm, sabia que de fato no fora possvel em nenhum momento.
    Seu bom senso recomendara em voz bem alta que voltasse para Boston. Ainda assim, a curiosidade acadmica de alguma forma vetara a prudncia. Tudo em que ele sempre acreditara sobre a extino dos Illuminati assemelhava-se de uma hora para outra a uma brilhante impostura. Um dos lados de sua cabea ansiava por obter provas, confirmao. Havia tambm uma questo de conscincia. Com Kohler doente e Vittoria sozinha, Langdon sabia que, caso os seus conhecimentos sobre os Illuminati pudessem ser de alguma ajuda, ele tinha a obrigao moral de estar ali.
    E havia mais a considerar. Embora tivesse vergonha de admitir, o horror inicial que sentira ao saber onde estava a antimatria referia-se no s ao perigo para as vidas humanas na Cidade do Vaticano, mas tambm para algo mais.
    A arte.
    A maior coleo de arte do mundo encontrava-se naquele instante em cima de uma bomba relgio. O Museu do Vaticano abrigava mais de 60 mil peas de valor incalculvel em 1.407 salas: Michelangelo, Da Vinci, Bernini, Botticelli. Langdon ponderava sobre a possibilidade de tirar as peas de l se fosse necessrio. Mas sabia que seria impossvel. Muitas eram esculturas que pesavam toneladas. Sem falar que alguns dos maiores tesouros eram arquiteturais, como a Capela Sistina, a Baslica de So Pedro, a famosa escadaria em espiral de Michelangelo que levava ao Museo Vaticano, testemunhos inestimveis do gnio criativo do homem. Langdon tentou calcular quanto tempo restaria ao tubo de antimatria.
     Obrigada por ter vindo  disse Vittoria em voz baixa.
    Langdon emergiu de seu devaneio e virou o rosto para ela. Vittoria estava sentada na poltrona do outro lado do corredor. Mesmo  luz fluorescente da cabine, havia uma aura de serenidade e domnio de si em torno dela, uma irradiao quase magntica de inteireza. Sua respirao tornara-se mais profunda, como se um lampejo de autopreservao se acendesse dentro dela... um desejo de justia e de desforra, despertado por seu amor de filha.
    Ela no tivera tempo de trocar seu short e sua blusa sem mangas, e as pernas queimadas de sol estavam arrepiadas com o frio da cabine. Instintivamente, Langdon tirou o palet e ofereceu-o a ela.
     Cavalheirismo americano?  Ela aceitou, agradecendo silenciosamente com o olhar.
    O avio balanou com um pouco de turbulncia e Langdon teve uma sensao de perigo. A cabine sem janelas pareceu-lhe apertada outra vez e ele tentou imaginar-se em um campo aberto. A idia, percebia, era irnica. Fora em um campo aberto que tudo acontecera. A escurido esmagadora. Afastou a lembrana de sua mente. Velha histria.
    Vittoria o observava.
     Acredita em Deus, senhor Langdon?
    Ele no esperava aquele tipo de pergunta. A seriedade na voz de Vittoria era ainda mais desconcertante do que a indagao. Se eu acredito em Deus? Esperava que pudessem conversar sobre um assunto mais leve para o tempo da viagem passar mais depressa.
    Um enigma espiritual, pensou Langdon.  assim que meus amigos me chamam. Apesar de ter estudado religio durante anos, no era um homem religioso. Respeitava o poder da f, a bondade das igrejas, a fora que a religio dava a tantas pessoas. Entretanto, para ele, a suspenso intelectual da descrena que era imperativa se algum verdadeiramente desejava crer havia sido sempre um obstculo grande demais para sua mente acadmica.
     Quero acreditar  ouviu-se dizendo.
    O tom da rplica de Vittoria no dava a entender que ela estivesse fazendo qualquer julgamento ou desafio.
     E por que no acredita?
    Ele deu uma risadinha.
     Bem, no  assim to fcil. Ter f requer entrega, aceitao cerebral de milagres, como a imaculada conceio e a interveno divina. E existem ainda os cdigos de conduta. A Bblia, o Coro, as escrituras budistas, em todos h exigncias semelhantes e penalidades semelhantes. Determinam que se eu no viver de acordo com certo cdigo, irei para o inferno. No consigo imaginar um Deus que governe desta maneira.
     Espero que no deixe seus alunos se esquivarem de perguntas assim com tanta desfaatez.
    O comentrio pegou-o desprevenido.
     O qu?
     Senhor Langdon, no perguntei se acredita no que o homem diz sobre Deus. Perguntei se acredita em Deus. Existe uma diferena. As escrituras sagradas so histrias... lendas e a histria da busca do homem para compreender sua prpria necessidade de significado. No pedi que desse sua opinio sobre literatura. Estou perguntando se acredita em Deus. Quando se deita sob as estrelas, no sente a presena do divino? No sente em seu ntimo que est diante da obra de Deus?
    Langdon refletiu um instante.
     Estou me intrometendo  desculpou-se ela.
     No,  que...
     O senhor com certeza deve debater assuntos de f com seus alunos.
     Sem parar.
     E imagino que deva fazer sempre o papel do advogado do diabo. Sempre estimulando as discusses.
    Langdon sorriu.
     Tambm deve ser professora.
     No, mas aprendi com um mestre. Meu pai era capaz de discutir os dois lados de uma Faixa de Moebius.
    Langdon riu, visualizando a engenhosa Faixa de Mbius, um anel torcido de papel que tecnicamente possui apenas um lado. Langdon vira aquela forma pela primeira vez nos trabalhos do artista M. C. Escher.
     Posso lhe fazer uma pergunta, senhorita Vetra?
     Prefiro que me chame de Vittoria. Senhorita Vetra faz com que me sinta velha.
    Ele suspirou intimamente, de repente se dando conta de sua prpria idade.
     Vittoria, e eu sou Robert.
     Voc ia fazer uma pergunta.
     Certo. Como cientista e filha de um padre catlico, o que voc pensa da religio?
    Ela fez uma pausa, afastando uma mecha de cabelo dos olhos.
     Religio  como um traje ou uma lngua. Gravitamos em torno das prticas com as quais fomos criados. No final, porm, todos proclamamos a mesma coisa. Que a vida tem um sentido. Que somos gratos ao poder que nos criou.
    A resposta intrigou Langdon.
     Ento, est dizendo que ser cristo ou muulmano depende do lugar onde se nasceu?
     No  bvio? Veja a difuso da religio pelo mundo afora.
     Quer dizer que a f  aleatria?
     Dificilmente. A f  universal. Nossos mtodos especficos para compreend-la so arbitrrios. Algumas pessoas rezam para Jesus, outras vo a Meca, outras estudam partculas subatmicas. No final, estamos todos apenas buscando a verdade, aquela que  maior do que ns mesmos.
    Langdon desejou que seus alunos fossem capazes de se expressar com tanta clareza. Ele prprio gostaria de saber se expressar com aquela clareza!
     E Deus?  ele perguntou.  Voc acredita em Deus?
    Vittoria ficou calada por um longo tempo.
     A cincia me diz que Deus tem de existir. Minha mente me diz que nunca vou compreender Deus. E meu corao me diz que no fui feita para isto.
    Isto  que  conciso, pensou ele.
     Ento, acredita que Deus  fato mas que nunca o compreenderemos.
     A compreenderemos  corrigiu ela, com um sorriso.  Seus ndios nativos tinham razo.
    Langdon deu uma risadinha.
     A Me Terra.
     Gaea. O planeta  um organismo. Todos ns somos clulas com diferentes finalidades. No entanto, somos entrelaados. Servindo uns aos outros. Servindo ao todo.
    Ouvindo-a falar, Langdon sentiu despertar dentro de si algo que no sentia h muito tempo. Havia uma limpidez cativante em seus olhos... uma pureza em sua voz. Ele se sentiu atrado.
     Senhor Langdon, deixe que eu lhe faa uma outra pergunta.
     Robert -corrigiu ele.  Senhor Langdon faz com que me sinta velho. Eu sou velho!
     Se no se importa, gostaria de saber como se envolveu com os Illuminati?
    Langdon pensou um pouco.
     Na verdade, foi por causa de dinheiro.
    Vittoria pareceu desapontada.
     Dinheiro? Consultoria, no ?
    Ele riu, percebendo como sua resposta fora interpretada.
     No, dinheiro como moeda de um pas.  Enfiou a mo no bolso da cala e tirou algumas notas. Encontrou uma de um dlar.  Fiquei fascinado com o culto quando soube que o dinheiro norte-americano traz um elemento da simbologia dos Illuminati.
    Vittoria semicerrou os olhos, sem saber se o levava a srio ou no.
    Langdon passou-lhe a nota.
     Olhe o verso. Est vendo o sinete oficial  esquerda?
    Ela virou a nota.
     A pirmide?
     , a pirmide. Sabe o que as pirmides tm a ver com a histria dos Estados Unidos?
    Vittoria deu de ombros. -
     Exato  disse Langdon.  Absolutamente nada.
     E por que  o smbolo central do seu sinete oficial?
      uma histria estranha  disse Langdon.  A pirmide  um smbolo secreto que representa a convergncia para cima, para a extrema fonte de Iluminao. Est vendo o que aparece em cima dela?
    Vittorja examinou a nota.
     Um olho dentro de um tringulo.
     Chama-se trinacria. J viu esse olho dentro do tringulo em algum outro lugar?
    Ela ficou em silncio um instante.
     Na realidade j vi, mas no sei muito bem onde.
     Na fachada de lojas manicas do mundo inteiro.
     O smbolo  manico?
     Na verdade, no,  dos Illuminati. Eles o chamavam de seu delta brilhante Um chamado para a mudana esclarecida. O olho significa a habilidade dos Illuminati de se infiltrarem e verem todas as coisas. O tringulo reluzente simboliza o esclarecimento, a instruo. E o tringulo  tambm a letra grega delta, que  o smbolo matemtico de...
     Mudana. Transio.
    Langdon sorriu.
     Esqueci que estava falando com uma cientista.
     Ento, est dizendo que o sinete oficial norte-americano  um chamado para a mudana esclarecida, que tudo v?
     Que alguns chamam de Nova Ordem Mundial.
    Vittoria estava espantada. Examinou a nota mais uma vez.
     A inscrio sob a pirmide diz Novus... Ordo...
     Novus Ordo Seculorum  completou Langdon.  Nova Ordem Secular.  Secular, querendo dizer no-religiosa?
     , no-religiosa. A frase no s enuncia claramente o objetivo dos Illuminati como contradiz flagrantemente a frase que est ao lado. Em Deus Confiamos.
    Aquelas informaes eram perturbadoras.
     Como se explica que toda essa simbologia tenha ido parar na moeda mais poderosa do mundo?
     Muitos acadmicos acham que foi atravs do vice-presidente Henry Wallace. Ele era um maom dos altos escales e certamente tinha ligaes com os Illuminati. Se era um membro ou estava inocentemente sob a influncia deles, no se sabe. Mas foi Wallace quem vendeu o desenho do sinete oficial para o presidente.
     Como? Por que o presidente teria concordado em...
     O presidente era Franklin D. Roosevelt. Wallace simplesmente lhe disse que Novus Ordo Seculorum significava New Deal.
    Vittoria mostrou-se ctica.
     E Roosevelt no tinha ningum mais que examinasse o smbolo antes de mandar o Tesouro imprimi-lo?
     No foi preciso. Ele e Wallace eram como irmos.
     Irmos?
     D uma conferida em seus livros de Histria  disse Langdon com um sorriso.  Franklin D. Roosevelt era um maom conhecido.

CAPTULO 32

    Langdon prendeu a respirao enquanto o X-33 fazia uma descida em espiral na direo do Aeroporto Internacional Leonardo Da Vinci. Vittoria, sentada  sua frente, fechou os olhos, como se procurasse submeter a situao ao seu controle. A aeronave tocou o solo e taxiou para um hangar particular.
     Desculpem o vo lento  desculpou-se o piloto, saindo da cabine de comando.
     Tive de segur-lo por causa dos regulamentos sobre rudo em reas povoadas.
    Langdon verificou o relgio. O vo tinha levado 37 minutos.
    O piloto abriu a porta externa.
     Algum pode me dizer o que est acontecendo?
    Nenhum dos dois respondeu. 
     timo  disse ele, alongando-se.  Vou esperar na cabine de comando com o ar condicionado e minha msica. S eu e Garth.
    Fora do hangar, o sol do fim de tarde ardia, intenso. Langdon carregava seu palet de tweed pendurado no ombro. Vittoria levantou o rosto para o sol e respirou fundo, como se a luz solar de alguma forma transferisse para ela uma energia revigorante e mstica.
    Povos mediterrneos... observou Langdon para si mesmo, j suando.
     Voc est um pouco velho para desenhos animados, no acha?  perguntou Vittoria, sem abrir os olhos.
     Como disse?
     Seu relgio de pulso. Vi l dentro do avio.
    Langdon enrubesceu um pouco. Estava acostumado a ter de defender seu relgio. Era uma pea de coleo, um relgio do Mickey Mouse que lhe fora dado de presente na infncia por seus pais. Apesar do ridculo dos braos esticados do Mickey indicando a hora, fora o nico relgio de pulso que Langdon usara em toda a sua vida.  prova dgua e com um mostrador que brilhava no escuro, era perfeito para nadar e para andar  noite pelos caminhos sem iluminao da universidade. Quando seus alunos questionavam seu conceito de moda, ele respondia que usava aquele relgio para se lembrar diariamente que queria manter seu esprito jovem.
     So seis horas  disse.
    Vittoria balanou a cabea, os olhos ainda fechados.
     Acho que nossa carona chegou.
    Langdon ouviu o zumbido distante e olhou para cima, com o corao apertado. Vindo do norte, um helicptero se aproximava, voando baixo acima da pista de pouso. Langdon andara de helicptero uma vez no vale Palpa andino para ver os desenhos de areia Nazca e no gostara nem um pouco. Uma caixa de sapatos voadora. Depois de passar a manh voando em um avio espacial, contava que o Vaticano enviasse um carro para busc-los.
    Tudo indicava que no seria o caso.
    O helicptero reduziu a velocidade, pairou um instante e desceu na pista de pouso diante deles. Era branco e trazia na lateral um braso pintado  duas chaves mestras cruzadas sobre um escudo encimado pela mitra papal. Ele conhecia bem aquele smbolo. Era o braso tradicional do Vaticano, o smbolo sagrado da Santa S, ou santa sede do governo, literalmente o antigo trono de So Pedro.
    O Santo Helicptero, resmungou Langdon, acompanhando o pouso. Esquecera-se de que o Vaticano possua um, usado para transportar o Papa para o aeroporto, para reunies ou para seu castelo de vero em Gandolfo. Langdon decididamente teria preferido um carro.
    O piloto saltou e caminhou na direo deles pela pista.
    Agora era Vittoria que parecia apreensiva.
     Esse  o nosso piloto?
    Langdon tambm ficou preocupado.
     Voar ou no voar, eis a questo.
    O piloto parecia estar vestido para um melodrama shakespeariano. Sua tnica bufante era listrada verticalmente de azul-vivo e dourado. Usava calas e polainas combinando. Estava calado com sapatos rasos pretos que pareciam chinelos. Na cabea, trazia uma boina preta de feltro.
     O uniforme tradicional da Guarda Sua  explicou Langdon.  Desenhado pelo prprio Michelangelo.  Quando o homem se aproximou mais, Langdon estremeceu.  E, admito, no foi um dos melhores trabalhos dele.
    A despeito do traje extravagante do homem, Langdon viu logo que ele no estava brincando. Movia-se ao encontro deles com a mesma rigidez e dignidade de um fuzileiro naval norte-americano. Langdon lera muitas vezes sobre as rigorosas exigncias para se fazer parte da elitista Guarda Sua. Recrutados em um dos quatro cantes catlicos da Sua, os candidatos tinham de ser rapazes suos natos com idade entre 19 e 30 anos, pelo menos 1,74 m de altura, solteiros e treinados pelo exrcito suo. Esse soberbo corpo militar era invejado por governos de todo o mundo por ser a mais fiel e mortfera fora de segurana que existe.
     Vocs so do CERN?  perguntou o guarda, ao chegar diante deles. Sua voz era dura como ao.
     Sim, senhor  respondeu Langdon.
     Fizeram um tempo notvel  disse ele, lanando um olhar intrigado para o X-33. Virou-se para Vittoria.  A senhora tem outra roupa para vestir?
     Como disse?
    Ele apontou para as pernas dela.
     No  permitido entrar de calas curtas no Vaticano.
    Langdon olhou para as pernas de Vittoria e fez uma careta. Esquecera daquilo. Na Cidade do Vaticano era rigorosamente proibido ter as pernas  mostra acima do joelho, tanto para as mulheres quanto para os homens. A norma era uma forma de mostrar respeito pela santidade da cidade de Deus.
     S tenho esta  ela disse.  Samos de l com muita pressa. O guarda sacudiu a cabea, aborrecido. Em seguida, dirigiu-se a Langdon.
     O senhor est carregando alguma arma?
    Arma? pensou Langdon. Eu no trouxe nem uma muda de roupa de baixo! E negou com um gesto de cabea.
    O oficial agachou-se aos ps de Langdon e comeou a apalp-lo por baixo, comeando pelas meias. Rapaz confiante, pensou Langdon. As mos fortes do guarda subiram pelas pernas de Langdon chegando desconfortavelmente perto de sua virilha. Por fim, deslocaram-se para seu peito e ombros. Aparentemente satisfeito por nada ter encontrado, o guarda virou-se para Vittoria. Correu os olhos pelo tronco e pelas pernas dela.
    Ela lhe lanou um olhar feroz.
     Nem pense nisso.
    O guarda encarou-a com uma expresso que claramente pretendia intimid-la. Ela no cedeu.
     O que  isso?  disse o guarda, apontando para uma leve protuberncia quadrada no bolso da frente do short dela.
    Vittoria tirou do bolso um telefone celular ultrafino. O guarda pegou-o, ligou-o, aguardou o sinal de linha e, tendo verificado que o aparelho no passava realmente de um telefone, devolveu-o a ela.
     D uma volta, por favor  disse o guarda.
    Vittoria obedeceu, levantando os braos e girando o corpo 360 graus.
    O guarda examinou-a com cuidado. Langdon j observara que a blusa e o short justos de Vittoria no mostravam nenhuma salincia onde no deveriam. Parecia que o guarda chegara  mesma concluso.
     Obrigado. Venham, por favor.
    O helicptero da Guarda Sua funcionava em ponto morto quando Vittoria e Langdon se aproximaram dele. Vittoria embarcou primeiro, como uma freqentadora habitual, mal se curvando ao passar por baixo das ps em movimento. Langdon parou um instante.
     Nenhuma possibilidade de irmos de carro?  gritou, meio brincando, para o guarda suo, que se acomodava no banco do piloto.
    O homem nem respondeu.
    Com os motoristas loucos de Roma, Langdon sabia que, de qualquer maneira, voar seria provavelmente mais seguro. Respirou fundo e embarcou, depois de ter o cuidado de se abaixar bem para passar sob os rotores.
    Enquanto o guarda preparava a decolagem, Vittoria perguntou:
     J localizaram o tubo?
    O guarda olhou para ela por cima do ombro, sem compreender.
     O qu?
     O tubo. Vocs no telefonaram para o CERN por causa de um tubo?
    O homem deu de ombros.
     No sei sobre o que est falando. Estivemos muito ocupados hoje. Meu comandante mandou que eu viesse busc-los.  tudo o que sei.
    Vittoria virou-se para Langdon com o rosto inquieto.
     Coloquem os cintos, por favor  disse o piloto quando aumentou a velocidade do motor.
    Langdon procurou seu cinto de segurana e afivelou-o. Tinha a impresso de que a fuselagem diminuta encolhia  sua volta. Ento, com um ronco, a aeronave subiu e inclinou-se abruptamente para o lado, descrevendo uma curva para o norte na direo de Roma.
    Roma... o caput mundi, onde Csar um dia reinou, onde So Pedro foi crucificado. O bero da civilizao moderna. E em seu mago... o tique-taque de uma bomba.

CAPTULO 33

    Roma vista de cima  um labirinto  um emaranhado indecifrvel de antigas estradas serpenteando em volta de prdios, fontes e runas.
    O helicptero do Vaticano voava baixo no cu rumo a noroeste atravs da camada permanente de fumaa produzida pelos congestionamentos da cidade. Langdon via as bicicletas motorizadas, os nibus de turismo e o enxame de miniaturas de Fiats sed contornando apressados os entroncamentos rotatrios e espalhando-se em todas as direes. Koyaanisqatsi, pensou ele, lembrando o termo hopi que significa vida desequilibrada
    Vittoria mantinha-se em silenciosa determinao no assento ao lado dele.
    O helicptero inclinou-se fortemente para o lado.
    Com um vazio no estmago, Langdon procurou fixar os olhos em pontos mais distantes. E encontrou as runas do Coliseu romano. Ele sempre considerara o Coliseu uma das maiores ironias da Histria. Hoje um smbolo consagrado do desenvolvimento da cultura e da civilizao humana, o estdio fora construdo para exibir sculos de eventos brbaros  lees famintos despedaando prisioneiros, exrcitos de escravos combatendo-se at a morte, estupros coletivos de mulheres exticas capturadas em terras remotas, assim como decapitaes e castraes pblicas. Era tambm irnico, na opinio dele, ou talvez apropriado, que a estrutura arquitetnica do Coliseu tivesse servido de modelo para o Soldier Field de Harvard, o estdio de futebol onde as antigas tradies de selvageria eram reencenadas todos os outonos, com fs enlouquecidos clamando por sangue quando Harvard enfrentava Yale.
    Olhando para o norte, Langdon avistou o Frum romano, o corao da Roma pr-crist. As colunas em runas pareciam lpides de tmulos cadas em um cemitrio que de alguma forma conseguira no ser engolido pela metrpole que o rodeava.
    A oeste, a ampla bacia do rio Tibre desenhava enormes arcos atravs da cidade. Mesmo de cima, dava para notar que o rio era fundo. As torrentes revoltas eram escuras, cheias de sedimentos e espuma causados por fortes chuvas.
     Bem  nossa frente  disse o piloto, subindo mais.
    Langdon e Vittoria olharam para fora e viram. Como uma montanha rompendo a bruma, o domo colossal erguia-se diante deles: a Baslica de So Pedro.
     Nisso a, por exemplo  disse Langdon para Vittoria , Michelangelo saiu-se muito bem.
    Langdon nunca vira a baslica de cima. A fachada de mrmore resplandecia ao sol da tarde. Adornado com 140 esttuas de santos, mrtires e anjos, o hercleo edifcio tinha a mesma largura de dois campos de futebol e o comprimento assombroso de seis. O descomunal interior da baslica tinha capacidade para abrigar mais de 60 mil devotos, cem vezes mais que a populao da Cidade do Vaticano, o menor pas do mundo.
    Por inacreditvel que fosse, nem mesmo uma cidadela dessa magnitude conseguia fazer a piazza  sua frente parecer menor. Uma vastido de granito, a Praa de So Pedro era um extenso espao aberto no congestionamento de Roma, como um Central Park clssico. Diante da baslica, contornando o grande espao aberto, 284 colunas espalhavam-se em quatro arcos concntricos cujos tamanhos iam diminuindo... um trompe-loeil arquitetural utilizado para intensificar a impresso de grandiosidade da piazza.
    Contemplando aquele magnfico santurio, Langdon imaginou o que So Pedro pensaria se estivesse ali. O santo morrera de modo horripilante, crucificado de cabea para baixo naquele mesmo local. Hoje, repousava na mais sagrada das tumbas, muitos metros abaixo do solo, diretamente sob a cpula central da baslica.
     A Cidade do Vaticano  disse o piloto, num tom de voz que poderia ser tudo, menos hospitaleiro.
    Altos basties de pedra elevavam-se adiante  fortificaes impenetrveis cercando o complexo de construes, uma estranha defesa terrena para um mundo espiritual de segredos, poder e mistrio.
     Veja!  disse Vittoria de repente, agarrando o brao de Langdon. Ela apontou, veemente, para a Praa de So Pedro logo abaixo deles. Langdon aproximou o rosto da janela para enxergar melhor.
     Ali adiante  indicou ela.
    A parte de trs da piazza parecia um estacionamento, lotada com uns dez trailers. No teto dos trailers, imensas antenas parablicas estavam viradas para o cu, todas elas exibindo nomes conhecidos: 
    TELEVISOR EUROPEA
    VIDEO ITALIA
    BBC
    UNITED PRESS INTERNATIONAL
    Ocorreu a Langdon que a notcia sobre a antimatria j pudesse ter vazado.
    Vittoria ficou tensa.
     Por que a imprensa est aqui? O que est havendo?
    O piloto virou a cabea e lanou-lhe um olhar estranho.
     O que est havendo? Ento, no sabe?
     No  ela respondeu depressa, o sotaque soando rouco e forte.
     Il Conclavo  disse.  As portas vo ser lacradas dentro de uma hora. O mundo inteiro est acompanhando.
    Il Conclavo.
    A palavra reverberou por um longo instante nos ouvidos de Langdon antes da sensao de ter um tijolo caindo na boca de seu estmago. Il Conclavo. O Conclave do Vaticano. Como esquecera daquilo? A notcia estivera nos jornais recentemente.
    Quinze dias antes, o Papa falecera, depois de um pontificado tremendamente popular de doze anos. Todos os jornais do mundo haviam contado a histria do derrame fatal que acometera o Papa durante o sono  morte repentina e inesperada que muitos consideravam suspeita. Agora porm, mantendo a tradio sagrada, 15 dias depois da morte de um Papa, o Vaticano realizava Il Conclavo: a cerimnia em que os 165 cardeais do mundo, os homens mais poderosos da cristandade, reuniam-se na Cidade do Vaticano para eleger o novo pontfice.
    Todos os cardeais do planeta esto aqui hoje, Langdon refletiu enquanto o helicptero passava por cima da Baslica de So Pedro. O vasto mundo interior da Cidade do Vaticano estendia-se abaixo deles.
    Toda a estrutura de poder da Igreja Catlica Romana est em cima de uma bomba relgio.

CAPTULO 34

    O cardeal Mortati levantou o olhar para o teto exuberante da Capela Sistina e procurou recolher-se em um momento de quieta reflexo. Nas paredes cobertas de afrescos ecoavam as vozes de cardeais de todas as naes do globo. Os homens acotovelavam-se no santurio iluminado pela luz de velas, cochichando alvoroados e trocando opinies em diversas lnguas, as universais sendo o ingls, o italiano e o espanhol.
    A luz na capela era geralmente sublime  longos raios coloridos de sol cortando a escurido como se viessem direto do Paraso , mas no hoje. Como era o costume, todas as janelas da Capela haviam sido cobertas de veludo negro em funo do sigilo. Assim, ningum l dentro podia mandar sinais ou comunicar-se de que maneira fosse com o mundo exterior. O resultado era uma profunda escurido iluminada apenas por velas e uma luminosidade difusa que parecia purificar todos os que tocava, tornando-os imateriais, como santos.
    Que privilgio, pensou Mortati, eu ser o supervisor deste acontecimento santificado.
    Os cardeais acima de oitenta anos eram considerados velhos demais para se candidatarem  eleio e no participavam do conclave, mas, aos 79 anos, Mortati era o mais velho de todos e fora designado para dirigir os procedimentos.
    Seguindo a tradio, os cardeais reuniam-se ali duas horas antes do conclave para reatarem o contato com os amigos e debaterem questes de ltima hora. s sete da noite, o camarista do ltimo Papa chegava, fazia a orao de entrada e depois ia embora. Em seguida, a Guarda Sua lacrava as portas, trancando todos os cardeais dentro da capela. Ento, tinha incio o ritual poltico mais secreto do mundo. Os cardeais s podiam sair depois de decidirem quem entre eles seria o novo Papa.
    Conclave. At o nome sugeria segredo. Con clave significava literalmente trancado  chave Os cardeais no podiam ter qualquer contato com o mundo exterior. Nada de ligaes telefnicas, nada de mensagens, nada de sussurros atravs de portas. O conclave era um vcuo, no podia ser influenciado por nada que viesse de fora. Para garantir que os cardeais tivessem Solum Deum prae oculis  somente Deus diante dos olhos.
    Do lado de fora da capela, naturalmente, a mdia observava e esperava, especulando qual dos cardeais seria o lder de um bilho de catlicos em todo o mundo. Os conclaves criavam uma atmosfera intensa, politicamente carregada e, ao longo dos sculos, haviam-se tornado s vezes fatais: envenenamentos, lutas corporais e at assassinatos j haviam irrompido entre as paredes sagradas. Histria antiga, pensou Mortati. O conclave daquela noite seria marcado pela unio, pela bem-aventurana e, acima de tudo, seria breve.
    Pelo menos, fra o que pensara.
    Agora, todavia, surgira um transtorno inesperado. Inexplicavelmente quatro cardeais estavam ausentes da capela. Mortati sabia que todas as sadas da Cidade do Vaticano estavam guardadas e que os cardeais que faltavam no poderiam estar longe. Ainda assim, a menos de uma hora da prece de abertura, ele se sentia desconcertado. Afinal de contas, os quatro homens no eram cardeais comuns. Eram os cardeais.
    Os quatro escolhidos.
    Como supervisor do conclave, Mortati j mandara avisar a Guarda Sua atravs dos canais competentes, alertando-a para a ausncia deles. Ainda no tivera nenhuma resposta. Outros cardeais j haviam notado a incompreensvel ausncia. Haviam comeado os cochichos ansiosos. De todos, aqueles quatro eram os que deveriam ter sido mais pontuais! O cardeal Mortati comeava a recear que a noite pudesse ser longa, afinal.
    Ele nem imaginava quanto.

CAPTULO 35

    O heliponto do Vaticano, por questes de segurana ou de controle de rudo, localiza-se na extremidade nordeste da Cidade do Vaticano, to longe da Baslica de So Pedro quanto possvel.
     Terra firma  anunciou o piloto quando pousaram. Ele saiu e abriu a porta de correr para Vittoria e Langdon.
    Langdon desceu e virou-se para ajudar Vittoria, mas ela j tinha saltado com facilidade. Todos os msculos do corpo dela pareciam estar afinados para um nico objetivo: encontrar a antimatria antes que esta deixasse um terrvel legado.
    Depois de estender um painel refletor para proteger o vidro da cabine de comando contra o sol, o piloto conduziu-os para um carrinho eltrico de golfe que aguardava ali perto. O carrinho, silencioso e rpido, levou-os ao longo da fronteira oeste do Vaticano  um baluarte de cimento de 15 metros de altura, grosso o bastante para resistir at mesmo  investida de tanques. Enfileirados na parte interna do muro, postados a intervalos de 50 metros, os guardas suos mantinham-se atentos, vigilantes. O carrinho dobrou  direita e saiu na Via dellOsservatorio. Havia placas de sinalizao apontando para todas as direes:
    PALAZZO DEL GOVERNATORATO
    COLLEGIO ETIOPICO
    BASILICA DI SAN PIETRO
    CAPPELLA SISTINA
    Aceleraram pela rua bem cuidada e passaram por uma construo atarracada onde havia uma placa com os dizeres: RADIO VATICANA. Langdon deu-se conta de que dali vinha a programao de rdio mais ouvida do planeta, a que espalhava a palavra de Deus para milhes de ouvintes no mundo inteiro.
     Attenzione  disse o piloto, dobrando abruptamente em um entroncamento rotatrio.
    Enquanto o carro circulava, Langdon mal podia crer na vista que se apresentava diante deles. Giardini Vaticani, pensou. O corao da Cidade do Vaticano. Bem  frente, encontrava-se a parte dos fundos da Baslica de So Pedro, que muita gente jamais vira.  direita erguia-se o Palcio do Tribunal, a opulenta residncia papal cuja decorao barroca rivalizava apenas com Versailles. O prdio do Governatorato, de aparncia severa, estava agora atrs deles e abrigava a administrao da Cidade do Vaticano. E, mais alm,  esquerda, estava o macio edifcio retangular do Museu Vaticano. Langdon sabia que no haveria tempo para visitar nenhum museu naquela viagem.
     Onde esto todos?  perguntou Vittoria, observando os gramados e caladas desertos.
    O guarda conferiu seu crongrafo preto, de estilo militar  um curioso anacronismo sob sua manga bufante.
     Os cardeais esto reunidos na Capela Sistina. O conclave comea em menos de uma hora.
    Langdon balanou a cabea, lembrando-se vagamente que, antes do conclave, os cardeais passavam duas horas dentro da Capela Sistina em tranqila reflexo e estabelecendo contato com seus companheiros do resto do mundo. O perodo de tempo tinha como finalidade renovar velhas amizades e fazer com que o processo eleitoral fosse menos acalorado.
     E o resto dos residentes e funcionrios?
     Proibidos de entrar na cidade para garantir que haja sigilo e segurana at que o Conclave termine.
     E quando termina?
    O guarda deu de ombros.
     S Deus sabe.
    As palavras soaram estranhamente literais.
    Depois de estacionar o carrinho no vasto gramado logo atrs da Baslica de So Pedro, o guarda escoltou Vittoria e Langdon por uma rampa de pedra que dava acesso a uma esplanada junto aos fundos da baslica. Atravessaram a esplanada, aproximaram-se da baslica e contornaram-na passando por um ptio triangular, cruzando a Via Belvedere e um conjunto de edifcios muito prximos uns dos outros. As aulas de Histria da Arte de Langdon haviam-lhe permitido que aprendesse italiano o suficiente para identificar ali a Grfica do Vaticano, o Laboratrio de Restaurao de Tapearias, a Administrao do Correio e a Igreja de Santa Ana. Atravessaram mais uma pequena praa e chegaram a seu destino.
    O Escritrio da Guarda Sua fica ao lado do Corpo di Vigilanza, a nordeste da baslica, em uma construo robusta, de pedra. De cada lado da entrada, como duas rgidas esttuas, havia um guarda.
    Langdon teve de admitir que esses guardas no pareciam to cmicos. Tambm usavam o uniforme azul e dourado, mas seguravam a tradicional espada longa do Vaticano uma lana de dois metros e meio de comprimento com uma ponta falciforme, afiada como uma navalha, que teria sido usada para decapitar inmeros muulmanos na defesa dos cruzados cristos no sculo XV.
    Quando Langdon e Vittoria se aproximaram, os dois guardas deram um passo  frente e cruzaram suas longas espadas, bloqueando a entrada. Um deles olhou para o piloto, confuso.
     Ipantaloni  disse, indicando o short de Vittoria.
    O piloto fez um gesto para que os deixasse passar.
     Il comandante vuole vederli subito.
    Os guardas fizeram cara feia. Relutantes, afastaram-se para o lado.
    Dentro, o ar estava frio. No se parecia em nada com a sede administrativa de um servio de segurana que Langdon teria imaginado. Decorados e impecavelmente mobiliados, os corredores continham quadros que qualquer museu ficaria contente em expor em sua sala principal.
    O piloto apontou para uma escadaria ngreme.
     Vamos descer, por favor.
    Langdon e Vittoria desceram os degraus de mrmore entre uma fileira de esttuas masculinas nuas. Todas elas usavam folhas de parreira de um material de tonalidade mais clara que o do resto do corpo.
    A Grande Castrao, pensou Langdon.
    Foi uma das piores tragdias da arte da Renascena. Em 1857, o Papa Pio IX decidiu que a representao exata do corpo masculino poderia incitar  luxria. Ento, pegou um cinzel e um malho e decepou a genitlia de todas as esttuas masculinas da Cidade do Vaticano. Desfigurou obras de Michelangelo, Bramante e Bernini. Folhas de parreira feitas de gesso serviram de remendo para o estrago. Langdon muitas vezes imaginara se no haveria um enorme caixote cheio de pnis em algum lugar.
     Aqui  anunciou o guarda.
    Haviam chegado ao p da escada, que s dava acesso a uma pesada porta de ao. O guarda digitou um cdigo de entrada e a porta correu, abrindo-se. Os dois entraram.
    L dentro reinava o caos absoluto.

CAPTULO 36

    O Escritrio da Guarda Sua.
    Langdon parou na porta, observando a coliso de sculos  sua frente. Multimdia, pensou. A sala era uma biblioteca renascentista suntuosamente decorada, com estantes de madeira marchetada, tapetes orientais e tapearias coloridas. Entretanto, fervilhava de equipamentos eletrnicos de ltima gerao  computadores, faxes, mapas eletrnicos do conjunto de construes do Vaticano e televises ligadas na CNN. Homens de calas bufantes coloridas digitavam febrilmente nos teclados dos computadores e escutavam atentos seus fones de ouvido futursticos.
     Esperem aqui  disse o guarda.
    Os dois viram-no cruzar a sala e aproximar se de um homem excepcionalmente alto e magro, vestido com um uniforme militar azul. Ele falava ao telefone celular e mantinha-se to ereto que quase se curvava para trs. O guarda disse-lhe algo e o homem lanou um olhar para Langdon e Vittoria. Cumprimentou-os com um gesto de cabea, depois se virou de costas para eles e continuou a falar ao telefone.
    O guarda voltou.
     O comandante Olivetti vai estar com os senhores em um minuto.
     Obrigado.
    O guarda saiu e subiu as escadas de volta.
    Langdon analisou o comandante Olivetti atravs da sala, dando-se conta de que ele era na realidade o comandante-em-chefe das foras armadas de um pas inteiro. Enquanto esperavam, Vittoria e Langdon observavam a movimentao ao seu redor. Guardas vestidos de cores vivas andavam apressados de um lado para outro gritando ordens em italiano.
     Continua a cercare!  um deles exclamou ao telefone.
     Probasti il museo?  perguntava outro.
    Langdon no precisava falar italiano fluente para verificar que o centro de segurana estava naquele momento intensamente empenhado em procurar alguma coisa. Essa era a boa notcia. A m era que obviamente ainda no haviam encontrado a antimatria.
     Voc est bem?  ele perguntou a Vittoria.
    Ela deu de ombros, com um sorriso cansado.
    Quando o comandante finalmente desligou o telefone e veio na direo deles, deu a impresso de crescer a cada passo. O prprio Langdon era alto e no estava acostumado a levantar a cabea para falar com as pessoas, mas a estatura do comandante Olivetti exigia isso. Langdon percebeu de imediato que aquele homem j passara por vrias tempestades, por seu rosto duro e vigoroso.
    Tinha o cabelo escuro em um corte rente de estilo militar e seus olhos ardiam com a rgida determinao que s se adquire depois de anos de muito treinamento. Movimentava-se com uma preciso enrgica, um pequeno fone discretamente colocado atrs da orelha fazendo com que se parecesse mais com um membro do servio secreto norte-americano do que da Guarda Sua.
    Falou-lhes em ingls com sotaque. A voz era espantosamente baixa para um homem to grande  ele quase sussurrava. Mas era cortante, e ele falava com uma contida eficincia militar.
     Boa tarde  disse.  Sou o comandante Olivetti, Comandante Principale da Guarda Sua. Fui eu quem telefonou para seu diretor.
     Obrigada por nos receber, senhor  disse Vittoria, o rosto levantado para ele. O comandante no disse mais nada. Fez sinal para que o seguissem e conduziu-os atravs do labirinto de mquinas para uma porta na parede lateral da sala.
     Entrem  disse, segurando a porta para eles.
    Os dois entraram e viram-se na penumbra de uma sala de controle, onde, em uma parede cheia de monitores de vdeo, sucediam-se devagar imagens em preto-e-branco do conjunto de edifcios. Um jovem guarda estava sentado observando as imagens com ateno.
     Fuori  disse Olivetti.
    O guarda pegou suas coisas e saiu.
    Olivetti encaminhou-se para uma das telas e apontou para ela. Depois, virou-se para seus visitantes.
     Esta imagem  de uma cmera remota escondida em algum ponto da Cidade do Vaticano. Gostaria de uma explicao.
    Langdon e Vittoria prenderam a respirao ao mesmo tempo. A imagem era categrica. No havia qualquer dvida. Tratava-se do tubo de antimatria do CERN. Dentro dele, a ameaa de uma reluzente gotcula suspensa no ar, iluminada pelo piscar ritmado do mostrador eletrnico do relgio digital. De modo sinistro, a rea em torno do tubo estava quase por completo s escuras, como se a antimatria estivesse dentro de um armrio ou de um quarto sem iluminao. No alto da tela aparecia um texto: AO VIVO  CMERA 86.
    Vittoria verificou o tempo restante no indicador do tubo.
     Menos de seis horas  murmurou para Langdon, o rosto tenso.
    Langdon olhou para o relgio.
     Ento, temos at...  ele parou de falar, um n apertando-lhe o estmago.
     Meia-noite  completou Vittoria, com um ar abatido.
    Meia-noite, pensou Langdon. Um toque dramtico. Pelo jeito, quem roubara o tubo na noite anterior calculara o tempo com perfeio. Veio-lhe um mau pressentimento ao lembrar que estava exatamente na rea de exploso de uma bomba.
    O cochichar de Olivetti soava agora mais como o sibilar de uma cobra.
     Esse objeto pertence  sua empresa?
    Vittoria concordou com um gesto.
     Sim, senhor. Foi roubado de l. Contm uma substncia extremamente combustvel chamada antimatria.
    Olivetti no se mostrou abalado.
     Estou bem familiarizado com materiais incendirios, senhorita. Nunca ouvi falar de antimatria.
      uma nova tecnologia. Precisamos localiz-la imediatamente ou evacuar a Cidade do Vaticano.
    Olivetti fechou os olhos devagar e reabriu-os, como se focalizando-os de novo em Vittoria pudesse mudar o que acabara de ouvir.
     Evacuar? Tem noo do que est havendo aqui esta noite?
     Sim, senhor. E as vidas de seus cardeais esto em perigo. Temos cerca de seis horas. J obteve algum progresso na localizao do tubo?
    Olivetti sacudiu a cabea.
     Nem comeamos a procurar.
    Vittoria quase engasgou.
     O qu? Mas escutamos nitidamente seus guardas falando sobre procurar o...
     Sobre procurar, sim  interrompeu Olivetti , mas no o seu tubo. Meus homens esto procurando outra coisa que no lhes diz respeito.
    A voz de Vittoria chegou a falhar.
     Vocs ainda nem comearam a procurar esse tubo?
    As pupilas de Olivetti pareceram recuar para dentro de sua cabea. Ficou com a aparncia impassvel de um inseto.
     Senhorita Vetra, no ? Deixe-me explicar-lhe algo. O diretor de sua empresa recusou-se a me fornecer qualquer detalhe ao telefone sobre esse objeto, a no ser para me dizer que eu precisava encontr-lo imediatamente. Estamos bastante ocupados aqui e no posso me dar ao luxo de destacar efetivo para uma situao sem apurar alguns fatos.
     S existe um fato relevante neste momento, senhor  disse Vittoria.
     Dentro de seis horas aquele aparelho vai desintegrar todos estes prdios.
    Olivetti ficou imvel.
     Senhorita Vetra, h uma coisa que precisa saber  disse ele, num tom de voz meio condescendente.  Apesar da aparncia arcaica da Cidade do Vaticano, cada uma das entradas, tanto as pblicas como as particulares, est equipada com os sensores mais avanados que se conhece. Se algum tentar entrar com qualquer tipo de dispositivo incendirio, isto ser detectado no mesmo instante. Temos scanners de istopos radioativos, filtros olfatrios projetados pelo DEA (Drug Enforcement Administration), a agncia norte-americana de combate ao narcotrfico, para detectar o mais tnue vestgio qumico de combustveis e toxinas. Tambm usamos os mais avanados detectores de metais e scanners de raios X disponveis.
     Excelente  disse Vittoria, com a mesma frieza de Olivetti.  Infelizmente, a antimatria no  radioativa, sua assinatura qumica  a de hidrognio puro e o tubo  feito de plstico. Nenhum desses aparelhos a teria detectado.
     Mas o dispositivo tem uma fonte de energia  disse Olivetti, apontando para o mostrador luminoso que piscava.  O menor vestgio de nquel-cdmio seria identificado como...
     As baterias tambm so de plstico.
    Via-se claramente que a pacincia de Olivetti estava a ponto de terminar.
     Baterias de plstico?
     Eletrlito de gel-polmero com teflon.
    Olivetti inclinou-se para ela, como se quisesse acentuar a diferena de altura entre ambos.
     Signorina, o Vaticano  alvo de dezenas de ameaas de bomba por ms. Sou eu pessoalmente quem treina toda a Guarda Sua em moderna tecnologia de explosivos. Sei muito bem que no existe substncia neste mundo to poderosa assim para fazer o que est dizendo, a no ser que esteja se referindo a uma ogiva nuclear com um ncleo de combustvel do tamanho de uma bola de beisebol.
    Vittoria fulminou-o com o olhar.
     A natureza tem muitos mistrios ainda por revelar.
    Olivetti inclinou-se mais para ela.
     Posso perguntar quem exatamente  a senhorita? Qual  a sua funo no CERN?
     Sou membro snior da equipe de pesquisas e fui designada para ser o contato com o Vaticano nesta crise.
     Desculpe-me a indelicadeza, mas, se esta  de fato uma crise, por que estou lidando com a senhorita e no com seu diretor? E o que pretende com o desrespeito de entrar no Vaticano com essa roupa?
    Langdon deu um gemido. No podia acreditar que, naquelas circunstncias, o homem estivesse preocupado com trajes. Contudo, refletiu, se pnis de pedra podiam despertar pensamentos lascivos nos moradores do Vaticano, Vittoria Vetra de short certamente seria uma ameaa  segurana nacional.
     Comandante Olivetti  intrometeu-se Langdon, tentando desarmar o que parecia ser uma segunda bomba prestes a explodir , meu nome  Robert Langdon. Sou professor de estudos religiosos nos Estados Unidos e sem vnculos com o CERN. Assisti a uma demonstrao dos efeitos da antimatria e posso confirmar a afirmao da senhorita Vetra de que se trata de uma substncia excepcionalmente perigosa. Temos motivos para crer que foi colocada dentro do Vaticano por representantes de um culto anti-religioso com a inteno de destruir o conclave.
    Olivetti virou-se, olhando Langdon de cima.
     Tenho aqui uma mulher de short me dizendo que uma gotinha de lquido vai explodir o Vaticano e um professor americano me dizendo que somos o alvo de um culto anti-religioso. O que afinal querem que eu faa?
     Encontre o tubo  disse Vittoria.  Agora mesmo.
     Impossvel. Pode estar em qualquer lugar. A Cidade do Vaticano  enorme.
     Suas cmaras no tm localizadores GPS?
     No costumam ser roubadas. Levaramos dias para localizar essa cmara.
     No temos dias  replicou Vittoria, inflexvel.  Temos seis horas.
     Seis horas para que, senhorita Vetra?  A voz de Olivetti ficou alta de repente.
    Apontou para a imagem na tela.  At que essa contagem chegue a zero? At que a Cidade do Vaticano desaparea? Acredite, no gosto nem um pouco que algum venha burlar meu sistema de segurana. Nem me agrada que uma geringona dessas aparea misteriosamente dentro dos meus edifcios. Eu estou preocupado.
     minha obrigao estar preocupado. Mas o que me contou  inaceitvel.
    Langdon no se conteve:
     O senhor j ouviu falar dos Illuminati?
    A atitude glacial do comandante rompeu-se. Seus olhos ficaram brancos, como os de um tubaro pronto para atacar.
     Estou avisando a vocs. No tenho tempo para isso.
     Ento, quer dizer que o senhor j ouviu falar dos Illuminati?
    Os olhos de Olivetti pareciam perfurar como golpes de baioneta.
     Sou um defensor jurado da Igreja Catlica. Claro que j ouvi falar dos Illuminati. Esto mortos h dcadas.
    Langdon enfiou a mo no bolso e tirou o fax com a imagem do corpo marcado a fogo de Leonardo Vetra.
    Estendeu-o para Olivetti.
     Sou um estudioso dos Illuminati  disse Langdon, enquanto Olivetti examinava o papel.  Estou tendo grande dificuldade em aceitar que os Illuminati ainda estejam em atividade, mas a aparncia dessa marca combinada com o fato de que os Illuminati tm um conhecido pacto contra o Vaticano me fizeram mudar de idia.
     Uma fraude produzida por computador.  Olivetti devolveu o fax a Langdon.
    Este exclamou, incrdulo:
     Fraude? Veja a simetria! O senhor melhor do que ningum deveria reconhecer a autenticidade de...
     Autenticidade  exatamente o que falta a vocs. A senhorita Vetra talvez no tenha lhe informado, mas os cientistas do CERN vm criticando as polticas do Vaticano h anos. Eles regularmente nos encaminham pedidos de retratao da teoria criacionista, de desculpas formais a Galileu e Coprnico e repelem nossas crticas a pesquisas perigosas ou imorais. O que parece mais provvel aos senhores: que um culto satnico de quatrocentos anos tenha ressurgido com uma arma avanada de destruio em massa ou que algum engraadinho no CERN esteja tentando acabar com um evento sagrado do Vaticano lanando mo de uma fraude bem executada?
     Aquela foto  disse Vittoria, a voz igual a lava incandescente   do meu pai. Assassinado. Acha que eu iria brincar com uma coisa dessas?
     No sei, senhorita Vetra. O que sei  que, at conseguir algumas respostas que faam sentido, no vou acionar qualquer tipo de alarme. Vigilncia e discrio so meu dever para que as questes espirituais possam ter lugar aqui com clareza de mente. Hoje mais do que nunca.
    Langdon disse:
     Ao menos, ento, adie o evento.
     Adiar?  o queixo de Olivetti caiu.  Que arrogncia! Um conclave no  um jogo qualquer de beisebol que se pode transferir por causa da chuva!  um evento sagrado com um cdigo e um processo rigorosos. No faz mal que um bilho de catlicos estejam esperando por um lder! No faz mal que a imprensa mundial esteja l fora! O protocolo deste evento  sagrado, no est sujeito a modificaes. Desde 1179, os conclaves sobreviveram a terremotos, fome e at  peste. Acreditem, no vai ser cancelado por causa de um cientista morto e de uma gotinha de sabe-se l o qu.
     Leve-me  pessoa encarregada  exigiu Vittoria.
    Olivetti lanou-lhe um olhar furibundo.
     Est diante dela.
     No  disse ela , algum do clero.
    As veias na testa de Olivetti comearam a crescer.
     O clero se foi. Com exceo da Guarda Sua, s quem est presente no momento  o Colgio dos Cardeais. E eles esto no interior da Capela Sistina.
     E quanto ao camarista do Papa?  perguntou Langdon, incisivo.
     Quem?
     O camarista do ltimo Papa.  Ele repetiu a palavra, seguro de si, rezando para que a memria o tivesse ajudado. Lembrou-se de ter lido certa vez sobre a curiosa delegao de autoridade que se seguia  morte de um Papa. Se estivesse correto, no perodo entre Papas, o poder autnomo completo transferia-se temporariamente para o assistente pessoal do Papa anterior, seu camarista ou camareiro, um secretrio que supervisionava o conclave at que os cardeais escolhessem o novo Santo Padre.  Creio que o camarista  a pessoa encarregada no momento.
     Il camerlengo? disse Olivetti.  O camerlengo  s um padre aqui. Nem cnego ele . Era o criado do ltimo Papa.
     Mas ele est aqui. E o senhor responde a ele.
    Olivetti cruzou os braos.
     Senhor Langdon,  verdade que as regras do Vaticano determinam que o camerlengo assuma a superintendncia durante o conclave, mas  apenas porque a sua inelegibilidade para o papado garante uma eleio imparcial.  como se o seu presidente morresse e um de seus assistentes temporariamente se sentasse na Sala Oval. O camerlengo  jovem e seus conhecimentos sobre segurana, ou qualquer coisa relacionada a isso, so extremamente limitados. Para todos os efeitos, o responsvel aqui sou eu.
     Leve-nos at ele  pediu Vittoria.
     Impossvel. O conclave comea dentro de 40 minutos. O camerlengo est no escritrio do Papa, preparando tudo. No pretendo incomod-lo com assuntos de segurana.
    Vittoria abriu a boca para responder, mas foi interrompida por uma batida na porta. Olivetti abriu-a.
    Um guarda em traje de gala estava do lado de fora, apontando para o relgio.
      lora, comandante.
    Olivetti verificou seu prprio relgio e sacudiu a cabea, concordando. Virou-se para Langdon e Vittoria como um juiz que decidisse o destino deles.
     Sigam-me.
    Saiu com eles da sala de monitoramento, cruzando o centro de segurana at um cubculo claro junto  parede do fundo.
     Meu escritrio.
    Olivetti fez com que entrassem. A sala no tinha nada de especial: uma escrivaninha cheia de coisas, alm de arquivos, cadeiras dobrveis e um refrigerador.
     Volto em dez minutos. Sugiro que aproveitem o tempo para decidir como querem agir.
    Vittoria girou nos calcanhares.
     No pode sair assim! Aquele tubo ...
     No tenho tempo para isso agora  Olivetti estava agitado.  Talvez tenha de prend-los at depois do conclave, quando terei tempo.
     Signore  insistiu o guarda, apontando de novo para o relgio.  Spazzare di capella.
    Olivetti sacudiu a cabea e dirigiu-se para a porta.
     Spazzare di capella?  perguntou Vittoria.  Esto saindo para varrer a capela?
    Olivetti virou-se com um olhar penetrante.
     Vamos fazer uma varredura, procurar grampos, escuta eletrnica, senhorita Vetra. Por uma questo de discrio.  E ele fez um gesto para as pernas dela.
     Embora eu no espere que a senhorita compreenda o que quer dizer isto.
    E bateu a porta, sacudindo o vidro pesado. Com um movimento ligeiro, fez aparecer uma chave, colocou-a na fechadura e girou-a. Uma tranca pesada encaixou-se no lugar.
     Idiota!  gritou Vittoria.  No pode nos prender aqui!
    Atravs do vidro, Langdon viu Olivetti dizer alguma coisa para um guarda. A sentinela concordou.
    Quando Olivetti saiu da sala, o guarda veio e ficou de frente para eles do outro lado do vidro, os braos cruzados, uma arma pendurada no quadril, bem  vista.
    Perfeito, pensou Langdon, simplesmente perfeito.

CAPTULO 37

    Vittoria fulminou com o olhar o guarda suo do outro lado da porta trancada do escritrio de Olivetti. O guarda devolveu-lhe o olhar fulminante, o uniforme colorido em desacordo com seu ar ameaador.
    Che fiasco, pensou Vittoria. Mantida presa por um homem armado vestido de pijamas.
    Langdon calara-se e Vittoria esperava que ele estivesse usando seu crebro de Harvard para achar um jeito de escapulirem dali. Pela cara dele, porm, tinha a impresso de que estava mais em estado de choque do que entregue a pensamentos. Lamentava t-lo envolvido naquela situao.
    O primeiro instinto de Vittoria havia sido pegar o telefone celular e ligar para Kohler, mas sabia que teria sido intil. Primeiro, o guarda provavelmente entraria e tomaria seu telefone. Segundo, se aquele episdio de Kohler tivesse seguido o curso habitual, ele provavelmente ainda estaria incapacitado. No que fizesse diferena... Olivetti no parecia inclinado a acreditar na palavra de quem quer que fosse naquele momento.
    Lembre-se!, disse a si mesma. Lembre-se da soluo para este problema!
    A lembrana era um truque filosfico budista. Em vez de pedir  sua mente para procurar uma soluo para um desafio potencialmente impossvel, Vittoria pedia-lhe que apenas se lembrasse da soluo. O pressuposto de que sabia a resposta criava a disposio mental de que a resposta deveria existir, eliminando assim o conceito paralisante de desesperana. Vittoria costumava utilizar aquele processo para resolver incertezas cientficas, aquelas que a maioria das pessoas achava no terem soluo.
    Naquela hora, todavia, o truque da lembrana s produzia um grande branco. Portanto, ela avaliou suas opes, suas necessidades. Precisava avisar algum. Algum no Vaticano precisava lev-la a srio. Mas quem? O camerlengo? Como? Ela estava dentro de uma caixa de vidro com uma nica porta de sada.
    Ferramentas, disse consigo. Sempre existem ferramentas. Reavalie seu ambiente.
    Instintivamente, ela abaixou os ombros, relaxou o rosto e respirou fundo trs vezes. Sentiu seu ritmo cardaco diminuir e seus msculos se descontrarem. O pnico catico em sua mente dissipou-se. Muito bem, pensou, deixe a mente livre. O que h de positivo nesta situao? Quais so minhas vantagens?
    A mente analtica de Vittoria Vetra, tendo se acalmado, tornava-se uma fora poderosa. Em segundos, ela verificou que o fato de estarem encarcerados constitua na verdade a chave de sua fuga daquele lugar.
     Vou dar um telefonema  anunciou, de sbito, a Langdon.
     Eu j ia sugerir que ligasse para Kohler, mas...
     Kohler, no. Outra pessoa.
     Quem?
     O camerlengo.
     Voc vai ligar para o camerlengo? Como?
     Olivetti disse que o camerlengo estava no escritrio do Papa.
     Certo. E voc sabe o nmero do telefone do Papa?
     No. Mas no  do meu telefone que vou ligar.  E fez um sinal na direo de um sofisticado sistema de telefonia na mesa de Olivetti. Havia uma poro de botes de discagem direta.  O chefe da segurana deve ter uma linha direta para o escritrio do Papa.
     E tambm temos um halterofilista com uma arma plantado a dois metros daqui.
     E ns estamos trancados aqui dentro.
     Eu j tinha notado.
     Quero dizer  que o guarda no pode entrar. Este  o escritrio particular de Olivetti. Duvido que algum mais tenha a chave.
    Langdon deu uma espiada no guarda.
     O vidro  bem fino e a arma  bem grande.
     E o que ele vai fazer, atirar em mim porque estou usando o telefone?
     Sabe-se l! Este lugar  bem esquisito, e do jeito que as coisas vo...
     Ou isso  disse Vittoria  ou podemos passar as prximas cinco horas e quarenta e oito minutos na priso do Vaticano. Pelo menos, vamos assistir de camarote quando a antimatria explodir.
    Langdon empalideceu.
     O guarda vai chamar Olivetti assim que voc pegar aquele telefone. Alm disso, h uns 20 botes ali. E no estou vendo nenhuma identificao. Vai tentar todos eles e torcer para acertar de primeira?
     No  disse ela, dirigindo-se para o telefone.  S vou tentar um.  Vittoria pegou o fone e apertou o primeiro boto.  Nmero um. Aposto um daqueles dlares dos Illuminati que voc tem no bolso que este  o boto do escritrio do Papa. O que mais teria importncia prioritria para um comandante da Guarda Sua?
    Langdon no teve tempo de responder. O guarda l fora comeou a bater no vidro com a coronha de sua arma. Fazia sinal para que ela largasse o telefone.
    Vittoria piscou para ele. O guarda pareceu inflar de tanta raiva.
    Langdon afastou-se da porta e falou com Vittoria.
      bom voc estar certa, porque esse sujeito no est muito satisfeito.
     Droga!  disse ela, escutando.  Uma gravao!
     Gravao?  perguntou Langdon.  O Papa tem secretria eletrnica?
     No era o escritrio do Papa  disse Vittoria, desligando.  Era o maldito cardpio semanal da intendncia do Vaticano.
    Langdon deu um sorriso amarelo para o guarda l fora, que agora estava com uma cara furiosa, comunicando-se com Olivetti pelo walkie-talkie.

CAPTULO 38

    A mesa telefnica do Vaticano localiza-se no Ufficio di Communicazione, atrs do Correio do Vaticano. Fica em uma sala relativamente pequena contendo um equipamento Corelco 141 de oito linhas, O departamento atende a 2.000 ligaes por dia, a maioria encaminhada automaticamente para o sistema gravado de informaes. Naquela noite, o nico telefonista de planto estava sentado sossegadamente tomando sua xcara de ch. Sentia-se orgulhoso por ser um dos poucos funcionrios autorizados a permanecer dentro do Vaticano durante o conclave.
     claro que a honra ficava de certa forma abalada pela presena dos guardas suos rondando sua porta. Uma escolta para ir ao banheiro, pensou ele. Ah, as indignidades que somos obrigados a aturar em nome do Santo Conclave!
    Felizmente, as chamadas at ento haviam sido poucas. O que talvez no fosse to bom assim.
    O interesse mundial pelos negcios do Vaticano diminura nos ltimos anos, O nmero de ligaes da imprensa fora menor e at os malucos no ligavam mais com tanta freqncia. A secretaria de imprensa esperava que houvesse um alvoroo mais festivo em torno do acontecimento da noite. Entretanto, lamentavelmente, embora a Praa de So Pedro estivesse cheia de carros de reportagem, aparentemente a maioria dos furges pertencia  imprensa italiana ou europia. S um pequeno nmero de redes internacionais estava presente... e sem dvida haviam enviado apenas seus giornalisti secundarii.
    O telefonista pegou sua caneca e conjeturou se a noite seria longa. At meia noite, mais ou menos, calculou ele. Hoje em dia, muita gente bem informada j sabia quem era o favorito para se tornar Papa muito antes de o conclave se reunir, de modo que o processo acabava sendo mais um ritual de trs ou quatro horas do que propriamente uma eleio. Claro que dissenses de ltima hora podiam prolongar a cerimnia pela madrugada afora... ou alm. O conclave de 1831 durara 54 dias. Mas no o de hoje, disse consigo. Falava-se que este conclave seria uma viglia de fumaa.
    Os pensamentos do telefonista evaporaram-se com o zumbido de uma linha interna em seu painel. Olhou para a luz vermelha piscando e coou a cabea. Que coisa estranha, pensou. A linha zero. Quem ser que est ligando daqui de dentro para o telefonista de informaes? E quem  que ainda est aqui dentro, afinal?
     Citt del Vaticano, prego?  disse ele, atendendo.
    A voz que estava na linha falava um italiano rpido. O telefonista reconheceu vagamente o sotaque como sendo o que era comum aos guardas suos, italiano fluente com leve influncia franco-sua. Aquela pessoa, porm, decididamente no pertencia  Guarda Sua.
    Ao ouvir a voz da mulher, o telefonista levantou-se de um pulo, quase derramando seu ch. Verificou o painel outra vez. No se enganara. Era uma extenso interna. A ligao vinha de dentro. No era possvel, algo estava errado! Uma mulher dentro da Cidade do Vaticano? Hoje?
    A mulher falava depressa e furiosamente. O telefonista passara tempo suficiente naquele trabalho para saber quando estava lidando com um pazzo. Aquela mulher no parecia maluca. Seu tom era urgente mas racional. Calmo e eficiente. Ele escutou o pedido dela, aturdido.
     Il camerlengo?  disse o telefonista, ainda tentando descobrir de onde estaria vindo a ligao.  No posso completar... sim, sei que ele est no escritrio do Papa mas... quem  a senhora, mesmo? E quer avisar a ele que...  O homem escutava, cada vez mais desconcertado. Todos em perigo? Como? E de onde est chamando?  Talvez seja melhor entrar em contato com a Guarda Su...  O telefonista parou no meio da frase.  Onde  que a senhora est? Onde?
    Ele escutou, atnito, depois tomou uma deciso.
     Aguarde um pouco, por favor  disse, colocando a mulher na espera antes que ela pudesse responder. Em seguida, ligou para a linha direta do comandante Olivetti. No  possvel que a mulher esteja realmente...
    A ligao foi atendida de imediato.
     Per lamore di Dio!  a voz feminina conhecida gritou.  Faa a bendita ligao!
    A porta do centro de segurana da Guarda Sua abriu-se com um silvo. Os guardas abriram caminho quando o comandante Olivetti entrou na sala como um foguete. Chegando  porta de seu escritrio, constatou o que o guarda no walkie-talkie acabara de lhe contar: Vittoria Vetra estava de p diante da mesa dele falando em seu telefone particular.
    Che coglioni che ha questa!, pensou ele.
    Lvido, aproximou-se, enfiou a chave na fechadura e abriu a porta, perguntando:
     O que est fazendo?
    Vittoria ignorou-o.
     Sim  dizia ela ao telefone.  E tenho de prevenir...
    Olivetti arrancou o telefone da mo dela e colocou-o no prprio ouvido.
     Quem diabos est falando?
    Em uma frao de segundo, a postura rgida de Olivetti desfez-se repentinamente.
     Sim, camerlengo...  disse ele.  Correto, signore... mas questes de segurana exigem... claro que no... estou mantendo-a aqui por... com certeza, mas...  Ele escutou.  Sim, senhor  disse, afinal.  Vou subir com eles imediatamente.

CAPTULO 39

    O Palcio Apostlico consiste em um aglomerado de prdios situados perto da Capela Sistina, no ngulo nordeste da Cidade do Vaticano. Com uma ampla vista da Praa de So Pedro, o palcio abriga no s os apartamentos papais como o escritrio do Papa.
    Vittoria e Langdon seguiram calados o comandante Olivetti por um longo corredor rococ, os msculos do pescoo dele pulsando de raiva. Depois de subir trs lances de escada, entraram em um grande vestbulo meio imerso na penumbra.
    Langdon mal acreditava nas obras de arte que via nas paredes: bustos, tapearias e baixos-relevos em perfeito estado de conservao, obras que valiam centenas de milhares de dlares. Ao cruzarem o vestbulo, passaram por uma fonte de alabastro. Olivetti dobrou  esquerda e, em um vo, deram com uma das maiores portas que Langdon j vira.
     Ufficio di Papa  declarou o comandante, com um olhar corrosivo para Vittoria.
    Ela no hesitou, adiantou-se e bateu com fora na porta.
    O escritrio do Papa, Langdon repetiu mentalmente, com dificuldade para se conscientizar de que estava  porta de uma das salas mais sagradas da religio mundial.
     Avanti!  algum disse l dentro.
    Quando a porta se abriu, Langdon teve de proteger os olhos com as mos. A luminosidade do sol era ofuscante. Devagar, a imagem  sua frente entrou em foco.
    O escritrio do Papa lembrava mais um salo de baile, O piso de mrmore vermelho estendia-se at as paredes enfeitadas com afrescos de cores vivas. Um lustre colossal pendia do teto e uma srie de janelas em arco oferecia um panorama deslumbrante da Praa de So Pedro banhada de sol.
    Meu Deus, pensou ele. Isto  que  um quarto com vista.
    Na extremidade oposta do aposento, em uma escrivaninha de madeira entalhada, um homem estava sentado escrevendo energicamente.
     Avanti  repetiu ele, pousando a caneta e fazendo sinal para que se aproximassem.
    Olivetti foi na frente, com seu passo militar.
     Signore  disse ele, desculpando-se , non ho potuto...
    O homem interrompeu-o. Levantou-se e estudou os dois visitantes.
    O camerlengo no tinha nada da imagem dos frgeis e beatficos homens idosos que Langdon costumava imaginar circulando pelo Vaticano. No trazia rosrios ou pingentes. Nem usava uma daquelas tnicas pesadas. Estava vestido com uma batina preta simples que ampliava a solidez de sua substancial constituio fsica. Deveria estar com quase quarenta anos, uma criana para os padres do Vaticano. Seu rosto era surpreendentemente bonito, com bastos cabelos revoltos e olhos verdes quase radiantes que brilhavam como se fossem acesos e movidos pelos mistrios do universo. Mais de perto, porm, Langdon viu naqueles olhos uma profunda exausto, como a de uma pessoa que tivesse acabado de viver os dias mais difceis de sua vida.
     Sou Carlo Ventresca  disse, em ingls perfeito.  O camerlengo do ltimo Papa.
     Sua voz era despretensiosa e amvel, com apenas um ligeiro sotaque italiano.
     Vittoria Vetra  disse ela, dando um passo  frente e estendendo-lhe a mo.
     Obrigada por nos receber.
    O rosto de Olivetti crispou-se quando o camerlengo apertou a mo de Vittoria.
     Este  Robert Langdon  disse Vittoria , um historiador de religies da Universidade de Harvard.
     Padre  disse Langdon, pronunciando o melhor possvel o seu italiano. E curvou a cabea ao estender a mo.
     No, no  insistiu o camerlengo, fazendo Langdon levantar o corpo.  O escritrio de Sua Santidade no me torna santo. Sou apenas um padre, um camarista servindo em uma hora de necessidade.
    Langdon endireitou o corpo.
     Por favor  disse o camerlengo , sentem-se todos.
    Disps algumas cadeiras em torno de sua mesa. Langdon e Vittoria sentaram-se, Olivetti preferiu ficar de p.
    O camerlengo sentou-se em sua cadeira diante da escrivaninha, entrelaou as mos, suspirou e olhou para seus visitantes.
     Signore  disse Olivetti , o traje da moa  culpa minha. Eu...
     A roupa dela no  o que me preocupa  replicou o camerlengo, a voz revelando que estava fatigado demais para ser incomodado.  Quando o telefonista do Vaticano liga para mim meia hora antes do incio do conclave e diz que uma mulher est telefonando da sua sala particular para me alertar sobre uma grande ameaa  segurana sobre a qual no fui informado, isso sim me preocupa.
    Olivetti permaneceu rgido, as costas arqueadas como se fosse um soldado passando por intensa inspeo.
    Langdon estava hipnotizado pela presena do camerlengo. Mesmo sendo moo e estando to cansado, o padre tinha um qu de heri mtico, irradiando carisma e autoridade.
     Signore  falou Olivetti, em tom de desculpas mas ainda inflexvel , no devia se preocupar com questes de segurana. O senhor tem outras responsabilidades.
     Sei muito bem de minhas outras responsabilidades. Tambm sei que, como direttore intermediario, sou responsvel pela segurana e bem-estar de todos os que participam deste conclave. O que est havendo aqui?
     A situao est sob controle.
     No parece.
     Padre  interrompeu Langdon, tirando do bolso o fax amassado e estendendo-o para o camerlengo , por favor.
    O comandante Olivetti adiantou-se, tentando intervir.
     Padre, por favor, no perturbe seus pensamentos com...
    O camerlengo pegou o fax, ignorando Olivetti por alguns momentos. Olhou a imagem de Leonardo Vetra morto e prendeu a respirao, estupefato.
     O que  isto?
      meu pai  disse Vittoria, a voz trmula.  Era um padre e um homem de cincia. Foi assassinado na noite passada.
    O rosto do camerlengo suavizou-se no mesmo instante. Levantou os olhos para ela.
     Minha filha, sinto muito.  Fez o sinal da cruz e olhou de novo para o fax, sua expresso revelando ondas sucessivas de repulsa.  Quem faria... e essa queimadura no...  o camerlengo parou de falar, apertando os olhos para enxergar a imagem mais de perto.
     Est escrito Illuminati  disse Langdon.  O senhor decerto conhece o nome.
    Uma estranha sombra passou pelo rosto do camerlengo.
     J ouvi o nome, sim, mas...
     Os Illuminati mataram Leonardo Vetra para roubar uma nova tecnologia que ele estava...
     Signore  aparteou Olivetti.  Isso  um absurdo. Os Illuminati?  evidente que se trata de alguma fraude sofisticada.
    O camerlengo pareceu ponderar as palavras do comandante. Depois, virou-se e contemplou Langdon com tanta intensidade que ele sentiu o ar lhe fugir dos pulmes.
     Senhor Langdon, passei toda a minha vida na Igreja Catlica. Conheo bem as histrias dos Illuminati e a lenda das marcaes a fogo. Ainda assim, devo preveni-lo de que sou um homem do presente. O cristianismo j tem inimigos demais, no precisamos ressuscitar os fantasmas.
     O smbolo  autntico  afirmou Langdon, de modo um pouco mais defensivo do que pensou. Inclinou-se para a mesa e girou o papel.
    O camerlengo ficou calado quando viu a simetria.
     Nem os computadores modernos  acrescentou Langdon  conseguiram criar um ambigrama simtrico dessa palavra.
    O camerlengo cruzou as mos e no disse nada por alguns instantes.
     Os Illuminati esto mortos  disse finalmente.  H muito tempo.  fato histrico.
    Langdon assentiu.
     Ontem, eu teria concordado com o senhor.
     Ontem?
     Antes da srie de acontecimentos de hoje. Acredito que os Illuminati tenham ressurgido para cumprir um antigo pacto.
     Perdoe-me, meus conhecimentos de histria esto enferrujados. Que antigo pacto  esse?
    Langdon respirou fundo.
     A destruio da Cidade do Vaticano.
     A destruio do Vaticano?  o camerlengo estava mais confuso do que assustado.  Mas isto seria impossvel.
    Vittoria sacudiu a cabea.
     Sinto muito, mas ainda no acabamos de lhe dar as ms notcias.

CAPTULO 40

     Isso  verdade?  indagou o camerlengo, olhando espantado de Vittoria para Olivetti.
     Signore  garantiu Olivetti , admito que haja um certo dispositivo aqui no Vaticano. Est visvel em um de nossos monitores de segurana, mas, quanto ao poder que a senhorita Vetra afirma que essa substncia tem, no posso de maneira alguma...
     Espere a  disse o camerlengo.  Vocs conseguem ver essa coisa?
     Sim, signore. Na cmera sem fio 86.
     E por que no foram busc-la?  o camerlengo agora falava zangado.
     Muito difcil, signore  Olivetti explicou a situao, muito empinado.
    O camerlengo escutava e Vittoria notou a sua preocupao crescente.
     Tem certeza de que est dentro do Vaticano?  perguntou ele.  Algum pode ter levado a cmera para fora e estar transmitindo de outro lugar.
     Impossvel  disse Olivetti.  Nossos muros externos so blindados eletronicamente para proteger nossas comunicaes internas. Esse sinal s pode estar vindo de dentro, ou no o estaramos recebendo.
     E suponho  continuou o camerlengo  que vocs estejam procurando essa cmera perdida com todos os recursos disponveis?
    Olivetti sacudiu a cabea.
     No, signore. Localizar aquela cmera poderia levar centenas de homens hora. Temos vrias outras preocupaes de segurana no momento e, com todo o respeito  senhorita Vetra, essa gotcula de que ela fala  muito pequena. No pode ser to explosiva quanto ela alega.
    A pacincia de Vittoria evaporou-se.
     Aquela gotcula  suficiente para arrasar a Cidade do Vaticano! Ser que no escutou nenhuma palavra do que eu disse?
     Minha senhora  disse Olivetti, a voz dura como ao , tenho vasta experincia em explosivos.
     Sua experincia est obsoleta  revidou ela, igualmente dura.  Apesar da minha roupa, que vejo que o senhor acha inconveniente, sou uma fsica de nvel snior na instituio de pesquisas subatmicas mais avanada do mundo. Fui eu quem projetou pessoalmente o recipiente da antimatria que impede o aniquilamento imediato daquela amostra. E estou avisando ao senhor que, a menos que encontre aquele tubo nas prximas seis horas, seus guardas no tero nada para proteger no prximo sculo a no ser um grande buraco no cho.
    Olivetti girou nos calcanhares e encarou o camerlengo, seus olhos de inseto fuzilando de raiva.
     Signore, no posso, em s conscincia, permitir que isto se prolongue. Seu tempo est sendo desperdiado por impostores. Os Illuminati? Uma gotinha que vai destruir tudo?
     Basta  declarou o camerlengo. Pronunciou a palavra em voz baixa e no entanto ela pareceu ecoar pelo aposento. Depois, ficou em silncio. E ento continuou, em um sussurro.  Perigoso ou no, Illuminati ou no, o que quer que seja, este objeto no deveria estar dentro do Vaticano. Muito menos na vspera do conclave. Quero que seja encontrado e retirado daqui. Organize uma busca imediatamente.
    Olivetti no desistiu.
     Signore, mesmo que utilizemos todos os guardas para fazer uma busca geral em todos os prdios, levaria dias para encontrarmos essa cmera. Alm disso, depois de falar com a senhorita Vetra, mandei um dos meus guardas procurar em nosso mais avanado guia de balstica qualquer referncia a essa substncia chamada antimatria. E ele no encontrou nada, nem uma citao sequer. Nada.
    Idiota arrogante, pensou Vittoria. Um guia de balstica? Que tal uma enciclopdia? Na letra A!
    Olivetti continuava falando.
     Signore, se est sugerindo uma busca a olho nu na Cidade do Vaticano inteira, ento preciso protestar.
     Comandante  a voz do camerlengo fervia de irritao.  Tenho de lembrar-lhe que, quando se dirige a mim, est se dirigindo a este cargo. Percebo que o senhor no est levando a srio a minha posio. Mesmo assim, pela lei, sou eu quem decide. Se no me engano, os cardeais encontram-se agora seguros dentro da Capela Sistina e as suas preocupaes com a segurana so mnimas at o encerramento do conclave. No compreendo por que reluta em procurar esse objeto. Se no o conhecesse, diria que est submetendo este conclave a um perigo internacional.
    Olivetti respondeu com desdm.
     Como ousa! Servi seu Papa durante 12 anos! E o Papa antes dele durante 14 anos! Desde 1438, a Guarda Sua...
    O walkie-talkie no cinto de Olivetti emitiu um chamado alto, interrompendo-o.
     Comandante?
    Olivetti agarrou-o e apertou o boto do transmissor.
     Son occupato! Cosa vuoi?!!!
     Scusi  disse o guarda suo ao rdio.  Aqui  do setor de Comunicaes. Achei que o senhor gostaria de ser informado de que recebemos uma ameaa de bomba.
    Olivetti no demonstrou qualquer interesse.
     Ento, resolvam isso! Sigam os procedimentos de sempre e faam o relatrio!
     Foi o que fizemos, senhor, mas o homem que ligou...  o guarda fez uma pausa.  Eu no queria incomod-lo, comandante, mas ele mencionou a substncia que o senhor me pediu para pesquisar. Antimatria.
    Todos na sala se entreolharam.
     Ele mencionou o qu?  gaguejou Olivetti.
     Antimatria, senhor. Enquanto seguamos a rotina, fiz mais umas pesquisas a respeito. As informaes sobre a antimatria so... bem, para falar a verdade, so bem preocupantes.
     Mas voc disse que no havia nenhuma referncia a ela no guia de balstica.
     Encontrei referncias na Internet.
    Aleluia, pensou Vittoria.
     A substncia parece ser bastante explosiva  disse o guarda.   difcil de acreditar que esta informao  correta, mas aqui diz que a antimatria carrega aproximadamente cem vezes mais carga til do que uma ogiva nuclear.
    Olivetti curvou os ombros. Era como assistir a uma montanha desmoronando. A sensao de triunfo de Vittoria dissipou-se ao ver a expresso de horror no rosto do camerlengo.
     Vocs rastrearam a chamada?  disse Olivetti, a voz trmula.
     No conseguimos. Veio de um celular criptografado. As linhas esto embaralhadas, portanto a triangulao  impossvel. A assinatura digital indica que ele est em algum ponto de Roma, mas no h realmente nenhuma forma de rastre-lo.
     Ele fez alguma exigncia?  disse Olivetti, em voz baixa.
     No, senhor. S avisou que h antimatria escondida dentro dos prdios do Vaticano. Pareceu surpreso por no sabermos. Perguntou se eu ainda no a tinha visto, O senhor perguntou sobre a antimatria, por isso decidi comunicar-lhe.
     Fez muito bem  disse Olivetti.  Vou descer em um minuto. Avise imediatamente se ele ligar de novo.
    Houve um momento de silncio no walkie-talkie.
     A pessoa ainda est na linha, senhor.
    Olivetti ficou com a aparncia de algum que acabou de ser eletrocutado.
     O qu? A linha est aberta?
     Sim, senhor. Faz dez minutos que estamos tentando rastre-la sem conseguir. Ele deve saber que no podemos encontr-lo porque se recusa a desligar enquanto no falar com o camerlengo.
     Transfira a ligao para c  ordenou o camerlengo.  Agora!
    Olivetti virou-se para ele.
     Padre, no. Um guarda suo seria muito mais indicado como negociador para lidar com isso.
    -Agora!
    Olivetti deu a ordem.
    Logo depois, o telefone na mesa do camerlengo Ventresca comeou a tocar. O religioso apertou o boto do viva-voz.
     Quem, em nome de Deus, voc pensa que ?

CAPTULO 41

    A voz que emanava do aparelho na mesa do camerlengo era metlica e fria, com traos de arrogncia. Todos na sala a escutavam.
    Langdon tentou localizar o sotaque. Oriente Mdio, talvez?
     Sou o mensageiro de uma antiga fraternidade  a voz anunciou, com uma cadncia estrangeira.  Uma fraternidade que vocs ultrajaram durante sculos. Sou um mensageiro dos Illuminati.
    Langdon sentiu seus msculos se retesarem, os ltimos vestgios de dvida se esvarem. Por um segundo experimentou a mistura conhecida de emoo, privilgio e medo mortal que tomara conta dele naquela manh ao ver o ambigrama pela primeira vez.
     O que voc quer?  perguntou o camerlengo.
     Represento os homens de cincia. Homens que, como vocs, procuram respostas. Respostas sobre o destino do homem, seu propsito, seu criador.
     Quem quer que voc seja  disse o camerlengo  eu...
     Silenzio.  melhor escutar. Durante dois milnios, sua igreja dominou a busca da verdade. Vocs esmagaram seus oponentes com mentiras e profecias de condenao. Manipularam a verdade para servir s suas necessidades, matando aqueles cujas descobertas no prestavam servio s suas polticas. Esto espantados por serem alvo de homens esclarecidos de todo o mundo?
     Homens esclarecidos no recorrem a chantagem para promover suas causas.
     Chantagem?  o homem riu.  Isto no  chantagem. No temos exigncias a fazer. A extino do Vaticano no  negocivel. Esperamos 400 anos por este dia.  meia-noite sua cidade ser destruda. No h nada que possam fazer.
    Olivetti vociferou para o aparelho:
      impossvel ter acesso a esta cidade! Vocs no podem de modo algum ter plantado explosivos aqui!
     Voc fala com a devoo ignorante de um guarda suo. Talvez seja at um oficial. Com certeza, deve saber que, durante sculos, os Illuminati se infiltraram em organizaes de elite do mundo inteiro. Acha que s o Vaticano iria ficar imune a isto?
    Jesus, pensou Langdon, eles tm gente aqui dentro. No era nenhum mistrio a ttica da infiltrao ser a marca registrada do poder dos Illuminati. Haviam-se infiltrado entre os maons, nas grandes redes de bancos, organismos dos governos. Churchill, certa vez, chegara a dizer a jornalistas que, se os espies ingleses tivessem se infiltrado entre os nazistas da mesma forma que os Illuminati tinham se infiltrado no Parlamento ingls, a guerra teria terminado em um ms.
     Um blefe mais do que evidente  disse Olivetti, spero.  No  possvel que a sua influncia se estenda tanto assim.
     Por qu? Porque seus guardas suos esto vigilantes? Porque eles tomam conta de cada pedacinho de seu mundo particular? E que tal os prprios guardas suos? No so homens? Acredita mesmo que arriscariam suas vidas pela fbula de um homem que anda sobre a gua? Pergunte a si mesmo de que outra maneira a antimatria poderia ter entrado em sua cidade. Ou como quatro de seus mais preciosos ativos poderiam ter desaparecido esta tarde.
     Nossos ativos?  Olivetti franziu o cenho.  O que quer dizer com isso?
     Um, dois, trs, quatro. At agora no deram falta deles?
     De que diabos est falan...  Olivetti parou de falar, os olhos arregalados como se tivesse levado um soco no estmago.
     A luz se faz  disse o homem.  Quer que eu diga os nomes?
     O que est havendo?  perguntou o camerlengo atordoado.
    O homem deu uma risada.
     Seu oficial ainda no lhe informou? Que pecado! No me surpreende com tanta vaidade. Imagine a desmoralizao, contar a verdade, que quatro cardeais que ele jurou proteger desapareceram...
    Olivetti explodiu.
     Onde conseguiu essa informao?
     Camerlengo  tripudiou o homem , pergunte ao seu comandante se todos os cardeais esto presentes na Capela Sistina.
    O camerlengo voltou-se para Olivetti, os olhos verdes exigindo uma explicao.
     Signore  Olivetti sussurrou no ouvido do camerlengo ,  verdade que quatro de nossos cardeais ainda no se apresentaram na Capela Sistina, mas no h motivo para alarme. Todos eles tiveram a entrada registrada no edifcio residencial esta manh, portanto sabemos que esto em segurana dentro da Cidade do Vaticano. O senhor mesmo tomou ch com eles h poucas horas. Devem ter apenas se atrasado para a reunio que precede o conclave. Estamos procurando, mas tenho certeza de que somente perderam a hora e ainda esto por a apreciando as belezas do lugar.
     Apreciando as belezas do lugar?  A calma abandonou a voz do camerlengo.  Eles deveriam estar na capela h mais de uma hora!
    Langdon olhou assombrado para Vittoria. Cardeais desaparecidos? Ento eram eles que estavam sendo procurados l embaixo?
     Eis nossa lista  disse o homem , que vocs vo achar bem convincente. H o cardeal Lamass, de Paris, o cardeal Guidera, de Barcelona, o cardeal Ebner, de Frankfurt...
    Olivetti parecia encolher um pouco a cada nome citado.
    O homem fez uma pausa, como se saboreasse com prazer especial o ltimo nome.
     E, da Itlia.... o cardeal Baggia.
    O camerlengo bambeou, como um alto veleiro cujas velas acabassem de perder o vento em uma calmaria.
    Sua batina ondulou e ele se deixou cair em sua cadeira.
     I preferiti  murmurou.  Os quatro favoritos... inclusive Baggia, o mais provvel sucessor do Sumo Pontfice... Como  possvel?
    Langdon j lera bastante sobre as modernas eleies papais e compreendia o desespero no rosto do camerlengo. Embora tecnicamente todo cardeal com menos de oitenta anos pudesse tornar-se Papa, apenas uns poucos possuam a capacidade necessria de infundir respeito para obter uma maioria de dois teros no processo de votao intensamente partidrio. Eram conhecidos como os preferiti. E todos haviam sumido.
    O suor escorria na testa do camerlengo.
     O que pretende com esses homens?
     O que acha que pretendo? Sou descendente dos Hassassin.
    Langdon sentiu um calafrio. Conhecia bem aquele nome. A Igreja fizera alguns inimigos mortais atravs dos anos  os Hassassin, os Cavaleiros Templrios, exrcitos que haviam sido perseguidos ou trados pelo Vaticano.
     Liberte os cardeais  disse o camerlengo.  J no basta a ameaa de destruir a cidade de Deus?
     Esquea seus quatro cardeais. Eles j esto perdidos para voc. Mas fique certo de que suas mortes sero lembradas por milhes de pessoas.  o sonho de todo mrtir. Farei deles luminares da mdia. Um a um. At a meia-noite, os Illuminati vo atrair a ateno de todos. Para que mudar o mundo se o mundo no estiver assistindo? Os assassinatos pblicos tm um certo horror inebriante, no  verdade? Vocs provaram isto h muito tempo com a Inquisio, a tortura dos Templrios, as Cruzadas.  Ele fez uma pausa.
     E,  claro, La purga.
    O camerlengo ficou calado.
     No se lembra de La purga?  perguntou o homem.  Claro que no, voc  uma criana. Os padres no so bons historiadores. Talvez porque sua histria os envergonhe?
     La purga  Langdon ouviu-se dizer.  1668. A Igreja marcou a fogo quatro cientistas Illuminati com o smbolo da cruz. Para purgar seus pecados.
     Quem est falando?  perguntou a voz, num tom mais intrigado do que preocupado.  Quem est a?
    Langdon estremeceu.
     Meu nome no  importante  disse ele, tentando manter sua voz firme. Falar com um Illuminati vivo desorientava-o. Tanto quanto se estivesse falando com George Washington.  Sou um acadmico que estudou a histria de sua fraternidade.
     Excelente  replicou a voz.  Estou satisfeito por saber que ainda h gente que conhece os crimes que foram cometidos contra ns.
     A maioria dos estudiosos pensa que vocs morreram todos.
     Um equvoco que a fraternidade trabalhou muito para promover. O que mais sabe sobre La purga?
    Langdon hesitou. O que mais eu sei? Que esta situao  insana,  o que sei!
     Depois de serem marcados a fogo, os cientistas foram assassinados e seus corpos foram deixados em locais pblicos em torno de Roma como advertncia a outros cientistas para que no se juntassem aos Illuminati.
     Sim,  isso. Portanto, vamos fazer o mesmo. Quid pro quo. Considerem o gesto como represlia por nossos irmos assassinados. Seus quatro cardeais vo morrer, um a cada hora, comeando s oito.  meia-noite teremos a ateno do mundo inteiro.
    Langdon foi para perto do fone.
     Vocs pretendem mesmo marcar a fogo e matar esses quatro homens?
     A histria se repete, no ? Claro que vamos ser mais elegantes e audaciosos do que a Igreja foi. Eles mataram em particular, abandonando os corpos quando ningum estava olhando. Uma atitude to covarde!
     O que est dizendo? Que vai marcar e matar esses homens em pblico?
     Muito bem! Embora isso dependa do que voc considera pblico. Noto que no h mais tanta gente assim indo  igreja.
    Langdon arriscou mais uma vez.
     Vai mat-los dentro de igrejas?
     Um gesto de bondade. Permitir que Deus convoque as suas almas ao Paraso com maior presteza. Nada mais justo. Evidentemente, a imprensa tambm vai adorar, penso eu.
     Voc est blefando  disse Olivetti, a frieza de volta na voz.  No pode matar um homem dentro de uma igreja e achar que pode escapar impune.
     Blefando? Ns nos movimentamos entre os seus guardas suos como se fssemos fantasmas, tiramos quatro de seus cardeais de dentro de suas paredes, plantamos um explosivo mortal no meio de seu santurio mais sagrado e voc acha que estou blefando?  medida que as mortes se sucederem e as vtimas forem encontradas, todos os meios de comunicao vo acorrer como um verdadeiro enxame para c.  meia-noite o mundo vai tomar conhecimento da causa dos Illuminati.
     E se colocarmos guardas em cada igreja?  disse Olivetti.
    O homem riu.
     Receio que a natureza prolfica de sua religio torne essa tarefa difcil. Tem feito contas ultimamente? H mais de quatrocentas igrejas catlicas em Roma. Catedrais, capelas, tabernculos, abadias, monastrios, conventos, escolas paroquiais...
    O rosto de Olivetti continuou impassvel.
     Em noventa minutos, vou comear  disse o homem, conclusivo.  Um por hora. Em uma progresso matemtica e mortal. Agora, preciso ir.
     Espere!  pediu Langdon.  Fale-me das marcas que pretende usar nesses homens.
    O matador pareceu divertir-se.
     Desconfio que j saiba quais sero as marcas. Ou ser que voc  um ctico? Vai v-las logo, logo. Vo provar que as lendas antigas so verdade.
    A cabea de Langdon girou. Sabia exatamente o que o outro estava dizendo. Lembrou a marca no peito de Leonardo Vetra. O folclore dos Illuminati mencionava cinco marcas ao todo. Restam quatro marcas e faltam quatro cardeais.
     Fiz o juramento  disse o camerlengo  de eleger um novo Papa esta noite. Jurei a Deus.
     Camerlengo  disse o homem , o mundo no precisa de um novo Papa. Depois da meia-noite ele ter apenas um monte de entulho para governar. A Igreja Catlica est acabada. Seu reino na Terra terminou.
    Fez-se um silncio pesado.
    O camerlengo parecia sinceramente triste.
    -Voc est enganado. Uma igreja  muito mais do que pedra e cimento. No pode simplesmente apagar dois mil anos de f, de qualquer f, seja ela qual for. No pode destruir a f apenas removendo suas manifestaes terrenas. A Igreja Catlica vai continuar com ou sem a Cidade do Vaticano.
     Uma nobre mentira. Mas ainda assim uma mentira. Ambos sabemos qual  a verdade. Diga, por que o Vaticano  uma cidade murada?
     Os homens de Deus vivem em um mundo perigoso  disse o camerlengo.
     Quantos anos voc tem? O Vaticano  uma fortaleza porque a Igreja Catlica mantm metade de seu patrimnio dentro desses muros  pinturas e esculturas raras, jias de valor incalculvel, livros preciosos... e ouro em barras e ttulos imobilirios nos cofres do Banco do Vaticano. Estima-se que o valor bruto da Cidade do Vaticano seja de 48,5 bilhes de dlares. Um p-de-meia bastante razovel. Amanh, ser um monte de p. Ativos liquidados, para dizer a verdade. Vocs estaro falidos. Nem os homens do clero podem trabalhar de graa.
    A exatido das afirmativas refletia-se na expresso de Olivetti e do camerlengo, a de pessoas em estado de choque. Langdon no sabia o que era mais impressionante: a Igreja Catlica ter todo aquele dinheiro ou os Illuminati terem conhecimento dele.
    O camerlengo suspirou pesadamente.
      a f, no o dinheiro, que constitui a espinha dorsal da Igreja.
     Mais mentiras  disse o homem.  No ano passado, vocs gastaram 183 milhes de dlares tentando apoiar suas dioceses em dificuldades pelo mundo afora. O comparecimento s igrejas teve a maior queda de todos os tempos  menos 46 por cento na ltima dcada. As doaes caram  metade do que eram h apenas sete anos. Cada vez menos homens entram para os seminrios. Embora vocs no admitam, sua igreja est morrendo. Considerem isto como uma chance de acabar bem.
    Olivetti deu um passo  frente. Mostrava-se menos combativo agora, como se tomasse conscincia da realidade a enfrentar. Era um homem procurando uma sada. Qualquer uma.
     E se um pouco daquele ouro passasse a financiar a sua causa?
     No nos insulte a ambos.
     Temos dinheiro.
     Ns tambm. Mais do que pode calcular.
    Em um lampejo, Langdon relembrou as supostas fortunas dos Illuminati, as antigas riquezas dos pedreiros bvaros, os Rothschilds, os Bilderbergers, o lendrio diamante Illuminati.
     I preferiti  disse o camerlengo, mudando de assunto. Sua voz suplicava.
     Poupe-os. So velhos. Eles...
     Sero sacrifcios de virgens  o homem riu.  Diga, acredita mesmo que eles sejam virgens? Ser que os carneirinhos vo balir ao morrer? Sacrifici vergini nellaltare di scienza.
    O camerlengo ficou em silncio um longo tempo.
     So homens de f  disse afinal.  No temem a morte.
    O homem escarneceu.
     Leonardo Vetra era um homem de f e contudo vi medo em seus olhos na noite passada. Um medo que eliminei.
    Vittoria, at ento calada, de repente deu um salto, o corpo retesado de dio, e exclamou.
     Assassino! Ele era meu pai!
    Uma gargalhada ecoou do outro lado do telefone.
     Seu pai? Que histria  essa? Vetra tinha uma filha? Voc tem de saber que seu pai choramingou como uma criana no final. De dar pena, realmente. Um homem pattico.
    Vittoria cambaleou como se tivesse sido agredida fisicamente pelas palavras dele. Langdon correu para ampar-la, mas ela recuperou o equilbrio e fixou os olhos escuros no aparelho.
     Juro pela minha vida que antes que esta noite acabe vou encontrar voc.
     A voz dela saiu cortante como um laser.  E quando isto acontecer...
    O homem riu de modo grosseiro.
     Uma mulher de fibra. Estou excitado. Talvez, antes que esta noite acabe, eu encontre voc. E quando isto acontecer...
    As palavras pairaram como uma lmina no ar. Ele se fora.

CAPTULO 42

    O cardeal Mortati agora suava dentro de sua batina preta. No s a Capela Sistina comeava a se parecer com uma sauna, como o conclave estava programado para comear da a 20 minutos e ainda no se tinha notcia dos quatro cardeais que faltavam.
    Com a ausncia deles, os iniciais cochichos de perplexidade dos outros cardeais haviam se transformado em ansiedade declarada.
    Mortati no podia imaginar onde estariam os ausentes. Com o camerlengo, quem sabe? Sabia que o camerlengo realizara o tradicional ch particular para os quatro preferiti mais cedo naquela tarde, mas aquilo fora horas atrs. Ser que estavam passando mal? Com algo que tivessem comido? Mortati duvidava. Mesmo  beira da morte, os preferiti estariam ali. S uma vez na vida, geralmente nunca, um cardeal tinha a oportunidade de ser eleito Sumo Pontfice e, pela Lei Vaticana, esse cardeal tinha de estar dentro da Capela Sistina quando a votao se realizasse. Caso contrrio, ele seria inelegvel.
    Apesar de haver quatro preferiti, poucos cardeais tinham qualquer dvida sobre quem seria o prximo Papa. Nos ltimos 15 dias, inmeros faxes e telefonemas haviam sido trocados para discutir os candidatos em potencial. Como era o costume, quatro nomes haviam sido selecionados como preferiti, cada um deles preenchendo os requisitos tcitos para se tornar Papa: fluente em italiano, espanhol e ingls; sem qualquer mancha em seu passado; ter entre 65 e 80 anos de idade.
    Como sempre, um dos preferiti destacara-se como o homem que o Colgio se propunha a eleger. Naquela noite, tratava-se do cardeal Aldo Baggia, de Milo. O histrico impecvel de Baggia, combinado com excepcionais habilidades lingsticas e a capacidade de transmitir a essncia da espiritualidade, haviam feito dele o indiscutvel favorito.
    E onde ser que ele se meteu?, cismava Mortati.
    Mortati estava particularmente irritado com os cardeais faltosos porque a tarefa de supervisionar o conclave coubera a ele. Uma semana antes, o Colgio dos Cardeais escolhera unanimemente Mortati para o cargo conhecido como O Grande Eleitor, o mestre-de-cerimnias interno do conclave. Ainda que o camerlengo fosse o funcionrio mais graduado da Igreja, era apenas um padre e pouco familiarizado com o complexo processo eleitoral, de modo que um cardeal era selecionado para dirigir a cerimnia de dentro da Capela Sistina.
    Os cardeais costumavam brincar que ser indicado como Grande Eleitor era a honra mais cruel da cristandade. A indicao tornava a pessoa inelegvel, alm de exigir que passasse muitos dias antes do conclave debruada sobre as pginas do Universi Dominici Gregis reestudando as sutilezas dos misteriosos rituais do conclave para garantir que a eleio fosse administrada convenientemente.
    Mortati no se ressentia por isso, todavia. Sabia que era a escolha lgica. No s por ser o cardeal mais velho, como por ter sido confidente do ltimo Papa, um fato que aumentava o apreo por sua pessoa. Embora ainda estivesse tecnicamente dentro da faixa etria legal para a eleio, j estava um pouco velho para ser um candidato de peso. Com 79 anos, j ultrapassara o limiar no expresso em palavras alm do qual o Colgio no mais confiava na sade da pessoa para agentar a rigorosa programao do papado. Um Papa geralmente trabalhava 14 horas por dia, sete dias por semana e morria de exausto em uma mdia de 6,3 anos.
    A piada que circulava internamente dizia que aceitar o papado era o caminho mais curto para o Cu para um cardeal.
    Mortati, muitos acreditavam, poderia ter sido Papa quando mais moo se no fosse to liberal. Quando se tratava de alcanar o papado, havia uma Santssima Trindade a considerar: Conservadorismo, Conservadorismo e Conservadorismo.
    Mortati sempre se divertira muito com a ironia de o ltimo Papa  que Deus guardasse a sua alma  ter-se revelado surpreendentemente liberal assim que assumiu o cargo. Talvez por perceber que o mundo moderno progredia afastando-se da Igreja, o Papa promovera aberturas, suavizando a posio da Igreja com relao s cincias e at fazendo doaes em dinheiro para causas cientficas selecionadas.
    Lamentavelmente, aquilo acabara se constituindo em suicdio poltico. Os catlicos conservadores declararam que o Papa estava senil e os puristas cientficos acusaram-no de tentar disseminar a influncia da Igreja onde no era chamado.
     Ento, onde esto eles?
    Mortati virou-se.
    Um dos cardeais batia nervosamente no ombro dele.
     Sabe onde eles esto, no sabe?
    Mortati procurou no demonstrar muita preocupao.
     Talvez ainda com o camerlengo.
     A esta hora? Isto estaria altamente em desacordo com as regras!  O rosto do cardeal ensombreceu-se, desconfiado.  Talvez o camerlengo tenha perdido a noo da hora?
    Mortati duvidava muito disso, mas nada disse. Estava bem consciente de que a maioria dos cardeais no simpatizava muito com o camerlengo, achando-o muito moo para servir ao Papa to de perto. Mortati suspeitava de que grande parte dessa animosidade fosse de fato causada por cime, e ele prprio admirava muito o jovem padre, tendo aplaudido em segredo o gesto do ltimo Papa quando este o escolhera para seu camarista. Mortati s via convico nos olhos do camerlengo e, ao contrrio de muitos cardeais, o camerlengo colocava a Igreja e a f antes da poltica trivial. Ele era verdadeiramente um homem de Deus.
    Durante todo o tempo em que desempenhou suas funes, a inabalvel devoo do camerlengo tornara-se lendria. Muitos a atribuam a um acontecimento milagroso na sua infncia, que teria deixado uma impresso permanente no corao de qualquer pessoa. O milagre e a sensao do maravilhoso, pensou Mortati, que algumas vezes desejara que sua infncia lhe tivesse proporcionado um acontecimento capaz de despertar uma f sem dvidas como aquela.
    Infelizmente para a Igreja, Mortati sabia, o camerlengo nunca se tornaria Papa quando fosse mais maduro.
    Chegar ao papado requeria uma certa quantidade de ambio poltica, algo que parecia faltar ao jovem padre. Ele recusara vrias ofertas do Papa para ocupar posies mais elevadas, dizendo que preferia servir  Igreja como um simples homem.
     E ento?  o cardeal bateu no ombro de Mortati, esperando.
    Mortati ergueu os olhos para ele.
     Como assim?
     Eles esto atrasados! O que vamos fazer?
     O que podemos fazer?  retrucou Mortati.  Esperar. E ter f.
    Nem um pouco satisfeito com a resposta de Mortati, o cardeal desapareceu nas sombras outra vez.
    Mortati ficou parado um momento, dando pancadinhas nas tmporas e tentando clarear sua mente.
    De fato, o que vamos fazer? Olhou, alm do altar, para o afresco restaurado de Michelangelo, O ltimo Julgamento. A pintura no acalmou sua ansiedade. Era uma apavorante representao de mais de 15 metros de altura de Jesus Cristo separando a humanidade entre virtuosos e pecadores, e lanando os pecadores no inferno. Havia carne viva exposta, corpos queimando e at um dos rivais de Michelangelo usando orelhas de burro sentado no inferno. Guy de Maupassant escrevera certa vez que aquela pintura parecia ter sido criada para uma barraca de lutas de parque de diverses por um carvoeiro ignorante.
    O cardeal Mortati tinha de concordar.
    

CAPTULO 43

    Langdon ficou parado, imvel,diante da janela  prova de bala do escritrio do Papa, olhando para baixo, para o alvoroo dos trailers da imprensa na Praa de So Pedro. A sinistra conversa telefnica o deixara confuso, aturdido. No parecia ele mesmo.
    Os Iluminati, como uma serpente sada das profundezas esquecidas da Histria, haviam surgido e se enrolado em torno de um antigo adversrio. Nenhuma exigncia. Sem negociaes. S retaliao.
    Demoniacamente simples. Exercendo presso. Uma vingana preparada durante 400 anos. Ao que parecia, depois de sculos de perseguio, a cincia revidava.
    O camerlengo estava de p diante da escrivaninha, olhando para o telefone com um ar parado. Olivetti foi o primeiro a quebrar o silncio.
     Carlo  disse, usando o primeiro nome do camerlengo e parecendo mais um amigo fatigado do que um oficial.  H 26 anos, jurei dar a minha vida para proteger esta funo. Acho que hoje perdi minha honra.
    O camerlengo balanou a cabea.
     Voc e eu servimos a Deus de formas diferentes, mas este servio sempre traz honra.
     Estes acontecimentos... no posso imaginar como... esta situao...
    Olivetti estava arrasado.
     Temos somente uma atitude possvel a tomar. Sou responsvel pela segurana do Colgio dos Cardeais.
     Acho que esta responsabilidade era minha, signore.
     Ento, seus homens vo cuidar da evacuao imediata.
     Signore?
     Mais tarde podemos nos ocupar das outras opes, como procurar o aparelho, promover a busca dos cardeais desaparecidos e de seus captores. Mas, primeiro, os cardeais devem ser levados para um local seguro. A santidade da vida humana est acima de tudo. Esses homens so a base desta Igreja.
     O senhor est sugerindo que cancelemos o conclave de imediato?
     Que outra escolha tenho?
     E quanto  sua tarefa de fazer eleger um novo Papa?
    O camarista suspirou e voltou-se para a janela, o olhar se desviando para Roma, que se estendia l embaixo.
     Sua Santidade me disse certa vez que o Papa  um homem dividido entre dois mundos, o mundo verdadeiro e o divino. E que a igreja que ignorasse a realidade no sobreviveria para desfrutar do divino.  Sua voz soava de repente mais madura do que a de algum de sua idade.  O mundo real est diante de ns esta noite. Seria uma iluso ignor-lo. Orgulho e precedncia no podem obscurecer a razo.
    Olivetti concordou com um gesto de cabea, impressionado.
     Eu o subestimei, senhor.
    O camerlengo no pareceu ouvir. Seu olhar estava distante, voltado para a janela.
     Vou falar abertamente, signore. O mundo real  o meu mundo. Mergulho todos os dias em sua feira para que outros fiquem livres dessa incumbncia e possam buscar algo mais puro. Permita que o aconselhe na presente situao.  para isso que sou treinado. Seu instinto, cujo valor ainda assim reconheo, pode ter conseqncias desastrosas.
    O camerlengo voltou-se para ele.
    Olivetti suspirou.
     Tirar o Colgio dos Cardeais da Capela Sistina  a pior coisa que se poderia fazer neste momento.
    O camerlengo no se mostrou indignado com a sugesto, apenas desnorteado.
     O que sugere, ento?
     No diga nada aos cardeais. Sele o conclave. Vai nos dar tempo para tentar outras alternativas.
    O camerlengo ficou perturbado.
     Est sugerindo que eu tranque o Colgio dos Cardeais inteiro em cima de uma bomba-relgio?
     Sim, signore. Por ora. Mais tarde, se for necessrio, podemos providenciar a evacuao.
    O camerlengo sacudiu a cabea.
     Adiar a cerimnia antes que comece j  razo suficiente para um inqurito, mas depois que as portas so lacradas, nada mais pode interferir com o processo. Os procedimentos do conclave exigem...
     O mundo real, signore. O senhor est nele esta noite. Preste ateno.  Olivetti falava agora com a animao de um oficial de campo.  Deslocar 165 cardeais despreparados e desprotegidos para Roma seria uma imprudncia. Causaria pnico e confuso em alguns homens muito idosos e, francamente, um derrame fatal este ms j foi o bastante.
    Um derrame fatal. As palavras do comandante fizeram Langdon lembrar as manchetes que lera durante o jantar com alunos no Harvard Commons: PAPA SOFRE DERRAME E MORRE DORMINDO.
     Alm do mais  continuou Olivetti , a Capela Sistina  uma fortaleza. Apesar de no alardearmos o fato, a estrutura  altamente reforada e pode resistir a qualquer agresso, exceto de msseis. Um de nossos preparativos foi examinar cada centmetro da capela esta tarde. Fizemos uma varredura completa procurando grampos e outros equipamentos de escuta. A capela est limpa,  um abrigo seguro e tenho certeza de que a antimatria no est l dentro. No existe lugar mais seguro onde esses homens possam ficar neste momento. E podemos sempre discutir uma evacuao de emergncia mais tarde, se for o caso.
    Langdon ficou impressionado. A lgica fria e inteligente de Olivetti lembrava-o de Kohler.
     Comandante  disse Vittoria, a voz tensa , h outras questes a considerar. Nunca se criou uma quantidade to grande de antimatria. S posso fazer uma estimativa de qual seria exatamente o raio de exploso.  possvel que uma parte dos arredores de Roma tambm corra perigo. Se o material estiver dentro de um de seus edifcios centrais ou no subsolo, o efeito fora destes muros pode ser mnimo, mas se estiver perto do permetro, neste prdio, por exemplo...  e ela lanou um olhar cauteloso para fora da janela, para a multido na Praa de So Pedro.
     Tenho plena conscincia das minhas responsabilidades para com o mundo exterior  replicou Olivetti , que no tornam menos grave esta situao. A proteo deste santurio foi minha nica incumbncia por mais de 20 anos. No tenho qualquer inteno de permitir que essa arma detone.
     Acha que pode encontr-la?  perguntou o camerlengo.
     Deixe que eu discuta nossas opes com alguns dos meus especialistas em vigilncia. Existe a possibilidade, se cortarmos a energia eltrica da Cidade do Vaticano, de eliminarmos o fundo de radiofreqncia e criarmos um ambiente limpo o suficiente para conseguir uma leitura do campo magntico daquele tubo.
    Vittoria ficou surpresa e depois impressionada.
     O senhor quer apagar a Cidade do Vaticano inteira?
     Talvez. Ainda no sei se  possvel, mas  uma opo que quero explorar.
     Os cardeais decerto ficariam imaginando o que teria acontecido  observou Vittoria.
    Olivetti fez que no com a cabea.
     Os conclaves so realizados  luz de velas. Os cardeais jamais saberiam. Depois que o conclave fosse selado, poderia convocar todos os meus guardas, com exceo de alguns poucos do permetro, e iniciar uma busca. Cem homens poderiam fazer uma boa varredura em cinco horas.
     Quatro horas  corrigiu Vittoria.  Tenho de levar o tubo de volta para o CERN. A detonao ser inevitvel se as baterias no forem carregadas.
     Existe alguma forma de recarreg-las aqui?
    Vittoria sacudiu a cabea.
     A interface  muito complexa. Teria trazido tudo se fosse possvel.
     Quatro horas, ento  assentiu Olivetti, de cara fechada.  Ainda temos bastante tempo. No adianta entrar em pnico. Signore, tem dez minutos. V para a capela e sele o conclave. D a meus homens um pouco de tempo para que faam o trabalho deles.  medida que nos aproximarmos da hora crtica, tomaremos as decises crticas.
    Langdon conjeturou at que ponto de proximidade da hora crtica Olivetti deixaria as coisas chegarem.
    O camerlengo estava inquieto.
     Mas o Colgio vai perguntar pelos preferiti... principalmente por Baggia, vai querer saber onde eles esto.
     Vai ter de pensar em alguma coisa, signore. Diga que serviu alguma coisa durante o ch aos quatro cardeais que no lhes caiu bem.
    O camerlengo irritou-se.
     Subir ao altar da Capela Sistina e mentir para o Colgio dos Cardeais?
     Para a prpria segurana deles. Una bugia veniale. Uma mentira inocente. Sua tarefa ser a de manter a paz.  Olivetti encaminhou-se para a porta.
     Agora, se me permitem, preciso agir.
     Comandante  instou o camerlengo , no podemos simplesmente dar as costas aos cardeais desaparecidos.
    Olivetti parou  porta.
     Baggia e os outros esto fora de nossa esfera de influncia neste momento. Temos de deix-los de lado para o bem da maioria. Os militares chamam a isso de triagem.
     No seria abandono?
    Sua voz endureceu.
     Se houvesse alguma forma, signore, qualquer uma neste mundo, de localizar esses quatro cardeais, eu daria a minha vida para fazer isso. Entretanto...  e ele apontou para a janela do outro lado da sala, de onde se via o mar infinito de telhados romanos reluzindo ao sol do fim da tarde , no est ao meu alcance fazer uma busca em uma cidade de cinco milhes de habitantes. No vou gastar um precioso tempo acalmando minha conscincia em um esforo intil. Sinto muito.
    Vittoria fez um aparte inesperado.
     Mas, se ns pegssemos o assassino, o senhor no o faria falar?
    Olivetti respondeu, srio.
     Soldados no podem se dar ao luxo de serem santos, senhorita Vetra. Acredite, simpatizo com sua motivao pessoal para pegar esse homem.
     No  somente pessoal  explicou ela.  O assassino sabe onde est a anti-matria... e os quatro cardeais. Se consegussemos encontr-lo...
     E fazer o jogo deles?  disse Olivetti.  Afastar toda a proteo do Vaticano para correr centenas de igrejas  o que os Illuminati esperam que faamos, desperdiando tempo e potencial humano quando deveramos estar procurando... ou, pior ainda, deixando o Banco do Vaticano totalmente desprotegido. Sem falar nos outros cardeais.
    Era um argumento irrefutvel.
     E a polcia de Roma?  perguntou o camerlengo.  Poderamos alertar toda a cidade pedindo reforos para a crise. Solicitar a ajuda deles para encontrar o raptor dos cardeais.
     Seria outro erro  disse Olivetti.  O senhor sabe o que os carabinieri romanos acham de ns. Teramos uma colaborao sem muito empenho de uns poucos homens e, em contrapartida, eles divulgariam a nossa crise para a imprensa mundial. Exatamente o que querem nossos inimigos. Vamos ter de lidar com a imprensa muito breve, de qualquer modo.
    Farei de seus cardeais luminares da mdia, foram as palavras do matador. O corpo do primeiro cardeal vai aparecer s oito. Depois aparecer um a cada hora. A imprensa vai adorar.
    O camerlengo falou novamente, um trao de indignao em sua voz.
     Comandante, no podemos em s conscincia deixar de fazer alguma coisa pelos cardeais desaparecidos!
    Olivetti encarou o camerlengo com firmeza.
     A orao de So Francisco, signore. Lembra-se dela?
    O jovem padre pronunciou uma nica frase com um tom dolorido.
     Deus, d-me foras para aceitar as coisas que no posso mudar.
     Acredite em mim  concluiu Olivetti , esta  uma dessas coisas.
    E saiu.

CAPTULO 44

    O escritrio central da BBC  British Broadcast Corporation  fica em Londres, a oeste de Picadilly Circus. A linha telefnica externa tocou e uma jovem editora atendeu.
     BBC  disse ela, apagando seu cigarro Dunhill.
    A voz ao telefone era spera, com um sotaque do Oriente Mdio.
     Tenho uma histria sensacional em primeira mo que deve interessar  sua emissora.
    A editora pegou uma caneta e papel.
     A respeito de qu?
     Da eleio do Papa.
    Ela fez uma careta, enfastiada. A BBC divulgara na vspera uma histria sobre o mesmo assunto e tivera uma audincia medocre. O pblico, aparentemente, no estava muito interessado na Cidade do Vaticano.
     Sob que aspecto?
     Vocs tm um reprter de TV em Roma cobrindo a eleio?
     Acho que sim.
     Preciso falar diretamente com essa pessoa.
     Sinto muito, mas no posso lhe dar o nmero dele sem ter uma idia...
     O conclave est ameaado.  tudo o que posso adiantar.
    A editora tomou notas.
     Seu nome, por favor?
     Meu nome no tem importncia.
     E o senhor tem como provar o que alega?
     Tenho.
     Gostaria muito de receber a informao, mas no  nossa poltica dar os nmeros de telefones de nossos reprteres, a no ser que...
     Compreendo. Vou entrar em contato com outra emissora. Obrigado por sua ateno. At lo...
     Um momento  disse ela.  Pode aguardar um pouco?
    A moa ps a ligao na espera e alongou o pescoo. A arte de identificar as potenciais chamadas de pessoas excntricas ou malucas no era de modo algum uma cincia perfeita, mas aquele homem acabara de passar pelos dois testes de autenticidade de uma fonte telefnica. Recusara-se a dar seu nome e mostrara-se impaciente para desligar. Charlates e manacos por um pouco de fama em geral ficavam se lamentando e fazendo pedidos insistentes.
    Para sorte dela, os reprteres viviam com medo de perder uma boa histria e por isso raramente se queixavam por ela lhes passar os ocasionais psicticos que os decepcionavam. Desperdiar cinco minutos do tempo de um reprter era perdovel. Perder uma boa manchete, no.
    Bocejando, ela olhou para o seu computador e digitou as palavras Cidade do Vaticano Quando viu o nome do reprter que estava cobrindo a eleio papal, deu uma risadinha. Era um funcionrio novo que a BBC acabara de trazer de um tablide londrino de m qualidade para fazer a cobertura mais rotineira. Os chefes obviamente o tinham feito comear pelo degrau mais baixo.
    Ele estaria provavelmente morto de tdio, esperando a noite inteira para gravar sua matria de dez segundos ao vivo. Ficaria talvez at agradecido por uma interrupo da monotonia.
    A editora da BBC anotou o nmero do celular via satlite do reprter na Cidade do Vaticano. Depois, acendendo outro cigarro, deu o nmero ao interlocutor annimo.

CAPTULO 45

     No vai funcionar  disse Vittoria, andando de um lado para outro no escritrio do Papa.
    Ela se dirigiu ao camerlengo.
     Mesmo que uma equipe da Guarda Sua consiga filtrar a interferncia eletrnica, tero de estar praticamente em cima do tubo de antimatria para detectar um sinal qualquer. E isto se o tubo estiver em local acessvel e no existirem outras barreiras a isol-lo. E se estiver enterrado dentro de uma caixa de metal em algum ponto do terreno? Ou dentro de um duto de ventilao feito de metal? No haver meio de rastre-lo. E se houver mesmo espies na Guarda Sua? Quem garante que a busca ser confivel?
    O camerlengo tinha uma expresso esgotada no rosto.
     O que prope, senhorita Vetra?
    Vittoria agitou-se.  No  evidente?  Proponho, senhor, que tome outras precaues imediatamente. Podemos torcer, contra todas as probabilidades, que a busca do comandante seja bem-sucedida. Ao mesmo tempo, olhe l para fora, pela janela. Est vendo toda aquela gente? Aqueles prdios do outro lado da piazza? Os carros da imprensa? Os turistas? Esto todos provavelmente dentro do raio da exploso. O senhor tem de agir agora.
    O camerlengo concordou, aptico.
    Vitria ficou frustrada. Olivetti convencera a todos de que havia tempo de sobra. Mas Vittoria sabia que, se a notcia do problema no Vaticano vazasse, toda a rea estaria cheia de espectadores em questo de minutos. Ela presenciara uma cena assim certa vez do lado de fora do prdio do parlamento suo. Durante um incidente envolvendo refns e uma bomba, milhares de pessoas haviam se reunido diante do prdio para assistir ao desenlace da situao. Apesar dos avisos da polcia de que era perigoso permanecer ali, a multido aglomerava-se cada vez mais perto do edifcio. Nada desperta mais o interesse humano do que a tragdia.
     Signore, o homem que matou meu pai est  solta por a. Cada clula do meu corpo deseja sair daqui correndo para ca-lo. Mas estou aqui no seu escritrio porque me sinto responsvel pelo senhor. Pelo senhor e pelos outros. H vidas em perigo, signore. Est me ouvindo?
    O camerlengo no respondeu.
    Vittoria escutava seu prprio corao em disparada. Por que a Guarda Sua no conseguira rastrear a maldita ligao? O assassino Illuminati  a chave de tudo! Ele sabe onde est a antimatria e, diabos, tambm sabe onde esto os cardeais!  s pegar o assassino e tudo se resolve.
    Vittoria percebeu que estava comeando a se sentir desestabilizada, um tipo estranho de angstia dos tempos da infncia de que se lembrava apenas vaga-mente, dos anos de orfanato, da falta de instrumentos para lidar com a frustrao. Agora voc tem os instrumentos, disse a si mesma, sempre tem. No adiantava, porm. Seus pensamentos interferiam, estrangulando-a. Ela era uma pesquisadora, uma pessoa cuja funo era resolver problemas. Mas aquele problema no tinha soluo. Quais os dados de que precisa? Disse a si mesma para respirar fundo e, pela primeira vez na vida, no conseguiu. Estava sufocada.
    A cabea de Langdon doa, ele tinha a sensao de estar somente no limiar da racionalidade. Observava Vittoria e o camerlengo, mas sua viso estava nublada por imagens horrendas: exploses, o alvoroo da imprensa, o espoucar dos flashes das mquinas fotogrficas, quatro corpos marcados a fogo.
    Shaitan... Lcifer... Aquele que traz a luz... Satan...
    Afastou as imagens demonacas de sua mente. Terrorismo calculado, lembrou a si mesmo, agarrando-se  realidade. Caos planejado. Recordou-se de um seminrio em Radcliffe de que participara como ouvinte quando estava pesquisando o simbolismo pretoriano. Desde ento, modificara sua maneira de ver os terroristas.
     O terrorismo  comeara o professor  tem um objetivo em especial. Qual ?
     Matar pessoas inocentes?  arriscou um aluno.
     Incorreto. A morte  apenas um subproduto do terrorismo.
     Uma exibio de fora?
     No. No existe forma mais fraca de persuaso.
     Causar terror?
     Sendo muito conciso, sim. Simplesmente, o objetivo do terrorismo  criar terror e medo. O medo abala a confiana nas instituies. Enfraquece o inimigo de dentro para fora, causa inquietao nas massas.
    Escrevam isto: o terrorismo no  uma expresso de raiva. O terrorismo  uma arma poltica. Quando se acaba com a fachada de infalibilidade de um governo, acaba-se com a f do povo.
    Perda de f...
    Seria esta a questo? Langdon imaginava como os cristos de todo o mundo reagiriam quando soubessem que quatro cardeais haviam sido sacrificados como se fossem ces mutilados. Se a f de um religioso consagrado no era capaz de proteg-lo das maldades de Sat, que esperana restava para ns? A cabea de Langdon latejava mais agora, ouvindo vozes ao longe sobrepondo-se umas s outras...
    A f no protege ningum. Remdios e air-bags  que protegem as pessoas. Deus no protege ningum. A inteligncia, sim. Esclarecimento. Tenha f somente em algo com resultados tangveis. H quanto tempo no se ouve falar que algum andou sobre a gua? Os milagres modernos so realizados pela cincia... computadores, vacinas, estaes espaciais... at o milagre divino da criao. A matria vinda do nada... em um laboratrio. Quem precisa de Deus? No! A cincia  Deus.
    A voz do assassino ressoava na mente de Langdon. Meia-noite... progresso matemtica da morte... sacrifici vergini nellaltare di scienza.
    Ento, de sbito, como uma multido que se dispersa ao ouvir um tiro, as vozes se foram.
    Robert Langdon levantou-se num pulo. Sua cadeira caiu para trs, batendo com fora no cho de mrmore.
    Vittoria e o camerlengo tiveram um sobressalto.
     Deixei escapar...  Langdon murmurava, como se estivesse enfeitiado.  Estava bem na minha frente.
     Deixou escapar o qu?  perguntou Vittoria.
    Langdon dirigiu-se para o padre.
     Padre, durante trs anos requeri acesso aos Arquivos do Vaticano. O acesso me foi negado sete vezes.
     Senhor Langdon, sinto muito, mas este no  o momento apropriado para fazer queixas como essa.
     Preciso ter acesso imediatamente. Os quatro cardeais desaparecidos. Talvez eu consiga descobrir onde eles vo ser mortos.
    Vittoria olhava fixo para ele, certa de no ter compreendido bem.
    O camerlengo tinha a expresso perturbada de algum que est sendo vtima de uma brincadeira cruel.
     Espera que eu acredite que essa informao est em nossos arquivos?
     No posso prometer localiz-la a tempo, mas, se me deixar entrar...
     Senhor Langdon, tenho de estar na Capela Sistina dentro de quatro minutos. Os arquivos esto do outro lado da cidade.
     Voc est falando srio, no est?  interrompeu Vittoria, encarando Langdon, parecendo entender a intensidade de seu empenho.
     No  hora para brincadeiras  respondeu Langdon.
     Padre  disse Vittoria, dirigindo-se ao camerlengo , se houver uma chance, por menor que seja, de sabermos onde essas mortes vo ocorrer, poderamos cercar os locais e...
     Mas, e os arquivos?  insistiu o camerlengo.  Como  possvel que contenham alguma pista?
     Se eu fosse explicar  disse Langdon , gastaria um tempo que o senhor no tem. Mas, se eu estiver certo, podemos usar as informaes para pegar o Hassassin.
    O camerlengo esforava-se para acreditar, mas no conseguia.
     Os cdices mais sagrados da cristandade encontram-se naquele arquivo. Tesouros que eu prprio no tive o privilgio de ver.
     Estou ciente disso.
     O acesso s  autorizado por decreto do curador e do Conselho dos Bibliotecrios Vaticanos.
     Ou  completou Langdon  por mandado papal. Est escrito em todas as cartas de recusa que seu curador me mandou.
    O camerlengo concordou.
     No quero ser indelicado  insistiu Langdon , mas, se no me engano, o mandado papal sai deste escritrio. Que eu saiba, hoje  o senhor quem est incumbido dessa funo. Considerando-se as circunstncias...
    O camerlengo tirou um relgio de bolso de sua batina e consultou-o.
     Senhor Langdon, estou preparado para dar minha vida, literalmente, para salvar a Igreja esta noite.
    Langdon viu apenas a verdade refletida no olhar do padre.
     Esse documento  disse o camerlengo , o senhor acredita realmente que est aqui? E que pode nos ajudar a localizar as quatro igrejas?
     Eu no teria feito inmeras solicitaes de acesso se no estivesse convencido disso. A Itlia  um tanto longe demais para se vir ao acaso quando se vive de um salrio de professor. O documento  um antigo...
     Por favor  o camerlengo interrompeu-o.  Perdoe-me. Minha cabea no consegue processar nenhum detalhe a mais neste momento. O senhor sabe onde os arquivos secretos esto?
    Langdon sentiu uma onda de excitao.
     Atrs do Porto de SantAna.
     Estou impressionado. A maioria dos estudiosos pensa que se chega l por uma porta secreta atrs do Trono de So Pedro.
     No. Ali fica o Archivio delia Reverenda di Fabbrica di S. Pietro. Um engano comum.
     Um bibliotecrio docente acompanha todos os que entram em todas as ocasies. Esta noite, no h nenhum docente, todos saram do Vaticano. O que me pede  um acesso com carta branca. Nem os nossos cardeais entram l sozinhos.
     Vou tratar os seus tesouros com o maior respeito e cuidado. Seus bibliotecrios no vo encontrar qualquer vestgio da minha presena.
    Os sinos de So Pedro comearam a tocar. O camerlengo verificou a hora em seu relgio.
     Preciso ir  fez uma pausa tensa e olhou para Langdon.  Vou mandar um guarda suo encontr-lo no local dos arquivos. Senhor Langdon, estou depositando minha confiana no senhor. Agora, v.
    Langdon no encontrou palavras.
    O jovem padre parecia agora ter um porte e uma presena quase sobrenaturais. Estendeu a mo e apertou o ombro de Langdon com uma fora surpreendente.
     Quero que encontre o que vai procurar. E depressa.

CAPTULO 46

    Os Arquivos Secretos do Vaticano esto situados na extremidade do Ptio Brgia, em uma elevao a que se chega pelo Porto de SantAna.
    Contm mais de 20.000 volumes e, dizem, guarda tesouros como os dirios perdidos de Leonardo da Vinci e at livros no publicados da Bblia Sagrada.
    Langdon atravessou com passadas vigorosas a deserta Via della Fondamenta rumo aos arquivos, mal acreditando que lhe fora concedido o acesso to ambicionado. Vittoria seguia a seu lado, acompanhando-o sem o menor esforo. O cabelo dela ondulava levemente  brisa e Langdon aspirava seu perfume de amndoa. Sentiu seus pensamentos se dispersarem e fez um esforo para se concentrar.
    Vittoria disse:
     Vai me contar o que vamos procurar?
     Um livrinho escrito por um sujeito chamado Galileu.
     Voc no perde tempo  comentou ela, surpresa.  O que h nele?
     Supe-se que contenha algo chamado il segno.
     A indicao, a senha?
     Pista, sinal... depende da sua traduo.
     Indicao para qu?
    Langdon apertou o passo.
     Para um local secreto. Os Illuminati do tempo de Galileu precisavam se proteger do Vaticano e por isso criaram um local de reunies ultra-secreto aqui em Roma, a que chamaram de Igreja da Iluminao.
     Muita audcia chamar de igreja um antro satnico.
    Langdon abanou a cabea.
     Os Illuminati de Galileu no eram nem um pouco satnicos. Eram cientistas que reverenciavam o conhecimento, as luzes. Seu ponto de encontro era apenas o lugar onde podiam se encontrar em segurana e discutir tpicos proibidos pelo Vaticano. Embora se saiba que esse lugar existiu, at agora ningum jamais o localizou.
     Quer dizer que os Illuminati sabiam manter segredo.
     Sem dvida. Na realidade, eles nunca revelaram a localizao de seu esconderijo para ningum mais fora da fraternidade. Esse segredo protegia-os, mas, ao mesmo tempo, criava um problema quando se tratava de recrutar novos membros.
     No poderiam crescer se no fizessem propaganda  disse Vittoria, as pernas e o raciocnio acompanhando-o perfeitamente.
     Exato. Rumores sobre a fraternidade de Galileu comearam a correr por volta de 1630, e cientistas de todo o mundo fizeram peregrinaes secretas a Roma na esperana de se juntar aos Illuminati, vidos por uma oportunidade de olhar atravs do telescpio de Galileu e ouvir as idias do mestre. Infelizmente, porm, por causa do sigilo mantido pelos Illuminati, os cientistas que chegavam em Roma nunca sabiam aonde ir para assistir s reunies ou a quem se dirigir com segurana. Os Illuminati queriam sangue novo, mas no podiam se arriscar divulgando seu paradeiro.
     Era ento uma situazione senza soluzione  comentou Vittoria.
     Pois . Um beco sem sada, como se diz.
     E o que eles fizeram?
     Eram cientistas, portanto examinaram o problema e encontraram uma soluo. Uma soluo brilhante, para ser franco. Os Illuminati criaram uma espcie de mapa engenhoso que orientava os cientistas para seu refgio.
    Vittoria diminuiu o passo, ctica.
     Um mapa? Meio imprudente. Se uma cpia casse nas mos erradas...
     No havia possibilidade  disse Langdon.  No existiam cpias em lugar algum. No era o tipo de mapa que cabe em uma folha de papel. Era enorme. Uma trilha marcada de vrias maneiras atravs da cidade.
    Vittoria diminuiu ainda mais o passo.
     Setas pintadas nas caladas?
     De certo modo, sim, mas com mais sutileza. O mapa consistia em uma srie de marcos simblicos disfarados cuidadosamente em locais pblicos pela cidade afora. Um marco levava ao outro, e assim por diante, formando uma trilha que acabava levando ao refgio dos Illuminati.
    Vittoria olhou-o de soslaio.
     Parece mais uma caa ao tesouro.
    Langdon sorriu timidamente.
     E realmente no deixa de ser. Os Illuminati chamavam a sua seqncia de marcos de Caminho da Iluminao E quem quer que desejasse fazer parte da fraternidade tinha de segui-la toda at o fim. Uma espcie de teste.
     Mas, se o Vaticano quisesse encontrar os Illuminati  argumentou Vittoria , bastaria que tambm seguisse os marcos.
     No. O caminho estava oculto. Era um quebra-cabea, construdo de tal forma que apenas determinadas pessoas teriam a capacidade de encontrar os marcos e adivinhar onde estava escondida a igreja dos Illuminati. Os Illuminati pretendiam que fosse uma espcie de iniciao, funcionando no apenas como medida de segurana mas tambm como um processo de seleo em que somente os cientistas mais brilhantes chegassem  sua porta.
     No pode ser. No sculo XVII, os homens do clero estavam entre os mais instrudos do mundo. Se esses marcos ficavam em lugares pblicos, com certeza existiriam homens do Vaticano capazes de encontr-los.
     Sem dvida  disse Langdon , se eles soubessem dos marcos. Mas no sabiam. E nunca perceberam a existncia dos marcos porque os Illuminati os prepararam de uma forma que os clrigos jamais suspeitariam que fossem o que eram. Utilizaram um mtodo que em simbologia  chamado de dissimulao.
     Camuflagem.
    Langdon surpreendeu-se.
     Voc conhece o termo.
     Dissimulacione  disse ela.  A melhor forma de defesa da natureza. Experimente achar um peixe-trombeta flutuando verticalmente no meio da vegetao marinha.
     Pois . Os Illuminati empregaram o mesmo conceito. Criaram marcos que desapareciam contra o pano de fundo da antiga Roma. No podiam usar ambigramas nem simbologia cientfica porque seria um recurso visvel demais, de modo que convocaram um artista Illuminatus, o mesmo prodgio annimo que criara seu smbolo ambigramtico Illuminati e encomendaram-lhe quatro esculturas.
     Esculturas Illuminati?
     Sim, esculturas que deveriam seguir duas rigorosas diretrizes. Primeiro, serem parecidas com o resto das obras de arte de Roma, serem obras de arte que o Vaticano nunca desconfiasse que pertenciam aos Illuminati.
     Arte religiosa.
    Langdon concordou, animado, falando agora mais depressa.
     E a segunda diretriz eram os temas das quatro esculturas, que tinham de ser muito especficos. Cada uma delas teria de ser um tributo sutil a um dos elementos da cincia.
     Quatro elementos?  disse Vittoria.  H mais de cem.
     No no sculo XVII  lembrou Langdon.  Todos os alquimistas acreditavam que o universo se constitua de apenas quatro substncias: Terra, Ar, Fogo e gua.
    A cruz primitiva, Langdon sabia, era o smbolo mais comum dos quatro elementos  quatro braos representando Terra, Ar, Fogo e gua. Alm disso, entretanto, existiam literalmente dezenas de ocorrncias simblicas de Terra, Ar, Fogo e gua atravs da Histria  os ciclos da vida pitagricos, o Hong-Fan chins, os rudimentos junguianos do feminino e do masculino, os quadrantes do zodaco. At os muulmanos reverenciavam os quatro elementos, embora no Isl fossem conhecidos como quadrados, nuvens, raios e ondas. Para Langdon, porm, era um uso mais moderno que sempre lhe dava arrepios  os quatro graus msticos de Iniciao Absoluta dos maons: Terra, Ar, Fogo e gua.
    Vittoria estava um pouco zonza.
     Quer dizer que esse artista Illuminati criou quatro obras de arte que pareciam religiosas, mas eram na realidade tributos  Terra, ao Ar, ao Fogo e  gua?
     Exatamente  disse Langdon, dobrando na Via Sentinel em direo aos Arquivos.  As peas misturaram-se ao mar de arte religiosa espalhado por Roma. Doando essas obras anonimamente para igrejas especficas e usando sua influncia poltica, a fraternidade instalou as quatro peas em igrejas criteriosamente escolhidas em Roma. Cada uma delas,  claro, era um marco apontando sutilmente para a igreja seguinte onde estava o prximo marco. Funcionava como uma trilha de pistas disfarada de arte religiosa. Se um candidato a Illuminati encontrasse a primeira igreja e o marco que correspondia  Terra, podia seguir para o do Ar, depois para o do Fogo, o da gua e, por fim, para a Igreja da Iluminao.
    Vittoria achava a explicao cada vez menos clara.
     E tudo isso tem alguma coisa a ver com pegarmos o assassino Illuminati?
    Langdon riu e deu a ltima cartada.
     Ah, claro. Os Illuminati tinham uma denominao muito especial para essas quatro igrejas. Os Altares da Cincia.
    Vittoria franziu a testa.
     Desculpe, mas isso no signif...  ela parou de falar.  Laltare di scienza!  exclamou.  O assassino Illuminati. Ele disse que os cardeais seriam sacrifcios de virgens nos altares da cincia!
    Langdon sorriu para ela.
     Quatro cardeais, quatro igrejas. Os quatro altares da cincia.
    Ela estava assombrada.
     Quer dizer que as quatro igrejas onde os cardeais vo ser sacrificados so as mesmas que marcam o antigo Caminho da Iluminao?
     Acredito que sim.
     Mas por que o assassino nos daria essa pista?
     Por que no? Poucos historiadores sabem sobre essas esculturas. Ainda por cima, pouqussimos acreditam que existam. E sua localizao permaneceu secreta por 400 anos. Decerto os Illuminati confiavam que o segredo fosse mantido por mais cinco horas. Alm disso, eles no precisam mais do Caminho da Iluminao. Seu refgio secreto provavelmente j desapareceu faz tempo. Vivem no mundo moderno.
    Encontram-se em salas de reunies da presidncia de bancos, em restaurantes de clubes e campos de golfe particulares. Esta noite, querem tornar pblicos seus segredos.  o seu grande momento. A grande revelao.
    Langdon temia que a grande revelao dos Illuminati viesse acompanhada de mais uma caracterstica paralela que ele ainda no mencionara. As quatro marcas a fogo. O assassino declarara que cada cardeal seria marcado com um smbolo diferente. Para provar que as lendas antigas so verdade, dissera ele. A lenda das quatro marcas ambigramticas era to antiga quanto os prprios Illuminati: terra, ar, fogo, gua  quatro palavras trabalhadas em perfeita simetria. Como a palavra Illuminati. Cada cardeal deveria ser marcado com um dos antigos elementos da cincia. O boato de que as quatro marcas eram em ingls e no em italiano ainda servia de tema de discusso entre os historiadores. O ingls parecia ser um desvio fortuito da sua lngua natural... e os Illuminati no faziam nada ao acaso.
    Langdon enveredou pelo caminho revestido de tijolos diante do prdio dos arquivos. Imagens horripilantes agitavam sua mente. O plano geral dos Illuminati comeava a revelar sua paciente grandiosidade. A fraternidade jurara manter-se na surdina por quanto tempo fosse necessrio, acumulando influncia e poder suficientes para que pudesse reemergir sem medo, declarar sua posio e lutar por sua causa em plena luz do dia. Sem se esconder mais. Alardeando seu poder, confirmando os mitos conspiratrios. Aquela noite seria uma faanha publicitria mundial.
    Vittoria anunciou:
     L vem nosso acompanhante.
    Langdon levantou a cabea e viu um guarda suo atravessando s pressas um gramado adjacente em direo  porta da frente.
    Quando o guarda avistou os dois, parou. Olhou para eles como se estivesse tendo uma alucinao. Sem dizer palavra, virou-se de costas e pegou seu walkie-talkie. Aparentemente sem acreditar no que lhe haviam mandado fazer, o guarda falou em tom urgente com a pessoa do outro lado. Langdon no conseguiu decifrar a vociferao que o rapaz ouviu de volta, mas a mensagem era bem clara. O guarda se encolheu, guardou o walkie-talkie e virou-se para eles com uma cara aborrecida.
    Mudo, conduziu-os para o interior do prdio. Passaram por quatro portas de ao, duas entradas fechadas com chave privativa, desceram uma comprida escadaria que dava em um saguo com duas fechaduras digitais. Atravessaram uma srie de portes eletrnicos e chegaram  extremidade de um longo corredor, diante de largas portas duplas de carvalho. O guarda parou, examinou-os de alto a baixo outra vez e, resmungando, encaminhou-se para uma caixa metlica presa na parede. Destrancou-a e digitou um cdigo.
    As portas emitiram um zumbido e a cavilha se abriu.
    O guarda voltou-se, falando com eles pela primeira vez.
     Os arquivos esto atrs daquelas portas. Recebi instrues para acompanh-los at este ponto e voltar para cumprir outras ordens.
     Vai embora?  perguntou Vittoria.
     A Guarda Sua no tem acesso aos Arquivos Secretos. Os senhores esto aqui somente porque meu comandante recebeu uma ordem direta do camerlengo.
     Mas como vamos sair?
     Segurana monodirecional. No tero dificuldade alguma.
    Sendo aquilo tudo o que tinha para dizer, o guarda girou nos calcanhares e marchou para a sada.
    Vittoria fez um comentrio qualquer, mas Langdon no a escutou. Sua mente estava concentrada nas portas duplas  sua frente, conjeturando que mistrios guardariam.

CAPTULO 47

    Apesar de saber que estava em cima da hora, o camerlengo Carlo Ventresca ia andando devagar. Precisava de um tempo a ss para ordenar seus pensamentos antes de fazer a prece de abertura. Tanta coisa estava acontecendo. Seguindo pela Ala Norte, imerso em sombria solido, o desafio dos ltimos 15 dias pesava em cada um de seus ossos.
    Cumprira seus santos deveres ao p da letra.
    Como determinava a tradio do Vaticano, logo depois da morte do Papa o camerlengo constatara pessoalmente o bito pousando os dedos na artria cartida do pontfice, escutara se ainda respirava e em seguida chamara-o pelo nome trs vezes. Por lei, no havia autpsia.
    Ento, ele selara o quarto de dormir do Papa, destrura o Anel do Pescador e o sinete usado para fazer os selos de chumbo e tomara as providncias necessrias para as exquias. Tendo terminado, iniciara os prepararativos para o conclave.
    Conclave, pensou. A barreira final a ultrapassar. Era uma das mais antigas tradies da cristandade. Hoje em dia, pelo fato de em geral o resultado do conclave j ser conhecido antes do seu comeo, o processo era criticado, considerado obsoleto  visto mais como uma pardia do que uma eleio. O camerlengo sabia, porm, que isso se devia a uma falta de compreenso. O conclave no era uma eleio. Era uma antiga e mstica transferncia de poder. A tradio no tinha idade... o segredo, as tiras de papel dobradas, a queima das cdulas, a mistura de antigos produtos qumicos, os sinais de fumaa.
     medida que o camerlengo se aproximava atravs das Loggias de Gregrio XIII, pensava se o cardeal Mortati j estaria em pnico quela altura. Mortati com certeza j percebera a ausncia dos preferiti. Sem eles, a votao entraria pela noite adentro. A indicao de Mortati para Grande Eleitor, o camerlengo se tranqilizava, fora uma boa escolha. O homem era um livre-pensador e podia falar com franqueza. O conclave daquela noite precisaria mais do que nunca de um lder.
    Quando chegou ao topo da Escadaria Real, teve a sensao de que se encontrava no precipcio de sua vida. Dali j se ouvia o rumor de atividade na Capela Sistina, l embaixo  o burburinho inquieto de 165 cardeais.
    Cento e sessenta e um cardeais, corrigiu-se.
    Por um instante, o camerlengo estava caindo, mergulhando no inferno, com pessoas gritando, labaredas envolvendo-o, pedras e sangue caindo do cu como chuva.
    E, depois, o silncio.
    Quando a criana acordou, estava no cu. Tudo em torno dela era branco. A luz era ofuscante e pura.
    Havia gente que dizia que um menino de dez anos no seria capaz de compreender o cu, mas o jovem Carlo Ventresca sabia muito bem o que era o cu. Estava no cu naquele momento. Onde mais poderia estar? Na sua breve dcada de existncia na Terra, Carlo sentira a majestade de Deus  o som atroador do rgo, os domos grandiosos, as vozes elevando-se em cnticos, os vitrais, o reluzir do bronze e do ouro.
    Maria, a me de Carlo, levava-o  missa todos os dias.
     Por que vamos  missa todos os dias?  perguntava ele, no que se importasse.
     Porque prometi a Deus  ela respondia.  E uma promessa que se faz a Deus  a mais importante de todas. Jamais quebre uma promessa a Deus.
    Carlo prometeu a ela que nunca o faria. Amava sua me mais do que tudo no mundo. Ela era seu santo anjo. s vezes, chamava-a de Maria Benedetta  Maria Bendita , embora ela no gostasse nem um pouco disso. Ajoelhava junto dela para rezar, sentindo o doce perfume de seu corpo e escutando o murmrio da sua voz passando as contas do rosrio. Santa Maria, Me de Deus... rogai por ns, pecadores... agora e na hora de nossa morte.
     Onde est meu pai?  Carlo perguntava, j sabendo que seu pai morrera antes de seu nascimento.
     Deus  seu pai agora  era a resposta de sempre.  Voc  um filho da Igreja.
    Carlo adorava aquilo.
     Sempre que sentir medo  ela explicava , lembre-se que agora Deus  seu pai. Ele vai tomar conta de voc e proteg-lo para sempre. Deus tem grandes planos para voc, Carlo.
    O menino sabia que ela tinha razo. J era capaz de sentir Deus em seu sangue.
    Sangue...
    Sangue caindo do cu como chuva!
    Silncio. E o cu depois.
    O cu de Carlo  o menino aprendeu quando as luzes ofuscantes foram desligadas  era na realidade a Unidade de Terapia Intensiva do Hospital Santa Clara, nos arredores de Palermo. Carlo fora o nico sobrevivente de um atentado terrorista a bomba que demolira a capela onde ele e a me estavam assistindo  missa durante o perodo de frias. Os jornais chamaram a sobrevivncia de Carlo de Milagre de So Francisco. Por alguma razo desconhecida, Carlo afastara-se da me minutos antes da exploso e entrara em uma alcova protegida para apreciar uma tapearia que representava a histria de So Francisco.
    Deus me chamou ali, concluiu ele. Queria me salvar.
    Carlo delirava de dor. Ainda via sua me, ajoelhada no banco da igreja, soprando-lhe um beijo e, em seguida, com um estrondo, seu corpo docemente perfumado despedaar-se. Ainda sentia na boca o gosto da maldade humana. Choveu sangue. O sangue de sua me! Maria Bendita!
    Deus vai tomar conta de voc e proteg-lo para sempre, dissera sua me.
    Mas onde estava Deus agora?
    Ento, como uma manifestao mundana da verdade de sua me, um sacerdote foi ao hospital. No era um sacerdote qualquer. Era um bispo. Rezou junto  cama de Carlo. O Milagre de So Francisco. Quando Carlo se recuperou, o bispo providenciou para que ele fosse morar em um pequeno monastrio ligado  catedral onde o bispo exercia sua jurisdio. Carlo vivia ali e ali tinha aulas com os monges. Chegou a ser coroinha de seu novo protetor. O bispo sugeriu que Carlo fosse para uma escola secundria, mas o menino no quis. No podia estar mais feliz em seu novo lar. Agora vivia de fato na casa de Deus.
    Toda noite, Carlo rezava por sua me.
    Deus me salvou por alguma razo, pensava. Que razo?
    Quando completou dezesseis anos, de acordo com a lei italiana, foi obrigado a prestar dois anos de servio militar. O bispo disse a Carlo que ele seria dispensado desse dever se entrasse para o seminrio. Carlo respondeu que planejava entrar para o seminrio, mas que primeiro precisava entender a maldade.
    O bispo no compreendeu.
    Carlo explicou que, se ia passar a vida na Igreja lutando contra a maldade, primeiro precisava entend-la.
    No imaginava lugar melhor para entender a maldade do que no exrcito. O exrcito usava armas e bombas.
    Uma bomba matou minha me Bendita!
    O bispo tentou dissuadi-lo, mas Carlo j se decidira.
     Tenha cuidado, filho  dissera-lhe o bispo.  E lembre-se de que a Igreja o aguarda quando voltar.
    Os dois anos do servio militar de Carlo foram terrveis. A juventude dele se passara em silncio e reflexo. No exrcito, porm, no havia sossego para se refletir. O barulho era incessante.
    Mquinas enormes por toda parte. Nem um momento sequer de paz. Apesar de os soldados irem  missa uma vez por semana no quartel, Carlo no sentia a presena de Deus nos seus companheiros. O caos enchia demais as mentes deles para que vissem Deus.
    Carlo detestava sua nova vida e ansiava por voltar para casa. Mas estava determinado a perseverar. Ainda no entendia a maldade. Recusava-se a dar um tiro, e assim os militares ensinaram-no a pilotar um helicptero do servio mdico. Carlo no gostava do rudo nem do cheiro do helicptero, mas ao menos o deixavam voar pelo cu e ficar mais prximo de sua me.
    Ao ser informado de que seu treinamento de piloto inclua aprender a saltar de pra-quedas, o rapaz ficou apavorado. No tinha opo, porm.
    Deus vai me proteger, disse a si mesmo.
    Seu primeiro salto de pra-quedas foi a mais estimulante experincia fsica de sua vida. Era como voar com Deus. Depois, ele jamais se cansava daquilo... o silncio... a sensao de flutuar... enxergar o rosto de sua me nas nuvens brancas ondulantes enquanto ele pairava na descida  terra. Deus tem planos para voc, Carlo. Assim que saiu do exrcito, Carlo entrou para o seminrio.
    Tudo acontecera vinte e trs anos antes.
    Agora, enquanto descia a Escadaria Real, o camerlengo Carlo Ventresca tentava compreender a cadeia de acontecimentos que o fizera chegar quela extraordinria encruzilhada.
    Abandone todo medo, disse a si prprio, e entregue esta noite a Deus.
    Avistava a grande porta de bronze da Capela Sistina devidamente protegida por quatro guardas suos. Os guardas destrancaram a porta e abriram-na. L dentro, todas as cabeas se viraram para a porta. O camerlengo passou os olhos pelos homens diante dele, vestidos de batinas negras e faixas vermelhas na cintura. Compreendeu quais eram os planos que Deus lhe reservara. O destino da Igreja fora colocado em suas mos.
    Ele fez o sinal-da-cruz e entrou na capela.

CAPTULO 48

    Gunther Glick, jornalista da BBC, estava suando, sentado dentro do furgo da emissora que fora estacionado na extremidade leste da Praa de So Pedro, e amaldioando seu editor. Embora a primeira matria mensal de Glick tivesse voltado da mesa do editor coberta de elogios  engenhoso, perspicaz, confivel , c estava ele na Cidade do Vaticano fazendo o Planto do Papa Procurava convencer-se de que trabalhar para a BBC dava muito mais credibilidade do que ficar inventando um monte de lixo para o British Tattler, mas ainda assim aquilo no era propriamente a idia que ele fazia de ser reprter.
    A tarefa de Glick era simples. Chegava a ser um insulto, de to simples. Tinha de ficar sentado esperando um bando de velhos gags elegerem seu prximo chefe, depois sair do carro e gravar uma reportagem de 15 segundos ao vivo com o Vaticano ao fundo.
    Genial.
    Glick mal acreditava que a BBC ainda deslocasse reprteres para cobrir aquela baboseira. No h nenhuma rede de notcias norte-americana aqui esta noite. Claro que no! Porque os garotes de l sabiam como fazer as coisas. Eles assistiam  CNN, faziam uma sinopse e depois filmavam sua reportagem ao vivo diante de uma tela azul, superpondo vdeos de arquivo para obter um pano de fundo realista. A MSNBC usava at mquinas de vento e chuva de estdio para maior autenticidade. Os espectadores no queriam mais a verdade, queriam diverso.
    Glick olhou atravs do pra-brisa e sentiu-se cada vez mais deprimido. A montanha grandiosa da Cidade do Vaticano erguia-se  sua frente como um melanclico lembrete das coisas que os homens podiam realizar quando se empenhavam por elas.
     O que realizei de bom na minha vida?  refletiu em voz alta.  Nada.
     Ento, desista  disse uma voz feminina atrs dele.
    Glick deu um pulo. Quase se esquecera de que no estava sozinho. Virou-se para o banco de trs, onde a operadora de cmera Chinita Macri estava sentada polindo suas lentes. Ela estava sempre polindo as lentes. Chinita era negra, embora preferisse ser chamada de afro-americana, e tambm um tanto rude e danada de esperta. No deixava passar nada. Era meio estranha, mas Glick gostava dela. E ele com certeza estava precisando de companhia naquele momento.
     Qual  o problema, Gunth?  perguntou Chinita.
     O que estamos fazendo aqui?
    Ela continuou a polir as lentes.
     Presenciando um acontecimento empolgante.
     Uma poro de velhos trancados no escuro  empolgante?
     Voc sabe que vai direto para o inferno, no sabe?
     J estou nele.
     Conte por que est to aborrecido.
    Parecia a me dele falando.
     Eu s queria me distinguir de alguma forma no meu trabalho.
     Voc escreveu para o British Tattler.
     , mas nada que tivesse impacto.
     Ah, deixe disso, soube que voc escreveu um artigo sensacional sobre a vida sexual secreta da rainha com extraterrestres.
     Obrigado.
     Ei, as coisas esto melhorando, hoje voc vai fazer seus primeiros 15 segundos da histria da TV.
    Glick resmungou. J conseguia at ouvir as palavras do ncora: Obrigado Gunther, grande reportagem E o ncora passaria para a meteorologia.
     Devia ter tentado conseguir um lugar de ncora.
    Macri riu.
     Sem experincia? E com essa barba? Nem pensar!
    Glick correu os dedos pelo tufo avermelhado de cabelo em seu queixo.
     A barba me faz parecer mais inteligente.
    Ainda bem que o telefone celular do furgo tocou, interrompendo mais um comentrio sobre os fracassos de Glick.
     Talvez seja a editoria  disse ele, de repente esperanoso.  Ser que vo querer as ltimas notcias ao vivo?
     Dessa histria?  riu Macri.  Voc continua sonhando, hein?
    Glick atendeu ao telefone com sua melhor voz de ncora.
     Gunther Glick, BBC. Cobertura ao vivo da Cidade do Vaticano.
    O homem do outro lado tinha um sotaque rabe carregado.
     Escute com ateno o que tenho para dizer  disse o homem.  Daqui a pouco, vou fazer a sua vida inteira mudar.

CAPTULO 49

    Langdon e Vittoria ficaram sozinhos diante das portas duplas que levavam ao santurio dos Arquivos Secretos. A decorao do lugar onde estavam era uma mistura incongruente de tapetes sobre pisos de mrmore e cmeras de segurana instaladas ao lado de querubins esculpidos no teto. Langdon apelidou-a de Estril Renascena. Ao lado da entrada em arco havia uma pequena placa de bronze.
    ARCHIVIO VATICANO
    Curatore, Padre Jaqui Tomaso
    Padre Jaqui Tomaso. Langdon reconheceu o nome do curador, que vinha nas cartas de recusa empilhadas em cima de sua escrivaninha, em casa. Caro senhor Langdon, lamento informar que...
    Lamento. Pois sim. Desde que comeara o reinado de Jaqui Tomaso, Langdon jamais encontrara um nico acadmico americano no-catlico que tivesse recebido autorizao para visitar os Arquivos Secretos do Vaticano. el guardiano, chamavam-no os historiadores. Jaqui Tomaso era o bibliotecrio mais severo do mundo.
    Ao abrir as portas e entrar no recinto, Langdon quase esperava encontrar o padre Jaqui envergando uniforme militar e capacete, montando guarda com uma bazuca na mo. O espao, porm, estava deserto.
    Silncio. Luz suave.
    Archivio Vaticano. Um dos sonhos de sua vida.
    Quando correu os olhos pelo aposento sagrado, sua primeira reao foi de vergonha. Percebeu que romntico empedernido ele era. A imagem que fizera durante tantos anos daquele lugar no poderia ser mais inexata. Imaginara estantes empoeiradas at o alto cheias de livros esfrangalhados, padres catalogando os volumes  luz de velas e de janelas com vitrais, monges examinando rolos de pergaminhos.
    A realidade nem chegava perto.
     primeira vista, a sala parecia um hangar escuro de companhia area no qual algum tivesse construdo umas 12 quadras independentes de squash. Langdon evidentemente sabia para que serviam os recintos de paredes de vidro. No se surpreendeu ao encontr-los: a umidade e o calor deterioravam antigos velinos e pergaminhos e a conservao adequada exigia cmaras hermticas como aquelas  cubculos vedados que impediam a penetrao da umidade e dos cidos naturais do ar. Langdon j estivera dentro de cmaras hermticas muitas vezes, mas sempre haviam sido experincias perturbadoras... mais ou menos como entrar em um continer fechado onde o oxignio fosse controlado por um bibliotecrio.
    As cmaras eram escuras, espectrais mesmo, vagamente delineadas por pequenas luminrias em forma de cpula na extremidade de cada conjunto de estantes. Em meio s trevas daquelas clulas, Langdon percebia a presena dos gigantes fantasmagricos, fila aps fila de imensas estantes carregadas de histria. Era uma coleo e tanto.
    Vittoria tambm parecia deslumbrada. Ao lado dele, contemplava em silncio os gigantescos cubos transparentes.
    Tinham pouco tempo e por isso Langdon no o desperdiou nem um pouco vasculhando a sala mal iluminada em busca de um catlogo  uma enciclopdia encadernada onde estivesse catalogada a coleo da biblioteca. Tudo o que viu foi o brilho de uma poro de terminais de computador espalhados pela sala.
     Parece que eles tm o Biblion. O ndice  computadorizado.
    Vittoria ficou esperanosa.
     O que deve acelerar as coisas.
    Langdon gostaria de sentir o mesmo entusiasmo, mas tinha a impresso de que a notcia no era to boa assim. Dirigiu-se a um terminal e comeou a digitar. Seus temores confirmaram-se instantaneamente.
     O mtodo antigo teria sido melhor.
     Por qu?
    Ele se afastou do monitor.
     Porque livros de verdade no so protegidos por senhas. Ser que os fsicos so tambm hackers por natureza?
    Vittoria sacudiu a cabea.
     S sei abrir ostras.
    Langdon respirou fundo e virou-se para o fantstico conjunto de cmaras difanas. Aproximou-se da que estava mais perto e tentou enxergar o sombrio interior. Por trs das paredes de vidro havia formas pouco definidas que Langdon identificou como as habituais prateleiras de livros, caixas de pergaminhos e mesas de leitura. Olhou para as etiquetas brilhando no alto de cada conjunto de estantes. Como em todas as bibliotecas, as etiquetas indicavam o assunto dos livros daquelas estantes. Foi lendo os dizeres e andando ao longo da barreira transparente.
    PIETRO LEREMITA... LE CROCIATE... URBANO II... LEVANT...
     Esto etiquetadas  disse ele, ainda caminhando.  Mas no em ordem alfabtica por autor.
    No se surpreendeu. Arquivos antigos em geral no eram catalogados em ordem alfabtica porque incluam muitos autores desconhecidos. Tambm no os catalogavam pelos ttulos porque muitos documentos histricos eram cartas sem ttulo e fragmentos de pergaminhos. A maior parte da catalogao seguia a ordem cronolgica. O que era desconcertante, no entanto,  que aquela arrumao tambm parecia no ser cronolgica.
    Estavam perdendo um tempo precioso.
     Tenho a impresso de que o Vaticano tem seu prprio sistema de catalogao.
     Que surpresa...
    Ele examinou as etiquetas outra vez. Os documentos eram originrios de muitos sculos, mas todas as palavras-chave, notou Langdon, estavam relacionadas entre si.
     Acho que a classificao  temtica.
     Temtica?  desaprovou a cientista Vittoria.  No deve ser eficiente.
    Na realidade, refletiu Langdon, examinando-a mais de perto, talvez essa seja a forma mais inteligente de catalogao que j vi. Sempre insistira com seus alunos que procurassem compreender o tom e os temas predominantes de um perodo em vez de se prenderem a mincias como datas e obras especficas. Os Arquivos Vaticanos, ao que parecia, haviam sido catalogados de acordo com uma filosofia semelhante. Grandes temas...
     Tudo o que est nesta cmara  disse Langdon, mais confiante , sculos de material, tem a ver com as Cruzadas.  o tema desta cmara em especial.
     Estava tudo ali, ele se deu conta. Relatos histricos, cartas, arte, dados scio-polticos, anlises modernas. Tudo junto para incentivar a compreenso mais profunda de um tpico. Brilhante.
    Vittoria franziu o cenho.
     Mas os dados podem estar relacionados a mltiplos temas simultaneamente.
      por isso que foi feita a remisso recproca com marcadores especiais.  Langdon apontou, atravs do vidro, para os marcadores de plstico colorido inseridos entre os documentos.  Esses marcadores indicam documentos secundrios localizados em outro lugar junto com seus assuntos principais.
     Certo  disse ela, aparentemente abandonando o assunto. Ps as mos na cintura e correu o olhar pelo imenso espao. Depois, dirigiu-se a Langdon.  Ento, professor, como  mesmo o nome dessa obra de Galileu que estamos procurando?
    Langdon no pde deixar de sorrir. Ainda no acreditava muito que estava ali, naquele lugar. Est aqui, pensou. Em algum ponto dessa escurido, est  espera.
     Venha atrs de mim  disse ele. Comeou a percorrer com andar rpido a primeira passagem entre as cmaras lendo a etiqueta de identificao de cada uma delas.  Lembra o que lhe contei sobre o Caminho da Iluminao? Como os Illuminati recrutavam novos membros usando um teste complexo?
     A caa ao tesouro  disse Vittoria, seguindo-o.
     O desafio para os Illuminati, depois de terem instalado os marcos, foi achar uma forma de dizer  comunidade cientfica que o caminho existia.
     Lgico  comentou Vittoria.  Seno, ningum saberia que era necessrio procur-lo.
     Sim, e mesmo que soubessem que existia, os cientistas no teriam como descobrir onde o caminho comeava. Roma  enorme.
    Langdon passou para o corredor seguinte, examinando as etiquetas enquanto falava.
     H uns 15 anos, alguns historiadores da Sorbonne e eu descobrimos uma srie de cartas dos Illuminati cheias de referncias ao segno.
     O sinal. O aviso sobre o caminho e onde ele comeava.
     Isso. E, desde ento, vrios acadmicos que estudam os Illuminati, inclusive eu, descobriram outras referncias ao segno. Hoje em dia,  uma teoria aceita que a pista de fato existe e que Galileu a distribuiu profusamente pela comunidade cientfica sem que o Vaticano jamais soubesse.
     De que maneira?
     No se sabe ao certo, mas o mais provvel  que tenha sido atravs de publicaes impressas. Ele publicou muitos livros e boletins ao longo dos anos.
     De que o Vaticano sem dvida teve conhecimento. Coisa perigosa.
      verdade. Mesmo assim, o segno foi distribudo.
     E ningum jamais o encontrou?
     Jamais. O mais estranho  que, sempre que aparecem aluses ao segno, seja em dirios manicos, antigas revistas cientficas, cartas dos Illuminati ou outras fontes, ele costuma vir representado por um nmero.
     666?
    Ele sorriu.
     No, 503.
     Que significa o qu?
     Nenhum de ns foi capaz de descobrir. Fiquei fascinado com o nmero 503, tentando de tudo para encontrar seu significado: numerologia, referncias cartogrficas, latitudes.  Langdon chegou ao fim daquela passagem, dobrou para um lado e continuou examinando rapidamente a fila seguinte de etiquetas e falando ao mesmo tempo.  Durante muitos anos, o nico indcio possvel que se tinha era o fato de 503 comear com o nmero cinco, um dos dgitos sagrados dos Illuminati.  Ele fez uma pausa.
     Algo me diz que voc recentemente encontrou a resposta e que  por isso que estamos aqui.
     Correto  disse Langdon, permitindo-se um raro momento de orgulho por seu trabalho.  Conhece um livro de Galileu chamado Dilogo?
     Claro. Famoso entre os cientistas como a suprema traio cientfica.
    Traio no era bem a palavra que Langdon teria usado, mas compreendia o que Vittoria queria dizer. No incio da dcada de 1630, Galileu quis publicar um livro endossando o modelo heliocntrico do sistema solar formulado por Coprnico. O Vaticano, porm, s permitiria que o livro fosse lanado se Galileu inclusse nele provas igualmente convincentes do modelo geocntrico adotado pela Igreja, um modelo que Galileu sabia estar completamente errado. Galileu no teve escolha seno ceder  exigncia da Igreja e publicou um livro que dava o mesmo espao para os dois modelos, o certo e o errado.
     Como deve saber  prosseguiu Langdon , apesar da concesso de Galileu, o Dilogo ainda foi considerado hertico e o Vaticano colocou o cientista em priso domiciliar.
     Nenhuma boa ao passa sem punio.
    Langdon achou graa.
      mesmo. Entretanto, Galileu era persistente. Enquanto estava preso em casa, escreveu secretamente um manuscrito menos conhecido que alguns estudiosos s vezes confundem com o Dilogo. Esse livro se chama Discorsi.
    Vittoria concordou.
     Sei qual . Discursos sobre as Mars.
    Langdon parou, admirado por ela conhecer a obscura publicao sobre os movimentos dos planetas e seu efeito sobre as mars.
     No se esquea de que est falando com uma fsica italiana cujo pai idolatrava Galileu.
    No eram os Discorsi, porm, que estavam procurando. Langdon explicou que aquele livro no fora o nico trabalho de Galileu durante o seu confinamento. Os historiadores acreditavam que ele tambm escrevera um livreto pouco conhecido chamado Diagramma.
     Diagramma della Verit  citou.  Diagrama da Verdade.
     Nunca ouvi falar deste.
     No me espanta. Diagramma foi o livro mais secreto de Galileu, supostamente uma espcie de tratado sobre fatos cientficos que ele considerava verdadeiros, mas que no estava autorizado a divulgar. Como alguns dos seus manuscritos anteriores, Diagramma foi contrabandeado para fora de Roma por um amigo e discretamente publicado na Holanda. O livrinho tornou-se muito popular no submundo cientfico europeu. At que o Vaticano tomou conhecimento dele e iniciou uma campanha de queima de livros.
    Vittoria agora estava intrigada.
     E voc acha que Diagramma continha a pista? O segno? A informao sobre o Caminho da Iluminao?
     Diagramma foi como Galileu fez a notcia correr. Disto estou certo.
    Langdon enveredou pela terceira fileira de cmaras de vidro e continuou examinando as etiquetas de identificao.
     Os arquivistas vm procurando um exemplar do Diagramma h anos. No entanto, com as queimas de livros promovidas pelo Vaticano e o baixo coeficiente de permanncia do livro, este desapareceu da face da Terra.
     Coeficiente de permanncia?
     A durabilidade. Os arquivistas classificam os documentos de um a dez segundo sua integridade estrutural. Diagramma foi impresso em uma variedade muito frgil de papiro. Parece o material dos nossos lenos de papel modernos. Vida til de pouco mais de um sculo.
     Por que no se usou um material mais forte?
     Foi uma determinao de Galileu para proteger seus seguidores. Dessa forma, qualquer cientista que fosse apanhado com um exemplar poderia simplesmente jog-lo na gua e o livro se dissolveria. Era um meio excelente de destruir uma prova, mas foi terrvel para os arquivistas. Acredita-se que apenas um exemplar do Diagramma tenha subsistido alm do sculo XVIII.
     Um?  uma expresso encantada passou pelo rosto de Vittoria enquanto ela corria os olhos pela sala.  E est aqui?
     Confiscado pelo Vaticano na Holanda logo depois da morte de Galileu. Venho solicitando permisso para v-lo h anos. Desde que percebi o que havia nele.
    Como se lesse a mente de Langdon, Vittoria deslocou-se para o outro lado e comeou a examinar a fileira seguinte, dobrando o ritmo da busca.
     Obrigado  disse ele.  Procure etiquetas de referncia que tenham alguma coisa a ver com Galileu, cincia, cientistas. Vai saber quando encontrar uma.
     Est bem, mas ainda no me contou como descobriu que a pista estava no Diagramma. Teve alguma relao com o nmero que vocs sempre viam nas cartas dos Illuminati? 503?
    Por um instante, Langdon reviveu o momento da revelao inesperada: 16 de agosto. Dois anos atrs. Ele estava  margem de um lago, na festa de casamento do filho de um colega. O som de gaitas de fole repercutiu sobre as guas quando os noivos e acompanhantes fizeram sua entrada espetacular atravs do lago em uma barcaa. A embarcao fora decorada com flores e guirlandas. No casco, ostentava um nmero pintado em algarismos romanos: DCII.
    Curioso com o nmero, Langdon perguntou ao pai da noiva:
     Por que o nmero 602?
     602?
    Langdon apontou para a barcaa.
     DCII  602 em algarismos romanos.
    O homem deu uma risada.
     No so algarismos romanos.  o nome da barcaa.
     O DCII?
    O homem assentiu.
     O Dick e Connie II.
    Langdon ficou encabulado. Dick e Connie eram os noivos. A barcaa evidentemente recebera aquele nome em homenagem a eles.
     O que aconteceu com o DCI?
    O homem fez uma careta.
     Afundou ontem durante o almoo do ensaio do casamento.
    Langdon achou engraado, mas disse assim mesmo:
     Que pena.
    E olhou novamente para a barcaa. A DCII, pensou. Como se fosse um QEII em miniatura. Um segundo depois, tudo ficou claro em sua cabea.
    E Langdon continuou a contar a Vittoria:
     Como j disse, 503  um cdigo. Um estratagema dos Illuminati para esconder o que na realidade era um algarismo romano. O nmero 503 em algarismos romanos ...
     DIII.
     Rpida, hein? No me diga que  uma Illuminata.
    Ela riu.
     Uso algarismos romanos para codificar estratos pelgicos.
    Claro, pensou Langdon. Quem no o faz?
     E qual  afinal o significado de DIII?
     DI, DII e DIII so abreviaturas muito antigas. Os cientistas da antiguidade usavam-nas para fazer distino entre os trs documentos de Galileu que mais eram confundidos.
    Vittoria quase perdeu o flego ao dizer:
     Dilogo... Discorsi... Diagramma.
     D-um, D-dois, D-trs. Todos eles cientficos. Todos, motivo de controvrsia. 503  DIII. Diagramma. O terceiro dos livros de Galileu.
    Vittoria estava sob o impacto da revelao.
     Mas uma coisa ainda no faz sentido. Se esse segno, essa pista, essa mensagem sobre o Caminho da Iluminao estava realmente no Diagramma de Galileu, como o Vaticano no descobriu nada quando se apossou de todos os exemplares?
     Podem ter visto e no ter percebido o que viam. Lembra-se dos marcos dos Illuminati? A habilidade para esconder o que est  vista? A dissimulao? Tudo indica que o segno estava oculto da mesma maneira, bem  vista. Invisvel para aqueles que no o estavam procurando. Tambm invisvel para os que no o compreendiam.
     Como assim?
     Galileu escondeu-o muito bem. De acordo com os registros histricos, o segno foi revelado de uma forma que os Illuminati chamavam de lingua pura.
     A linguagem pura?
     Sim.
     Matemtica?
      a minha opinio. Parece bastante bvio. Galileu era um cientista, afinal de contas, e estava escrevendo para cientistas. A matemtica seria a linguagem lgica para elaborar a pista. O livreto chama-se Diagramma e, assim, diagramas matemticos poderiam fazer parte do cdigo.
    A rplica de Vittoria soou apenas ligeiramente mais esperanosa.
     Galileu poderia ter criado algum tipo de cdigo matemtico que passasse despercebido ao clero.
     Tenho a impresso de que voc no ficou muito convencida  disse Langdon, prosseguindo em seu caminho.
     No fiquei. Talvez porque voc mesmo no esteja. Se tinha tanta certeza sobre o DIII, por que no publicou nada a respeito? Ento, algum que tivesse acesso aos Arquivos Vaticanos poderia ter vindo aqui e analisado o Diagramma h muito tempo.
     Eu no quis publicar nada  respondeu Langdon.  Trabalhei tanto para conseguir a informao que...  ele se calou, constrangido.
     Tambm queria a glria  completou ela.
    Langdon sentiu seu rosto corar.
     De certa forma, sim.  que...
     No fique to encabulado. Est falando com uma cientista. Publicar ou perecer. No CERN, chamamos a isso de comprovar ou sufocar  No se tratava s de ser o primeiro. Receava que as pessoas erradas encontrassem a informao no Diagramma e sumissem com ela.
     As pessoas erradas seriam do Vaticano?
     No que sejam erradas por si, mas a Igreja sempre fez pouco caso da ameaa dos Illuminati. No princpio da dcada de 1900, o Vaticano chegou ao cmulo de afirmar que os Illuminati eram uma fantasia criada por imaginaes exaltadas, O clero achou, e talvez com certa razo, que a ltima coisa que os cristos precisavam saber era que existia um poderoso movimento anticristo se infiltrando em seus bancos, sua poltica e suas universidades.  O verbo  no tempo presente, Robert, lembrou a si mesmo. EXISTE uma poderosa fora anticrist se infiltrando em seus bancos, sua poltica e suas universidades.
     Portanto, voc acha que o Vaticano teria ocultado qualquer prova que comprovasse a ameaa dos Illuminati?
      muito possvel. Qualquer ameaa, seja ela real ou imaginria, enfraquece a confiana no poder da Igreja.
     Mais uma pergunta.  Vittoria parou e encarou-o como se ele fosse um extraterrestre.  Est falando srio?
    Langdon parou tambm.
     O que quer dizer com isso?
      esse mesmo o seu plano para salvar a situao?
    Ele no teve certeza se o que viu nos olhos dela era pena misturada com diverso ou puro terror.
     Voc diz, encontrar o Diagramma?
     No, quero dizer encontrar o Diagramma, localizar um segno de 400 anos de idade, decifrar um cdigo matemtico e seguir uma antiga trilha de obras de arte que somente os cientistas mais brilhantes da Histria conseguiram seguir... tudo isso nas prximas quatro horas.
    Ele encolheu os ombros.
     Estou aberto a outras sugestes.

CAPTULO 50

    Robert Langdon estava do lado de fora do Arquivo Cmara 9 lendo as etiquetas nas estantes:
    BRAHE... CLAVIUS... COPERNICO... KEPLER... NEWTON...
    Leu os nomes outra vez e ficou apreensivo. C esto os cientistas, mas onde est Galileu?
    Dirigiu-se a Vittoria, que verificava os assuntos de uma cmara prxima.
     Encontrei o assunto certo, mas est faltando Galileu.
     No est, no  disse ela, sria, ao passar para a cmara seguinte.  Ele est aqui. Mas espero que voc tenha trazido seus culos de leitura, porque esta cmara inteira  dedicada a ele.
    Langdon correu para l. Vittoria tinha razo. Todas as etiquetas de identificao da Cmara 10 tinham a mesma palavra-chave.
IL PROCESO GALILEANO
    Langdon deixou escapar um assobio baixo ao ver que Galileu tinha sua prpria cmara.
     O Caso Galileu  maravilhou-se, espiando atravs do vidro os contornos escuros das estantes.  O mais longo e dispendioso processo da histria do Vaticano. Quatorze anos e 600 milhes de liras. Tudo aqui.
     Tem uma certa quantidade de documentos legais.
     Acho que os advogados no mudaram muito no decorrer dos sculos.
     Nem os tubares.
    Langdon encaminhou-se para um grande boto amarelo ao lado da cmara. Apertou-o e uma srie de luzes acendeu-se l dentro no teto. Eram luzes vermelhas, escuras, e transformaram o cubo em uma reluzente clula rubra contendo um labirinto de estantes muito altas.
     Meu Deus  disse Vittoria, assombrada.  Vamos trabalhar ou nos bronzear?
     O pergaminho e o velino desbotam, por isso a iluminao das cmaras  sempre feita com luzes escuras.
     D para se enlouquecer ali dentro.
    Ou pior, pensou Langdon, encaminhando-se para a nica entrada da cmara.
     Uma palavrinha de aviso, O oxignio  oxidante e, por isso, as cmaras hermticas contm muito pouco dele. A dentro  um vcuo parcial. Voc vai precisar fazer esforo para respirar.
     Ora, se os velhos cardeais conseguem sobreviver a isto...
    Verdade, concordou Langdon. Tomara que tenhamos a mesma sorte.
    A entrada da cmara era por uma nica porta giratria eletrnica. Langdon observou o arranjo habitual de quatro botes de acesso no vestbulo interno da porta, um boto para cada compartimento. Quando se pressionava um deles, a porta motorizada era acionada, fazia a meia rotao convencional e ento parava  o procedimento-padro para preservar a integridade da atmosfera interna.
     Depois que eu entrar  explicou Langdon , basta apertar o boto e vir atrs de mim. H somente oito por cento de umidade l dentro, de modo que se prepare para sentir a boca seca.
    Langdon entrou no compartimento rotativo e apertou o boto. A porta soltou um zumbido alto e comeou a girar. Enquanto acompanhava o movimento dela, Langdon preparou seu corpo para o choque fsico que sempre acompanhava os primeiros segundos em uma cmara hermtica. Entrar em um arquivo destes era como estar no nvel do mar e ir a seis mil metros de profundidade em um instante. Nusea e tonteira eram comuns. Viso dupla, dobre o corpo, lembrou ele, repetindo o mantra dos arquivistas. Seus ouvidos pipocaram. Ouviu-se um silvo de ar e a porta parou.
    Ele entrara na cmara.
    O que notou em primeiro lugar foi o ar do interior, mais rarefeito do que previra. O Vaticano, aparentemente, levava seus arquivos um pouco mais a srio do que a maioria dos seus congneres.
    Langdon lutou contra o reflexo da nusea e relaxou o peito enquanto seus capilares pulmonares se dilatavam. A sensao de aperto passou depressa. O golfinho em ao, refletiu, satisfeito que suas 50 voltas por dia na piscina servissem para alguma coisa. Respirando mais normalmente, olhou em volta.
    Apesar das paredes transparentes, sentiu a ansiedade conhecida. Estou dentro de uma caixa, pensou. Uma caixa vermelha como sangue.
    A porta zumbiu atrs dele e ele se virou para ver Vittoria entrar. Quando ela chegou, seus olhos imediatamente comearam a lacrimejar e sua respirao ficou pesada.
     Espere um minuto  disse ele.  Se ficar tonta, abaixe a cabea.
     Sinto...  Vittoria engasgou  como se estivesse... mergulhando com um cilindro de mergulho... com a mistura errada.
    Langdon esperou que ela se ambientasse. Sabia que ficaria bem. Vittoria Vetra estava em excelente forma, ao contrrio das trmulas ex-alunas de Radcliffe que Langdon certa vez acompanhara em uma visita  cmara hermtica da Biblioteca Widener. O passeio terminara com Langdon fazendo respirao boca a boca em uma senhora idosa que quase aspirara a prpria dentadura.
     Est melhor?  perguntou.
    Vittoria sacudiu a cabea.
     Viajei no seu maldito avio espacial, ento achei que voc me devia essa.
    Ela sorriu.
     Touch.
    Langdon estendeu a mo para uma caixa ao lado da porta e tirou de l luvas brancas de algodo.
     Vai ser uma ocasio formal?  brincou ela.
     O cido dos dedos. No podemos manusear os documentos sem elas. Vai precisar us-las.
    Vittoria colocou as luvas.
     De quanto tempo dispomos?
    Langdon verificou seu relgio de Mickey Mouse.
     So pouco mais de sete horas.
     Temos de encontrar essa coisa em menos de uma hora.
     Na realidade  disse Langdon , no temos esse tempo todo.  E apontou para um duto gradeado de entrada de ar.  Normalmente, o curador deve ligar um sistema de reoxigenao quando algum est dentro da cmara, o que no est ocorrendo hoje. Em 20 minutos, ficaremos sem ar.
    Vittoria empalideceu visivelmente apesar da luminosidade avermelhada. Langdon sorriu e alisou suas luvas.
     Comprovar ou sufocar, senhorita Vetra. Mickey est em movimento.

CAPTULO 51

    Gunther Glick, o reprter da BBC, ficou uns dez segundos parado com o celular na mo antes de afinal deslig-lo.
    Chinita Macri observava-o do banco de trs do furgo.
     O que aconteceu? Quem era?
    Glick sentia-se como uma criana que ganhou um presente de Natal e tem medo de que o presente no seja realmente para ela.
     Acabei de receber uma dica. Algo est acontecendo dentro do Vaticano.
     Chama-se conclave. Grande dica essa.
     No, no  isso. Uma coisa importante.  Ponderou se a histria que o homem lhe contara poderia ser verdadeira. Glick sentiu uma ponta de vergonha quando percebeu que estava rezando para que fosse.  E se eu lhe contasse que quatro cardeais foram seqestrados e vo ser assassinados, um de cada vez, em quatro igrejas diferentes esta noite?
     Eu diria que algum no escritrio com um senso de humor doentio est passando um trote em voc.
     E se eu lhe disser que ele vai nos dar antes da hora a localizao exata do primeiro assassinato?
     S queria saber quem foi o louco com quem voc acabou de falar.
     Ele no disse o nome.
     Talvez porque estivesse doido?
    Glick j esperava a reao sarcstica de Macri, mas ela estava esquecendo que ele lidara com mentirosos e lunticos por mais de dez anos no British Tattler. Aquele homem no era uma coisa nem outra. Falara de modo frio e racional. Lgico. Vou telefonar novamente para voc um pouco antes das oito, dissera o homem, para avisar onde vai acontecer o primeiro assassinato. As imagens que voc vai gravar vo torn-lo famoso. Quando Glick perguntou por que estava recebendo aquelas informaes, a resposta veio glida como o sotaque oriental do homem. A mdia  o brao direito da anarquia.
     Ele me disse mais uma coisa  disse Glick.
     O qu? Que Elvis Presley acabou de ser eleito Papa?
     Acesse o banco de dados da BBC, por favor.  A adrenalina de Glick estava aumentando.  Quero ver que outras histrias j publicamos sobre esses caras.
     Que caras?
     Faa o que estou pedindo, est bem?
    Macri suspirou e acessou o banco de dados da BBC.
     S mais um minuto.
    A cabea de Glick dava voltas.
     O homem fez muita questo de saber se eu tinha um cinegrafista para gravar as imagens.
     Voc tem uma cinegrafista.
     E se tnhamos condies de transmitir ao vivo.
     Um ponto cinco trs sete megahertz. Qual  o assunto?  Ouviu-se um bipe: o banco de dados estava disponvel.  Pronto, estamos conectados. O que voc quer procurar?
    Glick deu-lhe a palavra-chave.
    Macri encarou-o, sria.
     Tomara que voc esteja mesmo brincando.
    

    
CAPTULO 52
   
    A organizao interna da Cmara 10 no era to intuitiva quanto Langdon esperava, e o manuscrito do Diagramma aparentemente no estava junto com outras publicaes semelhantes de Galileu. Sem ter acesso ao Biblion e a um localizador computadorizado de referncias, Langdon e Vittoria no tinham como prosseguir.
     Tem certeza de que o Diagramma est aqui?  perguntou Vittoria.
     Absoluta. Consta da listagem tanto do Ufficio della Propaganda della Fede quanto do...
     timo. Contanto que voc tenha certeza...
    Ela foi para a direita e ele, para a esquerda. Langdon comeou a busca manual. Precisava apelar para todo o seu autocontrole para no parar e ler cada tesouro pelo qual passava. A coleo era maravilhosa. O Experimentador, Mensageiro das Estrelas, Histria e Demonstrao sobre as Manchas Solares, Carta  Gr-Duquesa Cristina, Apologia pro Galileo... E assim por diante.
    Foi Vittoria quem finalmente tirou a sorte grande do outro lado da cmara. Sua voz rouca soou alta:
     Diagramma della Verit!
    Langdon correu ao encontro dela atravs da nvoa avermelhada.
     Onde?
    Vittoria apontou e ele percebeu de imediato por que no o haviam encontrado antes. O manuscrito estava em uma caixa especial para in-flios, no nas prateleiras. Essas caixas eram um recurso comum para se guardar pginas soltas. A etiqueta colocada na frente do recipiente no deixava qualquer dvida sobre seu contedo.
    DIAGRAMMA DELLA VERIT Galileo Galilei, 1639  Diagramma.  Deu um sorriso largo para ela.  Bom trabalho. Agora me ajude a tirar essa caixa da.
    Vittoria ajoelhou-se ao lado dele e os dois puxaram a caixa. A bandeja de metal sobre a qual estava colocada deslizou, movida por rodzios, e deixou  mostra a parte superior da caixa.
     Sem cadeado?  disse Vittoria, surpresa por s haver um fecho simples.
     Nunca. s vezes existe a necessidade de se remover os documentos com rapidez, como no caso de incndios ou enchentes.
     Ento, abra-o.
    Langdon no precisou de uma segunda ordem. Com o sonho de sua vida acadmica bem ali na frente e o ar da cmara cada vez mais rarefeito, ele no titubeou. Abriu o fecho e levantou a tampa. Dentro, no fundo, havia uma bolsa de pano preto. A capacidade de ventilao do tecido da bolsa era crucial para a preservao de seu contedo. Estendendo as duas mos e mantendo a bolsa na horizontal, Langdon tirou-a de dentro da caixa.
     Pensei que fssemos encontrar um ba do tesouro  disse Vittoria , mas isso a parece mais uma fronha.
     Venha comigo  disse ele.
    Segurando a bolsa com os braos estendidos como se fosse uma oferenda sagrada, Langdon se encaminhou para o centro da cmara, onde encontrou a costumeira mesa de tampo de vidro especial para examinar documentos. A localizao central da mesa tinha como objetivo diminuir ao mximo o deslocamento dos documentos, mas os pesquisadores gostavam da privacidade proporcionada pelas estantes ao redor. Nas cmaras mais importantes do mundo faziam-se descobertas que definiam carreiras, e os pesquisadores no gostavam que os rivais bisbilhotassem atravs do vidro enquanto eles trabalhavam.
    Langdon pousou a bolsa de pano na mesa e desabotoou-a. Vittoria postou-se de p a seu lado.
    Remexendo em uma bandeja que continha instrumentos de arquivista, Langdon pegou uma tenaz com as pontas revestidas de feltro, grandes pinas com discos achatados no final de cada haste.  medida que sua excitao aumentava, receava acordar a qualquer momento em Cambridge diante de uma pilha de provas para corrigir. Respirando fundo, abriu a bolsa de pano. Com os dedos trmulos nas luvas de algodo, introduziu a pina na bolsa.
     Relaxe  disse Vittoria.  No  plutnio,  papel.
    Langdon fez as hastes da pina deslizarem em torno da pilha de documentos dentro da bolsa e teve o cuidado de aplicar presso idntica nos dois lados. Em seguida, ao invs de puxar o documento, ele o manteve no lugar e puxou a bolsa  um procedimento empregado pelos arquivistas para reduzir ao mnimo a fora de toro sobre o material. S depois de remover a bolsa e acender a luz especial de exame sob a mesa  que ele voltou a respirar normalmente.
    Vittoria parecia um espectro, iluminada de baixo para cima pela luz da mesa de vidro.
     Folhas pequenas  disse ela, a voz reverente.
    Langdon concordou com um gesto de cabea. A pilha de flios diante deles era como as pginas soltas de um pequeno livro de bolso. A primeira folha era uma capa desenhada a bico-de-pena com o ttulo, a data e o nome de Galileu escritos de prprio punho.
    Naquele instante, Langdon esqueceu o espao exguo, esqueceu sua exausto e a situao horrvel que o levara at ali. Apenas contemplou o livro, extasiado.
    O contato direto com a Histria sempre deixava Langdon entorpecido de tanta reverncia, era como estar vendo de perto as pinceladas na Mona Lisa.
    O papiro esmaecido, amarelado, no deixava em Langdon qualquer dvida quanto  sua idade e autenticidade, mas, exceto pelo inevitvel desbotamento, estava em excelente estado. Pigmento ligeiramente descolorido. Pequenas falhas na coeso do papiro. Mas, de modo geral, em timas condies. Ele examinou o desenho decorativo da capa, feito  mo, sua vista j se embaando por causa da falta de umidade. Vittoria mantinha-se em silncio.
     Passe-me a esptula, por favor  Langdon apontou para uma bandeja ao lado de Vittoria, cheia de instrumentos em ao inoxidvel especiais para uso em arquivos. Ela entregou-lhe a esptula. Langdon pegou-a e viu que era uma esptula de boa qualidade. Correu os dedos pela lmina para remover qualquer esttica possvel e, em seguida, com o maior cuidado, fez a lmina deslizar sob a capa. Levantou a esptula e abriu o livro.
    A primeira pgina era escrita  mo com uma caligrafia minscula, estilizada, quase impossvel de ler.
    Langdon logo percebeu que no havia diagramas nem nmeros na pgina. Tratava-se de um ensaio.
     Sistema heliocntrico  disse Vittoria, traduzindo o cabealho no Flio 1. Ela correu os olhos pelo texto.  Parece que Galileu est renunciando ao modelo geocntrico de uma vez por todas. Mas  italiano antigo, portanto no posso garantir nada sobre a traduo.
     Esquea  disse Langdon.  Estamos procurando matemtica. A linguagem pura.
    E usou a esptula para virar a pgina seguinte. Outro ensaio. Nada de matemtica ou diagramas. As mos de Langdon comearam a suar dentro das luvas.
     Movimento dos Planetas  disse Vittoria, traduzindo o ttulo.
    Langdon fechou a cara. Em qualquer outra ocasio, teria ficado fascinado com aquela leitura. Por incrvel que parea, o modelo atual da NASA de rbitas planetrias, observado atravs de telescpios de ltima gerao, era quase idntico ao das previses originais de Galileu.
     Nada de matemtica  declarou Vittoria.  Ele est falando aqui sobre movimentos retrgrados e rbitas elpticas, ou algo assim.
    rbitas elpticas. Langdon lembrou que grande parte dos problemas de Galileu com a Justia comearam quando ele afirmou que o movimento dos planetas era elptico. O Vaticano exaltava a perfeio do crculo e insistia que o movimento celeste deveria ser somente circular. Os Illuminati de Galileu, entretanto, tambm viam perfeio na elipse, reverenciando a dualidade matemtica de seus dois focos iguais. No mundo atual, a elipse dos Illuminati ainda era encontrvel nas modernas pranchetas de desenho dos maons e nos projetos dos alicerces dos seus prdios.
     Prxima  disse Vittoria.  Langdon virou a pgina.
     Fases lunares e movimentos das mars  disse ela.  No tem nmeros nem diagramas.
    Ele virou mais uma pgina. Nada. Continuou virando pginas, umas dez ou mais. Nada. Nada. Nada.
     Pensei que ele fosse matemtico  disse Vittoria.  Aqui s tem texto.
    Langdon sentiu o ar em seus pulmes comeando a rarear. Suas esperanas tambm estavam menos densas. A pilha de folhas diminua.
     Nada aqui  disse Vittoria.  Matemtica nenhuma. Umas poucas datas, um ou outro nmero-padro, mas nada que pudesse ser uma pista.
    Langdon virou o ltimo conjunto de folhas e suspirou. Era tambm um ensaio.
     Livro pequeno  disse Vittoria, de cara fechada.
    Langdon fez que sim com a cabea.
     Merda, como se diz em Roma.
     mesmo uma merda, pensou Langdon. Seu reflexo no vidro parecia zombar dele, como a imagem de si mesmo que vira na janela de sua casa naquela manh. Um fantasma envelhecido.
     Tem de haver alguma coisa  disse ele, o desespero rouco em sua voz espantando-o.  O segno est a em algum lugar. Tenho certeza!
     Quem sabe voc se enganou sobre o DIII?
    Langdon lanou-lhe um olhar duro.
     Tudo bem  concordou ela.  DIII faz sentido. Mas e se a pista no for matemtica?
     Lingua pura. O que mais poderia ser?
     Arte?
     No h diagramas nem ilustraes no livro. Tudo o que sei  que lingua pura se refere a algo que no  italiano. Matemtica seria a resposta lgica.
     Tambm acho.
    Langdon recusava-se a admitir a derrota to depressa.
     Os nmeros podem estar escritos por extenso. A matemtica deve estar em palavras em vez de em equaes.
     Vai levar algum tempo ler todas as pginas.
     No temos tempo. Vamos ter de dividir o trabalho.  Langdon virou a pilha de folhas e voltou para a primeira pgina.  Sei italiano o suficiente para localizar nmeros.  Usando a esptula, dividiu a pilha como se fosse um baralho de cartas e depositou as primeiras seis diante de Vittoria.  Est a, tenho certeza.
    Vittoria estendeu a mo e virou a primeira pgina com a mo.
     Esptula!  exclamou Langdon, pegando uma outra ferramenta na bandeja.  Use a esptula.
     Estou usando luvas  resmungou ela.  Que estrago poderia fazer?
     No discuta, use a esptula.
    Vittoria obedeceu.
     Est sentindo o mesmo que eu?
     Tenso?
     No, falta de ar.
    Langdon tambm sentia, inegavelmente. O ar ia ficando muito rarefeito mais depressa do que ele imaginara.
    Sabia que tinham de se apressar. Tentar desvendar enigmas dentro de arquivos no era novidade para ele, mas em geral tinha mais do que uns poucos minutos para trabalhar neles. Sem falar, inclinou a cabea e comeou a traduzir a primeira pgina de sua pilha.
    Aparea, droga! Aparea!

CAPTULO 53
   
    Ao dobrar uma esquina ele os viu, exatamente como os havia deixado  quatro velhos apavorados atrs das barras de ferro enferrujado de um cubculo de pedra.
     Qui tez-vous? perguntou um dos homens, em francs.  O que quer de ns?
     Hilfe!  disse outro, em alemo.  Deixe-nos ir embora!
     Tem noo de quem somos ns?  perguntou outro ainda, em ingls com sotaque espanhol.
     Silncio  ordenou a voz spera. Havia um tom de inevitabilidade na palavra.
    O quarto prisioneiro, um italiano calado e pensativo, vislumbrou o vazio negro do olhar de seu captor.
    Seria capaz de jurar que enxergou o inferno l dentro. Que Deus nos ajude, pensou.
    O matador olhou o relgio e depois voltou-se para os prisioneiros.
     E agora  disse ele , quem vai ser o primeiro?
    

CAPTULO 54
    
    Nos Arquivos do Vaticano, dentro da Cmara 10, Robert Langdon recitava nmeros em italiano enquanto examinava superficialmente o manuscrito diante de si. Milie, centi, uno, duo, ter, cincuanta. Preciso de uma referncia numrica! Qualquer uma, droga!
    Quando chegou ao final do flio que estava lendo, apanhou a esptula para virar as pginas. Ao alinhar a lmina com a pgina seguinte, fez um movimento desajeitado, encontrando dificuldade para segurar a esptula com firmeza. Minutos depois, percebeu que abandonara a esptula e estava virando as pginas com a mo. Opa, disse para si mesmo, sentindo-se quase um criminoso. A falta de oxignio estava afetando suas inibies. Pelo jeito, vou acabar queimando no inferno dos arquivistas.
     At que enfim  disse Vittoria, meio sufocada, vendo-o virar as pginas com a mo. Largou e esptula e imitou-o.
     Encontrou alguma coisa?
    Vittoria sacudiu a cabea.
     Nada que seja puramente matemtico. Estou lendo por alto, mas no vejo nada que parea uma pista.
    Langdon continuou traduzindo seus flios com dificuldade cada vez maior.
   Seus conhecimentos de italiano eram, na melhor das hipteses, apenas claudicantes, e a letra mida e a linguagem arcaica o faziam avanar lentamente. Vittoria chegou antes dele ao fim de sua pilha e, desanimada, folheou as pginas outra vez. Debruou-se sobre elas para uma inspeo mais intensa.
    Quando Langdon terminou, praguejou em voz baixa e olhou para Vittoria. Ela estava curvada tentando enxergar melhor algo em um de seus flios.
     O que ?  perguntou.
    Ela no levantou a cabea.
     Suas pginas tinham alguma nota de rodap?
     No que eu percebesse. Por qu?
     Esta pgina tem uma. Est meio escondida em uma ruga do papel.
    Langdon tentou ver o que ela estava examinando, mas s conseguiu distinguir um nmero de pgina no alto da margem direita da folha. Flio 5. Levou um momento para registrar a coincidncia e, mesmo assim, a associao de idias lhe parecia vaga. Flio 5. Cinco, Pitgoras, pentagramas, Illuminati.
    Langdon especulava se os Illuminati teriam escolhido a pgina cinco para esconder sua pista. Atravs da nvoa avermelhada que os envolvia, ele vislumbrou um pequenino raio de esperana.
     A nota de rodap tem alguma relao com matemtica?
    Vittoria fez que no com a cabea.
     Texto. Uma linha s. Letra muito pequena, quase ilegvel.
    As esperanas dele se esvaram.
     Deveria ser matemtica. Lingua pura.
     , eu sei  ela hesitou.  Mas acho que voc vai querer ouvir isto.
    Havia uma certa excitao na voz dela.
     Diga logo.
    Apertando os olhos junto ao flio, Vittoria leu a frase.
     O caminho da luz est preparado, o teste sagrado.
    As palavras no eram o que Langdon tinha imaginado.
     O que foi que disse?
    Vittoria repetiu.
     O caminho da luz est preparado, o teste sagrado.
     Caminho da luz?  Langdon sentiu suas costas se endireitarem.
      o que est escrito aqui. Caminho da luz.
     medida que ele assimilava as palavras, um lampejo de clareza penetrava o seu delrio, O caminho da luz est preparado, o teste sagrado. No tinha idia de como a frase podia ajud-los, mas o fato  que era uma referncia mais do que direta ao Caminho da Iluminao. O caminho da luz. O teste sagrado. A cabea dele fazia um esforo semelhante ao de um motor alimentado com gasolina de m qualidade e que est tentando pegar.
     Tem certeza de que a traduo est correta?
    Ela ficou indecisa.
     Na verdade  ela lhe lanou um olhar estranho , no  tecnicamente uma traduo. A frase est escrita em ingls.
    Por um instante, ele pensou que a acstica da cmara tivesse afetado sua audio.
     Em ingls?!
    Vittoria empurrou o documento para ele e Langdon leu as letrinhas diminutas no p da pgina:
     The path of light is laid, the sacred test. Em ingls! Por que em ingls em um livro italiano?
    Vittoria deu de ombros. Ela tambm parecia um tanto embriagada.
     Quem sabe  o que eles chamavam de lingua pura?  considerada a lngua internacional da cincia. S falamos ingls no CERN.
     Mas isso foi em 1600  argumentou Langdon.  Ningum falava ingls na Itlia, nem o...  ele parou, percebendo o que ia dizer.  Nem o clero.  A mente acadmica de Langdon funcionava agora a todo vapor.  No sculo XVII  continuou ele, falando agora mais depressa, o ingls era uma lngua que o Vaticano ainda no adotava. Eles usavam o italiano, o latim, o alemo, at o espanhol e o francs, mas o ingls era uma lngua totalmente estrangeira dentro do Vaticano. Consideravam-na uma lngua corrompida de livres-pensadores, que servia para profanos como Chaucer e Shakespeare.  Ocorreu-lhe de repente a questo das marcas a fogo dos Illuminati, Terra, Ar, Fogo e gua. A lenda de que as marcas eram em ingls agora fazia sentido, um sentido bizarro.
     Quer dizer que talvez Galileu considerasse o ingls la lingua pura porque era a nica lngua que o Vaticano no controlava?
      isso mesmo. Ou, talvez, ao redigir a pista em ingls, Galileu estivesse sutilmente restringindo a leitura, excluindo o Vaticano.
     Mas nem chega a ser uma pista  objetou ela.  O caminho da luz est preparado, o teste sagrado? Que diabos quer dizer isto?
    Ela tem razo, pensou Langdon. A frase no ajudava nada. No entanto, repetindo-a em sua mente, um estranho fato ocorreu-lhe. Ora, no  interessante? Ser que existe alguma possibilidade a?
     Temos de sair daqui  disse Vittoria, a voz enrouquecida.
    Langdon no escutou. The path of light is laid, the sacred test.
      um pentmetro imbico!  exclamou, contando as slabas outra vez.
     Cinco dsticos de silabas agudas e breves alternadas.
    Vittoria parecia perdida.
     Pentmetro o qu?
    E sbito Langdon estava de volta  Academia Phillips Exeter, em uma aula de ingls de um sbado de manh. Um verdadeiro inferno na Terra. A estrela do beisebol da escola, Peter Greer, estava tendo dificuldades para lembrar o nmero de dsticos de um verso pentmetro imbico de Shakespeare. O professor, um animado mestre chamado Bisseli, pulou para cima da mesa e berrou:
     Pentmetro, Greer! Lembre de pentgono! Cinco lados! Penta! Penta! Penta! Deeeus do cu!
    Cinco dsticos, pensou Langdon. Cada dstico tendo, por definio, duas slabas. Mal podia crer que em toda a sua carreira jamais fizera aquela associao. O pentmetro imbico era uma mtrica com simetria que se baseava nos dois nmeros sagrados dos Illuminati, 5 e 2!
    Voc est exagerando! Ele disse para si mesmo, tentando afastar o pensamento de sua mente.  uma coincidncia sem sentido! Mas a idia no lhe saa da cabea. Cinco... para Pitgoras e o pentagrama. Dois para a dualidade de todas as coisas.
    No momento seguinte, uma outra descoberta fez suas pernas bambearem. O pentmetro imbico, por sua simplicidade, era muitas vezes chamado de puro verso, ou pura mtrica La lngua pura? Seria essa a lngua pura a que os Illuminati se referiam? The path of light is laid, the sacred test...
     Oh, oh  disse Vittoria.
    Langdon viu Vittoria virar o flio de cabea para baixo. Sentiu um aperto no estmago. De novo, no...
     No h possibilidade de essa frase ser um ambigrama!
     No, no  um ambigrama, mas ...  e ela continuou a virar o documento 90 graus de cada vez.
      o qu?
    Vittoria encarou-o.
     Aquela no  a nica frase.
     Existe outra?
     H uma em cada margem. Na de cima, na de baixo, na da esquerda e na da direita. Acho que  um poema.
     Quatro versos?  Langdon arrepiou-se de excitao. Galileu era poeta?
     Deixa eu ver!
    Vittoria no largou a pgina. Continuava virando-a para ler o que estava escrito nas quatro margens.
     No vi antes os versos porque esto nas margens.  Ela inclinou a cabea para ler a ltima.  Humm... Sabe de uma coisa? Nem foi Galileu quem escreveu isto.
     O qu?
     O poema est assinado por John Milton.
     John Milton?
    O influente poeta ingls que escreveu Paraso Perdido era contemporneo de Galileu e um sbio que os aficionados por conspiraes colocavam no topo da lista de suspeitos de serem Illuminati. A suposta afiliao de Milton  confraria dos Illuminati de Galileu era uma lenda que Langdon acreditava ser verdadeira. No s Milton fizera uma bem-documentada peregrinao a Roma em 1638 para comungar com os homens esclarecidos, como tivera encontros com o cientista durante sua priso domiciliar, encontros estes retratados em muitas pinturas renascentistas, entre elas a famosa tela de Annibale Gatti, Galileu e Milton, hoje exposta no Instituto e Museu da Histria da Cincia, em Florena.
     Milton conhecia Galileu, no ?  disse Vittoria, empurrando finalmente o in-flio para Langdon.  Quem sabe ele escreveu o poema como um favor?
    Langdon cerrou os dentes ao pegar o documento com seu invlucro. Deixando-o aberto sobre a mesa, leu a frase no alto. Depois, girou a pgina 90 graus e leu a frase da margem direita. Girou outra vez e leu a de baixo. Mais um giro final para ler a ltima e completar o movimento circular. Havia ao todo quatro frases. A que Vittoria encontrara primeiro era na realidade o terceiro verso do poema. Completamente boquiaberto, ele leu os quatro versos de novo na seqncia certa: alto, direita, rodap, esquerda. Quando terminou, soprou o ar dos pulmes com vontade. No tinha mais nenhuma dvida.
     Muito bem, senhorita Vetra, voc encontrou.
    Ela sorriu com os lbios apertados.
     timo, agora podemos dar o fora daqui?
     Tenho de copiar esses versos. Preciso encontrar lpis e papel.
    Vittoria sacudiu a cabea.
     Esquea, professor. Nada de bancar o escriba, no temos tempo para isso. Mickey est andando.  Ela tirou o documento da mo dele e se encaminhou para a porta.
    Langdon levantou-se.
     No pode levar isso para fora!  um...
    Mas Vittoria j estava longe. 

CAPTULO 55

    Langdon e Vittoria irromperam s pressas pelo ptio do lado de fora dos Arquivos Secretos. O ar fresco fluiu para os pulmes de Langdon como se fosse uma droga inebriante. Os pontos vermelhos em sua vista sumiram rapidamente. A culpa, todavia, no sumiu. Ele acabara de se tornar cmplice do roubo de uma preciosa relquia pertencente ao arquivo mais protegido do mundo. O camerlengo dissera: Estou depositando minha confiana no senhor.
     Depressa  disse Vittoria, ainda segurando o flio e atravessando a Via Borgia na direo do escritrio de Olivetti quase em passo de corrida.
     Se cair gua nesse papiro...
     Calma, quando decifrarmos essa coisa, vamos devolver o bendito Flio 5.
    Langdon acelerou o passo para acompanh-la. Alm de se sentir um criminoso, ainda estava sob o impacto das fascinantes implicaes do documento. John Milton era um Illuminatus. Comps o poema para Galileu publicar no Flio 5, longe dos olhos do Vaticano.
    Ao sarem do ptio, Vittoria entregou o flio a Langdon.
     Acha que pode decifrar isso? Ou perdemos todas aquelas clulas cerebrais  toa?
    Langdon segurou o documento com todo o cuidado. Sem titubear, enfiou-o em um dos bolsos internos de seu palet de tweed para proteg-lo da luz do sol e dos perigos da umidade.
     J o decifrei faz tempo.
    Vittoria estacou.
     Voc o qu?
    Langdon continuou a andar.
    Vittoria foi atrs dele.
     Voc s o leu uma vez! Pensei que fosse muito difcil!
    Langdon sabia que ela estava certa e, no entanto, ele decifrara o segno com uma nica leitura. Uma estrofe perfeita de pentmetros imbicos e o primeiro altar da cincia revelara-se com uma clareza impecvel. Tinha de confessar que a facilidade com que realizara a tarefa deixara-o bastante inquieto. Ele era um produto da tica puritana do trabalho. Ainda era capaz de ouvir a voz de seu pai repetindo o velho aforismo da Nova Inglaterra: Se no foi penoso e difcil,  porque voc fez errado. Langdon torcia para que o ditado no fosse verdade.  J decifrei  disse, andando mais depressa.  Sei onde vai acontecer o primeiro assassinato. Temos de avisar Olivetti.
    Vittoria aproximou-se dele.
     Como  que voc pode j ter descoberto? Deixe eu ver isso outra vez.
    Com o jogo de corpo de um pugilista, ela enfiou a mo com grande agilidade no bolso dele e tirou de l o flio.
     Cuidado!  exclamou Langdon.  No pode...
    Vittoria no lhe deu ateno. Com o flio na mo, ela flutuava ao lado dele, segurando o documento com o brao levantado para enxergar  luz do fim do dia, examinando as margens. Ela comeou a ler em voz alta e Langdon fez um movimento para recuperar o flio mas, sem querer, viu-se enfeitiado pela voz de contralto e pelo sotaque de Vittoria, que dizia os versos no mesmo ritmo de seus passos.
    Por um momento, ao ouvir os versos, Langdon sentiu-se transportado no tempo, como se fosse um dos contemporneos de Galileu que os escutasse pela primeira vez sabendo que eram um teste, um mapa, uma pista para desvendar os quatro altares da cincia, os quatro marcos que abriam um caminho secreto atravs de Roma. Os versos fluam dos lbios de Vittoria como uma cano.
    From Santis earthly tomb with demons hole,
    Cross Rome the mystic elements unfold.
    The path of light is laid, the sacred test, 
    Let angels guide you on your lofty quest.
     
    Da tumba terrena de Santi com a cova do demnio
    Atravs de Roma se estendem os msticos elementos.
    O caminho da luz est preparado, o teste sagrado,
    Que os anjos o guiem em sua busca sublime.
    Vittoria leu duas vezes e depois se calou, deixando as palavras antigas ressoarem sozinhas.
    Da tumba terrena de Santi, Langdon repetiu em sua mente. O poema era claro como gua neste ponto. O Caminho da Iluminao comeava na tumba de Santi. A partir dali, atravs de Roma, os marcos assinalavam o percurso.
    Da tumba terrena de Santi com a cova do demnio
    Atravs de Roma se estendem os msticos elementos. Os msticos elementos. Tambm estava claro. Terra, Ar, Fogo e gua. Os elementos da cincia, os quatro marcos dos Illuminati disfarados de esculturas religiosas.
     O primeiro marco  disse Vittoria  parece ser na tumba de Santi.
    Langdon sorriu.
     Eu disse que no era to difcil assim.
     E quem  Santi?  perguntou ela, de repente cheia de entusiasmo.  E onde  a tumba dele?
    Langdon dissimulou o riso. Impressionante como poucas pessoas sabiam que Santi era o sobrenome de um dos mais famosos artistas da Renascena. Seu primeiro nome o mundo inteiro conhecia: o menino prodgio que com 25 anos j realizava trabalhos encomendados pelo Papa Jlio II e que, ao morrer, com apenas 38 anos, deixou a maior coleo de afrescos que o mundo jamais conheceu. Santi era um dos monstros sagrados do mundo da arte, e ser conhecido apenas pelo primeiro nome era atingir um nvel de fama a que s uma elite restrita tinha acesso, pessoas como Napoleo, Galileu, Jesus e, claro, os semideuses de quem agora Langdon ouvia os clamores vindos dos quartos nos prdios residenciais da Universidade de Harvard: Sting, Madonna, Jewel e o artista antes conhecido como Prince, que agora mudara seu nome para o smbolo , o que fizera Langdon apelid-lo de Cruz Tau Cortada por Ankh Hermafrodita.
     Santi  explicou Langdon   o sobrenome do grande mestre da Renascena, Rafael.
    Vittoria espantou-se.
     Rafael? O Rafael?
     O prprio  respondeu, continuando a andar em passo acelerado para o escritrio da Guarda Sua.
     Ento, o caminho comea na tumba de Rafael?
     O que na verdade faz bastante sentido  comentou Langdon, enquanto caminhavam.  Os Illuminati costumavam considerar os grandes artistas e escultores como irmos honorrios nas luzes do conhecimento. Podem ter escolhido a tumba de Rafael como uma espcie de homenagem.  Langdon tambm sabia que, provavelmente, como muitos outros artistas religiosos, Rafael era um ateu no declarado.
    Vittoria colocou o flio de volta no bolso de Langdon com todo o cuidado.
     E onde ele est enterrado?
    Langdon respirou fundo.
     Acredite se quiser, Rafael est enterrado no Panteo.  No Panteo?
     No Panteo.
    Langdon tinha de admitir que o Panteo no era o lugar que esperara para o primeiro marco. Imaginara o primeiro altar da cincia em alguma igreja sossegada, meio afastada, algo mais discreto. J no sculo XVII, o Panteo, com seu domo colossal, era um dos locais mais conhecidos de Roma.
     O Panteo  uma igreja?  perguntou Vittoria.
     A mais antiga igreja catlica de Roma.
    Vittoria fez um gesto de descrena.
     Acha mesmo que o primeiro cardeal poderia ser morto no Panteo? Deve ser um dos pontos tursticos mais movimentados de Roma.
    Ele deu de ombros.
     Os Illuminati disseram que queriam o mundo inteiro assistindo. Matar um cardeal no Panteo com certeza deve chamar a ateno de muita gente.
     Como  que esse sujeito acha que vai matar algum no Panteo e sair de l sem ser notado? Seria impossvel.
     To impossvel quanto seqestrar quatro cardeais dentro da Cidade do Vaticano? O poema  bem preciso.
     E voc tem certeza de que Rafael est enterrado no Panteo?
     J vi a tumba dele muitas vezes.
    Vittoria ainda parecia preocupada, mas balanou a cabea.
     Que horas so?
    Langdon conferiu o relgio.
     Sete e meia.
     O Panteo  muito longe?
     Mais ou menos um quilmetro. Temos tempo.
     O poema falava da tumba terrena de Santi. Acha que significa alguma coisa?
    Langdon atravessou na diagonal o ptio da sentinela.
     Terrena?  provvel que no haja lugar mais terreno em Roma do que o Panteo. Seu nome vem da religio originalmente praticada ali, o pantesmo, a adorao de todos os deuses, especificamente os deuses pagos da Me Terra.
    Quando estudante de arquitetura, Langdon ficara admirado ao aprender que as dimenses da cmara principal do Panteo eram um tributo a Gaea, a deusa da Terra. E que as propores eram to exatas que um gigantesco globo caberia perfeitamente dentro da construo com uma folga de menos de um milmetro.
     Est bem  disse Vittoria, mais convencida.  E a cova do demnio? Da tumba terrena de Santi com a cova do demnio?
    Langdon no tinha muita certeza quanto a isso.  A cova do demnio deve ser o culo  respondeu, tentando adivinhar pela lgica.  A famosa abertura circular no teto do Panteo.
     Mas trata-se de uma igreja  objetou Vittoria, andando sem esforo ao lado dele.  Por que chamariam a abertura de cova do demnio?
    Na realidade, Langdon vinha se perguntando a mesma coisa. Nunca ouvira a expresso cova do demnio mas lembrava-se de uma clebre crtica feita ao Panteo no sculo VI cujas palavras pareciam estranhamente apropriadas agora. O Venervel Bede escrevera que a abertura no teto do Panteo fora feita por demnios que tentavam escapar do prdio quando este foi consagrado pelo Papa Bonifcio IV.
     E por que  acrescentou Vittoria quando entraram em um ptio menor  os Illuminati usariam o nome Santi se ele era de fato conhecido como Rafael?
     Voc faz um bocado de perguntas.
     Meu pai costumava dizer o mesmo.
     Duas razes possveis. Uma, a palavra Rafael tem slabas demais. Teria destrudo o pentmetro imbico do poema.
     Uma interpretao meio forada, convenhamos.
    Langdon concordou com ela.
     Talvez, ento, usar Santi tornasse a pista mais obscura e s homens muitos esclarecidos reconheceriam a referncia a Rafael.
    A explicao tambm no satisfez Vittoria por completo.
     Acredito que o sobrenome de Rafael devia ser muito conhecido na sua poca.
     Por incrvel que parea, no, O reconhecimento de algum por um nico nome era smbolo de status. Rafael evitava usar seu sobrenome, do mesmo jeito que algumas estrelas populares fazem hoje em dia. Como Madonna, por exemplo. Ela nunca usa seu sobrenome, Ciccone.
    Vittoria achou graa.
     Voc sabe o sobrenome de Madonna?
    Langdon arrependeu-se de ter dado aquele exemplo. Impressionante as bobagens que se aprendem convivendo com dez mil adolescentes.
    Ao passarem pelo ltimo porto para chegarem ao escritrio da Guarda Sua, Vittoria e Langdon foram inesperadamente obrigados a parar.
     Para!  bradou uma voz atrs deles.
    Os dois se viraram e deram com o cano de um fuzil.
     Attento!  exclamou Vittoria, recuando de um salto.  Cuidado com...
     Non sportarti!  disse o guarda, rspido, engatilhando a arma.
     Soldato!  chamou algum do lado oposto do ptio. Olivetti estava saindo do centro de segurana.  Deixe-os passar! O guarda, desconcertado, objetou:
     Ma, signore,  una donna...
     Para dentro!  ele gritou para o guarda.
     Signore, non posso...
     J! Suas ordens so outras agora. O capito Rocher vai transmitir novas instrues para a Guarda em dois minutos. Vamos organizar uma busca.
    Aturdido, o guarda entrou correndo no centro de segurana. Olivetti veio ao encontro de Langdon, rgido e furioso.
     Nossos arquivos mais secretos? Vou querer uma explicao.
     Temos boas novas  disse Langdon.
    Os olhos de Olivetti estreitaram-se.
      melhor que sejam muito boas. 

CAPTULO 56

    Os quatro carros Alpha Romeo 155 T-Sparks sem identificao dispararam pela Via del Coronari como caas decolando em uma pista de aviao. Os veculos levavam 12 guardas suos  paisana armados com semi automticas Cherchi-Pardini, bombas de gs asfixiante e cassetetes de alta voltagem de longo alcance. Os trs atiradores de elite seguravam fuzis de mira a laser.
    Sentado ao lado do motorista no primeiro carro, Olivetti dirigiu-se a Langdon e a Vittoria, que estavam no banco de trs. Seu rosto tinha uma expresso de raiva.
     Vocs garantiram que me dariam uma explicao plausvel e isso  tudo o que tm a dizer?
    Langdon estava apertado no pequeno carro.
     Compreendo sua...
     No, no compreende nada!  Olivetti nunca levantava a voz, mas a sua intensidade triplicou.  Acabei de tirar 12 dos meus melhores homens da Cidade do Vaticano na vspera de um conclave. E o fiz para vasculhar o Panteo baseado no testemunho de um americano que nunca vi antes e que acabou de interpretar um poema escrito h 400 anos. Tambm acabei de deixar nas mos de oficiais subalternos a responsabilidade pela busca dessa arma de antimatria. Langdon resistiu  vontade de puxar o Flio 5 de dentro do bolso e sacudi lo diante do nariz de Olivetti.
     Tudo o que sei  que a informao que encontramos se refere  tumba de Rafael e que essa tumba fica dentro do Panteo.
    O oficial que dirigia o carro confirmou.
     Ele tem razo, comandante, minha mulher e eu...
     Dirija  ordenou Olivetti. E voltou-se outra vez para Langdon.  Como algum poderia cometer um assassinato em um lugar to movimentado e escapar sem ser visto?
     No sei  respondeu Langdon.  Mas os Illuminati sem dvida tm muitos meios. Invadiram o CERN e a Cidade do Vaticano. Foi pura sorte termos conseguido saber onde vai ocorrer a primeira morte. O Panteo  a sua nica chance de pegar esse sujeito.
     Mais contradies  reclamou Olivetti.  nica chance? O senhor no disse que havia uma espcie de trilha? Uma srie de marcos? Se o Panteo for o lugar certo, podemos seguir a trilha para os outros marcos. Teremos quatro chances de pegar o assassino.
     Era o que eu esperava  disse Langdon.  Teramos quatro chances, um sculo atrs.
    Descobrir que o Panteo era o primeiro altar da cincia havia sido para Langdon um momento de prazer com um travo amargo. A Histria de vez em quando prega peas cruis naqueles que a perseguem. Seria querer demais que o Caminho da Iluminao estivesse intacto depois de tanto tempo, com todas as suas esttuas no mesmo lugar, mas uma parte da cabea de Langdon acalentara a fantasia de seguir o caminho at o fim e encontrar o refgio sagrado dos Illuminati. Admitia, com muita pena, que isto no seria possvel.
     O Vaticano removeu e destruiu todas as esttuas do Panteo no final do sculo XIX.
     Por qu?  perguntou Vittoria, chocada.
     Eram esttuas pags, deuses do Olimpo. Infelizmente, isto significa que o primeiro marco se foi e, com ele...
     Qualquer esperana de encontrar o Caminho da Iluminao e os outros marcos? Trs outros Alpha Romeos derraparam atrs dele. O comboio da Guarda Sua parou cantando os pneus.
     O que est fazendo?!  exclamou Vittoria.
     Meu trabalho  disse Olivetti, ajeitando-se no assento, a voz dura como pedra.  Senhor Langdon, quando falou que explicaria a situao a caminho, presumi que chegaramos ao Panteo com uma idia clara da razo por que meus homens estavam ali. No  o caso. Como estou abandonando obrigaes de importncia vital pelo fato de estar aqui e, alm disso, como acho que no faz muito sentido essa sua teoria de sacrifcios de virgens e poesia antiga, no posso em s conscincia continuar. Estou cancelando esta misso agora mesmo.
    Ele pegou seu walkie-talkie e ligou-o.
    Vittoria inclinou-se para a frente e agarrou o brao dele.
     No pode fazer isso!
    Olivetti bateu com o aparelho no banco do carro e lanou-lhe um olhar furioso.
     J esteve no Panteo, senhorita Vetra?
     No, mas...
     Deixe que lhe explique como  o lugar. O Panteo consiste em um nico ambiente. Uma construo circular feita de pedra e cimento. Tem uma entrada. No tem janelas. A entrada  estreita.  guardada o tempo todo por nada menos do que quatro policiais romanos armados que protegem o santurio contra destruidores de obras de arte, terroristas anticristos e golpes de falsos turistas.
     Aonde quer chegar?  disse ela com frieza.
     Aonde quero chegar?  Os dedos de Olivetti agarravam com fora o encosto do banco do carro.  O que acabaram de me contar  totalmente impossvel! Ser que so capazes de me apresentar uma descrio plausvel de como algum poderia matar um cardeal dentro do Panteo? Antes de mais nada, como  que algum passaria com um refm qualquer pelos guardas que ficam na entrada? E ainda por cima o mataria e fugiria em seguida?  Olivetti debruou-se no encosto, seu hlito cheirando a caf no rosto de Langdon.
     Como, senhor Langdon? Vamos l, s uma descrio plausvel.
    Langdon sentia-se como se o pequenino carro tivesse encolhido em volta dele. No tenho a menor idia! No sou um assassino! No sei como ele vai agir! S sei...
     Uma descrio?  repetiu Vittoria com sarcasmo na voz, imperturbvel.  Que talo assassino vir em um helicptero e deixar cair um cardeal marcado a fogo e aos gritos pela abertura do teto, o cardeal bater no piso de mrmore e morrer?  Isso. Temos uma chance, o Panteo. Depois, a trilha desaparece. Olivetti olhou fixo para ambos durante um longo momento e depois voltou a olhar para a frente.
     Encoste  rosnou para o motorista.
    O motorista deu uma guinada para junto do meio-fio e enfiou o p no freio. A ateno de todos no carro voltou-se para Vittoria. Langdon no sabia o que pensar. Voc tem uma imaginao doentia, moa, mas  um bocado rpida.
    Olivetti franziu o sobrolho.
     Possvel, admito, mas dificilmente...
     Ou o assassino d uma droga qualquer ao cardeal  disse Vittoria  e entra no Panteo com ele em uma cadeira de rodas, como se fosse um turista idoso. L dentro, corta discretamente a garganta dele e sai sem ser notado.
    Aquela alternativa fez Olivetti acordar um pouco.
    Nada mal!, pensou Langdon.
     Ou  continuou ela , o assassino poderia...
     J entendi  interrompeu Olivetti.  Chega.
    Ele respirou fundo e soprou o ar dos pulmes. Algum bateu no vidro com insistncia e todos se sobressaltaram. Era um soldado de um dos outros carros. Olivetti abaixou o vidro.
     Tudo bem, comandante?  O soldado estava vestido com roupas civis. Levantou a manga de sua camisa jeans e mostrou um relgio de pulso preto de estilo militar.  Sete e quarenta, comandante. Precisamos de tempo para nos posicionarmos.
    Olivetti fez um gesto vago com a cabea, mas ficou calado alguns instantes. Correu o dedo de um lado para o outro no painel do carro, fazendo uma linha na poeira. Examinou Langdon pelo retrovisor e Langdon sentiu-se medido e avaliado. Finalmente, Olivetti dirigiu-se ao guarda. Havia relutncia em sua voz.
     Quero abordagens separadas. Carros na Piazza della Rotonda, Via degli Orfani, Piazzas SantIgnazio e SantEustachio. A dois quarteires de distncia, no menos. Quando estacionarem, preparem-se e aguardem minhas ordens. Trs minutos.
     Muito bem, senhor.
    O soldado voltou para seu carro.
    Langdon fez uma careta para Vittoria com ar impressionado. Ela sorriu de volta e, por um instante, estabeleceu-se entre os dois uma ligao inesperada, um fio de magnetismo.
    O comandante virou-se para Langdon, incisivo:
     Senhor Langdon,  bom que tudo isso no estoure em cima de ns.
    Langdon deu um sorriso constrangido. Como poderia? 
CAPTULO 57

    O diretor do CERN, Maximilian Kohler, abriu os olhos ainda sob o efeito da cromolina e do leucotrieno em seu corpo, dilatando seus tubos brnquicos e seus capilares pulmonares. Respirava normalmente outra vez. Encontrava-se deitado em um quarto particular na enfermaria do CERN, sua cadeira de rodas encostada  cama.
    Avaliou a situao e examinou a tnica de papel com que o haviam vestido. Suas roupas estavam dobradas na cadeira ao lado. L fora, ouvia uma enfermeira fazendo a ronda. Permaneceu deitado um longo minuto,  escuta. Depois, procurando fazer o mnimo barulho possvel, chegou at a beirada da cama e apanhou sua roupa. Lutando com suas pernas sem vida, vestiu-se. Ento, arrastou o corpo e sentou-se na cadeira de rodas.
    Abafou a tosse e fez girar as rodas da cadeira at a porta. Movimentou-a manualmente, com cuidado, sem ligar o motor. Quando chegou  porta, espiou para fora. O vestbulo estava vazio.
    Silenciosamente, Maximilian Kohler escapuliu da enfermaria. 

CAPTULO 58

     Sete e quarenta e seis e trinta... preparem-se.-Mesmo quando falava em seu walkie-talkie, a voz de Olivetti no passava de um sussurro.
    Langdon agora suava dentro de seu casaco de tweed no banco de trs do Alpha-Romeo, parado em uma praa a trs quarteires de distncia do Panteo. Vittoria, sentada a seu lado, tinha toda a sua ateno concentrada em Olivetti, que transmitia as ordens finais.
     A formao de combate ser um cerco de oito pontos. O alvo pode reconhec-los, portanto vocs ficaro pas-visibles. Empreguem somente fora no mortal. Precisamos de algum para vigiar o telhado. O alvo  prioritrio. O refm  secundrio.
    Credo, pensou Langdon, arrepiado com a eficincia com que Olivetti dissera a seus homens que o refm poderia ser sacrificado por razes estratgicas. O refm  secundrio.
     Repetindo. Interveno no-mortal. O alvo tem de estar vivo. Agora, vo!
    Vittoria estava perplexa, quase zangada.
     Comandante, ningum vai entrar?
     Entrar?  repetiu Olivetti.
     ! No Panteo! Onde se supe que tudo v acontecer!
     Attento  disse Olivetti, seus olhos se congelando.  Se houve mesmo infiltrao em minhas fileiras, meus homens podem ser reconhecidos. Seu amigo acabou de avisar que esta pode ser a nica chance de pegarmos o alvo. No tenho nenhuma inteno de espantar essa pessoa fazendo meus homens invadirem o local.
     E se o assassino j estiver l dentro?
    Olivetti verificou o relgio.
     O alvo foi bem especfico. Oito horas. Temos 15 minutos.
     Ele disse que mataria o cardeal s oito horas. Mas pode j ter entrado antes com a vtima. E se seus homens virem o alvo sair mas no souberem que  ele? Algum precisa ir verificar se h algum suspeito l dentro.
      arriscado demais a essa altura.
     No se a pessoa que entrar no puder ser reconhecida.
     Disfarar algum levaria tempo demais e...
     Estou me referindo  minha pessoa  disse Vittoria.
    Langdon voltou-se para ela.
    Olivetti foi enftico.
     De jeito nenhum.
     Ele matou meu pai.
     Exato, e pode saber quem a senhorita .
     O senhor ouviu o que ele disse ao telefone. No tinha a menor idia de que Leonardo Vetra sequer tivesse uma filha. Com certeza, no sabe quem sou. Eu poderia entrar como uma turista qualquer. Se visse alguma coisa suspeita, iria para a praa e faria sinal para seus homens entrarem.
     Desculpe, mas no posso autorizar isso.
     Comandante?  Ouviu-se o chamado no aparelho de Olivetti.  Temos um problema no ponto norte. A fonte est bloqueando a nossa linha de viso. S poderemos enxergar a entrada se nos deslocarmos para o meio da piazza. Qual  a sua ordem? Permanecermos sem viso ou ficarmos vulnerveis?
    Vittoria aparentemente no agentava mais.
     Chega. Estou indo. Ela abriu a porta do carro e saiu.
    Olivetti largou o walkie-talkie e saltou do carro, contornando-o na frente de Vittoria.
    Langdon saiu tambm. Que diabos ela est fazendo?
    Olivetti postou-se no caminho dela.
     Senhorita Vetra, seus instintos so bons, mas no posso deixar um civil interferir.
     Interferir? Vocs esto fazendo um vo cego. Quero ajudar.
     Eu gostaria muito de ter um contato l dentro, mas...
     Mas o qu?  ela o interpelou.  Mas eu sou uma mulher?
    Olivetti ficou calado.
      bom que no tenha sido isso o que o senhor ia dizer, comandante, porque sabe muito bem que a idia  boa, e se deixar que uma bobagem machista dessas, um preconceito arcaico...
     Deixe eu fazer o meu trabalho.
     Deixe eu ajudar.
      perigoso demais. No teramos nenhuma linha de comunicao com a senhorita. No posso deix-la levar um walkie-talkie, iria denunci-la.
    Vittoria enfiou a mo no bolso de sua blusa e tirou seu telefone celular.
     Uma poro de turistas carrega telefones celulares.
    Vittoria abriu o telefone e imitou uma chamada:
     Oi, querido, estou dentro do Panteo. Voc precisava ver este lugar, que maravilha!  Ela fechou o telefone e fulminou Olivetti com o olhar.  Quem vai descobrir? No h risco nenhum! Deixe que eu espione para vocs!  Fez um gesto para o celular de Olivetti preso no cinto dele.  Qual  o seu nmero?
    Ele no respondeu.
    O motorista vinha acompanhando a conversa e aparentemente tinha algumas opinies a dar. Saiu do carro e puxou Olivetti para um lado. Cochicharam durante alguns segundos, ao fim dos quais Olivetti voltou e disse a Vittoria:
     Programe este nmero.  E ditou-lhe o nmero do seu telefone.
    Vittoria programou o seu celular.
     Agora, ligue para o nmero que lhe dei.
    Vittoria pressionou a discagem automtica. O telefone no cinto de Olivetti comeou a tocar. Ele o atendeu e falou:
     Entre no prdio, senhorita, olhe em torno, saia do prdio, depois ligue para mim e diga o que viu.
    Vittoria fechou o telefone.
     Obrigada, senhor. Langdon foi tomado por uma onda repentina e inesperada de instinto protetor.
     Espere a  disse ele para Olivetti.  Vai mand-la entrar l sozinha?
     Robert, no faz mal  disse Vittoria, com ar mal-humorado.
    O motorista da Guarda Sua cochichou mais alguma coisa no ouvido de Olivetti.
      perigoso  Langdon disse a Vittoria.
     Ele tem razo  confirmou Olivetti.  Nem os meus melhores homens trabalham sozinhos. Meu tenente acabou de lembrar que a encenao ser mais convincente com vocs dois.
    Com ns dois? Langdon hesitou. Na verdade, o que eu queria dizer era...
     Com vocs dois entrando juntos  disse Olivetti.  Vo parecer um casal em frias. Tambm podem dar apoio um ao outro. Fico mais tranqilo assim.
    Vittoria deu de ombros.
     Por mim, est bem, mas temos de andar ligeiro.
    Langdon deixou escapar uma praga em voz baixa.
    Olivetti apontou para a rua.
     A primeira rua por onde tm de ir  a Via degli Orfani. Dobrem  esquerda e, com dois minutos de caminhada, no mximo, sairo direto no Panteo. Vou ficar aqui comandando meus homens e esperando sua chamada. Gostaria que tivessem proteo.  Pegou seu revlver.  Algum de vocs sabe atirar?
    O corao de Langdon acelerou-se. No precisamos de arma nenhuma!
    Vittoria estendeu a mo.
     Consigo acertar um golfinho saindo da gua a 40 metros de distncia da proa de um barco em movimento.
     timo  Olivetti entregou-lhe a arma.  Vai ter de escond-la.
    Vittoria olhou para seu short. Depois, olhou para Langdon.
    Ah, no faa isso! Pensou ele, mas Vittoria foi mais rpida. Abriu o palet dele e colocou o revlver em um dos bolsos internos. Ele teve a impresso de que uma pedra cara dentro de sua roupa. O nico consolo era o fato de o Diagramma estar no outro bolso.
     Nossa aparncia  bem inofensiva  disse Vittoria.  Vamos embora.
    Ela deu o brao a Langdon e encaminhou-se para a rua.
    O motorista falou:
     Boa idia, ir de braos dados. Lembrem-se de que so turistas. Talvez, at recm-casados. Dar as mos no seria melhor ainda?
    Quando dobraram a esquina, Langdon poderia jurar que vislumbrou um leve sorriso no rosto de Vittoria. 

CAPTULO 59

    A sala de concentrao de tropas da Guarda Sua fica ao lado do quartel do Corpo de Vigilanza e  usada sobretudo para planejar a segurana nas ocasies em que o Papa aparece em pblico e nos eventos pblicos do Vaticano. Naquele dia, entretanto, estava sendo usada para outra coisa.
    O homem que falava  fora-tarefa reunida era o segundo em comando da Guarda Sua, o capito Elias Rocher. Rocher tinha o trax arredondado como um barril e o rosto de traos macios, como se feitos de massa. Vestia o tradicional uniforme azul de capito com seu toque pessoal: uma boina vermelha colocada de lado na cabea. Sua voz era surpreendentemente cristalina para um homem to grande e, quando ele falava, seu timbre possua a clareza de um instrumento musical. A despeito de sua inflexo precisa, os olhos de Rocher eram enevoados como os de um mamfero noturno. Seus homens chamavam-no de orso, urso cinzento. s vezes, gracejavam dizendo que Rocher era o urso que andava  sombra da vbora O comandante Olivetti era a vbora. Rocher era to perigoso quanto a vbora, mas ao menos se via quando ele chegava.
    Os homens de Rocher mantinham-se vivamente atentos, ningum mexia um msculo, embora a informao que haviam acabado de receber tivesse feito a presso deles todos subir.
    O tenente Chartrand, um novato, postado no fundo da sala, desejava que tivesse ficado entre os 99 por cento de candidatos que no tinham sido escolhidos para estar ali. Com 20 anos, Chartrand era o guarda mais novo da tropa. Havia apenas trs meses que estava no Vaticano. Como todos, fora treinado pelo exrcito suo e ainda agentara dois anos de mais ausbilding em Berna antes de se habilitar para a extenuante prova do Vaticano, realizada em um quartel secreto fora de Roma. Nada em seu treinamento, todavia, o preparara para uma crise como aquela.
    De incio, Chartrand pensou que as instrues fossem algum tipo de estranho exerccio de treinamento. Armas futuristas? Cultos antigos? Cardeais seqestrados? Ento, Rocher mostrara-lhes o vdeo da arma em questo. Pelo jeito, no se tratava de exerccio coisa nenhuma.
     Vamos desligar a energia em determinadas reas  Rocher estava dizendo  para eliminar a interferncia magntica externa. Vamos nos deslocar em grupos de quatro. E usar culos infravermelhos. O reconhecimento vai ser efetuado com o equipamento habitual de varredura, regulado para campos de fluxo abaixo de trs ohms. Alguma pergunta?
    Nenhuma.
    A cabea de Chartrand estava sobrecarregada.
     E se no encontrarmos o material a tempo?  perguntou, na mesma hora arrependendo-se de ter perguntado.
    O urso cinzento lanou-lhe um olhar sob sua boina vermelha. E dispensou o grupo com uma saudao soturna:
     Vo com Deus. 

CAPTULO 60

    A dois quarteires do Panteo, Langdon e Vittoria passaram a p por uma fila de txis estacionados, os motoristas dormindo nos bancos da frente. A hora da soneca era eterna na Cidade Eterna, o cochilo coletivo no mesmo horrio sendo l uma extenso aperfeioada do hbito das sestas vespertinas nascido na antiga Espanha.
    Langdon esforou-se para concentrar seus pensamentos, mas a situao era por demais fora do comum para ser assimilada racionalmente. Seis horas antes, ele estava dormindo profundamente em Cambridge. Agora, encontrava-se na Europa, no meio de uma batalha surreal de antigos tits, carregando um revlver no bolso de seu palet de tweed e de mos dadas com uma mulher que tinha acabado de encontrar.
    Olhou para Vittoria. Estava inteiramente voltada para o que os esperava. Havia fora no seu aperto de mo, a fora de uma mulher determinada e independente. Os seus dedos envolviam os dele com o conforto de uma aceitao inata. Sem hesitar. Langdon sentiu uma atrao crescente por ela. Seja realista, disse para si mesmo.
    Vittoria notou o constrangimento dele.
     Relaxe  disse ela, sem virar a cabea , temos de parecer recm-casados.
     Estou relaxado.
     Voc est esmagando a minha mo.
    Langdon enrubesceu e aproximou os dedos.
     Respire atravs dos seus olhos. 
     Como ?
     Serve para relaxar os msculos. Chama-se pranayama.
     Piranha?
     No, no  nome de peixe. Pranayama. Ora, deixe para l.
    Dobraram a esquina para a Piazza della Rotonda e o Panteo ergueu-se diante deles. Langdon admirou-o, como sempre, com reverncia, O Panteo. Templo de todos os deuses. Deuses pagos. Deuses da natureza e da Terra. A estrutura, vista de fora, parecia mais compacta e fechada do que ele se lembrava. As colunas verticais e os pronaus triangulares obscureciam o domo circular que ficava atrs. Ainda assim, a ousada e vaidosa inscrio acima da entrada garantia-lhe que estavam no lugar certo. M AGRIPPA L F COS TERTIUM FECIT. Langdon mais uma vez se divertiu com a traduo: Marcus Agrippa, cnsul pela terceira vez, construiu isto.
    To modesto, pensou, correndo os olhos pelo espao ao redor. Alguns turistas perambulavam com cmeras de vdeo na mo. Outros estavam sentados no caf ao ar livre La Tazza di Oro, saboreando o melhor caf gelado de Roma. Junto da entrada do Panteo, quatro policiais romanos armados vigiavam, atentos, como Olivetti predissera.
     Tudo bastante tranqilo  comentou Vittoria.
    Langdon concordou, mas sentia-se preocupado. Agora que estava ali, o cenrio todo no lhe parecia muito real. Apesar da confiana de Vittoria, que acreditava que ele estivesse certo, Langdon deu-se conta de que pusera todos na linha de fogo. O poema Illuminati subsistia. Da tumba terrena de Santi com a cova do demnio. SIM, afirmou internamente. Era ali. A tumba de Santi. J estivera muitas vezes sob o culo do Panteo, junto ao tmulo do grande Rafael.
     Que horas so?
    Langdon verificou o relgio de pulso.
     Sete e cinqenta. Dez minutos para o espetculo comear.
     Espero que esses guardas sejam bons  disse Vittoria, observando os turistas esparsos entrando no Panteo.  Se alguma coisa acontecer ai dentro, vamos ficar todos sob fogo cruzado.
    Langdon soprou fortemente o ar dos pulmes enquanto se encaminhavam para a entrada. A arma pesava em seu bolso. Imaginou o que aconteceria se os policiais o revistassem e encontrassem a arma, mas eles nem o olharam duas vezes. O disfarce deveria estar mesmo convincente.
    Langdon sussurrou para Vittoria.
     J atirou com outra coisa alm de uma espingarda de tranqilizante?
     No confia em mim?  Como posso? Nem conheo voc direito!
    Vittoria fez uma cara desapontada.
     E eu que pensei que fssemos recm-casados. 

CAPTULO 61

    O ar dentro do Panteo estava frio e mido, pesado de histria, O teto amplo flutuava no espao acima como se no tivesse peso algum  um vo livre de 43 metros, maior ainda do que o da cpula de So Pedro.
    Langdon mais uma vez sentiu um arrepio quando entrou no imenso ambiente. Era uma extraordinria mistura de engenharia e arte. No alto, a famosa abertura circular no teto brilhava com a luminosidade do sol do entardecer. O culo, pensou Langdon, a cova do demnio.
    Tinham chegado.
    Langdon acompanhou com os olhos o arco do teto descendo para as paredes com as colunas, o piso de mrmore polido sob seus ps. Um leve eco dos passos e murmrios dos turistas reverberava pelo domo. Langdon observou os pouco mais de dez turistas que andavam a esmo nas sombras. Voc est a?
     Bem calmo o lugar  disse Vittoria, ainda segurando a mo dele.
    Langdon fez que sim.
     Qual  a tumba de Rafael?
    Langdon parou um instante, tentando se orientar. Examinou a circunferncia do recinto. Tumbas. Altares. Colunas. Nichos. Indicou um monumento funerrio particularmente ornamentado  esquerda, do outro lado do domo.
     Acho que  aquela.
    Vittoria esquadrinhou o resto do ambiente.
     No vejo ningum que parea um assassino prestes a matar um cardeal. Vamos dar uma olhada por a?
    Langdon concordou e os dois saram andando.
     H somente um lugar aqui onde algum poderia se esconder.  melhor verificarmos as rientranze.
     Os recessos?
     Isso  ele apontou.  Os nichos na parede.
    Ao longo do permetro, intercalados com as tumbas, havia vrios nichos semicirculares formando cavidades na parede. Embora no fossem enormes, eram grandes o bastante para esconder algum. Lamentavelmente, Langdon sabia que antes continham esttuas dos deuses olmpicos, mas essas esculturas pags haviam sido destrudas quando o Vaticano transformou o Panteo em igreja crist. Veio-lhe um acesso de frustrao por saber que estava no primeiro altar da cincia e o marco se perdera. Indagava-se qual seria a esttua e para onde teria apontado. No concebia emoo maior do que a de encontrar o marco Illuminati  a esttua que indicava sorrateiramente o percurso do Caminho da Iluminao. E de novo imaginava quem seria o annimo escultor Illuminati.
     Vou pela esquerda  disse Vittoria, mostrando a metade esquerda da circunferncia. -Voc, pela direita. Nos encontramos daqui a 180 graus.
    Ele sorriu amarelo.
    Quando ela se afastou, Langdon sentiu o horror da situao infiltrar-se de novo em sua conscincia. Enquanto se dirigia para a direita, a voz do assassino parecia sussurrar no espao vazio que o rodeava. Oito horas. Sacrifcios de virgens nos altares da cincia. Uma progresso matemtica e mortal. Oito, nove, dez, onze... e  meia-noite. Olhou o relgio de pulso: 7h52. Oito minutos.
    Caminhando para o primeiro nicho, passou pela tumba de um dos reis catlicos da Itlia. O sarcfago, como muitos outros em Roma, fora colocado obliquamente  parede, uma posio meio desajeitada. Um grupo de visitantes dava a impresso de estar perplexo com aquilo. Langdon no se deteve para explicar. As tumbas crists muitas vezes no eram alinhadas com a arquitetura para que ficassem voltadas para o leste. Tratava-se de uma antiga superstio que uma das turmas de Simbologia de Langdon chegara a discutir no ms anterior.
     Isso  totalmente absurdo!  uma aluna na fila da frente exclamara quando Langdon explicou a razo por que as tumbas eram viradas para leste.  Por que os cristos iriam querer suas tumbas voltadas para o sol nascente? Estamos falando de cristianismo, no de adorao ao Sol!
    Langdon sorriu, andando diante do quadro-negro e comendo uma ma.
     Senhor Hitzrot!  gritou ele.
    Um rapaz que cochilava no fundo da sala sentou-se, sobressaltado.
     Eu?
    Langdon apontou para um pster sobre arte renascentista pendurado na parede.
     Quem  aquele homem ajoelhado diante de Deus?
     ... um santo?
     Muito bem. E como sabe que  um santo?
     Por causa do halo?  Excelente, e esse halo dourado lembra alguma coisa?
    Hitzrot abriu um sorriso.
     Claro! Aquelas coisas egpcias que estudamos no semestre passado. Aqueles... humm... discos solares!
     Obrigado, Hitzrot. Pode continuar a dormir.  Langdon dirigiu-se de novo  turma.  Os halos, como grande parte da simbologia crist, foram tirados da antiga religio egpcia baseada na adorao ao Sol. O cristianismo est cheio de manifestaes de adorao ao Sol.
     Desculpe  disse a moa da fila da frente , mas vou sempre  igreja e no costumo ver tanta adorao ao Sol assim!
      mesmo? O que voc comemora no dia 25 de dezembro?
     O Natal. O nascimento de Jesus Cristo.
     No entanto, de acordo com a Bblia, Cristo nasceu em maro. Por que, ento, se comemora a data no final de dezembro?
    Silncio.
    Langdon prosseguiu.
     O dia 25 de dezembro, meus amigos,  o dia da antiga festa pag do sol invictus, o Sol Invicto, que coincidia com o solstcio de inverno.  aquela maravilhosa fase do ano em que o Sol retorna e os dias comeam a ficar mais longos outra vez.
    Ele comeu mais um pedao de ma e continuou.
     As religies vitoriosas costumam adotar as festas j existentes para tornar a converso menos chocante. Chama-se a isto de transmutao. Ajuda as pessoas a se acostumarem com a nova f. Os devotos mantm as mesmas datas santas, rezam nos mesmos locais sagrados, usam uma simbologia semelhante e apenas substituem o deus anterior por outro diferente.
    A essa altura, a moa da frente estava furiosa.
     O senhor est insinuando que o cristianismo no passa de uma espcie de adorao ao Sol em outra embalagem!
     De jeito nenhum. O cristianismo no tomou elementos emprestados somente da adorao ao Sol. O ritual da canonizao crist foi tirado do antigo rito de deificao de Euhemerus. A prtica de comer Deus ou seja, a Santa Comunho, foi copiada dos astecas. At o conceito de Cristo morrer por nossos pecados pode-se dizer que no  exclusivamente cristo: o auto-sacrifcio de um rapaz para absolver os pecados de seu povo aparece nos registros das mais remotas tradies associadas a Quetzalcoatl.
    A moa disse, com ar feroz.
     Quer dizer que nada no cristianismo  original?  Muito pouco em qualquer religio organizada  inteiramente original. As religies no comeam do zero. Crescem uma a partir da outra. As religies modernas so colagens, um registro histrico assimilado do esforo humano para compreender o divino.
     Espere a  disse Hitzrot, agora acordado.  Existe uma coisa crist que  original. A nossa imagem de Deus. A arte crist nunca retrata Deus igual a um falco, a um animal asteca ou algo esquisito assim. Sempre mostra Deus como um velho de barba branca. Ento, a nossa imagem de Deus  original, no ?
    Langdon sorriu de novo e respondeu.
     Quando os primeiros cristos convertidos abandonaram suas divindades anteriores, como os deuses pagos, os deuses romanos, os deuses gregos, o Sol, Mitra ou o que seja, eles perguntaram  Igreja com quem se parecia o seu deus cristo. Sabiamente, a Igreja escolheu o mais temido, o mais poderoso e aquele cuja aparncia era a mais conhecida de que se tinha notcia.
    Hitzrot arriscou, ctico:
     Um velho com uma barba branca comprida?
    Langdon apontou para uma representao da hierarquia de deuses da antiguidade pendurada na parede. No alto estava sentado um velho com longas barbas brancas.
     Zeus no lhe parece familiar?
    A campainha para encerrar a aula tocou naquele exato momento.
     Boa noite  disse uma voz masculina.
    Langdon tomou um susto. Estava de volta ao Panteo. Deu de cara com um homem idoso usando uma pelerine azul com uma cruz vermelha no peito. O homem sorriu para ele revelando dentes acinzentados.
     O senhor  ingls, no ?  o homem falava com um sotaque toscano carregado.
    Langdon pestanejou, confuso.
     No, na verdade, sou americano.
    O homem ficou embaraado.
     Oh, desculpe, mas o senhor est to bem vestido que pensei... Por favor, peo mil desculpas.
     Posso ajud-lo em alguma coisa?  perguntou Langdon, o corao batendo loucamente.
     Na realidade, achei que talvez eu pudesse ajud-lo. Sou cicerone voluntrio aqui  e o homem apontou orgulhoso para seu crach emitido pela prefeitura da cidade.  Meu trabalho  tornar sua visita a Roma mais interessante.
    Mais interessante? Ele tinha certeza absoluta de que aquela visita a Roma era interessante at demais.
     O senhor parece um homem distinto  o guia bajulou-o , sem dvida mais interessado em cultura do que a maioria das pessoas. Talvez eu possa lhe contar um pouco da histria desta construo fascinante.
    Langdon sorriu educadamente.
     Muito obrigado, mas eu sou professor de Histria da Arte e...
     timo!  o rosto do homem se iluminou como se tivesse acertado na loteria.  Ento, com certeza, o senhor vai apreciar muito mais!
     Obrigado, mas acho que prefiro...
     O Panteo  comeou o homem, embarcando em sua arenga decorada  foi construdo por Marcus Agrippa em 27 a.C.
     Sim  interrompeu Langdon , e reconstrudo por Adriano em 119 d.C.
     Era o maior domo do mundo at 1960, quando foi superado pelo Superdomo de Nova Orleans!
    Langdon resmungou em voz baixa. O homem era irreprimvel.
     E um telogo do sculo V chamou o Panteo de Casa do Demnio e declarou que a abertura no teto era uma entrada para os demnios!
    Langdon desligou-se do que o outro dizia. Ergueu os olhos para o culo e a lembrana da cena sugerida por Vittoria projetou uma imagem aterrorizante em sua mente: um cardeal marcado a fogo despencando atravs da abertura e estatelando-se no cho de mrmore. Seria de fato um prato cheio para a mdia. Langdon deu por si procurando reprteres dentro do Panteo. Nenhum. Respirou fundo. A idia era absurda. A logstica para produzir uma atrao como aquela seria despropositada.
     medida que se deslocava para continuar sua inspeo, o guia tagarela seguia-o como um cozinho carente de afeto. No posso esquecer, disse para si mesmo, no h nada pior do que um historiador entusiasmado demais.
    Do outro lado, Vittoria estava imersa em sua busca. Sozinha pela primeira vez desde que recebera a notcia sobre seu pai, sentiu a crua realidade das ltimas oito horas fechando-se em torno dela. Seu pai fora assassinado  cruel e abruptamente. Quase to dolorosa era a conscincia de que o trabalho de seu pai fora corrompido e agora se tornara um instrumento de terroristas. Atormentava-a a culpa de ter sido a sua inveno o que permitira que a anti-matria pudesse ser transportada. Era o contador eletrnico de seu tubo especial que agora estava marcando o tempo restante dentro do Vaticano. Na tentativa de contribuir para a busca de seu pai pela simplicidade da verdade, ela se transformara em uma conspiradora do caos.
    Estranhamente, a nica coisa que parecia estar certa em sua vida naquele momento era a presena de um desconhecido. Robert Langdon. Encontrava um refgio inexplicvel em seu olhar, como a harmonia dos oceanos que ela deixara para trs naquela manh bem cedo. Sentia-se contente por ele estar ali. No s fora para ela uma fonte de fora e de esperana como utilizara a rapidez de sua inteligncia para encontrar aquela chance nica de pegar o assassino de seu pai.
    Vittoria respirou fundo e continuou a procurar, andando em torno do permetro do Panteo. Estava assoberbada pelos inesperados desejos de vingana pessoal que haviam dominado seus pensamentos durante todo o dia. Mesmo sendo uma amante declarada de toda forma de vida, queria ver aquele carrasco morto. No haveria bom carma que a fizesse dar a outra face naquele dia. Ao mesmo tempo alarmada e eletrizada, notava algo correndo em seu sangue italiano que nunca sentira antes: os sussurros dos ancestrais sicilianos que defendiam a honra da famlia com justia brutal. Vendetta, pensou ela, pela primeira vez compreendendo o verdadeiro sentido da palavra.
    Vises de represlias possveis incitavam-na a prosseguir. Aproximou-se da tumba de Rafael Santi. Mesmo  distncia, via-se logo que se tratava de uma figura especial. Seu sepulcro, ao contrrio dos outros, possua uma proteo de plexiglas e ficava em um nicho da parede. Atravs da barreira, ela conseguia ver a frente do sarcfago.
RAPHAEL SANTI, 1483  1520
    Vittoria examinou o conjunto e depois leu a frase na placa descritiva ao lado da tumba de Rafael.
    Ento, leu de novo.
    E mais uma vez.
    Um segundo depois, saiu correndo pelo Panteo, chamando, horrorizada:
     Robert! Robert! 

CAPTULO 62

    Langdon avanava pelo seu lado do Panteo com uma certa dificuldade por causa do guia, que no lhe saa dos calcanhares e agora prosseguia em sua incansvel narrativa enquanto Langdon se preparava para verificar o ltimo nicho.
     O senhor est gostando um bocado desses nichos!  disse o guia, encantado.  Sabia que a espessura gradativamente menor das paredes  que faz o domo parecer no ter peso?
    Langdon fez um gesto com a cabea, sem prestar ateno e se preparando para examinar outro nicho. De repente, algum o agarrou por trs. Era Vittoria. Ela estava sem flego e puxava-o pelo brao. Pela expresso apavorada do rosto dela, Langdon s podia deduzir uma coisa. Ela havia encontrado um corpo. Uma nova onda de temor cresceu dentro dele.
     Ah, sua mulher!  exclamou o guia, visivelmente entusiasmado por ter mais um visitante. Apontou para o short e para as botas de caminhada que ela usava.  Mas ela com certeza  americana!
    Vittoria apertou os olhos.
     Sou italiana.
    O sorriso do guia murchou.
     Oh, meu Deus.
     Robert  cochichou Vittoria, tentando dar as costas para o guia.  O Diagramma de Galileu. Preciso v-lo.
     Diagramma?  disse o guia, girando de volta nos calcanhares.  Ora, ora! Vocs dois conhecem histria mesmo! Infelizmente, esse documento no pode ser visto. Est guardado nos Arquivos do Vati...
     Pode nos dar licena um instante?  disse Langdon. No compreendia o pnico de Vittoria. Levou-a para um lado e ps a mo no bolso, tirando de l com todo o cuidado o flio do Diagramma.  O que houve?
     Qual  a data que est escrita a?  Vittoria perguntou, correndo os olhos pela folha.
    O guia estava junto deles outra vez, olhando para o flio de boca aberta.
     Esse no ... de verdade...
      uma reproduo para turistas  mentiu Langdon.  Obrigado por sua ajuda. Por favor, minha mulher e eu gostaramos de ficar a ss um instante.
    O guia recuou, sem tirar os olhos do papel.  A data  Vittoria repetiu.  Quando foi que Galileu publicou...
    Langdon mostrou um nmero em algarismos romanos.
     Esta  a data de publicao. O que est acontecendo?
    Vittoria decifrou o nmero.
     1639?
     . Alguma coisa errada?
    A expresso de Vittoria tornou-se mais carregada com um mau pressentimento.
     Temos um problema srio, Robert. Muito srio. As datas no combinam.
     Que datas no combinam?
     A tumba de Rafael. Ele s foi enterrado aqui em 1759. Um sculo depois do Diagramma ser publicado.
    Langdon encarou-a, tentando dar sentido ao que ela dizia.
     No  replicou , Rafael morreu em 1520, muito antes do Diagramma.
     Sim, mas ele s foi enterrado aqui muito depois.
    Langdon estava perdido.
     O que est dizendo?
     Acabei de ler naquela placa. O corpo de Rafael foi trasladado para o Panteo em 1758. Como parte de um tributo histrico a italianos eminentes.
    Ao assimilar as palavras dela, Langdon teve a impresso de que lhe puxavam um tapete de baixo dos ps.
     Quando aquele poema foi escrito  afirmou Vittoria , a tumba de Rafael era em outro lugar qualquer. Naquela poca, o Panteo no tinha nada a ver com Rafael!
    Langdon chegou a ficar sem ar.
     Ento, isso quer dizer que...
     Pois ! Que estamos no lugar errado!
    Ele cambaleou. No  possvel. Eu tinha tanta certeza...
    Vittoria correu e agarrou o brao do guia, puxando-o de volta.
     Signore, desculpe, mas onde estava o corpo de Rafael no sculo XVII?
     Urb... em Urbino  gaguejou ele, agora parecendo desnorteado.  Onde ele nasceu.
     Impossvel!  Langdon praguejou baixinho.  Os altares da cincia dos Illuminati eram aqui em Roma. Tenho certeza!
     Illuminati?  o guia engoliu em seco, olhando de novo para o documento na mo de Langdon.  Quem so vocs, Deus do cu?
    Vittoria tomou a frente.
     Estamos procurando por algo que  chamado de a tumba terrena de Santi. Em Roma. Sabe o que pode ser? O homem mostrava-se inquieto.
     Esta foi a nica tumba de Rafael em Roma.
    Langdon esforava-se para pensar, mas sua cabea se recusava a funcionar direito. Se a tumba de Rafael no estava em Roma em 1639, a que o poema se referia, ento? Da tumba terrena de Santi com a cova do demnio? Que diabos  isso? Pense!
     Houve outro artista chamado Santi?  perguntou Vittoria.
    O guia deu de ombros.
     No que eu saiba.
     E algum famoso, qualquer pessoa? Um cientista, um poeta ou um astrnomo chamado Santi?
    O homem agora dava a impresso de querer ir embora.
     No, senhora. O nico Santi de que j ouvi falar era Rafael, o arquiteto.
     Arquiteto?  repetiu ela.  Pensei que ele fosse pintor!
     Era as duas coisas,  claro. Todos eles eram. Michelangelo, Da Vinci, Rafael.
    Langdon no soube se foram as palavras do guia ou as tumbas ornamentadas em torno dele que abriram sua mente para a revelao, mas no tinha importncia, o pensamento lhe viera. Santi era arquiteto. Da em diante, a progresso de idias evoluiu como se fosse uma fileira de domins caindo. Os arquitetos da Renascena viviam por apenas duas razes: para glorificar a Deus com enormes igrejas e para glorificar dignitrios com prdigas tumbas. A tumba de Santi. Seria possvel? As imagens agora lhe vinham mais depressa...
    A Mona Lisa de Da Vinci.
    Os Nenfares de Monet.
    O Davi de Michelangelo.
    A tumba terrena de Santi...
     Santi projetou a tumba  declarou Langdon.
    Vittoria virou-se.
     O qu?
     No  uma referncia ao lugar onde Rafael est enterrado,  uma referncia a uma tumba que ele projetou.
     O que  que voc est dizendo?
     Eu no compreendi direito a frase. No  o tmulo de Rafael que estamos procurando, e sim um tmulo que Rafael projetou para outra pessoa. No posso acreditar que deixei passar isto. A metade dos trabalhos de escultura feitos na Roma renascentista e barroca destinava-se aos monumentos funerrios.  E ele riu, satisfeito com a descoberta.  Rafael deve ter projetado centenas de tumbas! Vittoria no parecia to contente.
     Centenas?
    O sorriso de Langdon sumiu.
     Ah...
     Alguma delas seria terrena, professor?
    De repente, ele se sentiu um incompetente. Sabia muito pouco sobre a obra de Rafael, era uma vergonha. Se fosse Michelangelo, teria sido mais fcil, mas o trabalho de Rafael nunca o atrara tanto. S se lembrava de umas duas tumbas mais famosas de Rafael, mas talvez nem soubesse descrev-las.
    Percebendo o bloqueio de Langdon, Vittoria dirigiu-se ao guia, que ia saindo de fininho. Segurou o brao dele e puxou-o, fazendo com que ficasse de frente para ela.
     Preciso de uma tumba. Projetada por Rafael. Uma tumba que possa ser considerada terrena.
    O homem fez uma cara desconsolada.
     Uma tumba de Rafael? No sei. Ele projetou tantas! Talvez queira dizer uma capela de Rafael, no uma tumba. Os arquitetos sempre desenhavam as capelas junto com as tumbas.
    Ele tinha razo. Langdon perguntou:
     Existe alguma tumba ou capela de Rafael considerada terrena?
     Sinto muito  o outro respondeu , no sei o que quer. A palavra terrena no se aplica a nada que eu conhea. Tenho de ir embora.
    Vittoria estendeu o brao e leu a linha de cima do flio:
     Da tumba terrena de Santi com a cova do demnio. Significa algo para o senhor?
     No, nada.
    Langdon levantou a cabea. Esquecera momentaneamente a segunda parte do verso. A cova do demnio?
     J sei!  ele disse para o guia.   isso! Sabe se alguma das capelas de Rafael tem um culo?
    O guia sacudiu a cabea.
     Pelo que sei, o Panteo  o nico...  ele fez uma pausa  mas...
     Mas o qu?  exclamaram os dois em unssono.
    O homem ento inclinou a cabea para o lado e andou na direo deles Outra vez.
     Cova do demnio... seria o mesmo que... buco divolo?
     Literalmente, sim  confirmou Vittoria.
    O homem deu um ligeiro sorriso.  A est uma expresso que no escuto faz tempo. Se no me engano, buco divolo  uma abbada subterrnea.
     Uma abbada subterrnea?  perguntou Langdon.  Uma cripta?
     , mas um tipo especfico de cripta. Acho que cova do demnio  uma expresso antiga para uma enorme cavidade funerria localizada em uma capela e sob uma outra tumba.
     Um ossrio anexo?  indagou Langdon, identificando imediatamente o que o homem descrevia.
    O guia, impressionado, confirmou.
     ! Era exatamente essa a palavra que eu estava procurando!
    Langdon considerou a possibilidade. Os ossrios anexos eram uma soluo barata oferecida pelas igrejas para um incmodo dilema.
    Quando as igrejas homenageavam seus membros mais distintos com tumbas ornamentadas dentro do santurio, os familiares sobreviventes dessas pessoas freqentemente pediam que o resto da famlia fosse enterrado junto, garantindo assim um cobiado espao para suas sepulturas dentro da igreja. No entanto, se a igreja no tivesse espao ou recursos para criar tumbas para uma famlia inteira, havia a alternativa de cavar um ossrio anexo  um buraco no cho perto da tumba principal, onde se enterravam os membros menos ilustres da famlia. Esse buraco ento era fechado com o equivalente renascentista de uma tampa de bueiro. Apesar de conveniente, o ossrio anexo logo saiu de moda por causa do mau cheiro que muitas vezes exalava e se espalhava pela catedral. Cova do demnio, pensou. Nunca ouvira a expresso antes. Era sinistramente apropriada  situao.
    O corao dele batia acelerado. Da tumba terrena de Santi com a cova do demnio. Havia apenas mais uma pergunta a fazer.
     Rafael desenhou tumbas com essas covas do demnio?
    O guia coou a cabea.
     Na verdade, desculpem, mas s me lembro de uma.
    S uma? No poderia haver resposta melhor.
     Onde?  Vittoria quase gritou.
    O guia fitou-os de modo estranho.
     Chama-se Capela Chigi. Tmulo de Agostino Chigi e de seu irmo, ricos patronos das artes e das cincias.
     Cincias?  exclamou Langdon, trocando um olhar com Vittoria.
     Onde?  Vittoria perguntou de novo.
    O guia ignorou a pergunta, de novo entusiasmado em poder prestar servio.
     Se a tumba  terrena ou no, isto no sei dizer, mas sem dvida , digamos, diferente.  Diferente? Como assim?
     Incoerente com a arquitetura. Rafael s foi o arquiteto. Um outro escultor fez a decorao interior, no me lembro quem.
    Langdon era todo ouvidos. O mestre Illuminati annimo, talvez?
     Quem quer que seja ele, os monumentos do interior da capela so de muito mau gosto  disse o guia.  Dio mio! Que atrocidade! Quem iria querer ser enterrado sob pirmides?
    Langdon mal podia acreditar.
     Pirmides? A capela contm pirmides?
     Pois !  o guia escarneceu. Terrvel, no ?
    Vittoria puxou a manga do guia.
     Signore, onde fica essa Capela Chigi?
     Mais ou menos a um quilmetro e meio daqui, na direo norte. Na Igreja de Santa Maria del Popolo.
    Ela suspirou.
     Obrigada. Vamos...
     Ei...  disse o guia.  Acabei de lembrar de uma coisa. Que idiota eu sou.
    Vittoria parou.
     No me diga que se enganou.
    Ele sacudiu a cabea.
     No, mas isso deveria ter me ocorrido antes. A Capela Chigi nem sempre foi conhecida por este nome, Chigi. Antes era chamada de Capeila delia Terra.
     Capela da Terra!  exclamou Langdon.
    Vittoria j estava seguindo direto para a porta.
    Vittoria Vetra sacou de seu celular enquanto corria pela Piazza delia Rotonda.
     Comandante Olivetti  disse , estamos no lugar errado!
    Incrdulo, Olivetti repetiu.
     Errado? Como, como?
     O primeiro altar da cincia  na Capela Chigi!
     Onde?  agora, a voz dele estava zangada.  Mas o senhor Langdon disse...
     Santa Maria del Popolo! A um quilmetro e meio daqui rumo ao norte. Leve seus homens para l agora! Temos s quatro minutos!
     Mas meus homens esto posicionados aqui! No tenho como...
     Ande!  Vittoria fechou o telefone com um estalo. Atrs dela, tonto, saindo do Panteo, vinha Langdon.
    Vittoria puxou-o pela mo na direo de uma fila de txis aparentemente
    sem motoristas que esperavam junto ao meio-fio. Ela socou o cap do primeiro carro da fila. O motorista adormecido aprumou-se com um salto dando um grito de susto. Vittoria escancarou a porta de trs, empurrou Langdon para dentro e pulou para o assento ao lado dele.
     Santa Maria del Popolo  ordenou.  Presto!
    Frentico e meio aterrorizado, o motorista pisou fundo no acelerador e saiu numa correria desabalada pela rua. 

CAPTULO 63

    Gunther Glick assumira o controle do computador, em vez de Chinita Macri, que agora estava curvada no banco de trs do atravancado furgo da BBC espiando a tela por cima do ombro dele.
     Eu disse a voc  falou Glick digitando mais algumas palavras.  O British Tattler no  o nico jornal que publica histrias sobre esses caras.
    Macri chegou mais perto para enxergar melhor. Ele tinha razo. O banco de dados da BBC mostrava que sua distinta rede de emissoras havia descoberto e publicado seis matrias nos ltimos dez anos sobre a fraternidade chamada Illuminati. Bem, agora tenho de dar minha cara a tapa, pensou ela.
     Quem foram os jornalistas que redigiram as matrias?  perguntou Macri.
     Os de quinta?
    A BBC no contrata jornalistas de quinta categoria.
     Mas contratou voc.
    Glick ficou carrancudo.
     No sei por que voc  to ctica. Os Illuminati esto bem documentados atravs da Histria.
     As bruxas, os OVNIs e o monstro do Lago Ness tambm.
    Glick leu a lista de matrias.
     J ouviu falar de um sujeito chamado Winston Churchill?
     O nome no me  estranho.
     A BBC fez um documentrio h algum tempo sobre a vida de Churchill. Bastante liberal, alis. Sabia que, em 1920, Churchill publicou uma declarao condenando os Illuminati e prevenindo os ingleses sobre uma conspirao de mbito mundial contra a moralidade?
    Macri replicou, irnica:
     E onde saiu? No British Tattler?
    Ele sorriu.
     No, no London Herald. Em 8 de fevereiro de 1920.
     No  possvel.
     Veja para crer.
    E ela leu: London Herald. 8 de fev.,1920. Que coisa, jamais pensei...
     Bem, Churchill era meio paranico.
     E no foi s ele  disse Glick, continuando a ler.  Parece que Woodrow Wilson fez trs pronunciamentos pelo rdio em 1921 chamando a ateno para o controle crescente dos Illuminati sobre o sistema bancrio norte-americano. Quer ouvir um pedao da transcrio de um desses pronunciamentos?
     Acho que no.
    Mas ele leu a citao assim mesmo.
     Ele disse: Existe um poder to organizado, to sutil, to completo, to penetrante que ningum deve falar em voz alta quando fizer crticas a ele.
     Nunca ouvi nada sobre eles.
     Talvez porque em 1921 voc fosse muito pequena.
     Engraadinho.
    Macri no ligou para a indireta. Sabia que aparentava a prpria idade. Com 43 anos, seus cerrados caracis negros estavam estriados de cinza. Era orgulhosa demais para pint-los. Sua me, sulista e batista, ensinara Chinita a ter amor-prprio e a ser uma pessoa contente consigo mesma. Se voc  uma mulher negra, dizia sua me, no h como esconder. Se tentar, vai se dar mal. Levante a cabea, sorria bonito e deixe os outros quererem descobrir qual  o segredo que faz voc rir.
     Sabe quem  Cecil Rhodes?  perguntou Glick.
    Macri olhou para ele.
     O financista ingls?
     Esse mesmo. Fundou a famosa instituio com o seu nome, a que distribui bolsas de estudo.
     No me diga que...
     Um Illuminatus.
     Mentira.
     No. BBC, 16 de novembro de 1984.
     Ns escrevemos que Cecil Rhodes era um Illuminatus?  Com todas as letras. E, segundo a nossa rede de emissoras, as bolsas de estudo Rhodes eram fundos estabelecidos sculos atrs para recrutar as mentes jovens mais brilhantes do mundo para as fileiras dos Illuminati.
     Isso  ridculo! Meu tio foi um bolsista Rhodes!
    Glick piscou um olho.
     Bill Clinton tambm.
    Macri j estava ficando zangada quela altura. Nunca tivera pacincia com o jornalismo sensacionalista, de baixa qualidade. Ainda assim, conhecia bem a BBC e sabia que toda matria que a rede divulgava era cuidadosamente pesquisada e confirmada.
     E desta aqui voc deve lembrar  disse Glick.  BBC, 5 de maro de 1998. O presidente da Cmara dos Comuns no Parlamento Britnico, Chris Mullin, determinou que todos os membros que fossem maons declarassem abertamente sua filiao.
    Macri de fato se lembrava. O decreto acabara incluindo tambm policiais e juzes.
     Qual foi mesmo o motivo alegado?
    Glick leu: ...preocupao que faces secretas dentro da maonaria exercessem controle significativo sobre os sistemas poltico e financeiro.
     Isso mesmo.
     Causou um tremendo alvoroo. Os maons do Parlamento ficaram furiosos. Com razo. A grande maioria era composta de homens inocentes que haviam entrado para a maonaria com o objetivo de estabelecer uma rede de contatos e realizar obras de caridade. Desconheciam completamente as antigas filiaes da fraternidade.
     Supostas filiaes.
     Seja l o que for.  Glick correu os olhos pelos artigos.  Veja s. H relatos que associam os Illuminati a Galileu, aos Guerenets, na Frana, aos Alumbrados, na Espanha. At a Karl Marx e  Revoluo Russa.
     A Histria sempre encontra um jeito de se corrigir.
     timo, quer algo mais atual? D uma olhada nisto. Uma referncia aos Illuminati em um nmero recente do Wall Street Journal.
    O nome chamou a ateno de Macri.
     O Journal?
     Adivinhe qual  o jogo de computador pela Internet mais popular nos Estados Unidos hoje em dia?
     Coloque uma Cauda em Pamela Anderson.
     Quase. Chama-se Illuminati: Nova Ordem Mundial. Macri leu por cima do ombro dele a sinopse do jogo. Steve Jackson Games tem um jogo que  um sucesso estrondoso, uma aventura semi-histrica na qual uma antiga fraternidade satnica da Bavria se mobiliza para tomar conta do mundo. Voc pode encontr-lo on-line em... Macri interrompeu a leitura com uma sensao de repugnncia.
     O que esses Illuminati tm contra o cristianismo?
     No  s contra o cristianismo  disse Glick ,  contra a religio em geral.
     Ele inclinou a cabea para o lado e esticou os lbios em um sorriso largo.
     Embora, pelo que ouvi no telefonema que ns acabamos de receber, parea
    que eles tm mesmo um fraco pelo Vaticano.
     Ora, tenha d, voc acha mesmo que o cara que ligou  quem diz que ?
     Um mensageiro dos Illuminati? Que est se preparando para matar quatro cardeais?  Glick sorriu.  Tomara que seja. 

CAPTULO 64

    O txi de Langdon e Vittoria completou a corrida desenfreada de cerca de um quilmetro e meio pela ampla Via delia Scrofa em pouco mais de um minuto. Pararam com uma freada barulhenta no lado sul da Piazza del Popolo quase s oito horas. Como no tinha liras, Langdon teve de pagar o motorista em dlares, e a mais. Ele e Vittoria saltaram depressa do carro. A piazza estava sossegada, exceto pelas risadas de um grupo de freqentadores sentados do lado de fora do popular Rosati Caff, um local favorito dos literatos italianos. A brisa cheirava a caf expresso e a massa de torta.
    Langdon ainda estava em estado de choque por causa de seu engano no Panteo. Bastou um rpido olhar para aquela praa, porm, e seu sexto sentido comeou a dar avisos. A piazza estava sutilmente impregnada de significados prprios dos Illumjnatj. No s a sua forma era uma elipse perfeita, como no centro exato erguia-se um enorme obelisco egpcio, uma coluna quadrada de pedra com uma ponta distintamente piramidal. Despojos dos saques da Roma imperial, os obeliscos espalhavam-se por toda a cidade e eram chamados pelos simbologistas de Pirmides Elevadas extenses voltadas para o cu da sagrada forma piramidal.
    Enquanto contemplava o monolito, porm, sua ateno foi atrada para algo mais ao fundo. Algo ainda mais extraordinrio.  Estamos no lugar certo  disse em voz baixa, sentindo uma cautela repentina.  D uma espiada naquilo.  E apontou para a imponente Porta del Popolo, a grande arcada de pedra na extremidade oposta da piazza. Havia sculos que aquela estrutura se elevava acima da praa. No meio do ponto mais alto do arco destacava-se um relevo simblico.  J viu aquilo antes em algum lugar?
    Vittoria examinou o imenso relevo.
     Uma estrela brilhando em cima de uma pilha triangular de pedras?
    Langdon fez que sim.
     Uma fonte de iluminao, de esclarecimento, em cima de uma pirmide.
    Vittoria arregalou os olhos.
     Igual ao sinete dos Estados Unidos?
     Exato. O smbolo manico na nota de um dlar.
    Vittoria tomou flego e correu os olhos pela praa.
     Ento, onde fica essa bendita igreja?
    A Igreja de Santa Maria del Popolo, colocada de travs na base de uma colina na extremidade sudoeste da piazza, lembrava um deslocado navio de guerra. A alta construo de pedra do sculo XI parecia ainda mais desajeitada com a torre de andaimes que lhe cobria a fachada.
    Os pensamentos de Langdon eram um borro enquanto eles se encaminhavam apressados para o edifcio. Olhava para a igreja, atnito. Ser que um assassinato iria mesmo se realizar l dentro? Torcia para que Olivetti chegasse depressa. O revlver em seu bolso dava-lhe uma sensao incmoda.
    As escadas na frente da igreja eram ventaglio  em acolhedor formato de leque , uma ironia, no caso, porque estavam bloqueadas por andaimes, material de construo e uma placa com um aviso: 
CONSTRUZIONE. NON ENTRARE.
    Uma igreja fechada para reformas significava total privacidade para um assassino. Ao contrrio do Panteo. Aqui no havia necessidade de truques fantasiosos. Bastava achar um modo de entrar. Vittoria esgueirou-se sem hesitao entre os cavaletes e subiu a escada.  Vittoria  Langdon, precavido, lembrou , se ele ainda estiver a...
    Vittoria no lhe deu ouvidos. Subiu para o prtico principal onde se encontrava a nica porta da igreja, de madeira. Langdon subiu correndo as escadas atrs dela. Antes que ele pudesse falar qualquer coisa, ela segurou a maaneta da porta e puxou-a. Langdon prendeu a respirao. A porta nem se mexeu.
     Deve haver outra entrada  disse ela.  Provavelmente  disse Langdon, soltando o ar dos pulmes , mas Olivetti vai estar aqui em um minuto.  perigoso demais entrar agora. Deveramos ficar tomando conta da igreja daqui at...
    Vittoria virou-se para ele, fulminando-o com os olhos.
     Se existe outra entrada, existe outra sada. Se esse cara sumir, estamos fungiti.
    O italiano de Langdon era suficiente para saber que ela estava certa.
    O corredor do lado direito da igreja era apertado e escuro, com muros altos dos dois lados. Cheirava a urina, um odor comum em uma cidade em que o nmero de bares superava o de banheiros pblicos na proporo de 20 para 1.
    Langdon e Vittoria mergulharam na ftida penumbra. Uns dez metros depois, Vittoria apertou o brao de Langdon e apontou para algo adiante.
    Langdon tambm tinha visto. Tratava-se de uma porta simples de madeira com pesadas dobradias. Ele a identificou como a habitual porta sacra  uma entrada particular para o clero. Fazia tempo que a maioria dessas portas deixara de ser usada,  medida que o avano dos prdios novos e as limitaes do setor imobilirio iam banindo as entradas laterais para vielas incmodas.
    Vittoria correu para a porta. Ao chegar, olhou para baixo, perplexa, procurando a maaneta. Langdon aproximou-se por trs e viu a peculiar argola em forma de rosquinha pendurada onde deveria estar a maaneta.
     Um annulus  ele cochichou. Estendeu a mo e, sem fazer rudo, segurou o anel e puxou-o para si. Ouviu-se um dique. Vittoria mexeu-se, de repente inquieta. Em silncio, Langdon torceu o anel no sentido horrio. O anel girou em falso 360 graus sem se encaixar. Langdon franziu a testa e tentou a outra direo, com o mesmo resultado.
    Vittoria examinou o resto da viela.
     Ser que pode haver outra entrada?
    Ele achava que no. A maioria das igrejas da Renascena fora projetada para funcionar tambm como fortaleza improvisada caso a cidade fosse tomada de assalto. Por isso tinham o menor nmero possvel de entradas.
     Se houver outra entrada  disse ele , vai estar provavelmente escondida no bastio dos fundos, mais uma sada para fugas do que uma entrada.
    Vittoria j estava a caminho.
    Langdon seguiu-a um bom pedao pela viela. Os muros elevavam-se dos dois lados. Em algum lugar, um sino bateu oito horas... Robert Langdon no escutou quando Vittoria o chamou pela primeira vez. Ele parara junto a uma janela de vitral protegida por barras de ferro e estava tentando enxergar o interior da igreja.
     Robert!  a voz dela vinha em um sussurro alto.
    Langdon levantou a cabea. Vittoria estava no final da viela. Apontava para os fundos da igreja e acenava para que ele se aproximasse. Ele trotou com relutncia na direo dela. Na base da parede traseira, um bastio de pedra projetava-se para fora escondendo uma cavidade estreita, uma espcie de passagem apertada que ia direto para a base da igreja.
      uma entrada?  perguntou Vittoria.
    Langdon concordou. Na realidade, trata-se de uma sada, mas no vamos discutir esses detalhes agora.
    Vittoria ajoelhou-se e espiou para dentro do tnel.
     Vamos examinar a porta, ver se est aberta.
    Ele abriu a boca para objetar, mas ela o pegou pela mo e puxou.
     Espere  disse Langdon.
    Ela se virou para ele, impaciente.
    Ele suspirou.
     Eu vou na frente.
    Vittoria surpreendeu-se.
     Mais cavalheirismo?
     A idade antes da beleza.
     Isso foi um elogio?
    Langdon sorriu e passou  frente dela para a escurido.
     Cuidado com os degraus.
    Ele avanou aos poucos, s cegas, com uma das mos na parede lateral. Sentia a aspereza da pedra nas pontas dos dedos. Por um instante, lembrou-se do velho mito de Ddalo, de como o rapaz manteve a mo na parede atravs do labirinto do Minotauro, sabendo que com certeza encontraria o fim se jamais interrompesse o contato com a parede. Langdon seguia em frente sem saber muito bem se queria encontrar o fim.
    O tnel estreitou-se ligeiramente e Langdon diminuiu o ritmo. Sentia Vittoria bem atrs dele. A parede fez uma curva para a esquerda e o tnel se abriu em um nicho semicircular. Estranhamente, havia uma luminosidade fraca ali. Na penumbra, Langdon divisou o contorno de uma grossa porta de madeira.
     Opa  disse ele.
     Trancada?
     Estava.  Estava?  Vittoria veio para o lado dele.
    Ele apontou. Iluminada por uma rstia de luz que vinha de dentro, a porta pendia entreaberta, as dobradias quebradas por um p-de-cabra ainda preso  madeira.
    Os dois ficaram parados em silncio por um instante. Ento, no escuro, Langdon sentiu as mos de Vittoria em seu peito, tateando, esgueirando-se para dentro de seu casaco.
     Calma, professor  disse ela.  S estou querendo pegar o revlver.
    Naquele momento, dentro dos museus do Vaticano, uma fora-tarefa de guardas suos espalhava-se em todas as direes. A rea estava s escuras e por isso eles usavam culos especiais infravermelhos produzidos pelo Corpo de Fuzileiros Navais norte-americano. Os culos faziam tudo aparecer sob um lgubre tom de verde. Todos os guardas usavam fones de ouvido ligados a um detector parecido com uma antena que oscilava ritmicamente  frente deles  os mesmos aparelhos que utilizavam duas vezes por semana para fazer a varredura de grampos eletrnicos nas dependncias do Vaticano. Movimentavam-se de maneira metdica, verificando atrs de esttuas, no interior de nichos, dentro de armrios, sob os mveis. As antenas produziriam um rudo caracterstico se detectassem qualquer campo magntico por menor que fosse.
    Naquela noite, porm, no estavam emitindo nenhum sinal. 

CAPTULO 65

    O interior de Santa Maria del Popolo era como uma caverna tenebrosa na claridade que se extinguia aos poucos. Parecia mais uma estao de metr em obras do que uma catedral. A nave central assemelhava-se a uma pista de obstculos, com montes de pedaos do piso arrancado, tijolos, areia, carrinhos de mo e at uma escavadeira enferrujada. Colunas gigantescas erguiam-se do cho sustentando o teto abobadado. No ar, uma poeira fina flutuava quase imvel contra o brilho embaado dos vitrais. Langdon e Vittoria encontravam-se sob um extenso afresco de Pinturicchio e corriam os olhos pelo santurio desmantelado. Nada se movia. Havia um silncio mortal.
    Vittoria segurou o revlver com as duas mos estendidas diante de si.
    Langdon verificou seu relgio: 8h04 da noite. Somos malucos por vir aqui, pensou.  perigoso demais. No entanto, sabia que se o assassino estivesse dentro da igreja poderia sair pela porta que quisesse e, portanto, seria completamente intil ficarem  espreita do lado de fora com uma nica arma. O jeito seria peg-lo ali dentro, isto , se ele ainda no tivesse ido embora. Langdon culpava-se pelo fiasco que os fizera perder tempo no Panteo. No lhe cabia agora insistir em precaues. Era ele o responsvel por estarem naquele beco sem sada.
    Vittoria, aflita, examinava a igreja.
     Ento  cochichou ela , onde  que fica essa Capela Chigi?
    Langdon olhou para a parte de trs da catedral atravs daquela meia-luz fantasmagrica e estudou as paredes externas. Ao contrrio do que se costuma pensar, as catedrais renascentistas invariavelmente tinham diversas capelas, sendo que grandes catedrais como a Notre-Dame possuam muitas. Essas capelas no eram aposentos e sim vos, concavidades  nichos semicirculares contendo tumbas ao longo do permetro da igreja.
    Ms notcias, pensou Langdon ao divisar quatro recessos em cada uma das paredes laterais. Havia um total de oito capelas. Embora oito no fosse um nmero to exagerado assim, as quatro aberturas estavam cobertas com imensos plsticos transparentes por causa da obra, as cortinas translcidas provavelmente tendo a funo de proteger da poeira as tumbas que ficavam dentro das capelas.
     Pode ser qualquer um desses espaos cobertos  respondeu Langdon.
     No h como saber qual  a Capela Chigi sem olhar dentro de cada um. O que  uma boa razo para esperar por Oliv...
     Qual  a segunda abside  esquerda?  perguntou ela.
    Surpreso ao v-la dominar a terminologia de arquitetura, ele repetiu:
     Segunda abside  esquerda?
    Vittoria mostrou a parede atrs de si. Havia um azulejo decorativo engastado na pedra. Nele estava gravado o mesmo smbolo que tinham visto do lado de fora  uma pirmide sob uma estrela reluzente. Ao lado, em uma placa suja de poeira, lia-se:
BRASO DE ALEXANDER CHIGI
CUJA TUMBA EST LOCALIZADA NA
SEGUNDA ABSIDE  ESQUERDA DESTA CATEDRAL
    Quer dizer que o braso dos Chigi era uma pirmide e uma estrela?, pensou Langdon. E conjeturou se o abastado patrono Chigi no teria sido um Illuminatus. Cumprimentou Vittoria.
     Bom trabalho, Nancy Drew.
     O qu?
     Nada. Eu...
    Uma pea de metal caiu no cho a apenas alguns metros deles. O barulho ecoou pela igreja inteira. Langdon puxou Vittoria para trs de uma coluna e ela, ao mesmo tempo, apontou o revlver para a direo de onde vinha o rudo, mantendo-o firme. Silncio. Eles esperaram. De novo, ouviu-se um som, dessa vez um rudo farfalhante. Langdon prendeu a respirao. Nunca deveria ter consentido em virmos para c! O barulho ficou mais prximo, um som intermitente de um p se arrastando, como o de um homem que mancasse. Sbito, junto  base da coluna, apareceu algo assustador.
     Figlio di una puttana!  xingou Vittoria em voz baixa, pulando para trs. Langdon recuou junto com ela.
    Ao lado da coluna, arrastando um sanduche meio comido e embrulhado em papel, havia um rato enorme. A criatura parou quando deu com eles, examinou longamente o cano do revlver de Vittoria e depois, sem se abalar, continuou a arrastar sua presa para algum recanto da igreja.
     Filho da...  arquejou Langdon, o corao em disparada.
    Vittoria abaixou a arma, recompondo-se rapidamente. Langdon esticou a cabea e viu, do outro lado da coluna, a lancheira de um operrio cada no cho, que o engenhoso rato derrubara de cima de um cavalete.
    Langdon procurou alguma coisa em movimento dentro da igreja e sussurrou:
     Se o sujeito est aqui,  claro que ouviu isso. Tem certeza de que no quer esperar por Olivetti?
     Segunda abside  esquerda  repetiu Vittoria , onde ?
    A contragosto, Langdon tentou se orientar. A terminologia das catedrais era igual  das instrues para a representao de uma pea teatral  o inverso do que manda o instinto. Ficou de frente para o altar-mor. Centro do palco. Ento, apontou com seu polegar para trs por cima do ombro.
    Os dois se viraram e olharam para onde ele apontava.
    A Capela Chigi estava localizada no terceiro dos quatro recessos  direita deles. A boa notcia  que eles estavam do lado certo da igreja. A m  que estavam na extremidade errada. Teriam de percorrer toda a extenso da catedral e passar por trs outras capelas, todas elas, assim como a Capela Chigi, cobertas por cortinas de plstico translcido.
     Espere  disse ele.  Vou na frente.
     Nem pensar.
     Fui eu quem fez a besteira de ir para o Panteo.
     Mas sou eu quem est com o revlver.
    Ele via refletido em seu olhar, porm, o que ela estava realmente pensando. Fui eu quem perdeu o pai. Fui eu quem ajudou a criar uma arma de destruio em massa. Quero a pele desse sujeito.
    Langdon concluiu que era intil insistir e deixou-a ir. Foi andando ao lado dela, cautelosamente, pelo lado leste da baslica. Ao deixarem para trs a primeira capela coberta, Langdon, tenso, sentiu-se como um concorrente de um daqueles jogos da televiso. Escolho a cortina nmero trs, pensou.
    A igreja estava silenciosa, as grossas paredes de pedra bloqueavam todo vestgio do mundo exterior. Ao passarem pelas absides, plidas formas humanas oscilavam como fantasmas atrs dos plsticos farfalhantes. Esculturas de mrmore, ele disse para si mesmo, torcendo para estar certo. Eram 8h06 da noite. Ser que o assassino tinha sido pontual e cado fora antes que eles entrassem na igreja? Ou ainda estava l dentro? Langdon no sabia bem o que era pior.
    Passaram pela segunda abside, sinistra na escurido crescente da catedral. A noite parecia estar caindo mais depressa, acentuada pelo colorido embaado dos vitrais. Quando seguiam adiante, a cortina de plstico a seu lado enfunou-se subitamente, como se fosse agitada por uma corrente de ar. Langdon se perguntou se algum em algum lugar teria aberto uma porta.
    Vittoria diminuiu o passo quando a terceira capela surgiu diante deles. Segurou o revlver  sua frente, indicando com a cabea a estela ao lado da abside. Em um bloco de granito havia duas palavras esculpidas:
CAPELLA CHIGI
    Langdon confirmou com um gesto. Sem fazer rudo, foram para um canto da abertura, postando-se atrs de uma larga coluna. Dali, Vittoria curvou-se e apontou o revlver para o plstico. Depois, fez sinal para Langdon afastar o plstico.
    Uma boa hora para comear a rezar, pensou ele. Relutante, estendeu o brao por cima do ombro dela. Com o maior cuidado possvel, comeou a puxar o plstico para o lado. O plstico deslocou-se alguns centmetros e encrespou-se com um rudo alto. Os dois ficaram imveis. Silncio. Aps um instante, em cmara lenta, Vittoria inclinou-se para a frente e espiou atravs da brecha estreita. Langdon espiou tambm, ainda por cima do ombro dela.
    Por alguns segundos, nenhum dos dois sequer respirou.  Vazia  disse Vittoria, afinal, abaixando a arma.  Chegamos tarde demais. Langdon no escutou. Estava deslumbrado, transportado em um instante
    para outro mundo. Jamais imaginara em toda a sua vida uma capela como aquela. Inteiramente executada em mrmore castanho, a Capela Chigi era de tirar o flego. Seu olho treinado devorava tudo avidamente, s pores. A capela no poderia ser mais terrena, quase como se Galileu e os Illuminati a tivessem desenhado eles prprios.
    No alto, a cpula abobadada brilhava com um campo de estrelas iluminadas
    e os sete planetas astronmicos. Abaixo, os sete signos do zodaco  smbolos pagos, terrenos, cuja origem est associada  astronomia. O zodaco tambm estava ligado diretamente a Terra, Ar, Fogo e gua, os quadrantes representando o poder, o intelecto, o ardor e a emoo respectivamente. Terra corresponde a poder, recordou Langdon.
    Mais adiante, ele viu na parede tributos s quatro estaes temporais da Terra  primavera, estate, autunno, invrno. O mais incrvel de tudo, porm, eram as duas imensas estruturas que se elevavam no local. Langdon contemplava-as em silncio, pasmo. No pode ser, pensava. No  possvel! Mas era. De cada lado da capela, em rigorosa simetria, havia duas pirmides de mrmore de trs metros de altura.
     No estou vendo nenhum cardeal  cochichou Vittoria.  Nem um assassino.
    Ela afastou o plstico e entrou na capela.
    Os olhos de Langdon estavam fixos nas pirmides. O que essas pirmides esto fazendo dentro de uma capela crist? E, inacreditavelmente, ainda havia mais. No centro de cada pirmide, engastados em suas fachadas, encontravam-se dois medalhes de ouro, medalhes como poucos que Langdon jamais vira: elipses perfeitas. Os discos polidos brilhavam  luz do sol poente que se infiltrava pela cpula. As elipses de Galileu? Pirmides? Uma abbada de estrelas? O aposento tinha mais significado Illuminati do que se Langdon o tivesse inventado em sua cabea.
     Robert  Vittoria disse abruptamente, a voz trmula.  Olhe!
    Langdon girou nos calcanhares, voltando  realidade ao bater com os olhos no que ela estava mostrando.
     Raios!  gritou ele, pulando para trs.
    Rindo com escrnio para eles do cho havia a imagem de um esqueleto  um mosaico de mrmore intricadamente detalhado representando a morte em vo. O esqueleto carregava uma placa com a mesma imagem da pirmide e estrela que tinham visto l fora. No havia sido a figura, entretanto, que gelara o sangue de Langdon. Fora o fato de estar encaixada em uma pedra circular  chamada cupermento  que tinha sido removida como uma tampa de poo e estava agora pousada ao lado de uma negra abertura no piso.
     A cova do demnio  disse Langdon com voz entrecortada.
    Ele ficara to absorto no teto que nem notara aquilo. Aproximou-se devagar do poo. O mau cheiro que vinha dali era insuportvel.
    Vittoria colocou a mo sobre a boca.
     Che puzzo.
     Eflvios  disse ele.  Emanaes de ossos em decomposio.  Ele respirou atravs da manga de sua roupa e inclinou-se para o buraco tentando distinguir algo dentro dele. Trevas completas.  No enxergo nada.
     Ser que tem algum l embaixo?
     No d para saber.
    Vittoria mostrou a outra extremidade do buraco, onde uma escada de madeira apodrecida descia para as profundezas.
    Langdon sacudiu a cabea.
     Nem pensar.
     Talvez haja uma lanterna a fora, junto com aquelas ferramentas.  Ela parecia ansiosa por uma desculpa para escapar do mau cheiro.  Vou procurar.
     Cuidado!  preveniu ele.  No temos certeza se o assassino...
    Mas Vittoria j se fora.
    Mulher voluntariosa, pensou Langdon.
    Ao se virar de novo para a cova, ficou um pouco tonto com as emanaes. Prendendo a respirao, deixou a cabea cair abaixo da borda e esforou-se para ver alguma coisa na escurido. Lentamente, conforme seus olhos se acostumavam, comeou a divisar vagas formas l embaixo. A cova parecia dar em uma pequena cmara. A cova do demnio. Pensou em quantas geraes de Chigi teriam sido jogadas ali sem a menor cerimnia. Fechou os olhos e esperou, forando suas pupilas a se dilatarem para enxergar melhor no escuro. Quando abriu os olhos de novo, uma figura muda e esmaecida pairou nas trevas. Langdon estremeceu, mas lutou contra a vontade instintiva de sair, de se levantar. Estou vendo coisas? Aquilo  um corpo? A figura sumiu aos poucos. Ele fechou os olhos outra vez e esperou mais tempo agora, de modo que seus olhos pudessem apreender a menor claridade que existisse.
    Uma tonteira instalou-se e seus pensamentos vagaram na escurido. S mais uns segundos. No sabia se era porque estava respirando aqueles gases ou se por estar com a cabea inclinada para baixo, mas decididamente comeava a se sentir nauseado. Quando enfim abriu os olhos, a imagem diante dele era totalmente inexplicvel. Estava olhando para uma cripta banhada em uma misteriosa luz azulada. Um leve som sibilante reverberava em seus ouvidos. A luz bruxuleava nas paredes escarpadas da cavidade. De repente, uma longa sombra materializou-se acima dele. Assustado, tentou levantar-se depressa.
     Preste ateno!  algum exclamou atrs dele.
    Antes que pudesse se virar, sentiu uma dor aguda na nuca. Deu com Vittoria afastando dele um maarico aceso, a chama assoviando e lanando uma luz azul pela capela.
    Langdon ps a mo na nuca.
     Que diabos est fazendo?
     Estava iluminando o poo para voc  disse ela.  Voc levantou direto em cima de mim.
    Langdon lanou um olhar feroz para o maarico porttil na mo dela.
     Foi o melhor que consegui arranjar explicou ela.  No achei nenhuma lanterna.
    Langdon esfregou o pescoo.
     No ouvi voc chegar.
    Vittoria entregou-lhe o maarico, fazendo uma careta para o fedor da cripta.
     Acha que esses gases so combustveis?
     Tomara que no.
    Ele pegou o maarico e levou-o devagar para perto do buraco. Com cuidado, aproximou-se da borda e apontou a chama para baixo, para dentro do buraco, iluminando a parede lateral. Direcionou a luz, acompanhando o contorno da parede na descida. A cripta era circular e tinha cerca de seis metros de dimetro. Uns dez metros abaixo, o facho de luz encontrou o cho. Um cho escuro e mosqueado. De terra. Ento Langdon viu o corpo.
    Seu instinto foi recuar.
     Ele est l  disse, forando-se a no sair dali.
    A figura plida contrastava com o cho de terra.
     Acho que est nu  e a imagem do cadver despido de Leonardo Vetra surgiu como um breve claro em sua mente.
      um dos cardeais?
    Langdon no tinha a menor idia, mas no imaginava quem mais poderia ser. Ele examinou a silhueta clara. Imvel. Sem vida. E no entanto... Langdon hesitou. Havia algo muito estranho na posio daquela figura. Parecia que ele estava...
    Langdon chamou:
     Ei!  Acha que ele est vivo?
    No houve resposta vinda de baixo.
     Ele no est se mexendo  disse Langdon , mas parece...  No, impossvel.
     Parece o qu?  Vittoria agora tambm estava espiando l para baixo.
    Langdon apertou os olhos para a penumbra da cova.
     Parece que ele est de p.
    Vittoria prendeu a respirao e inclinou mais o rosto para enxergar melhor. Depois de um momento, ela ergueu o tronco.
     Voc tem razo. Ele est de p! Talvez esteja vivo e precise de ajuda!  Ela gritou para dentro do buraco.  Al?! Mi pu sentire?
    Nenhum eco voltou do fundo do buraco. S silncio.
    Vittoria dirigiu-se para a frgil escada de madeira.
     Vou descer. Langdon segurou o brao dela.
     No.  perigoso. Eu vou. Dessa vez, Vittoria no discutiu. 

CAPTULO 66

    Chinita Macri estava furiosa. Encontrava-se sentada no banco do passageiro do furgo da BBC, parado em uma esquina na Via Tomacelli.
    Gunther Glick estava verificando seu mapa de Roma, aparentemente perdido.
    Como ela temia, o homem misterioso ligara de novo, dessa vez com informaes.
     Piazza del Popolo  insistia Glick.   o que estamos procurando. H uma igreja l. E dentro est a prova.
     Prova.  Chinita parou de polir a lente que tinha na mo e voltou-se para ele.  Prova de que um cardeal foi morto?
     Foi o que ele disse.
     Voc acredita em tudo o que ouve?  Chinita gostaria, como sempre, que fosse ela a tomar as decises. Os cinegrafistas, porm, ficavam  disposio dos reprteres malucos para quem gravavam as matrias. Se Gunther Glick queria seguir uma dica idiota que recebera pelo telefone, ela teria de ir atrs dele como um cachorrinho na coleira.
    Ela o observou, sentado ao lado, a boca apertada, determinado. Os pais dele, na certa, deviam ser comediantes frustrados para lhe darem aquele nome. No era  toa que o sujeito agia como se fizesse questo de provar alguma coisa. Mesmo assim, apesar do nome e daquela mania irritante de se afirmar, Glick era um doce, charmoso  sua moda, com aquela sua brancura e o jeito meio ansioso de ingls. Um Hugh Grant tomando ltio.
     No seria melhor voltarmos para a Praa So Pedro?  disse Macri, com a maior pacincia possvel.  Podemos conferir esse mistrio da igreja mais tarde. O conclave comeou h uma hora. E se os cardeais chegarem a uma concluso enquanto estamos fora?
    Glick pareceu no escutar.
     Acho que temos de ir para a direita aqui.  Entortou o mapa e examinou-o outra vez.  , se eu for para a direita e logo em seguida para a esquerda.  E arrancou com o carro pela rua estreita onde estavam.
     Cuidado!  gritou Macri.
    Ela era operadora de vdeo e tinha viso aguada. Felizmente, Glick tambm era rpido. Enfiou o p no freio e no entrou no cruzamento exatamente quando uma fila de quatro Alpha Romeos surgiu do nada e passou correndo. Depois de passarem, os carros diminuram a velocidade e, cantando pneus, entraram acelerados  esquerda no quarteiro seguinte, fazendo o mesmo caminho que Glick pretendia fazer.
     Doidos!  gritou Macri.
    Glick parecia abalado.
     Voc viu?
     Claro que vi! Eles quase nos mataram!
     No, estou falando dos carros  disse ele, a voz de repente excitada.  Eram todos iguais.
     Ento, eram doidos sem imaginao.
     Os carros tambm estavam cheios.
     E da?
     Quatro carros idnticos, todos com quatro passageiros?
     J ouviu falar de carona compartilhada?
     Na Itlia?  Glick verificou o cruzamento.  Eles ainda nem ouviram falar de gasolina sem chumbo.  E pisou no acelerador, disparando atrs dos carros.
    Macri foi atirada contra o encosto de seu banco.
     Que diabos est fazendo?
    Glick desceu a rua  toda e dobrou  esquerda seguindo os Alpha Romeos.
     Algo me diz que voc e eu no somos os nicos que esto indo para aquela igreja agora. 

CAPTULO 67

    A descida foi lenta.
    Langdon ia de degrau em degrau pela escada que rangia, cada vez mais fundo sob o piso da Capela Chigi. Para dentro da cova do demnio, lembrou. Estava de frente para a parede lateral, de costas para a cmara e perguntou-se quantos espaos escuros e apertados mais um nico dia poderia proporcionar. A escada gemia a cada passo e o cheiro penetrante de carne decomposta e de umidade era quase asfixiante. Onde estaria o cretino do Olivetti, pensava Langdon.
    A silhueta de Vittoria ainda era visvel acima segurando o maarico dentro do buraco, iluminando o caminho de Langdon.  medida que ele descia, o brilho azulado que vinha do alto ficava mais fraco. A nica coisa mais forte era o cheiro.
    Doze degraus abaixo, aconteceu. O p dele se apoiou em um ponto escorregadio da madeira apodrecida e ele se desequilibrou. Atirou o corpo para a frente e agarrou-se na escada, onde bateu com os antebraos, para evitar uma queda at o fundo. Amaldioando a dor latejante dos braos machucados, puxou o corpo de volta para os degraus e recomeou a descida.
    Trs degraus depois, quase caiu de novo, mas dessa vez por um motivo diferente  um sobressalto de medo. Ao passar por um nicho escavado na parede, deu de cara com um monte de caveiras. Quando recuperou o flego e olhou em torno, percebeu que naquele trecho havia diversas aberturas em forma de prateleiras  nichos funerrios , todas cheias de esqueletos. Formavam, sob a luminosidade fosforescente, uma colagem sobrenatural de rbitas vazias e gaiolas torcicas em decomposio tremeluzindo  sua volta.
    Esqueletos  luz da fogueira, pensou ele, fazendo uma careta e lembrando que, por coincidncia, vivera uma noite de certa forma semelhante no ms anterior. Uma noitada de ossos e chamas. O jantar beneficente  luz de velas do Museu de Arqueologia de Nova York  salmo flambado  sombra de um esqueleto de brontossauro. Comparecera a convite de Rebecca Strauss, ex-modelo e agora crtica de arte do Times, um turbilho de veludo negro, cigarros e seios em destaque sem qualquer sutileza. Ela lhe telefonara duas vezes desde ento e ele no ligara de volta. Muito pouco cavalheiresco, censurava-se, imaginando quanto tempo Rebecca Strauss resistiria em uma cloaca como aquela.
    Foi um alvio sentir o cho de terra fofa depois do ltimo degrau. Sob os sapatos, sentiu a umidade do solo. Depois de se assegurar que as paredes no se fechariam sobre ele, voltou-se para a cripta. Era circular, com uns seis metros de dimetro. Respirando de novo atravs da manga do palet, olhou para o corpo. Na semi-obscuridade, a imagem era indistinta. Um vulto branco, corpulento. Virado para o lado oposto. Imvel. Silencioso.
    Avanando pela cripta mal iluminada, Langdon tentou entender o que via. O homem estava de costas para ele, no podia ver-lhe o rosto, mas parecia mesmo estar de p.
     Ol?  disse Langdon, a voz abafada na manga.
    Nada.  medida que se aproximava, percebia que o homem era muito baixo. Baixo demais...
     O que est acontecendo a?  Vittoria chamou do alto, deslocando o foco de luz.
    Langdon no respondeu. Encontrava-se agora prximo o suficiente para ver tudo. Com um arrepio de repulsa, compreendeu de imediato. A cripta pareceu contrair-se em torno dele. Emergindo como um demnio do cho de terra, havia um homem idoso, ou metade dele. Fora enterrado at a cintura. Completamente despido. As mos atadas atrs do tronco com uma faixa vermelha de cardeal. Estava molemente inclinado, a espinha arqueada para trs como uma espcie de medonho saco de treinamento de pugilismo, os olhos voltados para o cu como se implorasse a ajuda do prprio Deus.
     Ele est morto?  perguntou Vittoria.
    Langdon andou para perto do corpo. Espero que sim, para o prprio bem dele. A poucos centmetros, Langdon viu os olhos azuis voltados para o alto, esbugalhados e injetados. Curvou-se para escutar se o homem ainda respirava, mas recuou de imediato.
     Deus do cu!
     O que foi?
    Langdon quase vomitou.
     Ele est morto, sim. Acabei de descobrir a causa da morte.
    A cena era horripilante. A boca do homem fora escancarada e entulhada de terra.
     Algum lhe enfiou uma poro de terra na boca. Ele morreu sufocado.
     Terra?  disse Vittoria.
    Langdon caiu em si. Terra. Quase esquecera. As marcas. Terra, Ar, Fogo, gua. O assassino ameaara marcar cada vtima com um dos antigos elementos da cincia. O primeiro elemento era Terra. Da tumba terrena de Santi. Tonto por causa das emanaes, Langdon rodeou o cadver, ficando de frente para ele. Ao faz-lo, o simbologista dentro dele reafirmou enfaticamente o desafio artstico de criar o mtico ambigrama. Terra? Como? E, entretanto, um instante depois, estava diante dele. Sculos de lendas sobre os Illuminati rodopiaram em sua mente. A marca no peito do cardeal era uma queimadura de onde exsudava lquido. A carne estava carbonizada. La lingua pura...
     
    Langdon fixou o olhar na marca e tudo comeou a girar.  Earth  ele sussurrou, virando a cabea para ler o smbolo ao contrrio.
     Terra.
    Ento, com uma sensao de terror, veio uma percepo final. H mais trs. 

CAPTULO 68

    A despeito da suave luz de velas na Capela Sistina, o cardeal Mortati estava nervoso, O conclave comeara oficialmente. E comeara de uma forma muito pouco auspiciosa.
    Meia hora antes, no horrio determinado, o camerlengo Carlo Ventresca entrara na capela. Dirigira-se para o altar-mor e fizera a prece de abertura. Depois, abrira os braos e falara-lhes da maneira mais direta que Mortati jamais ouvira algum falar daquele altar da Capela Sistina.
     Todos tm conhecimento  disse o camerlengo  de que nossos quatro preferiti no esto presentes no conclave neste momento. Peo-lhes, em nome de Sua Santidade falecida, que prossigam como deve ser, com f e determinao. Que todos possam ter Deus diante de seus olhos.
    E preparou-se para sair.
    Um dos cardeais no se conteve.
     Mas onde esto eles?
    O camerlengo parou.
     Isso, sinceramente, no posso dizer.  Quando vo voltar?
     Isso, sinceramente, no posso dizer.
     Eles esto bem?
     Isso, sinceramente, no posso dizer.
     Eles vo voltar?
    Fez-se uma longa pausa.
     Tenham f  disse o camerlengo. E saiu da capela.
    As portas da Capela Sistina haviam sido seladas por fora, como era o costume, com duas pesadas correntes. Quatro guardas suos estavam de sentinela no saguo ao lado. Mortati sabia que as portas s poderiam ser abertas agora, antes da eleio de um Papa, se algum ali dentro casse seriamente doente ou se os preferiti chegassem. Ele rezava para que fosse a ltima alternativa a acontecer, embora o n em seu estmago no lhe desse tanta certeza.
    Prossigamos como deve ser, decidiu Mortati, tomando como exemplo a firmeza na voz do camerlengo. Por isso, iniciara a votao. O que mais poderia fazer?
    Haviam sido necessrios trinta minutos para que se completassem os rituais preparatrios desse primeiro escrutnio. Mortati esperara pacientemente no altar-mor que cada cardeal, em ordem de antiguidade, se aproximasse e realizasse o procedimento especfico de votao.
    Agora, enfim, o ltimo cardeal havia chegado ao altar e ajoelhava-se diante dele.
     Chamo como testemunha  declarou o cardeal, exatamente como todos os outros antes dele  Cristo, o Senhor, que saber que meu voto est sendo dado quele que, diante de Deus, julgo que deve ser o eleito.
    O cardeal levantou-se. Ergueu sua ficha de voto bem alto, acima da cabea, para todos verem. Depois, baixou-a at o altar, onde um prato estava pousado sobre um grande clice. Colocou a ficha de voto em cima do prato. Em seguida, pegou o prato e usou-o para deixar cair a ficha de voto dentro do clice. O uso do prato era para garantir que ningum disfaradamente pusesse mais de um papel no clice.
    Aps dar seu voto, ele recolocou o prato sobre o clice, inclinou-se na direo da cruz e voltou para seu lugar.
    O ltimo voto fora depositado no clice.
    Chegara a hora de Mortati trabalhar.
    Deixando o prato sobre o clice, Mortati sacudiu as fichas de voto para mistur-las. Em seguida, retirou o prato e tirou uma ao acaso de dentro do clice. Desdobrou-o. A ficha de voto tinha exatos cinco centmetros de largura. Ele leu em voz alta para todos ouvirem.
    Eligo in summum pontifi cem..., declarou, lendo o texto gravado em relevo no alto de cada ficha de voto. Elejo como Sumo Pontfice... E anunciou o nome do indicado que fora escrito abaixo. Depois de ler o nome, apanhou uma agulha preparada com um fio, levantou-a e furou a ficha de voto na palavra Eligio, fazendo-a deslizar com cuidado pelo fio. E tomou nota do voto em um livro de registro.
    Em seguida, repetiu o procedimento. Escolheu uma ficha de voto dentro do clice, leu o que estava escrito em voz alta, enfiou a ficha no fio e fez a anotao no livro. Quase imediatamente Mortati percebeu que essa primeira votao no daria em nada. No havia consenso. Aps sete votos apenas, sete diferentes cardeais j haviam sido citados. Como era normal, os cardeais haviam procurado disfarar a prpria letra floreando a escrita ou escrevendo em letra de imprensa. O disfarce era uma ironia nesse caso porque eles estavam obviamente votando em si mesmos. Mortati sabia que essa aparente vaidade nada tinha a ver com ambio pessoal. Tratava-se de uma forma de reteno. Uma manobra defensiva. Uma ttica de protelao para que nenhum cardeal recebesse votos suficientes para vencer e fosse necessrio realizar outra votao.
    Os cardeais estavam esperando por seus preferiti
    Quando a ltima ficha de voto foi marcada, Mortati declarou que a votao malograra.
    Pegou o fio com todas as fichas de voto presas, amarrou suas pontas formando um anel e depositou o anel de votos em uma bandeja de prata. Acrescentou os produtos qumicos devidos e levou a bandeja at uma pequena lareira atrs de si. Ali, ps fogo nos papis. Quando estes se queimaram, os produtos qumicos que ele utilizara criaram uma fumaa negra. A fumaa subiu por um tubo at uma abertura no telhado, de onde se espalhou acima da capela para todos l fora verem. O cardeal Mortati acabara de enviar sua primeira comunicao ao mundo exterior.
    Uma primeira votao. O Papa no fora escolhido. 

CAPTULO 69

    Quase asfixiado pelos gases que emanavam da cova, Langdon subiu com dificuldade pela escada na direo da luz no alto do poo. Ouviu vozes acima, mas nada fazia sentido. Sua cabea estava girando com imagens do cardeal marcado a fogo.
    Terra... Terra...
    Enquanto se esforava para subir, sua viso escureceu e ele receou perder a conscincia. A dois degraus da abertura perdeu o equilbrio. Atirou-se para cima tentando segurar a borda, mas no a alcanou. As mos soltaram-se da escada e ele quase caiu de costas na escurido. Sentiu uma dor aguda embaixo dos braos e de repente estava no ar, as pernas balanando loucamente no abismo.
    As mos fortes de dois guardas suos puxaram-no para cima pelas axilas. No momento seguinte, a cabea de Langdon emergiu da cova do demnio, tossindo e arquejando. Os guardas arrastaram-no e deitaram-no de costas no piso frio de mrmore.
    Por um instante, Langdon no soube onde estava. Via estrelas l em cima, planetas em rbita. Figuras nebulosas passavam por ele correndo. Pessoas gritavam. Tentou sentar-se. Estava deitado na base de uma pirmide de pedra. O conhecido azedume de uma voz irritada ecoou dentro da capela e ento ele voltou a si.
    Olivetti estava gritando com Vittoria.
     Por que cargas dgua vocs no viram isso antes?
    Vittoria tentava explicar a situao.
    Olivetti interrompeu-a no meio de uma frase e vociferou uma saraivada de ordens para seus homens.
     Retirem aquele corpo de l! Vasculhem o resto da igreja!
    Langdon fez um esforo para se sentar. A Capela Chigi estava cheia de guardas suos. A cortina de plstico que fechava a capela fora arrancada e o ar fresco encheu seus pulmes. Enquanto ele recobrava lentamente os sentidos, Vittoria veio em sua direo. Ela se ajoelhou, o rosto igual ao de um anjo.
     Voc est bem?  Ela pegou o brao dele e examinou-lhe o pulso. Sentiu a maciez das mos dela em sua pele.
     Obrigado  disse ele, sentando-se por completo.  Olivetti est uma fera.
    Vittoria assentiu.
     Tem razo de estar. Ns estragamos tudo.  Eu estraguei tudo.
     Ento, redima-se. Pegue-o da prxima vez.
    Prxima vez? Langdon achou o comentrio cruel. No haver prxima vez! Ns perdemos a chance!
    Vittoria verificou o relgio de Langdon.
     Mickey est dizendo que temos quarenta minutos. Ponha a cabea de volta no lugar e me ajude a procurar o prximo marco.
     J lhe disse, Vittoria, as esculturas foram retiradas. O Caminho da Iluminao est...  e ele se deteve.
    Vittoria sorriu com suavidade.
    De um salto, Langdon se ps de p, cambaleando. Girou de um lado para outro, zonzo, olhando para as obras de arte que o rodeavam. Pirmides, estrelas, planetas, elipses. E tudo lhe voltou. Este  que  o primeiro altar da cincia! No o Panteo! Deu-se conta de como toda a capela era to perfeitamente Illuminati, de uma forma muito mais sutil e seletiva do que o mundialmente famoso Panteo. A Capela Chigi era uma alcova afastada, literalmente um buraco na parede, um tributo a um grande patrono da cincia, decorada com simbologia referente  Terra. Perfeita.
    Langdon encostou-se na parede e examinou as enormes pirmides esculpidas. Vittoria estava coberta de razo. Sendo o primeiro altar da cincia, a capela devia conter ainda a escultura Illuminati que servira de primeiro marco. Veio lhe uma sensao eletrizante de esperana ao perceber que ainda havia uma chance. Se o marco ainda estivesse ali e pudessem segui-lo at o prximo altar da cincia, talvez houvesse mesmo outra oportunidade de pegar o assassino.
    Vittoria aproximou-se.
     Descobri quem era o escultor Illuminati desconhecido.
    A cabea de Langdon virou-se como se fosse de mola.
     Voc o qu?
     Agora s temos de descobrir qual das esculturas aqui dentro  o...
     Espere a! Voc disse que sabe quem era o escultor Illuminati?
    Ele passara anos tentando encontrar aquela informao.
    Vittoria sorriu.
     Era Bernini  e fez uma pausa.  O Bernini.
    Ele tinha certeza de que Vittoria estava enganada. Bernini era uma impossibilidade. Gianlorenzo Bernini foi o segundo mais famoso escultor de todos os tempos, sua fama eclipsada apenas pela do prprio Michelangelo. Durante o sculo XVII, Bernini criou mais esculturas do que qualquer outro artista. O homem que procuravam era supostamente um desconhecido, um joo-ningum. Vittoria franziu as sobrancelhas.
     Voc no ficou muito entusiasmado.
      impossvel ser Bernini.
     Por qu? Bernini foi contemporneo de Galileu. Era um escultor brilhante.
     Era um homem muito famoso e era catlico.
     Sim  replicou Vittoria , exatamente como Galileu.
     No  argumentou ele , nem um pouco como Galileu. Galileu era uma pedra no sapato do Vaticano. Bernini era o menino-prodgio do Vaticano. A Igreja adorava Bernini. Foi escolhido como a maior autoridade artstica do Vaticano. Ele praticamente viveu a vida inteira dentro da Cidade do Vaticano!
     Um disfarce perfeito. Infiltrao Illuminati.
    Langdon estava exaltado.
     Vittoria, os Illuminati referiam-se a seu artista secreto como il maestro ignoto, o mestre desconhecido!
     Sim, desconhecido para eles. Pense no sigilo dos maons. S os membros do escalo superior sabiam de tudo. Galileu pode ter mantido em segredo para a maior parte dos membros a verdadeira identidade de Bernini, tendo em vista
    a prpria segurana de Bernini. Desse jeito, o Vaticano nunca descobriria.
    Langdon no se convencera, mas tinha de admitir que a lgica de Vittoria fazia sentido. Os Illuminati eram famosos por manter informaes secretas compartimentadas, s revelando a verdade aos membros de nvel mais alto. Era a pedra de toque de sua capacidade de se manterem secretos: muito poucos sabiam a histria completa.
     E a filiao de Bernini aos Illuminati  Vittoria acrescentou com um sorriso  explica por que ele projetou estas duas pirmides.
    Langdon voltou-se para as duas imensas pirmides esculpidas e sacudiu a cabea.
     Bernini era um escultor religioso. Jamais teria esculpido estas pirmides.
    Vittoria deu de ombros.
     Diga isso para a placa atrs de voc.
    Langdon virou-se para a placa:
ARTE DA CAPELA CHIGI
    Rafael foi o responsvel pela arquitetura, e todas as peas de ornamentao interior so de autoria de Gianlorenzo Bernini. Langdon leu a placa duas vezes e ainda assim no se convenceu. Gianlorenzo Bernini era clebre por suas intricadas esculturas religiosas da Virgem Maria, de anjos, profetas, de papas. Como iria esculpir pirmides?
    Langdon olhou para os altivos monumentos e ficou completamente desorientado. Duas pirmides, cada uma com um reluzente medalho elptico. No poderia haver duas esculturas menos crists. As pirmides, as estrelas acima, os signos do zodaco. Todas as peas de ornamentao interior so de autoria de Gianlorenzo Bernini. Se isso fosse verdade, Vittoria tinha de estar certa.  revelia, Bernini era o mestre Illuminati desconhecido. Ningum mais contribura com obras de arte para a Capela Chigi! As implicaes vieram rpido demais para que Langdon as processasse.
     Bernini era um liluminatus.
     Bernini desenhou os ambigramas dos Illuminati.
     Bernini projetou e realizou o Caminho da Iluminao.
    Langdon mal conseguia falar. Seria possvel que ali, na pequena Capela Chigi, o mundialmente famoso Bernini tivesse colocado uma escultura que apontava para o prximo altar da cincia atravs de Roma?
     Bernini  disse.  Jamais teria imaginado.
     Quem mais seno um famoso artista do Vaticano teria influncia poltica para colocar suas obras de arte em capelas catlicas especficas por Roma afora e criar o Caminho da Iluminao? No um desconhecido qualquer.
    Langdon ponderou a questo. Examinou as pirmides, conjeturando se alguma delas poderia ser o marco. Quem sabe, ambas?
     As pirmides esto voltadas para direes opostas  disse Langdon, sem saber bem como avali-las.  Tambm so idnticas, por isso no sei qual...
     No acho que as pirmides sejam o que estamos procurando.
     Mas so as nicas esculturas aqui.
    Vittoria interrompeu-o apontando na direo de Olivetti e alguns de seus guardas, reunidos em torno da cova do demnio.
    Langdon acompanhou a linha da mo dela at a parede mais distante. A princpio, no viu nada. Ento, algum se moveu e ele entreviu alguma coisa. Mrmore branco. Um brao. Um tronco. Depois, um rosto esculpido. Parcialmente oculto em seu nicho. Duas figuras juntas, em tamanho natural. O pulso de Langdon acelerou-se. Ficara to absorvido pelas pirmides e pela cova do demnio que sequer vira aquela escultura. Cruzou o recinto pelo meio de todas as pessoas. Ao se aproximar, reconheceu o puro estilo de Bernini na obra  a intensidade da composio artstica, a complexidade dos rostos e os trajes ondulantes, tudo feito com o mais puro mrmore branco que o dinheiro do Vaticano podia comprar. Somente quando ficou de frente para ela  que reconhece a prpria escultura. Levantou a cabea para contemplar os dois rostos e perdeu o flego.
     Quem so eles?  perguntou Vittoria, ansiosa, aproximando-se por trs dele.
    Langdon continuava boquiaberto.
     Habacuc e o Anjo  disse ele, a voz quase inaudvel.
    A pea era um trabalho bastante conhecido de Bernini que aparecia em alguns livros de Histria da Arte. Langdon esquecera que estava ali.
     Habacuc?
     . O profeta que previu a aniquilao da Terra.
    Apreensiva, Vittoria perguntou:
     E voc acha que esse  o marco?
    Langdon balanou a cabea, extasiado. Nunca em sua vida tivera tanta certeza de alguma coisa. Aquele era o primeiro marco Illuminati. Sem qualquer dvida. Embora esperasse que a escultura de alguma forma apontasse para o prximo altar da cincia, no contava que isso fosse literal. Tanto o anjo quanto Habacuc tinham os braos estendidos e apontavam para longe.
    Vittoria estava excitada mas confusa.
     Ambos esto apontando, mas um contradiz o outro. O anjo est apontando para um lado e o profeta para o lado oposto.
    Langdon deu uma risadinha. Era verdade. As duas figuras estavam de fato apontando para longe, mas para direes totalmente contrrias. No entanto, ele j resolvera este problema. Com um impulso de energia, dirigiu-se para a porta.
     Onde  que voc vai?  perguntou Vittoria.
     Para fora da igreja!  As pernas de Langdon estavam leves outra vez quando ele correu para a porta.  Tenho de ver para qual direo a escultura est apontando!
     Espere a! Como sabe qual dos dedos tem de acompanhar?
     O poema  ele gritou por cima do ombro.  O ltimo verso!
     Que os anjos o guiem em sua busca sublime?  Ela levantou a cabea e viu o dedo estendido do anjo. Seus olhos enevoaram-se sem querer.  Ora, no  que  mesmo?! 

CAPTULO 70

    Gunther Glick e Chinita Macri estavam sentados dentro do furgo da BBC do outro lado da Piazza del Popolo, onde havia menos claridade. Tinham chegado logo depois dos quatro Alpha Romeos, a tempo de presenciar uma inconcebvel sucesso de acontecimentos. Chinita sequer fazia idia do significado de tudo aquilo, mas mesmo assim mantivera a cmera funcionando.
    Logo ao chegarem, Chinita e Glick tinham visto um verdadeiro exrcito de homens sair depressa dos Alpha Romeos e cercar a igreja. Alguns seguravam armas. Um deles, mais velho e empertigado, saiu acompanhado de um grupo direto para as escadarias da frente da igreja. Os soldados sacaram armas e arrebentaram com tiros os cadeados que trancavam as portas. Macri no ouviu nada e presumiu que eles deviam estar usando silenciadores. A, os soldados entraram na igreja.
    Chinita recomendou que os dois ficassem sentados quietos filmando tudo de longe. Afinal de contas, os outros estavam armados e eles podiam ver tudo muito bem do furgo. Glick nem discutira. Agora, do outro lado da piazza, havia homens entrando e saindo da igreja. Gritavam uns para os outros. Chinita ajustou sua cmera para seguir uma equipe que estava revistando a rea ao redor. Todos eles, apesar de vestidos com roupas civis, se moviam com preciso militar.
     Quem voc acha que esses homens devem ser?  perguntou ela.
     Sei l!  Glick parecia hipnotizado.  T pegando tudo?
     Cada cena.
    Glick perguntou, cheio de si:
     Ainda acha que devamos voltar para o planto do Papa?
    Chinita no tinha certeza. Obviamente, algo estava acontecendo ali, mas ela j trabalhava com jornalismo havia bastante tempo e sabia que muitas vezes acontecimentos interessantes tm explicaes absolutamente sem graa.
     Isso pode no ser nada  disse ela.  Esses caras podem ter recebido a mesma dica que voc e estarem s verificando. Pode ser um alarme falso.
    Glick puxou o brao dela.
     Ali! Focalize bem!  e apontou para a igreja.
    Chinita girou a cmera de volta para o alto das escadas.
     Ol!  disse ela, acompanhando o homem que agora saa da igreja.
     Quem  o arrumadinho?  perguntou Glick. Chinita mexeu na lente para obter um dose.
     Nunca o vi antes.  Focalizou o rosto do homem e sorriu.  Mas no me importaria nem um pouco em v-lo de novo.
    Robert Langdon desceu correndo as escadas do lado de fora da igreja e foi para o meio da piazza. Escurecia, o sol de primavera desaparecia tarde no sul de Roma. quela hora, j se escondera por trs dos prdios e havia sombras riscando a praa.
     Muito bem, Bernini  disse ele para si mesmo em voz alta.  Para onde o seu bendito anjo est apontando?
    Examinou a posio da igreja de onde acabara de sair. Imaginou a Capela Chigi e a esttua do anjo dentro dela. Sem hesitar, virou-se diretamente para oeste, para o iminente pr-do-sol. O tempo estava se evaporando.
     Sudoeste  disse, fechando a cara para as lojas e apartamentos que bloqueavam sua viso.  O prximo marco fica naquela direo.
    Quebrando a cabea, repassou pgina por pgina da Histria da Arte italiana.
    Apesar de Langdon conhecer bem a obra de Bernini, o escultor fora prolixo demais para algum que no fosse especialista em saber tudo sobre seu trabalho.
    Ainda assim, considerando-se a relativa fama do primeiro marco, Habacuc e o Anjo, Langdon esperava que o segundo fosse uma obra de que ele se lembrasse.
    Terra, Ar, Fogo, gua, pensou. Terra j tinham encontrado  dentro da Capela da Terra , Habacuc, o profeta que prognosticara a aniquilao da Terra.
    Ar  o prximo. Langdon obrigou-se a pensar depressa. Uma escultura de Bernini que tenha a ver com Ar! Sua cabea era um branco total. De qualquer maneira, sentia-se energizado. Estou no Caminho da Iluminao! O caminho ainda est intacto!
    Voltando-se para o sudoeste, esforou-se para enxergar uma flecha ou uma torre de igreja projetando-se acima dos obstculos. No viu nada. Precisava de um mapa. Se conseguissem descobrir quais as igrejas que ficavam a sudoeste dali, talvez uma delas pudesse acender alguma luz na memria de Langdon. Ar, insistiu ele. Ar. Bernini. Escultura. Pense!
    Ele subiu de volta as escadas da catedral. Encontrou-se com Vittoria e Olivetti debaixo do andaime.
     Sudoeste  disse, arfando.  A prxima igreja fica a sudoeste daqui.
    O sussurro de Olivetti saiu frio.
     Tem certeza desta vez? Langdon no aceitou a provocao.
     Precisamos de um mapa. Um que mostre todas as igrejas de Roma.
    O comandante estudou-o um momento, o rosto impassvel.
    Langdon olhou para o seu relgio.
     S temos meia hora.
    Olivetti passou por ele, desceu as escadas e encaminhou-se para o seu carro, estacionado bem em frente  igreja. Langdon esperava que ele tivesse ido buscar um mapa.
    Vittoria estava animada.
     Quer dizer que o anjo est apontando para sudoeste? Tem idia de quais so as igrejas que ficam a sudoeste?
     No consigo enxergar alm dos malditos prdios.  Virou-se para a praa de novo.  E no conheo as igrejas de Roma o suficien...  Ele se deteve.
     O que foi?  perguntou Vittoria, assustada.
    Langdon correu os olhos pela praa mais uma vez. Por ter subido as escadas, tinha uma viso melhor ali do alto. Ainda no dava para ver nada, mas sabia que a direo estava certa. Examinou a instvel torre de andaimes acima de sua cabea: da altura de um edifcio de seis andares, chegava at a roscea da igreja. Em um instante Langdon resolveu o que faria em seguida.
    Do outro lado da praa, Chinita Macri e Gunther Glick estavam grudados no pra-brisa do furgo da BBC.
     T pegando isso a?  perguntou Gunther.
    Macri concentrou-se no homem que agora subia pelos andaimes.
     Ele est bem vestido demais para brincar de Homem Aranha, na minha opinio.
     E quem  a senhora Aranha?
    Chinita deu uma olhada na mulher atraente que estava embaixo dos andaimes.
     Aposto que voc gostaria de descobrir.
     Acha que devo ligar para a redao?
     Ainda no. Vamos observar.  melhor ter alguma coisa mais concreta antes de admitir que abandonamos o conclave.
     Ser que algum matou mesmo um dos velhotes a dentro da igreja?
    Chinita deu uma risada.
     Voc vai com toda certeza para o inferno.
     Mas vou levando o Pulitzer comigo. 

CAPTULO 71

    Os andaimes tornavam-se menos estveis quanto mais Langdon subia. Sua viso de Roma, entretanto, ficava melhor a cada etapa. E ele continuou a subir.
    Respirava com mais dificuldade do que esperava quando alcanou a ltima plataforma. Puxou o corpo para cima, sacudiu o p da roupa e ficou de p. A altura no o incomodava nada. Na realidade, era at revigorante.
    A vista era espetacular. Como um oceano de fogo, os telhados vermelhos de Roma estendiam-se a seus ps, incandescentes ao pr-do-sol escarlate. Daquele ponto, pela primeira vez em sua vida, Langdon viu Roma alm da poluio e do trfego, enxergou a cidade e suas antigas origens: Citt di Dio, a cidade de Deus.
    Apertando os olhos para o poente, examinou os telhados  procura de uma igreja. Mas, apesar de olhar cada vez mais longe na direo do horizonte, no viu nenhuma. Existem centenas de igrejas em Roma, pensou. Deve existir alguma a sudoeste daqui! Isto, se a igreja for visvel, lembrou a si mesmo. Diabos, e se ainda estiver de p!
    Obrigando os olhos a traarem a linha bem devagar, ele reiniciou a busca. Sabia que nem todas as igrejas teriam flechas visveis, principalmente as menores e mais afastadas. Sem falar que Roma mudara muito desde o sculo XVII, quando as igrejas eram por lei as construes mais altas. Agora, havia edifcios de apartamentos, prdios altssimos, torres de TV.
    Pela segunda vez, o olhar de Langdon alcanou o horizonte sem distinguir nada. Nem uma nica flecha. Ao longe, nos limites de Roma, o colossal domo de Michelangelo encobria o pr-do-sol. A Baslica de So Pedro. A Cidade do Vaticano. Langdon deu por si imaginando como os cardeais estariam se saindo, se a Guarda Sua j teria encontrado a antimatria. Algo lhe dizia que ainda no tinham encontrado nada e que no iriam encontrar.
    O poema ecoava de novo em sua cabea. Ele o analisou com cuidado, verso por verso. Da tumba terrena de Santi com a cova do demnio. J tinham encontrado a tumba de Santi. Atravs de Roma se estendem os msticos elementos. Os msticos elementos eram Terra, Ar, Fogo e gua. O caminho da luz est preparado, o teste sagrado. O Caminho da Iluminao formado pelas esculturas de Bernini. Que os anjos o guiem em sua busca sublime.
    E o anjo apontava para sudoeste... 

CAPTULO 72

     As escadas da frente!  Glick exclamou, apontando freneticamente atravs do pra-brisa do furgo da BBC.  Alguma coisa est acontecendo!
    Chinita voltou sua cmera para a entrada principal. Alguma coisa sem dvida estava acontecendo. O homem de aparncia militar estacionara um dos Alpha-Romeos ao do p da escadaria e abrira a mala do carro. Agora, estava correndo os olhos pela praa para verificar se havia algum observando. Por um segundo, Macri achou que o homem os localizara, mas os olhos continuaram o exame. Aparentemente satisfeito, ele pegou um walkie-talkie e falou no aparelho.
    Quase no mesmo instante, foi como se um exrcito sasse de dentro da igreja. Tal qual um time de futebol americano se organizando, os soldados formaram uma linha reta no alto da escada. Movendo-se como uma parede humana, comearam a descer. Atrs deles, quase completamente ocultos pela parede, quatro soldados carregavam um volume. Pesado. Desajeitado.
    Glick inclinou-se mais para perto do pra-brisa.
     Ser que esto roubando alguma coisa da igreja?
    Chinita aproximou mais ainda a imagem de sua cmera, usando a teleobjetiva para sondar a barreira humana e tentar achar uma abertura. Uma frao de segundo, pediu ela. Uma enquadrada. Basta uma, s preciso de uma. Mas os homens deslocavam-se em bloco. Vamos l! Ela acompanhou-os e valeu a pena. Quando os soldados tentaram levantar o objeto para coloc-lo na mala do carro, Macri conseguiu a brecha. Por ironia, foi o chefe quem cometeu o erro. Apenas por um instante, mas pelo tempo suficiente, ela conseguiu o enquadramento. Na realidade, conseguiu mais do que isso, conseguiu registrar bem a imagem.
     Ligue para a redao  disse Chinita.  Temos um cadver aqui.
    Longe dali, no CERN, Maximilian Kohler manobrou sua cadeira de rodas dentro do escritrio de Leonardo Vetra. Com eficincia mecnica, revistou os arquivos de Vetra. Sem ter encontrado o que buscava, Kohler passou para o quarto de dormir de Vetra. A gaveta de cima da mesa-de-cabeceira estava trancada. Kohler arrombou-a com uma faca da cozinha.
    Dentro, achou exatamente o que estava procurando. Langdon desceu do andaime para o cho. Limpou a poeira da roupa. Vittoria o esperava.
     E ento, nada?
    Ele fez que no com a cabea.
     Puseram o cardeal na mala do carro.
    Langdon olhou para o carro estacionado e viu Olivetti e um grupo de guardas com um mapa aberto sobre o cap.
     Esto procurando na direo sudoeste?
    Ela concordou.
     Mas no h igrejas. Daqui, a primeira  So Pedro.
    Langdon murmurou algo. Pelo menos, nisso eles estavam de acordo. Foi ao encontro de Olivetti. Os soldados afastaram-se para deix-lo passar.
    Olivetti dirigiu-se a ele.
     Nada. Mas este mapa no mostra todas as igrejas, s as grandes. Mais ou menos umas cinqenta.
     Onde estamos?  perguntou Langdon.
    Olivetti mostrou a Piazza del Popolo e traou uma linha reta para sudoeste. A linha passava longe, e bem longe, do agrupamento de quadrados escuros que indicavam a posio das maiores igrejas de Roma. Lamentavelmente, as grandes igrejas de Roma tambm eram as mais antigas que teriam existido no sculo XVII.
     Tenho de resolver algumas coisas  disse Olivetti.  Tem certeza mesmo de que a direo  essa?
    Langdon lembrou do dedo estendido do anjo e uma sensao de urgncia tomou conta dele outra vez.
     Sim, senhor, absoluta.
    Olivetti deu de ombros e traou a linha reta outra vez. O caminho cruzava a Ponte Margherita, a Via Cola di Riezo e passava pela Piazza del Risorgimento sem encontrar qualquer igreja at terminar abruptamente no centro da Praa de So Pedro.
     Por que no pode ser So Pedro?  perguntou um dos soldados. Ele tinha uma cicatriz profunda sob o olho esquerdo.   uma igreja.
    Langdon sacudiu a cabea.
     Tem de ser um lugar pblico. Neste momento, no  nada pblico.  Mas a linha atravessa a Praa de So Pedro  acrescentou Vittoria, olhando por cima do ombro de Langdon , e a praa  pblica.
    Langdon j considerara aquela possibilidade.
     Mas no h esttuas l.
     No h um monumento de pedra no centro?
    Ela estava certa. Havia um monlito egpcio na Praa de So Pedro. Langdon olhou para o monlito diante deles na praa. Pirmide elevada. Uma estranha coincidncia, pensou ele. Mas deixou-a de lado.
     O monlito do Vaticano no  de Bernini. Foi levado para l por Calgula. E no tem nada a ver com Ar.  Ainda havia outro problema.  Alm disso, o poema diz que os elementos esto espalhados atravs de Roma. A Praa de So Pedro  na Cidade do Vaticano, no  em Roma.
     Depende do ponto de vista  aparteou um guarda.
    Langdon encarou-o.
     O qu?
     Sempre foi um pomo de discrdia. A maioria dos mapas mostra a Praa de So Pedro como pertencendo  Cidade do Vaticano, mas, por ficar fora dos muros da cidade, h sculos que as autoridades romanas alegam que  parte de Roma.
     Est brincando  disse Langdon, que nunca soubera disso.
     S mencionei o assunto  continuou o guarda  porque o comandante Olivetti e a senhorita Vetra estavam falando sobre uma escultura relacionada ao Ar.
    Langdon arregalou os olhos.
     E voc conhece uma na Praa de So Pedro?
     Mais ou menos. No  bem uma escultura. Talvez nem seja relevante.
     Fale  Olivetti pressionou-o.
    O homem fez um gesto com o ombro.
     S sei disso porque em geral fico de sentinela na piazza. Conheo cada cantinho da Praa de So Pedro.
     A escultura  insistiu Langdon.  Como ?  Ele j considerava a possibilidade de os Illuminati terem tido a audcia de instalar o segundo marco na frente da Baslica de So Pedro.
     Passo por ela todos os dias, a servio  disse o guarda.  Fica no centro, direto para onde esta linha aponta. Foi o que me fez pensar nela. Como j disse, no se trata propriamente de uma escultura.  mais um bloco.
    Olivetti, agitado, perguntou:
     Um bloco?  Sim, senhor, um bloco de mrmore no meio da praa. Na base do monlito. Mas o bloco no  um retngulo,  uma elipse. E tem gravado nele a imagem de um sopro de vento, ondulante.  Ele fez uma pausa.  De Ar, para usar a palavra mais cientfica.
    Langdon, estupefato, tinha os olhos fixos no jovem soldado.
     Um relevo!  exclamou de repente.
    Todos olharam para ele.
     Relevo  disse Langdon   a outra modalidade de escultura!  Escultura  a arte de dar forma a figuras em redondo e tambm em relevo. Escrevera a definio em quadros-negros durante anos a fio. Os relevos eram essencialmente esculturas bidimensionais, como o perfil de Abrao Lincoin nas moedas norte-americanas de centavo. Os medalhes de Bernini na Capela Chigi eram outro exemplo perfeito.
     Bassorelevo?  perguntou o guarda, usando o termo artstico italiano.
     Isso! Baixo-relevo!  Langdon deu pancadinhas seguidas no cap do carro.
     Nem me ocorreu essa expresso! A pedra de que est falando se chama West Ponente  Vento Oeste. Tambm  conhecida como Respiro di Dio.
     Sopro de Deus?
     Isso! Ar! E foi esculpida e colocada l pelo arquiteto original!
    Vittoria no entendeu.
     Mas no foi Michelangelo que projetou So Pedro?
     Foi, a baslica!  exclamou Langdon, com triunfo na voz.  A praa foi projetada por Bernini!
    Quando a caravana de Alpha Romeos saiu correndo da Piazza del Popolo, todos estavam com tanta pressa que nem notaram o furgo da BBC arrancando atrs deles. 

CAPTULO 73 

    Gunther Glick afundou o no acelerador do furgo da BBC e foi dando guinadas e se desviando do trnsito para seguir os quatro rpidos Alpha Romeos atravs do rio Tibre pela Ponte Margherita. Normalmente, Glick teria procurado manter uma distncia que no chamasse a ateno, mas naquela hora ele mal conseguia acompanh-los. Os caras estavam voando. Macri estava em seu local de trabalho dentro do furgo, acabando de falar ao telefone com Londres. Quando desligou, gritou para ser ouvida por Glick em meio ao rudo do trnsito:
     Quer as boas ou as ms notcias?
    Glick fechou a cara. Nada jamais era simples quando se lidava com a sede.
    -As ms.
     Os editores ficaram furiosos porque abandonamos nosso posto.
     Grande surpresa.
     Eles tambm acham que o seu informante  um impostor.
     Claro.
     E o chefe acabou de me avisar que devem estar faltando uns parafusos na sua cabea.
    Glick ficou carrancudo.
     Beleza. E as boas notcias?
     Eles concordaram em dar uma espiada na fita que gravamos.
    A carranca de Glick amenizou-se em um sorriso irnico. Ento, vamos ver na cabea de quem  que faltam parafusos.
     Ento, despache logo essa coisa.
     No posso transmitir enquanto no pararmos e eu tiver um sinal estvel.
    Glick entrou com o furgo a toda velocidade na Via Cola di Rienzo.
     No d para parar agora.
    Foi atrs dos Alpha Romeos dando uma guinada violenta  esquerda para contornar a Piazza Risorgimento.
    Macri agarrou seu equipamento l atrs enquanto tudo deslizava.
     Se quebrar meu transmissor  avisou ela , vamos ter de levar a fita a p at Londres.
     Segure firme, meu bem. Algo me diz que estamos quase chegando.
    -Onde?
    Glick lanou um olhar para o conhecido domo que ia crescendo na frente deles. E deu um sorriso.
     Ao lugar de onde samos.
    Os quatro Alpha Romeos desviaram-se com agilidade do trfego ao redor da Praa de So Pedro. Separaram-se e espalharam-se contornando a piazza, enquanto deixavam homens discretamente em pontos escolhidos. Os guardas que desceram dos carros se misturaram  multido de turistas e furges da imprensa e logo ficaram invisveis. Alguns deles se dirigiram para a floresta de colunas que rodeava a praa. Esses tambm pareceram evaporar-se nos arredores. Observando tudo atravs do vidro do carro, Langdon sentiu que um cerco se fechava em torno de So Pedro.
    Alm dos homens que acabara de despachar, Olivetti comunicara-se antes com o Vaticano e destacara mais guardas  paisana para o ponto central onde
    o West Ponente de Bernini estava localizado. Os amplos espaos abertos da praa trouxeram de volta  mente de Langdon a velha pergunta. Como o assassino Illuminati planeja se safar? Como vai passar com um cardeal por todas essas pessoas e mat-lo diante de todos? O seu relgio de Mickey Mouse marcava 8h54 da noite. Faltavam seis minutos.
    Do banco da frente, Olivetti virou-se para Langdon e Vittoria.
     Quero vocs dois plantados bem em cima daquela placa de Bernini, ou bloco, ou seja l o que for. O mesmo truque de antes. Fingindo que so turistas. Usem o telefone se virem alguma coisa.
    Antes que Langdon pudesse responder, Vittoria agarrou a mo dele e puxou-o para fora do carro.
    O sol de primavera escondia-se por trs da Baslica de So Pedro e uma imensa sombra se espalhava, engolindo toda a praa. Langdon teve um mau pressentimento quando os dois penetraram na fria e negra penumbra. Infiltrando-se na multido, Langdon examinava cada rosto pelo qual passavam, imaginando se o assassino estaria por perto. Sentia o calor da mo de Vittoria na sua.
    Ao cruzarem o amplo espao aberto da Praa de So Pedro, ele constatou como a praa produzia o efeito exato que o artista pretendera ao cri-la, o que lhe fora encomendado: o de despertar um sentimento de humildade em todos que nela entrassem Langdon com certeza sentia-se mais humilde naquele momento. Humilde e faminto, percebeu ele, espantado que uma idia to corriqueira lhe viesse  cabea quela altura dos acontecimentos.
     Para o obelisco?  perguntou Vittoria.
    Langdon concordou, dirigindo-se para a esquerda atravs da praa.
     Que horas so?  perguntou Vittoria, andando em passo ligeiro mas descontrado.
     Faltam cinco.
    Vittoria no disse nada, mas apertou com mais fora a mo dele. Langdon ainda trazia o revlver no bolso. Esperava que Vittoria no decidisse que precisava dele. No conseguia imagin-la sacando uma arma na Praa de So Pedro e explodindo os miolos de um assassino para toda a imprensa mundial assistir. Entretanto, um incidente desses no seria nada em comparao com um assassinato ali, em pblico, de um cardeal marcado a fogo.
    Ar, pensou Langdon. O segundo elemento da cincia. Tentou imaginar como seria a marca. O mtodo do assassinato. Mais uma vez, correu os olhos pelo pavimento de granito sob seus ps  a Praa de So Pedro, um descampado rodeado pela Guarda Sua. Se o assassino realmente ousasse fazer aquilo, Langdon no sabia como ele poderia escapar.
    No centro da piazza elevava-se o obelisco egpcio de Calgula, pesando 350 toneladas. Tinha 25 metros de altura at a ponta piramidal, encimada por uma cruz de ao vazada. Alta o suficiente para captar os ltimos raios do sol, a cruz brilhava como se acesa por um passe de mgica, supostamente contendo relquias da cruz em que Jesus fora crucificado.
    Duas fontes ladeavam o obelisco em perfeita simetria. Os historiadores sabiam que as fontes assinalavam com preciso os focos da elipse da piazza de Bernini, mas constituam uma singularidade arquitetural que Langdon at ento no levara em conta. Parecia que Roma de repente estava cheia de elipses, pirmides e elementos geomtricos surpreendentes.
    Ao se aproximarem do obelisco, Vittoria diminuiu o ritmo. Expeliu com fora o ar dos pulmes, como se incentivasse seu companheiro a relaxar junto com ela. Langdon colaborou soltando os msculos dos ombros e afrouxando a tenso dos maxilares.
    Em algum ponto em torno do obelisco, audaciosamente colocado junto  maior igreja do mundo, estava o segundo altar da cincia  o West Ponente de Bernini, uma placa elptica na Praa de So Pedro.
    Gunther Glick observava tudo protegido pelas sombras das colunas que circundavam a Praa de So Pedro. Em qualquer outro dia, o homem de palet de tweed e a mulher de short cqui no lhe teriam despertado o mnimo interesse. Aparentavam ser nada mais do que turistas passeando na praa. Mas aquele no era um dia qualquer. Aquele fora um dia de informaes pelo telefone, carros policiais sem identificao correndo por Roma afora e um homem de palet de tweed subindo em andaimes  procura de sabe-se l o qu Glick ia ficar atrs dos dois.
    Olhou para o outro lado da praa e viu Macri. Ela fora direto para onde ele lhe dissera para ir, para o outro lado do casal, rondando na retaguarda deles. Macri carregava sua cmera de vdeo com ar informal, mas, apesar de estar fazendo fora para imitar uma entediada representante da imprensa, ela chamava mais ateno do que Glick gostaria. No havia outros reprteres naquele ponto da praa e a sigla BBC bem visvel em sua cmera estava atraindo os olhares de alguns turistas.
    A fita que Macri gravara mostrando o corpo despido sendo colocado na mala do carro estava naquele mesmo instante no transmissor de vdeo instalado na parte detrs do furgo. Glick sabia que as imagens estariam viajando agora via satlite a caminho de Londres. Imaginava o que o pessoal de l iria dizer.
    Lamentava que ele e Macri no tivessem chegado e encontrado o corpo mais cedo, antes que o exrcito de soldados  paisana aparecesse. O mesmo exrcito, ele sabia, agora se espalhara e rodeara a praa. Alguma coisa muito importante estava para acontecer.
    A mdia  o brao direito da anarquia, dissera o assassino. Glick conjeturava se no teria perdido sua grande chance. Olhou os outros furges da imprensa  distncia e viu Macri seguindo o casal misterioso pela praa. Algo lhe dizia que o jogo ainda no terminara. 

CAPTULO 74

    Langdon encontrou o que procurava uns dez metros antes de chegarem. Em meio aos turistas esparsos, a elipse de mrmore branco do West Ponente de Bernini destacava-se dos cubos de granito cinzento que compunham o piso do resto da piazza. Vittoria tambm a avistou. Sua mo ficou mais tensa.
     Relaxe  murmurou Langdon.  Faa aquela coisa da respirao.
    Vittoria afrouxou o aperto da mo.
     medida que chegavam mais perto, tudo lhes parecia inquietantemente normal. Turistas vagavam, freiras conversavam ao longo da praa, uma menina dava comida aos pombos junto  base do obelisco.
    Langdon preferiu no olhar o relgio. Sabia que estava quase na hora.
    A seus ps surgiu a elipse de pedra e os dois pararam, como se fossem apenas dois turistas que se detm para admirar um detalhe de ligeiro interesse.
     West Ponente  disse Vittoria, lendo a inscrio na pedra. Langdon contemplou o relevo de mrmore e sentiu-se subitamente ingnuo. Nunca, em seus livros de arte ou em suas numerosas viagens a Roma, nunca o significado pleno do West Ponente lhe saltara tanto aos olhos.
    Nunca, at aquele momento.
    O relevo era elptico, com uns 90 centmetros de comprimento, e mostrava um rosto rudimentar, uma representao do Vento Oeste com um semblante de anjo. Saindo da boca do anjo, Bernini desenhara um vigoroso sopro de ar que vinha da direo do Vaticano  o Sopro de Deus. Esse era o tributo de Bernini ao segundo elemento, Ar, um zfiro etreo brotando dos lbios de um anjo. Enquanto o examinava, Langdon deu-se conta de que o significado do relevo era ainda mais profundo. Bernini esculpira o sopro de ar com cinco traos distintos  cinco! E mais, havia duas estrelas reluzentes ladeando o medalho. Langdon pensou em Galileu. Duas estrelas, o sopro de cinco traos, elipses, simetria. Sentiu um vazio e sua cabea doa.
    Vittoria recomeou a andar quase imediatamente, guiando-o para longe do relevo.
     Acho que algum est nos seguindo  disse ela.
     Onde?  perguntou Langdon, levantando a cabea.
    Vittoria deslocou-se bem uns 30 metros antes de falar. Apontou para o alto do Vaticano como se mostrasse algo no domo a Langdon.
     A mesma pessoa que vem vindo atrs de ns o tempo todo atravs da praa.  De modo despreocupado, deu uma espiada para trs.  E ainda est a. Continue andando.
     Acha que  o Hassassin?
    Vittoria fez que no com a cabea.
     A no ser que os Illuminati contratem mulheres com cmeras da BBC.
    Quando os sinos de So Pedro iniciaram seu alarido ensurdecedor, tanto Langdon quanto Vittoria se sobressaltaram. Estava na hora. Tinham se afastado do West Ponente fazendo um movimento circular mas agora estavam voltando para perto do relevo.
    Apesar do ressoar dos sinos, o local parecia perfeitamente calmo. Turistas andavam de um lado para outro. Um mendigo bbado cochilava meio desajeitado na base do obelisco. A menina dava comida aos pombos. Langdon ponderou se a reprter teria espantado o assassino. Duvido, concluiu ele, lembrando-se da promessa do matador. Farei de seus cardeais luminares da mdia. Quando o eco da nona badalada dissipou-se ao longe, um silncio tranqilo desceu sobre a praa.
    Ento, a menina comeou a gritar. 

CAPTULO 75

    Langdon foi o primeiro a alcanar a menina que gritava. Aterrorizada, a garotinha apontava para a base do obelisco, onde um bbado decrpito e maltrapilho estava meio cado nas escadas. O homem tinha um aspecto miservel, devia ser um dos sem-teto de Roma. As mechas gordurosas do cabelo grisalho caam-lhe pelo rosto e o corpo inteiro estava enrolado em um pano sujo. A menina continuou a gritar enquanto corria para longe, misturando-se s pessoas.
    Langdon foi tomado por uma nova onda de apreenso ao correr na direo do velho. Havia uma mancha escura se espalhando pelos trapos do homem. Sangue fresco.
    Depois, foi como se tudo acontecesse ao mesmo tempo.
    O velho tombou para a frente, oscilante. Langdon precipitou-se para ampar-lo, mas no houve tempo. O homem rolou as escadas e bateu no cho com o rosto para baixo. Imvel.
    Langdon caiu de joelhos. Vittoria chegou ao seu lado. Formou-se um ajuntamento de pessoas.
    Vittoria colocou os dedos no pescoo do homem por trs.
     Tem pulso  afirmou.  Vire-o.
    Langdon j estava em ao. Segurou o homem pelos ombros e virou-lhe o corpo. Ao faz-lo, os trapos que o envolviam soltaram-se como pele morta. O homem caiu de costas, flcido. Bem no meio de seu peito nu havia uma grande queimadura.
    Vittoria prendeu a respirao e recuou.
    Langdon ficou paralisado, em um estado intermedirio entre a nusea e o assombro. O smbolo era de uma simplicidade aterrorizante. 
     
     Ar  arquejou Vittoria.   ele.
    Os guardas suos surgiram vindos do nada, gritando ordens, correndo atrs de um assassino invisvel.
    Perto, um turista explicou que, minutos antes, um homem de pele escura tivera a gentileza de ajudar aquele pobre mendigo ofegante a atravessar a praa e chegara a sentar-se por um momento nas escadas com o enfermo antes de voltar e sumir na multido.
    Vittoria arrancou o resto dos trapos de cima do abdmen do velho. Havia duas perfuraes profundas, uma de cada lado da marca, logo abaixo das costelas. Ela inclinou a cabea do homem para trs e iniciou uma respirao boca a boca. Langdon no estava preparado para o que aconteceu em seguida. Quando Vittoria soprou, as duas feridas no trax do homem sibilaram e esguicharam sangue como se fossem respiradouros de baleia. O lquido salgado atingiu Langdon no rosto.
    Vittoria parou, horrorizada.
     Os pulmes dele...  ela gaguejou  foram perfurados.
    Langdon enxugou os olhos e viu as perfuraes. Os orifcios gorgolejavam. Os pulmes do cardeal haviam sido destrudos. Ele estava morto.
    Vittoria tentou ocultar o corpo enquanto os guardas suos se aproximavam.
    Langdon levantou-se, desorientado. E foi quando a viu. A mulher que os seguira antes estava agachada ali perto. Tinha sua cmera de vdeo com a sigla BBC apoiada no ombro, voltada para ele e funcionando. Os dois se entreolharam e ele percebeu que ela gravara tudo. Depois, como um gato, ela fugiu. 

CAPTULO 76

    Chinita Macri estava fugindo. Conseguira a melhor matria de toda a sua vida.
    Sua cmera de vdeo pesava-lhe como uma ncora enquanto ela atravessava com dificuldade a Praa de So Pedro, abrindo caminho entre a multido cada vez maior. A maioria vinha no sentido oposto ao dela, em direo ao tumulto que se formara. Macri estava tentando se afastar ao mximo de l. O homem do palet de tweed a vira e agora ela tinha a impresso de que havia outros em seu encalo, outros que ela no sabia onde estavam e que se aproximavam de todos os lados. Macri ainda estava horrorizada com as imagens que acabara de gravar. Pensava se o homem morto seria realmente quem ela imaginava que fosse. O contato telefnico misterioso de Glick agora lhe parecia menos maluco.
    Ela continuava a seguir apressada para o furgo da BBC quando um rapaz com inconfundvel aspecto militar destacou-se do meio da multido diante dela. Seus olhos se encontraram e ambos pararam. Rpido, ele sacou um walkie-talkie e falou ao aparelho. Depois, andou ao encontro dela. Macri fez meia-volta e misturou-se s pessoas, o corao batendo forte.
    Tropeando no mar de braos e pernas, ela retirou a fita de vdeo gravada de dentro da cmera. Ouro puro, pensou, enfiando a fita na parte de trs do seu cinto, escondida pelas abas do casaco. Ao menos uma vez estava satisfeita com seu excesso de peso. Glick, seu desgraado, onde est voc?
    Outro soldado apareceu  sua esquerda, aproximando-se. Macri sabia que tinha pouco tempo. Meteu-se pelo meio do povaru outra vez. Tirou uma fita virgem da maleta e enfiou-a na cmera. E comeou a rezar.
    Estava a uns 30 metros do furgo quando os dois homens se materializaram na frente dela, os braos cruzados. Ela no iria a mais lugar nenhum.
     O filme  disse um.  Agora.
    Macri recuou, protegendo sua cmera com os dois braos.
     De jeito nenhum.
    Um dos homens abriu a jaqueta, mostrando uma arma no coldre.
     Pode atirar em mim, se quiser  disse Macri, espantada com o atrevimento de sua prpria voz.
     O filme  repetiu o primeiro.
    Onde foi parar esse maldito Glick? Macri bateu o p e gritou o mais alto que pde.
     Sou uma profissional da BBC! Pelo artigo 12 da Lei da Liberdade de Imprensa, este filme  propriedade da British Broadcast Corporation!
    Os homens nem se abalaram. O que mostrara a arma deu um passo em sua direo e disse:
     Sou tenente da Guarda Sua e, de acordo com a Sagrada Doutrina que rege a propriedade na qual se encontra agora, a senhora est sujeita a busca e apreenso.
    Muitas pessoas agora comeavam a se reunir em torno deles.
    Macri gritou:
     Eu me recuso terminantemente a entregar a vocs o filme que est nesta cmera antes de falar com meu editor em Londres. Sugiro que vocs...
    Os guardas no a deixaram continuar. Um arrancou a cmera das mos dela. O outro agarrou-a  fora pelo brao e virou-a na direo do Vaticano.
     Grazie  dizia ele, empurrando-a atravs da multido que se acotovelava. Macri rezava para que no a revistassem e encontrassem a fita. Se de algum jeito conseguisse esconder o filme at dar tempo para...
    Subitamente, aconteceu o impensvel. Algum estava pondo a mo por baixo do seu casaco. Macri sentiu a fita ser puxada. Girou o corpo depressa, mas engoliu as palavras. Atrs dela, um ofegante Glick piscou com uma cara marota e desapareceu outra vez no meio da multido. 

CAPTULO 77

    Robert Langdon entrou meio cambaleante no banheiro particular ao lado do escritrio do Papa. Enxugou o sangue no rosto e nos lbios. O sangue no era seu, mas do cardeal Lamass, que morrera de modo terrvel havia pouco na praa cheia de gente. Sacrifcios de virgens nos altares da cincia. At ento, o Hassassin cumprira sua ameaa.
    Langdon sentiu-se sem foras ao olhar no espelho. Seu rosto estava abatido, a barba curta comeara a escurecer sua face. O aposento em que se encontrava era imaculado e luxuoso  mrmore negro com ferragens douradas, toalhas de algodo e sabonetes perfumados.
    Tentou apagar de sua mente a marca cruel que vira no peito do cardeal. Ar. A imagem permanecia. J vira trs ambigramas desde que acordara naquela manh e sabia que mais dois estavam a caminho.
    Do lado de fora da porta, Olivetti, o camerlengo e o capito Rocher estavam discutindo o que fazer em seguida. Pelo jeito, a busca da antimatria no dera em nada at aquele momento. Ou os guardas no tinham visto o tubo ou o intruso fora mais longe dentro do Vaticano do que o comandante Olivetti gostaria de admitir.
    Langdon enxugou o rosto e as mos. Depois, procurou um mictrio. No havia mictrio, somente um vaso sanitrio. Ele levantou a tampa do vaso.
    De p ali, a tenso de seu corpo diminuindo, um atordoamento e uma grande exausto invadiram-no. As emoes que se emaranhavam em seu peito eram muitas e muito incongruentes. Estava cansado, sem dormir nem comer, percorrendo o Caminho da Iluminao e traumatizado por dois assassinatos brutais. Experimentou um sentimento de horror ainda mais profundo quando pensou no possvel desenlace daquele drama.
    Pense, disse a si mesmo. Mas sua mente estava em branco. Quando acionou a descarga, ocorreu-lhe um pensamento inesperado. Este  o banheiro do Papa. Acabei de fazer pipi no banheiro do Papa. Teve de rir. No Trono Sagrado. 

CAPTULO 78

    Em Londres, uma funcionria da BBC tirou uma fita de vdeo de um gravador conectado via satlite e saiu s pressas da sala de controle. Irrompeu pela sala do chefe de redao, colocou a fita no aparelho de vdeo dele e apertou o boto play.
    Enquanto viam a fita, ela lhe contou sobre a conversa que acabara de ter com Gunther Glick na Cidade do Vaticano. E acrescentou que obtivera logo depois uma confirmao da identidade da vtima da Praa de So Pedro nos arquivos fotogrficos da BBC.
    Quando o redator-chefe saiu de sua sala, veio tocando uma sineta. Tudo parou na redao.
     Ao vivo em cinco minutos!  bradou o homem com voz estrondosa.
     Quero gente com talento para editar e colocar no ar! Coordenadores de mdia, quero seus contatos on-line! Temos uma histria para vender! E temos o filme! Eles pegaram depressa seus cadernos de telefone.
     Especificao do filme?  gritou um deles.
     Tomada de 30 segundos!  respondeu o chefe.
     Assunto?
     Homicdio ao vivo.
    Os coordenadores mostraram-se animados.  Preo para uso e licena?
     Um milho de dlares.
    Cabeas levantaram-se, rpidas.
     O qu?  Isto mesmo que vocs ouviram! Quero o topo da cadeia alimentar. CNN, MSNBC e depois as trs grandes! Ofeream uma apresentao prvia. Dem a eles uns cinco minutos para se organizarem antes que a BBC solte a matria.
     Que diabos aconteceu?  algum perguntou.  O primeiro-ministro foi esfolado vivo? O chefe balanou a cabea.
     Muito melhor.
    Naquele instante preciso, em algum ponto de Roma, o Hassassin desfrutava de um fugaz momento de repouso em uma cadeira confortvel. Admirava o lendrio aposento onde se encontrava. Estou sentado na Igreja da Iluminao, pensou. No refgio dos Illuminati. Quase no acreditava que o local ainda estivesse ali depois de passados tantos sculos.
    Zeloso, discou o nmero do reprter da BBC com quem falara antes. Estava na hora. O mundo ainda no ouvira a notcia mais chocante de todas. 

CAPTULO 79

    Vittoria Vetra tomou pequenos goles de gua e beliscou distrada uns bolinhos que um dos guardas suos acabara de lhe servir. Sabia que precisava comer, mas no tinha vontade, O escritrio do Papa estava fervilhante agora, cheio do som de conversas tensas. O capito Rocher, o comandante Olivetti e uma meia dzia de guardas avaliavam os prejuzos e debatiam o prximo passo a ser dado.
    Robert Langdon estava por perto olhando para fora, para a Praa de So Pedro, com um ar bastante desanimado. Vittoria foi at ele.
     Alguma idia?
    Ele fez que no.
     Quer um bolinho?
    O nimo dele pareceu melhorar ao ver algo para comer.
     Puxa, se quero. Obrigado.  E devorou uns bolinhos.
    A conversa atrs deles silenciou de repente quando o camerlengo entrou pela porta acompanhado por dois guardas suos. Se o camerlengo j parecera esgotado antes, pensou Vittoria, agora parecia vazio.
     O que aconteceu?  ele perguntou a Olivetti. Pela expresso de seu rosto, j tinham lhe contado o pior. O informe oficial de Olivetti soou como um relatrio de baixas em combate. Enumerou os fatos com seca eficincia.
     O cardeal Ebner foi encontrado morto na igreja de Santa Maria del Popolo logo depois das oito horas. Havia sido asfixiado e marcado com a palavra ambigramtica Terra. O cardeal Lamass foi assassinado na Praa de So Pedro dez minutos atrs. Morreu de perfuraes no peito. Foi marcado a fogo com a palavra Ar, tambm ambigramtica. O assassino escapou nas duas oportunidades.
    O camerlengo cruzou a sala, sentou-se pesadamente atrs da escrivaninha do Papa e baixou a cabea.
     Os cardeais Guidera e Baggia, entretanto, ainda esto vivos.
    A cabea do camerlengo levantou-se de um golpe, no rosto uma expresso de dor.
     E isso por acaso nos serve de consolo? Dois cardeais foram assassinados, comandante. E os outros dois pelo jeito tambm no vo permanecer vivos por muito tempo, a no ser que o senhor os encontre.
     Vamos encontr-los  garantiu Olivetti , estamos esperanosos.
     Esperanosos? S tivemos fracassos.
     No  verdade. Perdemos duas batalhas, signore, mas estamos vencendo a guerra. Os Illuminati pretendiam transformar esta noite em um espetculo para a mdia. At agora, frustramos os planos deles. Os corpos dos dois cardeais foram resgatados sem incidentes. Alm disso  continuou Olivetti , o capito Rocher contou-me que est fazendo grandes avanos na busca da antimatria.
    O capito Rocher, com sua boina vermelha na cabea, deu um passo  frente. Vittoria observou que de certa forma ele parecia mais humano do que os outros guardas, firme mas no to rgido. A voz de Rocher era cristalina, com um tom emocionado, como um violino.
     Espero trazer o tubo para o senhor dentro de uma hora, signore.
     Capito  disse o camerlengo , desculpe-me se no demonstro confiana, mas tive a impresso de que a busca da Cidade do Vaticano levaria muito mais tempo do que isso.
     Uma busca completa, sim. No entanto, depois de avaliar a situao, creio que o tubo de antimatria esteja localizado em uma de nossas zonas brancas, os setores do Vaticano acessveis ao pblico em geral, os museus e a Baslica de So Pedro, por exemplo. J desligamos a energia eltrica nessas zonas e estamos realizando a nossa varredura.
     Vocs pretendem procurar em s uma pequena parcela da Cidade do Vaticano?
     Sim, signore.  muito improvvel que um intruso tenha tido acesso s zonas mais centrais do Vaticano, O fato de a cmera de segurana em questo ter sido roubada em uma rea aberta ao pblico, um vo de escada de um dos museus, claramente indica que o invasor tinha acesso limitado. Portanto, s poderia reinstalar a cmera e deixar a antimatria em outra rea aberta ao pblico.  nestas reas que estamos concentrando nossas buscas.
     Mas esse homem seqestrou quatro cardeais. O que decerto supe uma infiltrao mais profunda do que pensvamos.
     No necessariamente. Precisamos lembrar que os quatro cardeais passaram grande parte do dia nos museus do Vaticano e na Baslica de So Pedro, desfrutando destes locais sem a presena do pblico.  provvel que os cardeais tenham sido capturados em um desses pontos.
     E como foram levados para fora de nossos muros?
     Ainda estamos analisando isto.
     Compreendo.  O camerlengo suspirou e levantou-se. Aproximou-se de Olivetti.  Comandante, gostaria de saber qual  o seu plano de contingncia para uma evacuao da cidade.
     Ainda estamos formalizando isto, signore. Nesse meio tempo, acredito que o capito Rocher v encontrar o tubo.
    Rocher bateu os calcanhares em apreo pelo voto de confiana.
     Meus homens j examinaram dois teros das zonas brancas. H um alto grau de confiana.
    O camerlengo no demonstrava o mesmo sentimento.
    Naquele momento, o guarda com a cicatriz sob um dos olhos entrou trazendo uma pequena prancheta e um mapa. Dirigiu-se a Langdon.
     Senhor Langdon? Trouxe a informao que o senhor solicitou sobre o West Ponente.
    Langdon engoliu seu bolinho.
     timo. Vamos a ela.
    Os outros continuaram conversando enquanto Vittoria juntava-se a Robert e aos guardas e eles abriam o mapa sobre a escrivaninha do Papa.
    O soldado apontou para a Praa de So Pedro.
     Aqui  onde estamos. O trao do meio do sopro de West Ponente aponta para leste, direto para fora da Cidade do Vaticano.  O guarda traou uma linha com seu dedo a partir da Praa de So Pedro, atravessando o rio Tibre e entrando no corao da velha Roma.  Como vem, a linha passa por quase toda Roma. Existem umas 20 igrejas catlicas perto desta linha.
    Langdon quase desmontou.
     Vinte?  Talvez mais.
     A linha passa exatamente em cima de alguma dessas igrejas?
     Algumas esto mais prximas  disse o guarda , mas transferir as orientaes do West Ponente para um mapa vai dar margem a muitos erros.
    Langdon olhou para a Praa de So Pedro por um instante. Depois, coou o queixo e perguntou.
     E com relao afogo? Ser que uma delas no teria alguma obra de Bernini relacionada a fogo?
    Silncio.
     E obeliscos?  perguntou ele.  Existe alguma perto de um obelisco?
    O guarda examinou de novo o mapa.
    Vittoria viu um lampejo de esperana no rosto de Langdon e adivinhou o que ele estava pensando. Ele tem razo! Os dois primeiros marcos ficavam perto de praas que tinham obeliscos. Quem sabe se os obeliscos no seriam o tema? Pirmides elevadas marcando a trilha dos Illuminati? Quanto mais Vittoria pensava mais apropriado lhe parecia: quatro sinais proeminentes erguendo-se acima de Roma para marcar os altares da cincia.
      uma probabilidade remota  disse Langdon , mas sei que muitos dos obeliscos de Roma foram erigidos ou levados de um lugar para outro no tempo de Bernini. Ele com certeza esteve envolvido na instalao deles.
     Ou  acrescentou Vittoria  Bernini poderia ter colocado seus marcos perto de obeliscos j existentes.
      verdade  concordou Langdon.
     Ms notcias  disse o guarda.  Nenhum obelisco nessa reta.  Correu o dedo pelo mapa.  Nem perto dela. Nada.
    Langdon suspirou.
    Vittoria deixou os ombros carem. Achara a idia boa, mas, pelo jeito, no ia ser to fcil quanto esperavam. Esforou-se para continuar sendo positiva.
     Robert, pense. Voc deve conhecer alguma esttua de Bernini que tenha alguma coisa a ver com fogo. Qualquer coisa.
     Acredite, estive pensando nisso. Bernini era incrivelmente produtivo. Criou centenas de obras. Contava que o West Ponente indicasse uma nica igreja. Algo que chamasse a ateno.
     Fuco  insistiu ela.  Fogo. Nenhum ttulo de obra de Bernini lhe ocorre?
     Existem os famosos desenhos de Fogos de Artificio, mas no so escultura e esto em Leipzig, na Alemanha.
    Vittoria fez uma careta.
     E tem certeza de que o sopro  o que indica a direo?  Voc viu o relevo, Vittoria. O desenho  inteiramente simtrico. A nica referncia a direo  o sopro.
    Vittoria sabia que ele tinha razo.
     Sem falar que, pelo fato de o West Ponente significar Ar, seguir o sopro  simbolicamente apropriado  acrescentou ele.
    Muito bem, pensou ela, ento vamos seguir o sopro. Mas para onde?
    Olivetti aproximou-se.
     O que encontraram?
     Igrejas demais  disse o soldado.  Umas vinte e tantas. Se pusssemos quatro homens em cada igreja...
     Esquea  disse Olivetti.  J deixamos esse sujeito escapar duas vezes sabendo exatamente onde ele ia estar. Um cerco macio deixaria a Cidade do Vaticano desprotegida e nos obrigaria a cancelar a busca  antimatria.
     Precisamos de uma obra de referncia  disse Vittoria.  Um ndice das obras de Bernini. Se examinarmos os ttulos delas, talvez nos ocorra alguma idia.
     No sei, no  disse Langdon.  Se for uma obra que Bernini criou especificamente para os Illuminati, pode ser muito obscura. No  muito provvel que conste de alguma lista em um livro.
    Vittoria recusava-se a acreditar.
     As outras duas esculturas eram muito famosas. Voc as conhecia.
     Pois   disse Langdon.
     Se procurarmos referncias  palavra fogo em uma lista de ttulos, talvez encontremos uma esttua que esteja na direo certa.
    Langdon convenceu-se de que valia a pena tentar. Dirigiu-se a Olivetti.
     Preciso de uma lista de todas as obras de Bernini. Ser que vocs tm por aqui um desses livros grandes sobre Bernini, desses que as pessoas colocam em cima de mesas baixas para serem folheados?
    Olivetti no entendeu a que tipo de livro Langdon se referia.
     Deixe para l. Qualquer lista de obras serve. No Museu do Vaticano eles devem ter referncias sobre Bernini.
    O guarda com a cicatriz fez um aparte.
     O museu est sem luz no momento e a sala de registros  gigantesca. Sem a equipe de l para ajudar...
     A obra de Bernini em questo  interrompeu Olivetti  teria sido criada enquanto Bernini trabalhava aqui no Vaticano?
     Isso  praticamente certo  respondeu Langdon.  Ele passou quase toda a carreira aqui. E certamente estava aqui durante o perodo dos conflitos da Igreja com Galileu. Olivetti balanou a cabea.
     Ento, existem outras referncias.
    Vittoria sentiu um lampejo de otimismo.
     Onde?
    O comandante no respondeu. Falou  parte e em voz baixa com o guarda. O guarda pareceu inseguro, mas assentiu com a cabea, obediente. Quando Olivetti acabou de falar, o guarda dirigiu-se a Langdon.
     Venha comigo, por favor, senhor Langdon. So 9h 15. Temos de nos apressar.
    Langdon e o guarda se dirigiram para a porta.
    Vittoria saiu atrs deles.
     Vou junto para ajudar.
    Olivetti pegou-a pelo brao.
     No, senhorita Vetra. Preciso falar com a senhorita.
    A presso da mo dele era firme.
    Langdon e o guarda saram. O rosto de Olivetti parecia uma dura mscara de madeira quando a levou para um lado. Entretanto, o que quer que ele fosse dizer, no teve mais oportunidade. Seu walkie-talkie crepitou alto.
     Commandante? Todos na sala se viraram.
    A voz no transmissor soou desagradvel.
      melhor o senhor ligar a televiso. 

CAPTULO 80

    Ao deixar os Arquivos Secretos do Vaticano apenas duas horas antes, Langdon jamais pensou que fosse voltar l. Agora, meio sem flego por ter feito todo o percurso correndo com o guarda suo que o acompanhava, Langdon encontrava-se de volta.
    Seu acompanhante, o guarda com a cicatriz, conduziu Langdon ao longo das filas de cubculos transparentes. O silncio nos arquivos de certa forma parecia mais ameaador do que antes e Langdon ficou satisfeito quando o guarda o quebrou. 
     Ali adiante, acho  disse ele, conduzindo Langdon para os fundos da sala, onde uma sucesso de cmaras menores enfileirava-se ao longo da parede. 
    O guarda examinou os ttulos das cmaras e indicou uma delas.
     Isso mesmo, aqui est. Onde o comandante disse que estaria.
    Langdon leu o ttulo. ATTIVI VATICANI. Ativos do Vaticano? Deu uma espiada na lista de assuntos. Imveis, Moeda, Banco do Vaticano, Antiguidades, a lista prosseguia.
     Documentos de todos os ativos do Vaticano  disse o guarda.
    Langdon olhou para o cubculo. Jesus! Mesmo no escuro, dava para ver que estava lotado.
     Meu comandante disse que tudo o que Bernini criou enquanto trabalhava para o Vaticano deve estar listado aqui como ativo.
    Langdon concordou, achando que o palpite do comandante talvez desse resultado. No tempo de Bernini, tudo o que um artista criava sob o patrocnio do Papa tornava-se, por lei, propriedade do Vaticano. Era mais feudalismo do que mecenato, mas os grandes artistas viviam bem e raramente se queixavam.
     Inclusive obras localizadas em igrejas fora da Cidade do Vaticano?
    O soldado lanou-lhe um olhar enviesado.
     Claro. Todas as igrejas catlicas de Roma so propriedade do Vaticano.
    Langdon deu uma olhada na lista que tinha na mo. Continha o nome das vinte e tantas igrejas localizadas na linha reta determinada pelo sopro de West Ponente.
    O terceiro altar da cincia era uma delas e ele esperava que tivesse tempo de descobrir qual. Em outras circunstncias, teria de muito bom grado explorado pessoalmente cada uma das igrejas. Naquele dia, porm, tinha cerca de 20 minutos para encontrar o que procurava: a igreja que guardava um tributo de Bernini ao fogo.
    Encaminhou-se para a porta giratria eletrnica da cmara. O guarda no o seguiu. Langdon percebeu uma hesitao nele. Deu um sorriso.
     O ar est timo. Rarefeito, mas respirvel.
     Minhas ordens foram para acompanh-lo at aqui e depois voltar imediatamente para o centro de segurana.
     Voc vai embora?
     Vou. A Guarda Sua no tem permisso para entrar nos Arquivos. J estou quebrando o protocolo por acompanh-lo at este ponto. O comandante mencionou isto para mim.
     Quebrando o protocolo? Tem alguma noo de o que est se passando por aqui esta noite? De que lado o seu comandante est, afinal?
    Toda a afabilidade desapareceu do rosto do guarda. A cicatriz sob seu olho estremeceu. Suas feies endureceram e ele ficou bastante parecido com o prprio Olivetti. 
     Desculpe  disse Langdon, arrependendo-se de ter feito o comentrio.   s porque um pouco de ajuda seria bom.
    O guarda nem pestanejou.
     Fui treinado para cumprir ordens. No para discuti-las. Quando encontrar o que procura, entre em contato com o comandante imediatamente.
    Langdon ficou confuso.
     Mas onde ele vai estar?
    O guarda retirou seu walkie-talkie e colocou-o sobre uma mesa prxima.
     Canal um.
    E desapareceu na escurido. 

CAPTULO 81

    O aparelho de televiso que havia no escritrio do Papa era um enorme Hitachi escondido em um armrio do lado oposto da escrivaninha. As portas do armrio tinham sido abertas e todos estavam reunidos diante da TV. Vittoria tambm foi para perto do aparelho. Quando a tela se acendeu, mostrou uma jovem reprter morena com olhos castanhos de gazela.
     Para o jornal da MSNBC  anunciou ela , sou Kelly Horan-Jones, ao vivo da Cidade do Vaticano.
    Atrs da moa, uma imagem noturna da Baslica de So Pedro com todas as luzes brilhando.
     Voc no est ao vivo coisa nenhuma  disparou Rocher.  As luzes da baslica esto apagadas neste momento!
    Olivetti calou-o com um psiu.
    A reprter continuou, com voz tensa.
     Graves acontecimentos abalaram a eleio no Vaticano esta noite. Temos a informao de que dois membros do Colgio dos Cardeais foram brutalmente assassinados em Roma.
    Olivetti soltou uma praga em voz baixa.
    Enquanto a moa falava na televiso, um guarda apareceu  porta, esbaforido.
     Comandante, a mesa telefnica central comunicou que todas as linhas esto chamando. Solicitam nossa posio oficial sobre...
     Desliguem a mesa telefnica  disse Olivetti, sem tirar os olhos da TV. O guarda ficou hesitante.
     Mas, comandante...
     V!
    O guarda saiu correndo.
    Vittoria notou que o camerlengo quis dizer alguma coisa, mas se conteve. Em vez de falar, ele olhou prolongada e firmemente para Olivetti antes de se voltar outra vez para a televiso.
    A MSNBC estava agora mostrando cenas gravadas. A Guarda Sua descendo as escadas de Santa Maria del Popolo com o corpo do cardeal Ebner, depois o levantando-o para colocar no Alpha Romeo. A imagem era congelada e o corpo despido do cardeal aparecia em dose antes de ser depositado na mala do carro.
     Quem foi o desgraado que filmou isso?  perguntou Olivetti.
    A reprter da MSNBC continuava falando.
     Acredita-se que esse seja o corpo do cardeal Ebner, de Frankfurt, Alemanha. Os homens que esto retirando seu corpo da igreja pertencem provavelmente  Guarda Sua do Vaticano.
    A reprter dava a impresso de estar fazendo o mximo de esforo para aparentar emoo. Em seguida, um close de seu rosto sugeria uma profunda consternao.
     Neste momento, a MSNBC gostaria de avisar aos seus espectadores que as imagens que vamos mostrar agora so extremamente dramticas e no so recomendadas para todas as pessoas.
    Vittoria fez pouco da falsa preocupao da emissora com a sensibilidade dos espectadores, reconhecendo aquela observao como o supremo recurso da mdia para chamar a ateno. Ningum mudava de canal depois de um aviso como aquele.
    A reprter insistiu.
     Repetimos, as cenas a que vamos assistir podem perturbar alguns espectadores.
     Que cenas?  perguntou Olivetti.  Vocs j mostraram...
    Surgiu na TV um casal andando no meio da multido da Praa de So Pedro. Vittoria logo reconheceu as duas pessoas como sendo ela prpria e Robert Langdon. Em um canto da tela, lia-se em letras pequenas um texto sobreposto: CORTESIA DA BBC. Um sino tocava ao fundo.
     Ah, no  disse Vittoria em voz alta.  Ah... no.
    O camerlengo parecia no compreender. Dirigiu-se a Olivetti.
     Voc no me disse que havia confiscado essa fita?
    Subitamente, na televiso, havia uma criana gritando. A cmera deslocou-se para uma garotinha apontando para o que aparentava ser um mendigo ensangentado. Robert Langdon apareceu abruptamente tentando ajudar a menina. O cinegrafista estabilizou a cmera no mesmo ponto.
    Todos no escritrio do Papa assistiram em silncio, horrorizados, ao drama desenrolar-se diante deles. O corpo do cardeal tombou e ele caiu com o rosto no cho. Vittoria apareceu e comeou a agir. Havia sangue. A marca a fogo. Uma tentativa horripilante e fracassada de administrar respirao boca a boca.
     Essas cenas incrveis  a reprter estava dizendo  foram filmadas poucos minutos atrs fora do Vaticano. Nossas fontes nos informam que se trata do cardeal Lamass, da Frana. Por que ele estaria vestido daquela maneira e por que no estava no conclave so perguntas que permanecem sem resposta. At agora, o Vaticano recusou-se a fazer qualquer comentrio.  E a fita recomeou a ser exibida.
     Recusou-se a fazer qualquer comentrio?  disse Rocher.  No tivemos nem tempo!
    A reprter continuava a falar com grande intensidade, as sobrancelhas franzidas.
     A MSNBC ainda no obteve confirmao sobre o motivo do ataque, mas nossas fontes asseguram que um grupo que se autodenomina Illuminati assumiu a responsabilidade pelos assassinatos.
    Olivetti explodiu.
     O qu?!
     ... saiba mais sobre os Illuminati visitando nosso site em...
     Non  posibile!  declarou Olivetti. E mudou de canal.
    Na outra estao havia um reprter hispnico falando:
     ... um culto satnico conhecido como os Illuminati, que alguns historiadores acreditam...
    Olivetti comeou a apertar freneticamente o controle remoto. Todos os canais estavam transmitindo a notcia ao vivo. Muitos deles, em ingls.
     ... Guarda Sua removendo um corpo de uma igreja no princpio desta noite. Acredita-se que o corpo seja o do cardeal...
     ... as luzes da baslica e dos museus foram apagadas e especula-se que...
     ... dentro em pouco falaremos com o especialista em teorias conspiratrias Tyler Tingley sobre esse espantoso reaparecimento...
     ... h rumores sobre mais dois assassinatos planejados para mais tarde esta noite...
     ... dvidas se o provvel Papa, o cardeal Baggia, estaria entre os desaparecidos...
    Vittoria afastou-se. Tudo estava acontecendo rpido demais. L fora, na noite que descia, o rude magnetismo da tragdia humana parecia atrair mais pessoas para a Cidade do Vaticano. A multido na praa aumentava quase a cada instante. Os pedestres chegavam incessantemente enquanto novas equipes de imprensa descarregavam seus furges e faziam valer seus direitos na Praa de So Pedro.
    Olivetti largou o controle remoto e dirigiu-se ao camerlengo.
     Signore, no posso imaginar como isso aconteceu. Ns pegamos a fita que estava naquela cmera!
    O camerlengo parecia momentaneamente atordoado para falar.
    Ningum dizia uma palavra sequer. A Guarda Sua mantinha-se rgida, atenta.
     Tudo indica  disse finalmente o camerlengo, em um tom de voz arrasado demais para estar zangado  que no soubemos conter essa crise to bem quanto fui levado a acreditar.  Olhou pela janela, para a massa de gente que se formava l fora.  Preciso fazer um pronunciamento.
    Olivetti sacudiu a cabea.
     No, signore. Isso  precisamente o que os Illuminati querem que faa. Legitim-los, admitir seu poder. Temos de nos manter em silncio.
     E essas pessoas?  O camerlengo apontou para a janela.  Logo haver milhares. Depois, centenas de milhares. Deixar que essa charada prossiga s vai coloc-las em perigo. Tenho de preveni-las. E em seguida temos de tirar daqui o nosso Colgio de Cardeais.
     Ainda h tempo. Deixe que o capito Rocher encontre a antimatria.
    O camerlengo encarou-o.
     Est querendo me dar ordens?
     No, estou lhe dando um conselho. Se est preocupado com o povo l fora, podemos anunciar que houve um escapamento de gs e desimpedir a rea, mas admitir a nossa vulnerabilidade pode ser perigoso.
     Comandante, s vou dizer isto uma vez. No vou usar esse cargo como um plpito para mentir para o mundo. Se eu anunciar alguma coisa, s poder ser a verdade.
     A verdade? A Cidade do Vaticano est ameaada de ser destruda por terroristas satnicos! S vai enfraquecer nossa posio.
    O camerlengo fulminou-o com o olhar.
     Nossa posio no pode ficar mais fraca do que j est.
    Rocher gritou repentinamente, apoderando-se do controle remoto e aumentando o volume da televiso. Todos se viraram para o aparelho.
    No ar, a mulher da MSNBC parecia agora verdadeiramente amedrontada. Ao lado dela haviam sobreposto uma fotografia do ltimo Papa.
     ... divulgar informaes. Acabamos de receber a notcia da BBC...  ela relanceou o olhar para a cmera como se quisesse confirmar que tinha realmente de dar aquela notcia. Aparentemente tendo recebido confirmao, voltou-se para os espectadores.  Os Illuminati acabaram de assumir a responsabilidade pela...  ela hesitou.  Eles assumiram a responsabilidade pela morte do Papa 15 dias atrs.
    O queixo do camerlengo caiu.
    Rocher largou o controle remoto.
    Vittoria mal conseguia processar a informao.
     Pela lei do Vaticano  a mulher prosseguiu , jamais se realiza uma autpsia formal em um Papa, portanto no se pode confirmar a declarao de assassinato feita pelos Illuminati. Seja como for, os Illuminati afirmam que a causa da morte do ltimo Papa no foi um derrame, como relatou o Vaticano, mas envenenamento.
    A sala inteira ficou em silncio completo outra vez.
    Olivetti irrompeu em exclamaes.
     Loucura! Que mentira descarada!
    Rocher comeou a mudar rapidamente os canais outra vez. O boletim espalhara-se como uma praga de uma estao para outra. Todas tinham a mesma histria. As chamadas competiam pelo maior sensacionalismo possvel.
ASSASSINATO NO VATICANO
PAPA ENVENENADO
SAT NA CASA DE DEUS
    O camerlengo afastou os olhos da tela.
     Que Deus nos ajude. 
    Quando Rocher estava mudando de canal, passou pela BBC.
     ...me avisou sobre o assassinato em Santa Maria del Popolo...
     Espere!  disse o camerlengo.  Volte.
    Rocher voltou. Na tela, um locutor empertigado estava sentado diante da escrivaninha do jornal da BBC. Acima do ombro dele destacava-se uma foto de um homem esquisito com uma barba ruiva. Sob a foto estava escrito: GUNTHER GLICK  AO VIVO DA CIDADE DO VATICANO. O reprter Glick transmitia suas notcias pelo telefone, a ligao entremeada de chiados intermitentes.
     ... minha cinegrafista conseguiu gravar a cena do cardeal sendo removido da Capela Chigi.
     Devo lembrar aos nossos espectadores  disse o ncora em Londres  que o reprter Gunther Glick, da BBC, foi quem primeiro divulgou esta histria. At agora manteve dois contatos telefnicos com o suposto assassino Illuminati. Gunther, voc confirma que o assassino telefonou h pouco para transmitir uma mensagem dos Illuminati?
     Sim, confirmo.
     E a mensagem informava que os Illuminati foram de alguma forma responsveis pela morte do Papa?  A voz do ncora revelava incredulidade.
     Correto. A pessoa me disse que a morte do Papa no foi causada por um derrame, como o Vaticano pensou, mas que o Papa foi envenenado pelos Illuminati.
    No escritrio do Papa todos estavam paralisados.
     Envenenado?  perguntou o ncora.  Mas como?
     Ele no especificou  respondeu Glick  s me disse que o mataram com uma droga conhecida como...  ouviu-se um rudo de papis sendo folheados
     alguma coisa conhecida como heparina.
    O camerlengo, Olivetti e Rocher trocaram olhares embaraados.
     Heparina?  Rocher perguntou, espantado.  Mas no era...?
    O camerlengo empalideceu.
     A medicao do Papa.
    Vittoria ficou atordoada.
     O Papa estava tomando heparina?
     Ele tinha tromboflebite  disse o camerlengo.  Tomava uma injeo por dia.
    Rocher estava perplexo.
     Mas a heparina no  veneno. Por que os Illuminati diriam que...
     A heparina  letal nas dosagens erradas  esclareceu Vittoria.  Trata-se de um anticoagulante poderoso. Uma dose excessiva poderia causar uma grande hemorragia interna e hemorragia cerebral.
    Olivetti perguntou, desconfiado:
     Como sabe disso?
     Os bilogos usam heparina em mamferos marinhos em cativeiro para evitar cogulos causados pela diminuio de atividade. J morreram animais por administrao errada do remdio.  Ela fez uma pausa.  Uma dose excessiva de heparina em um ser humano pode causar sintomas que seriam facilmente confundidos com os de um derrame, sobretudo se no se fizer uma autpsia adequada.
    O camerlengo agora se mostrava profundamente perturbado.
     Signore  disse Olivetti , isso  obviamente uma manobra dos Illuminati para atrair mais publicidade. Seria impossvel algum dar uma dose excessiva de remdio ao Papa. Ningum tinha acesso. E mesmo que engolssemos a isca e tentssemos refutar a declarao deles, como poderamos? A lei papal probe a autpsia. E mesmo que se fizesse a autpsia, nada ficaria esclarecido, porque se encontraria heparina no corpo dele, a das injees que ele tomava todos os dias.
      verdade.  E a voz do camerlengo tornou-se mais penetrante.  No entanto, algo mais me incomoda. Ningum de fora sabia que Sua Santidade estava tomando heparina.
    Fez-se silncio.
     Se ele tomou uma dose excessiva de heparina  disse Vittoria , seu corpo teria sinais disso.
    Olivetti girou o corpo para encar-la.
     Senhorita Vetra, caso no tenha escutado, as autpsias papais so proibidas pela Lei do Vaticano. No vamos profanar o corpo de Sua Santidade, cortando-o todo s porque um inimigo fez declaraes ridculas!
    Vittoria sentiu-se constrangida.
     Eu no estava sugerindo...  Ela no tivera inteno de desrespeitar ningum.  Com certeza, no sugeri que exumassem o Papa...
    Ainda assim, hesitava em falar. Algo que Robert lhe contara em Chigi passara por sua mente como um fantasma. Ele mencionara que os sarcfagos papais eram mantidos acima do solo e nunca fechados com cimento, talvez um costume vindo do tempo dos faras, quando se acreditava que lacrar e enterrar um caixo prendia a alma do defunto l dentro. A gravidade tornara-se a alternativa  argamassa, com tampas de caixes que s vezes pesavam centenas de quilos. Tecnicamente, ela percebia, seria possvel...
     Que espcie de sinais?  perguntou inesperadamente o camerlengo.
    Vittoria sentiu seu corao palpitar de medo.
     As doses excessivas podem causar sangramento da mucosa oral.
     Da mucosa...
     As gengivas da vtima sangrariam. Algum tempo aps a morte, o sangue coagularia e o interior da boca ficaria negro.
    Certa vez, Vittoria tinha visto uma foto tirada em um aqurio de Londres em que um par de baleias havia sido medicado em excesso por um engano de seu treinador. As baleias boiavam mortas dentro do tanque, as bocas abertas e as lnguas negras como piche.
    O camerlengo no fez nenhum comentrio. Pensativo, olhava pela janela.
    A voz de Rocher perdera todo o otimismo.
     Signore, se essa histria de envenenamento for verdadeira...
     No   declarou Olivetti, categrico.  O acesso ao Papa por uma pessoa de fora  absolutamente impossvel.
     Se a histria for verdadeira  repetiu Rocher  e nosso Santo Padre tiver sido mesmo envenenado, isto tem enormes implicaes para a procura da anti-matria. Um suposto assassinato significa uma infiltrao muito maior no Vaticano do que calculamos. Procurar s nas zonas brancas pode ser intil. Se estivermos a tal ponto comprometidos, talvez no encontremos o tubo de anti-matria a tempo.
    Olivetti dirigiu um olhar gelado a seu capito.
     Capito, vou lhe dizer o que vai acontecer.
     No  disse o camerlengo, virando-se repentinamente.  Eu vou lhe dizer o que vai acontecer.  Encarou Olivetti.  Isso j foi longe demais. Em 20 minutos vou decidir se cancelo o conclave e esvazio a Cidade do Vaticano ou no. Minha deciso vai ser definitiva. Ficou bem claro?
    Olivetti nem piscou. Nem reagiu.
    O camerlengo falava agora energicamente, como se recorresse a uma reserva escondida de fora.
     O capito Rocher vai completar sua busca nas zonas brancas e prestar contas diretamente a mim quando terminar.
    Rocher curvou a cabea, endereando um olhar constrangido a Olivetti.
    O camerlengo ento destacou dois guardas.
     Quero o reprter da BBC, o senhor Glick, aqui neste escritrio imediatamente. Se os Illuminati andaram se comunicando com ele, talvez possa nos ajudar. Andem.
    Os dois soldados desapareceram.
    O camerlengo ento dirigiu-se aos guardas restantes.
     Cavalheiros, no vou permitir que mais vidas se percam esta noite. At as dez horas vocs vo localizar os dois ltimos cardeais e capturar o monstro responsvel por essas mortes. Ser que me fiz compreender?
     Mas, signore  objetou Olivetti , no temos a menor idia de onde...
     O senhor Langdon est trabalhando nisso. Ele parece competente. Tenho esperanas.
    Com isto, o camerlengo encaminhou-se para a porta, suas passadas revelando uma nova determinao. Antes de sair, apontou para trs guardas.
     Vocs trs, venham comigo. Agora.
    Os guardas o seguiram.
    Junto da porta, o camerlengo se deteve. Falou com Vittoria.
     Senhorita Vetra, venha tambm, por favor.
    Vittoria ficou insegura.
     Aonde vamos?
    Ele saiu porta afora.
     Ver um velho amigo. 

CAPTULO 82

    No CERN, a secretria Sylvie Baudeloque estava faminta, querendo ir para casa. Para sua decepo, Kohler parecia ter sobrevivido ao seu passeio  enfermaria. Ele telefonara e mandara  no pedira, mandara  que Sylvie ficasse at mais tarde naquele dia. Sem a menor explicao.
    No decorrer dos anos, Sylvie programara-se para ignorar as bizarras oscilaes de humor e as excentricidades de Kohler  sua convivncia silenciosa, sua mania irritante de filmar reunies em segredo com a cmera de vdeo porttil de sua cadeira de rodas. Intimamente, desejava que um dia ele desse um tiro por engano em si mesmo durante a sua visita semanal ao estande recreativo de tiro ao alvo do CERN, mas pelo jeito ele era um exmio atirador.
    Agora, sentada sozinha diante de sua escrivaninha, Sylvie sentia o estmago roncar. Kohler no voltara nem lhe dera nenhum trabalho extra para aquela noite. Pois sim que vou ficar plantada aqui passando fome e me aborrecendo sem fazer nada, decidiu. Deixou um bilhete para Kohler e foi at a cantina fazer um lanche.
    Mas no chegou l.
    Ao passar pelas suites de loisir do CERN, uma rea de lazer formada por um comprido corredor com sagues onde havia televises, notou que as salas estavam transbordando de empregados que deviam ter abandonado o jantar para assistir s notcias. Alguma coisa importante estava acontecendo. Sylvie entrou na primeira sute. Estava lotada de jovens programadores de computador. Quando viu as manchetes na TV, ela tomou um susto.
TERRORISMO NO VATICANO
    Sylvie escutou o comentrio, mal acreditando no que ouvia. Uma fraternidade antiga matando cardeais? Para provar o qu? O dio deles? O domnio? A ignorncia? E o mais inacreditvel  que o humor reinante naquela sute era tudo, menos sombrio.
    Dois jovens tcnicos passaram correndo, exibindo camisetas que traziam um retrato de Bill Gates e a inscrio:
E OS NERDS HERDARO A TERRA!
     Illuminati!  gritou um.  Eu disse para voc que esses caras existiam!
     Incrvel! Pensei que fosse s um jogo!  Eles mataram o Papa, cara! O Papa!
     ! Quanto pontos ser que se ganha por isto?
    E foram embora dando risadas.
    Sylvie ficou parada ali, estarrecida. Como catlica e trabalhando em um meio de cientistas, de vez em quando ouvia uma ou outra observao anti-religiosa, mas a festa que os garotos estavam fazendo era de total euforia pela perda que a Igreja sofrera. Como podiam ser to insensveis? Por que tanto dio?
    Para Sylvie, a Igreja fora sempre uma entidade inofensiva, um local de companheirismo e introspeco e, s vezes, apenas um lugar onde podia cantar em voz alta sem que as pessoas olhassem para ela. A Igreja registrava as referncias de sua vida  funerais, casamentos, batismos, feriados  e no pedia nada em troca. At as doaes em dinheiro eram voluntrias. Seus filhos todas as semanas saam melhores da igreja dominical, cheios de idias sobre ajudarem os outros e serem mais bondosos. O que poderia haver de errado a?
    Sempre se admirara que tantas das chamadas mentes brilhantes do CERN deixassem de compreender a importncia da Igreja. Ser que de fato acreditavam que quarks e msons tambm serviam de inspirao para a mdia dos seres humanos? Ou que as equaes podiam substituir a necessidade de uma pessoa ter f no divino?
    Aturdida, Sylvie foi andando pelo corredor e passando pelos outros sagues. Todas as salas de TV estavam cheias de gente. Refletiu sobre aquele telefonema que Kohler recebera do Vaticano mais cedo. Coincidncia? Talvez. O Vaticano ligava para o CERN de tempos em tempos como cortesia antes de divulgar declaraes mordazes condenando as pesquisas do CERN  a mais recente fora sobre os avanos do CERN em nanotecnologia, um campo que a Igreja denunciava por causa de suas implicaes para a engenharia gentica. O CERN jamais dava importncia s crticas. Invariavelmente, minutos aps uma das investidas do Vaticano, o telefone de Kohler tocava sem parar com chamadas das companhias de investimento em tecnologia querendo permisso para utilizar a nova descoberta. Kohler sempre dizia: Nada melhor do que a m propaganda.
    Sylvie ponderou se deveria mandar uma mensagem pelo pager de Kohler, onde quer que ele estivesse metido, e dizer-lhe para ver as notcias. Ser que se interessaria? Ou j ouvira tudo? Claro que j deveria ter ouvido. Provavelmente, estava gravando toda a reportagem com sua frentica filmadora, sorrindo pela primeira vez em todo o ano.
    Continuando seu percurso pelo corredor, ela finalmente encontrou um saguo com um ambiente mais calmo, quase melanclico. Os cientistas que se encontravam ali vendo televiso eram alguns dos mais velhos e mais respeitados do CERN. Nem repararam quando Sylvie entrou e se sentou.
    Do outro lado do CERN, no frgido apartamento de Leonardo Vetra, Maximiian Kohler acabara de ler o dirio de capa de couro que tirara da mesa-de-cabeceira de Vetra. Agora, estava assistindo s notcias da televiso. Depois de alguns minutos, guardou o dirio, desligou a TV e saiu do apartamento.
    Longe dali, na Cidade do Vaticano, o cardeal Mortati levou outra bandeja cheia de fichas de voto para a lareira da Capela Sistina. Queimou-as e a fumaa saiu negra.
    Duas votaes. No se elegera o Papa. 

CAPTULO 83 

    A luz fraca das lanternas pouco adiantava naquele volumoso negrume da Baslica de So Pedro. O vcuo acima de suas cabeas pesava sobre eles como uma noite sem estrelas. Vittoria sentiu o vazio espalhar-se em torno dela como um oceano solitrio. Mantinha-se perto do camerlengo e dos guardas suos enquanto caminhavam. No alto, uma pomba arrulhou e esvoaou para longe, as asas farfalhando.
    Parecendo notar aquele desconforto, o camerlengo deixou-se ficar para trs e pousou a mo em seu ombro. Uma fora tangvel transferiu-se para ela com aquele toque, como se o homem magicamente lhe infundisse a calma de que precisava para o que iam fazer.
     O que vamos fazer?, pensou.  Isto  loucura!
    Contudo, Vittoria sabia que, apesar de toda a irreverncia e do inevitvel horror da situao, a tarefa que se apresentava era inescapvel. As graves decises que o camerlengo tinha de tomar exigiam informaes  informaes encerradas em um sarcfago nas Grutas do Vaticano. Perguntava a si mesma o que iriam encontrar: Ser que os Illuminati mataram mesmo o Papa? O poder deles chegaria de fato to longe? Ser que estou prestes a realizar a primeira autpsia em um Papa?
    Vittoria achou uma ironia estar mais apreensiva naquela igreja escura do que se estivesse nadando  noite no mar no meio das barracudas. A natureza era seu refgio. Ela compreendia a natureza. As questes humanas e espirituais  que a deixavam desorientada. A idia de peixes assassinos reunindo-se no escuro trazia-lhe  cabea imagens da imprensa reunindo-se do lado de fora da baslica. As filmagens dos corpos marcados lembravam-lhe o cadver de seu pai e a risada grosseira do matador. O matador estava  solta l fora, em algum lugar. A raiva abafou o medo de Vittoria.
    Quando contornaram uma coluna  de dimetro maior do que o de qualquer sequia imaginvel , Vittoria divisou um brilho alaranjado adiante. A luz parecia emanar de baixo do piso no centro da baslica. Ao se aproximarem, ela compreendeu o que estava vendo. Tratava-se do famoso santurio escavado sob o altar principal  a suntuosa cmara subterrnea que continha as relquias mais sagradas do Vaticano. Junto ao porto que rodeava a abertura, Vittoria olhou para baixo e viu a arca dourada no meio de inmeras lamparinas a leo acesas.
     So os ossos de So Pedro?  perguntou, sabendo muito bem que eram. Todo mundo que visitava a Baslica de So Pedro sabia o que havia dentro da pequena arca dourada.
     Na realidade, no  respondeu o camerlengo.  Um engano bastante comum. Isso no  um relicrio. Dentro da arca so guardados os palliums, faixas tecidas que o Papa d aos cardeais recm-eleitos.
     Mas pensei...
     Como todos. Os guias tursticos dizem que aqui  a tumba de So Pedro, mas o verdadeiro tmulo dele fica dois nveis abaixo de ns, enterrado no solo. O Vaticano escavou-o nos anos 1940. Ningum tem permisso para descer l.
    Vittoria estava impressionada.  medida que saam do nicho reluzente e voltavam para a escurido, pensou nas histrias que ouvira de peregrinos que viajavam milhares de quilmetros para ver aquela caixa dourada, achando que estavam na presena de So Pedro.
     O Vaticano no deveria dar essa informao s pessoas?
     Todos nos beneficiamos de uma sensao de contato com a divindade, mesmo que a sensao seja apenas imaginada.
    Vittoria, como cientista, no podia discutir aquela lgica. Lera inmeros estudos sobre os efeitos do placebo  aspirinas curando cncer de pessoas que acreditavam estar usando uma droga milagrosa. O que era a f, afinal de contas? 
     Mudanas  disse o camerlengo  no so algo que fazemos muito bem aqui na Cidade do Vaticano. Admitir nossos erros do passado, modernizao, so coisas que historicamente evitamos. Sua Santidade estava tentando modificar isto.  Ele fez uma pausa.  Para alcanar o mundo moderno. Procurar novos caminhos para chegar a Deus.
    Mesmo no escuro, Vittoria fez um gesto de concordncia.
     Como a cincia?
     Para ser franco, a cincia me parece irrelevante.
     Irrelevante?  Vittoria conseguia pensar em uma poro de palavras para definir cincia, mas, no mundo moderno, irrelevante no era uma delas.
     Quando o senhor sentiu sua vocao?
     Antes do meu nascimento.
    Vittoria olhou para ele.
     Desculpe  explicou o camerlengo , essa questo sempre parece estranha. O que quero dizer  que sempre soube que iria servir a Deus. Desde o momento em que comecei a pensar. S quando rapaz, porm, no exrcito,  que compreendi verdadeiramente meu objetivo.
    Ela ficou surpresa.
     O senhor esteve no exrcito?
     Dois anos. Recusei-me a disparar uma arma, ento me puseram para pilotar helicpteros Medevac. Na realidade, ainda vo de vez em quando.
    Vittoria tentou imaginar o jovem padre pilotando um helicptero. O interessante  que conseguia v-lo perfeitamente por trs dos controles. O camerlengo Ventresca possua uma firmeza de carter que intensificava suas convices em vez de tirar-lhes o brilho.
     O senhor chegou a transportar o Papa alguma vez?
     No, de jeito nenhum. Deixvamos esse passageiro precioso para os profissionais. Sua Santidade s vezes permitia que eu levasse o helicptero para nosso retiro em Gandolfo.  Ele fez uma pausa, olhando para ela.  Senhorita Vetra, obrigada por sua ajuda aqui hoje. Sinto muito por seu pai. Sinceramente.
     Obrigada.
     Nunca conheci meu pai. Morreu antes que eu nascesse. Perdi minha me quando tinha dez anos.
     O senhor ficou rfo?  ela sentiu uma afinidade repentina entre eles.
     Sobrevivi a um acidente. Um acidente que levou minha me.
     Quem tomou conta do senhor?
     Deus  disse o camerlengo.  Ele quase literalmente me enviou outro pai. Um bispo de Palermo apareceu junto  minha cama de hospital e tomou conta de mim. Na ocasio, no me surpreendi. J sentia a mo vigilante de Deus sobre mim desde pequeno. O aparecimento do bispo simplesmente confirmou o que eu j desconfiava, que Deus de certa forma me escolhera para servi-lo.
     O senhor acreditava que Deus o havia escolhido?
     Sim, e ainda acredito.  No havia qualquer vestgio de vaidade na voz do camerlengo, s de gratido.  Trabalhei sob a tutela do bispo durante muitos anos. Ele acabou se tornando cardeal. Mas nunca me esqueceu. Ele  o pai de quem me lembro.
    A luz de uma das lanternas passou pelo rosto do camerlengo e Vittoria vislumbrou a solido em seus olhos.
    O grupo chegou junto a uma coluna gigantesca e a luz de suas lanternas convergiu para uma abertura no cho. Ao olhar para a escadaria que mergulhava no vazio, Vittoria de repente teve vontade de voltar atrs. Os guardas j estavam ajudando o camerlengo a descer. Em seguida, ajudaram Vittoria.
     O que aconteceu com ele?  ela perguntou enquanto desciam, tentando manter a voz firme.  Com o cardeal que tomou conta do senhor?
     Ele deixou o Colgio dos Cardeais para assumir outro posto.
    Vittoria surpreendeu-se.
     E depois, sinto muito dizer, ele faleceu.
     Le mie condoglianze  disse ela.  Recentemente?
    O camerlengo virou-se para ela, as sombras acentuando a dor em seu rosto.
     H exatamente 15 dias. Vamos v-lo agora. 

CAPTULO 84

    As luzes escuras espalhavam seu fulgor avermelhado no interior da cmara dos Arquivos do Vaticano. Essa cmara era muito menor do que aquela em que Langdon estivera antes. Menos ar. Menos tempo. Arrependeu-se de no ter pedido a Olivetti para ligar os ventiladores de renovao do ar.
    Langdon localizou rapidamente a seo de ativos que continha os livros de registros das Belle Arti. No havia como no encontrar a seo. Ocupava quase oito estantes completas. A Igreja Catlica possua milhes de peas pelo mundo todo.
    Ele examinou as prateleiras  procura do nome de Gianlorenzo Bernini. Comeou sua busca no meio do segundo grupo de estantes, mais ou menos onde deveria comear a letra B. Depois de um breve momento de pnico temendo que aquele catlogo em especial estivesse faltando, ele descobriu, desanimado, que os catlogos no tinham sido dispostos em ordem alfabtica.
     Por que isto no me surpreende tanto assim?
    S depois de contornar tudo, voltar ao incio e subir uma escada com rodzios para chegar  prateleira mais alta  que compreendeu o critrio da organizao da cmara. Empoleirado na parte superior das estantes, encontrou os catlogos mais grossos, referentes aos mestres da Renascena: Michelangelo, Rafael, Da Vinci e Botticelli. Bem de acordo com uma cmara chamada Ativos do Vaticano, os catlogos eram dispostos segundo o valor monetrio total da coleo de cada artista. Entre os de Rafael e Michelangelo, Langdon encontrou o catlogo com o nome de Bernini. Tinha uns 12 centmetros de espessura.
    J sem flego e segurando desajeitadamente o incmodo volume, Langdon desceu a escada. Ento, como um garoto que vai ler uma revista em quadrinhos, estendeu-se no cho e abriu o livro.
    O catlogo tinha capa de pano e era muito compacto. Fora escrito  mo em italiano. Cada pgina tratava de uma nica obra, com uma breve descrio, a data, a localizao, o custo dos materiais e s vezes um esboo simples da pea. Langdon folheou o livro de mais de 800 pginas. Bernini fora um homem ocupado.
    Quando Langdon era um jovem estudante de arte, sempre o intrigara como um nico artista podia produzir tantos trabalhos durante a vida. Mais tarde, para grande desapontamento seu, descobriu que os artistas famosos criavam na realidade muito pouco de sua prpria obra. Dirigiam estdios onde treinavam jovens artistas para executar seus projetos. Escultores como Bernini criavam miniaturas em barro e contratavam outros para ampli-las em mrmore. Se Bernini tivesse sido obrigado a realizar pessoalmente todas as suas encomendas, ainda estaria trabalhando at hoje.
     ndice  disse ele em voz alta, tentando manter afastadas as teias de aranha mentais. Foi para o final do livro com a inteno de procurar na letra F os ttulos com a palavra fuco  fogo , mas os efes no estavam juntos. Que diabos esse pessoal tem contra a ordem alfabtica?
    As entradas obedeciam a uma ordem cronolgica, uma a uma,  medida que Bernini criava uma nova obra. Tudo estava listado por data. No adiantava procurar ali.
    Enquanto contemplava a lista, outro pensamento desalentador ocorreu-lhe. O ttulo da escultura que procurava podia nem conter a palavra fogo. As duas obras anteriores  Habacuc e o Anjo e West Ponente  no tinham referncias especficas a Terra ou Ar.
    Passou um ou dois minutos folheando o catlogo ao acaso na esperana de alguma ilustrao lhe dar alguma pista. Nenhuma deu. Encontrou inmeras obras obscuras de que nunca ouvira falar, mas tambm muitas que reconheceu:
    Daniel e o Leo, Apolo e Dafne, alm de vrias fontes. Ao encontrar as fontes, seus pensamentos deram um salto momentneo para a frente. gua. Imaginou se o quarto altar da cincia seria uma fonte. Uma fonte seria um perfeito tributo  gua. Langdon esperava que pegassem o assassino antes que ele tivesse de considerar o elemento gua  Bernini esculpira dezenas de fontes em Roma, a maioria em frente a igrejas.
    E voltou para o assunto em questo, Fogo. Virando as folhas do livro, lembrou-se das palavras de Vittoria para incentiv-lo. Voc conhecia as duas primeiras esculturas, provavelmente conhece essa tambm. Abriu o ndice novamente e procurou ttulos que conhecia. Alguns lhe eram bem familiares, mas nenhum despertou sua ateno. Langdon concluiu que jamais terminaria aquela busca sem antes desmaiar e ento decidiu, a contragosto, que teria de levar o catlogo para fora do arquivo.  s um catlogo, disse a si mesmo. No  como tirar daqui um flio original de Galileu. Lembrou-se do flio no bolso de seu palet e recomendou a si mesmo que no podia esquecer de devolv-lo antes de sair.
    Apressando-se, estendeu a mo para pegar o livro, mas, ao faz-lo, viu algo que o fez parar. Embora o ndice fosse constitudo de numerosas anotaes, a que atraiu seu olhar era significativa.
    A anotao indicava que a famosa escultura de Bernini, O xtase de Santa Teresa, pouco tempo depois de inaugurada, fora transferida de sua localizao original no Vaticano. Mas no foi esse o fato que chamou a ateno de Langdon, sabedor das vicissitudes por que passara aquela escultura. Considerada uma obra-prima por alguns, o Papa Urbano VIII recusou O xtase de Santa Teresa alegando que se tratava de uma obra sexualmente muito explcita para o Vaticano. Baniu-a para uma capela obscura do outro lado da cidade. O que despertou o interesse de Langdon foi constatar que essa capela era uma das cinco igrejas de sua lista. E, ainda por cima, que a escultura fora transferida para l per suggerimento del artista.
    Por sugesto do artista? No fazia sentido Bernini sugerir que sua obra-prima ficasse escondida em um lugar pouco conhecido. Todo artista quer sua obra exposta em local destacado, no em uma remota... Langdon hesitava. A menos que... Receava at acalentar a idia. Seria possvel? Teria Bernini criado intencionalmente uma obra to explcita que forara o Vaticano a enfurn-la em algum lugar afastado? Um lugar que talvez Bernini pudesse sugerir? Quem sabe uma igreja distante que ficasse em linha reta com o sopro de West Ponente?
     medida que aumentava a excitao de Langdon, sua vaga familiaridade com a esttua interferia, insistindo que a obra nada tinha a ver com fogo. A escultura, como qualquer pessoa que a tivesse visto poderia confirmar, era tudo, menos cientfica  pornogrfica at, mas no cientfica, sem dvida. Um crtico ingls condenou O xtase de Santa Teresa, afirmando que era o ornamento mais imprprio que jamais fora colocado em uma igreja crist Langdon entendia a razo da controvrsia. Apesar de brilhantemente executada, a esttua representava Santa Teresa deitada de costas entregue a um orgasmo dos bons. Nada de acordo com o gosto do Vaticano.
    Langdon passou depressa para a descrio da obra no catlogo. Quando viu o desenho, sentiu uma instantnea e inesperada centelha de esperana. No esboo, Santa Teresa realmente parecia estar entregue ao gozo, mas havia uma outra figura que Langdon esquecera e que fazia parte do conjunto.
    Um anjo.
    A srdida lenda de repente voltou-lhe  memria...
    Santa Teresa era uma freira que fora santificada depois de afirmar que um anjo lhe fizera uma beatfica visita durante o sono. Os crticos mais tarde concluram que o encontro provavelmente havia sido mais sexual do que espiritual. Rabiscado ao p da pgina, Langdon leu um trecho conhecido do dirio da santa. As prprias palavras de Santa Teresa pouco deixavam para a imaginao:
... sua grande lana dourada... cheia de fogo... penetrou em mim vrias vezes... at minhas entranhas... uma doura to extrema que se desejaria que nunca cessasse.
    Langdon sorriu. Se isto no  uma metfora de sexo para valer, no sei o que . Sorriu tambm por causa da descrio da obra. Apesar de o pargrafo estar escrito em italiano, a palavra fuoco aparecia uma meia dzia de vezes.
... lana do anjo com a ponta de fogo...
... raios de fogo emanando da cabea do anjo...
... mulher inflamada pelo fogo da paixo...
    Langdon ainda no se convencera por completo at olhar de novo para o desenho. A lana de fogo do anjo estava erguida como um farol apontando o caminho. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. E at o tipo de anjo que Bernini escolhera parecia significativo.  um serafim, observou Langdon. Serafim significa literalmente o que  feito de fogo.
    Robert Langdon no era um homem que algum dia tivesse esperado por uma confirmao vinda do alto, mas quando leu o nome da igreja onde a escultura agora se encontrava resolveu que, afinal de contas, poderia comear a acreditar em alguma coisa.
    Santa Maria dela Vittoria.
    Vittoria, pensou ele, rindo. Perfeito.
    Ps-se de p meio cambaleante e sentiu uma tonteira. Olhou para o alto da escada, ponderando se deveria repor o livro no lugar. Ora, dane-se, pensou. O Padre Jaqui pode fazer isso depois. Fechou o livro e colocou-o educadamente ao p da estante.
    Quando se encaminhou para o boto luminoso na sada eletrnica da cmara, sua respirao estava curta. Ainda assim, sentia-se rejuvenescido por sua boa sorte.
    Sua boa sorte, porm, terminou antes que alcanasse a sada.
    Sem aviso, a cmara exalou um suspiro penoso. As luzes diminuram e o boto luminoso apagou-se. Ento, como um enorme animal que expira, o arquivo inteiro ficou s escuras. Algum desligara a energia eltrica. 

CAPTULO 85

    As Grutas Santas do Vaticano esto situadas sob o cho da Baslica de So Pedro.  l que so enterrados os Papas.
    Vittoria chegou ao fim da escada em espiral e entrou na gruta. O tnel escuro lembrava o do Grande Colisor de Hdrons do CERN, o acelerador de partculas  negro e frio. Iluminado agora apenas pela luz das lanternas da Guarda Sua, o tnel transmitia uma sensao nitidamente incorprea. Dos dois lados havia nichos cavados ao longo das paredes. Dentro desses vos, at onde a luz lhes permitia enxergar, assomavam volumosas as sombras dos sarcfagos.
    Um calafrio fez seu corpo estremecer.  o ar frio, disse a si mesma, sabendo entretanto que s em parte era verdade. Tinha a impresso de estarem sendo observados, no por algum de carne e osso, mas por espectros na penumbra. Em cima de cada tmulo, com todas as vestimentas papais, repousavam figuras em tamanho natural com os traos de cada Papa falecido, retratado como morto, os braos dobrados sobre o peito. Os corpos deitados pareciam emergir das tumbas como se pressionados de encontro s tampas de mrmore para tentar escapar de sua recluso mortal. A procisso de lanternas avanava e as silhuetas dos Papas subiam e desciam nas paredes, prolongando-se e desaparecendo como um macabro teatro de sombras.
    Cara um silncio sobre o grupo, Vittoria no saberia dizer se de respeito ou de apreenso. Ambos, talvez. O camerlengo andava de olhos fechados, como se soubesse de cor cada passo. Vittoria desconfiava que ele j fizera aquele lgubre passeio muitas vezes desde a morte do Papa, talvez para rezar junto  sua tumba em busca de orientao.
     Trabalhei sob a sua tutela durante muitos anos. Ele foi um pai para mim, dissera o camerlengo. Vittoria lembrou-se do camerlengo dizendo essas palavras ao se referir ao religioso que o salvara do exrcito. Agora, porm, ela compreendia o resto da histria. O mesmo homem que tomara o camerlengo sob sua proteo chegara mais tarde ao papado e levara consigo seu jovem protegido para servir como camarista.
    Isto explica muita coisa, pensou Vittoria. Ela sempre possura uma intuio bem afinada para as emoes ntimas das pessoas, e algo no camerlengo a vinha intrigando o dia inteiro. Desde que o encontrara, percebera nele uma angstia mais sentimental e pessoal do que a causada pela crise avassaladora que enfrentava naquele momento. Por trs daquela calma piedosa, via um homem atormentado por demnios particulares. No s enfrentava a ameaa mais devastadora da histria do Vaticano, como o fazia sem seu amigo e mentor, voando s.
    Os guardas diminuram o passo, como se no soubessem exatamente onde, naquela escurido, o ltimo Papa fora enterrado. O camerlengo continuou andando, seguro, e se deteve diante de uma tumba cujo mrmore ainda conservava um brilho que as outras no tinham mais. Deitada sobre ela, uma imagem esculpida do Papa falecido. Quando Vittoria reconheceu o rosto que via sempre na televiso, sentiu uma pontada de medo. O que estamos fazendo?
     Sei que no temos muito tempo  disse o camerlengo , mas ainda assim pediria que fizssemos uma rpida orao.
    Os guardas suos curvaram a cabea. Vittoria fez o mesmo, seu corao batendo forte naquele silncio. O camerlengo ajoelhou-se junto  tumba e rezou em italiano. Escutando aquelas palavras, Vittoria sentiu um pesar inesperado vir  tona em forma de lgrimas  lgrimas por seu prprio mentor, seu prprio santo pai. As palavras do camerlengo eram to adequadas para o Papa quanto para seu pai.
     Pai supremo, conselheiro, amigo.  A voz do camerlengo ecoava mansamente na roda de pessoas.  O senhor me disse, quando eu era jovem, que a voz de meu corao era a voz de Deus. Disse que eu deveria segui-la ainda que me levasse para caminhos difceis. Ouo essa voz agora, exigindo de mim tarefas impossveis. D-me foras. Conceda-me o perdo. O que fao  em nome de tudo em que o senhor acreditava. Amm.
     Amm  murmuraram os guardas.
     Amm, pai. Vittoria enxugou os olhos.
    O camerlengo levantou-se devagar e afastou-se da tumba.
     Empurrem a tampa para o lado.
    Os guardas suos ficaram indecisos.
     Signore  disse um deles , por lei, estamos sob suas ordens.  Fez uma pausa.  Faremos o que mandar...
    O camerlengo pareceu ler a mente do rapaz.
     Um dia, vou pedir perdo a vocs por t-los colocado nesta situao. Hoje, peo que me obedeam. As leis do Vaticano foram estabelecidas para proteger esta igreja. Com esse mesmo esprito, exijo que agora as infrinjam.
    Houve um momento de silncio e ento o lder dos guardas deu a ordem. Os trs homens colocaram as lanternas no cho e suas sombras saltaram para o alto. Iluminados de baixo para cima, aproximaram-se da tumba. Apoiaram as mos na tampa de mrmore na altura da cabeceira da tumba, plantaram os ps no cho com firmeza e prepararam-se para empurrar. A um sinal, todos empurraram juntos, retesados de encontro  enorme lpide. Ao ver que a lpide no se deslocara nem um pouco, Vittoria se deu conta de estar quase torcendo para que fosse pesada demais. Temia o que poderiam encontrar ali dentro.
    Os homens empurraram mais e a lpide no saiu do lugar.
     Ancora  disse o camerlengo, enrolando as mangas de sua batina e tomando posio para empurrar junto com eles.  Ora!  Todos empurraram ao mesmo tempo.
    Vittoria estava prestes a oferecer ajuda, quando a lpide comeou a deslizar. Os homens deram impulso outra vez e, com um rangido de pedra contra pedra que parecia um grunhido primal, a lpide girou em cima da tumba e parou formando um ngulo  a cabea esculpida do Papa dentro do nicho e seus ps estendidos no corredor.
    Todos recuaram. Tateando, um dos guardas abaixou-se e apanhou sua lanterna no cho. Depois, apontou-a para o interior da tumba. O facho de luz tremeu um pouco e ento o guarda o firmou. Os outros guardas reuniram-se ao primeiro, um a um. Mesmo no escuro, Vittoria percebeu que eles recuaram e, sucessivamente, se benzeram.
    O camerlengo estremeceu quando olhou para dentro da tumba e seus ombros caram, pesados. Ficou parado algum tempo antes de se virar.
    Vittoria receava que a boca do cadver estivesse cerrada com o rigor mortis e ela sugeriu que se quebrasse a mandbula para ver a lngua. Mas isso no seria necessrio. As faces haviam cado e a boca do Papa estava aberta.
    Sua lngua estava negra como a morte. 

CAPTULO 86

    Nenhuma luz. Nenhum som.
    Os Arquivos Secretos estavam imersos em negra escurido.
    O medo, notou Langdon, era um forte motivador. Sem flego, saiu vacilante na direo da porta rotativa. Encontrou o boto na parede e bateu nele com a palma da mo. Nada aconteceu. Tentou de novo. A porta estava desligada.
    Rodopiou s cegas, tentou chamar em voz alta, mas a voz saiu estrangulada.
    O estado crtico de sua situao tomou conta dele por completo. Seus pulmes lutavam por oxignio quanto mais a adrenalina acelerava sua batida cardaca.
    A sensao era a de um soco no estmago.
    Quando se atirou com todo o seu peso contra a porta, por um segundo achou que ela comeara a girar. Empurrou de novo e viu estrelas. Deu-se conta de que era a sala inteira que rodava, no a porta. Desequilibrou-se, tropeou na base de uma escada de rodzios e caiu pesadamente no cho. Cortou o joelho na quina de uma estante. Xingando, levantou-se e saiu procurando a escada.
    Encontrou-a. Esperava que fosse de madeira pesada ou de ferro, mas era de alumnio. Agarrou-a, segurou-a como um arete e correu com ela no escuro para a parede de vidro. A parede ficava mais perto do que ele imaginara. A escada bateu e voltou. Pelo som fraco da coliso, ele percebeu que precisaria de muito mais do que uma escada de alumnio para quebrar aquele vidro.
    Ocorreu-lhe usar o revlver, mas suas esperanas se esvaram to depressa quanto haviam surgido. A arma no estava mais com ele. Olivetti a tomara dele no escritrio do Papa, dizendo que no queria armas carregadas por perto com o camerlengo presente. Na hora, fizera sentido.
    Langdon chamou de novo, produzindo ainda menos som do que antes.
    Em seguida, lembrou-se do walkie-talkie que o guarda deixara na mesa fora da cmara. Por que diabos no o trouxe para dentro! Estrelinhas roxas comearam a danar diante de seus olhos e ele se esforou para pensar. Voc j ficou preso antes, disse a si mesmo. J sobreviveu a coisa pior. Era s uma criana e conseguiu se safar. A escurido tenebrosa inundou tudo. Pense!
    Langdon ento se abaixou, deitou de costas no cho e estendeu os braos ao lado do corpo. O primeiro passo era recuperar o autocontrole.
    Relaxe. Poupe-se.
    Sem ter mais que lutar contra a gravidade para bombear o sangue, o corao de Langdon comeou a bater mais devagar. Aquele era um truque que os nadadores usavam para reoxigenar o sangue entre competies subseqentes.
    Tem ar mais do que suficiente aqui dentro, disse a si mesmo. Mais do que suficiente. Agora, pense. Esperou, quase acreditando que a luz voltaria a qualquer momento. No voltou. Deitado ali, conseguindo respirar melhor, uma sinistra resignao o invadiu. Sentiu-se em paz. E lutou contra aquela sensao.
    Voc vai se mexer, droga! Mas onde...
    No seu pulso, Mickey Mouse brilhava alegremente, como se estivesse gostando do escuro: 9h33 da noite. Meia hora para o Fogo. Tinha a impresso de que fosse muito mais tarde. Em sua cabea, em vez de um plano para sair dali, vinham perguntas, a necessidade de uma explicao. Quem teria desligado a luz? Ser que teria sido Rocher, expandindo sua busca? E Olivetti, por que no informou Rocher que eu estava aqui dentro? Langdon sabia entretanto que, quela altura, no fazia diferena alguma.
    Abrindo bem a boca e inclinando um pouco a cabea para trs, conseguia inalar o mais fundo que lhe era possvel. A cada vez, a respirao ardia menos do que a anterior. Sua mente clareou. Reorganizou seus pensamentos e forou as engrenagens a se movimentarem.
    Paredes de vidro, ponderou. Mas um vidro danado de grosso.
    Conjeturou se haveria livros guardados em um daqueles arquivos de ao pesados,  prova de fogo. Langdon j os encontrara algumas vezes em outros lugares, mas no vira nenhum ali. Alm disso, procurar no escuro levaria tempo demais. No que ele, de qualquer modo, fosse capaz de levantar um arquivo de ao, ainda mais naquele estado.
    Que tal a mesa de exame? Sabia que naquela cmara, como na anterior, havia uma no meio das estantes. E da? No conseguiria levant-la tambm. Sem falar que, mesmo que tivesse foras para arrastar a mesa, no poderia ir muito longe. As estantes ficavam muito juntas e as passagens entre elas eram estreitas demais.
    As passagens so estreitas...
    De repente, soube o que iria fazer.
    Em um rompante de confiana, ps-se de p mais depressa do que deveria. Tonto, estendeu a mo  procura de um ponto de apoio. Sua mo encontrou uma estante. Parou alguns segundos, obrigando-se a poupar energia. Precisaria de toda a sua fora para fazer o que pretendia.
    Encostou o corpo na estante, firmou os ps no cho e empurrou. Se conseguir fazer a estante se inclinar... Mas ela nem se moveu. Mudou de posio e empurrou outra vez. Seus ps escorregaram para trs. A estante rangeu, mas nem se abalou.
    Precisava de uma alavanca.
    Encontrou a parede de vidro de novo e pousou uma das mos nela, correndo at o fim da cmara. A parede do fundo surgiu de repente e ele bateu com o ombro nela. Soltou um palavro, contornou a prateleira e agarrou a estante na altura do seu rosto. Em seguida, escorando um dos ps na parede de vidro atrs de si e o outro nas prateleiras inferiores, comeou a subir. Livros caam em torno dele, farfalhando na escurido. Nem se importou. O instinto de sobrevivncia h muito que superara seu decoro arquivstico. Reparou que a escurido total afetava seu equilbrio e fechou os olhos, incentivando sua mente a ignorar o estmulo visual. Aos poucos foi se deslocando com mais rapidez. Quanto mais subia, mais rarefeito ficava o ar. Chegou com grande esforo s prateleiras do alto, pisando nos livros, procurando apoio, puxando o corpo para cima. Ento, como um alpinista que acabou de conquistar uma plataforma de pedra, alcanou a ltima prateleira. Estendendo as pernas para trs, fez seus ps andarem pela parede de vidro at seu corpo ficar quase na horizontal.
     agora ou nunca, Robert, uma voz animou-o. Igual ao aparelho de musculao para as pernas da academia de ginstica de Harvard.
    Com um esforo sobre-humano, firmou os ps na parede atrs de si, encostou o peito e os braos na estante e empurrou. Nada aconteceu.
    Lutando para respirar, reposicionou-se e tentou de novo, esticando as pernas. A estante mexeu-se ligeiramente, ele empurrou outra vez, a estante balanou uns centmetros para a frente e voltou. Langdon aproveitou o balano, inalando o que lhe pareceu uma ausncia total de oxignio e deu novo impulso. A estante oscilou mais um pouco.
     Como um balano, disse consigo.  Mantenha o ritmo. Um pouco mais.
    Langdon balanava a estante esticando mais as pernas a cada impulso. Seus quadrceps ardiam, mas ele procurava bloquear a dor. O pndulo estava em movimento. Trs empurres mais, incentivou a si mesmo.
    S precisou de dois.
    Houve um instante de incerteza, de ausncia de peso. Depois, com uma trovoada de livros escorregando das prateleiras, Langdon e a estante caram para a frente.
    No meio do caminho, a estante bateu na estante seguinte. Langdon segurou-se, jogando seu peso para a frente, obrigando a segunda estante a tombar. Um segundo de pnico imvel e, estalando com o peso, a segunda estante comeou a inclinar-se. Langdon recomeou a cair.
    Tal e qual enormes peas de domin, as estantes tombaram uma aps a outra. Metal chocando-se com metal, livros vindo abaixo por todos os lados, Langdon segurou-se como pde enquanto sua estante se inclinava como uma lingeta de catraca em um macaco de automvel. Tentava calcular quantas estantes haveria no total. Quanto pesariam? O vidro na outra extremidade da cmara era grosso...
    A estante de Langdon cara em uma posio quase horizontal quando ele ouviu o que esperava  um tipo diferente de coliso. Longe. Do outro lado da cmara. O choque estridente do metal no vidro. A cmara  sua volta foi sacudida e ele teve certeza de que a ltima estante, derrubada pelo peso das outras, batera violentamente no vidro, O som que se seguiu foi o menos bem-vindo que ele ouvira at ento.
    Silncio absoluto.
    No houve o rudo do vidro se despedaando, s o baque surdo do peso das estantes todas juntas encostando-se na parede. Langdon ficou parado em cima da pilha dos livros, os olhos arregalados,  espera. Em algum ponto distante houve um estalo. Langdon teria de bom grado prendido a respirao para escutar melhor se ainda conseguisse respirar.
    Um segundo. Dois...
    Ento,  beira da inconscincia, Langdon ouviu algo ceder, um murmrio propagando-se pelo vidro afora. De repente, igual a um tiro de canho, o vidro explodiu. A estante sobre a qual ele estava acabou de despencar.
    Como uma deliciosa chuva no deserto, estilhaos de vidro caram tilintando no escuro. Houve um grande silvo de suco e o ar entrou jorrando. Trinta segundos depois, nas Grutas do Vaticano, Vittoria estava de p diante de um cadver quando o rudo eletrnico de um walkie-talkie rompeu o silncio. A voz alta e aguda soou arquejante.
     Aqui  Robert Langdon! Algum est me ouvindo?
    Vittoria levantou depressa a cabea. Robert! Mal acreditava o quanto desejava que ele estivesse ali naquela hora.
    Os guardas trocaram olhares, confusos. Um deles tirou o aparelho do cinto.
     Senhor Langdon? O senhor est no canal trs, O comandante est esperando para falar com o senhor no canal um.
     Sei que ele est no canal um, droga! No quero falar com ele. Quero falar com o camerlengo. Agora! Algum o encontre para mim!
    Na obscuridade dos Arquivos Secretos, Langdon encontrava-se no meio de pedaos espatifados de vidro e tentava recuperar o flego. Sentiu algo quente escorrendo em sua mo e notou que estava sangrando. A voz do camerlengo veio de imediato, fazendo-o assustar-se.
     Aqui  o camerlengo Ventresca. O que est havendo?
    Langdon apertou o boto, o corao ainda batendo forte.
     Acho que algum tentou me matar!
    Fez-se silncio do outro lado da linha.
    Langdon procurou acalmar-se.
     Tambm sei onde vai ser o prximo assassinato.
    A voz que ouviu de volta no foi a do camerlengo. Foi a do comandante Olivetti.  Senhor Langdon. No diga mais nenhuma palavra. 

CAPTULO 87

    O relgio de Langdon, todo lambuzado de sangue, marcava 9h41 quando ele atravessou correndo o Ptio do Belvedere e se aproximou da fonte diante do centro de segurana da Guarda Sua. Sua mo parara de sangrar e agora doa mais do que sua aparncia fazia supor. Quando ele chegou, foi como se todos tivessem chegado tambm ao mesmo tempo  Olivetti, Rocher, o camerlengo, Vittoria e uma poro de guardas.
    Vittoria correu para ele.
     Robert, voc est machucado.
    Antes que Langdon pudesse responder, Olivetti postou-se diante dele.
     Senhor Langdon,  um alvio v-lo bem. Sinto muito pelas falhas de comunicao nos Arquivos.
     Falhas de comunicao?  reclamou Langdon.  Voc sabia muito bem...
     Foi minha culpa  adiantou-se Rocher, com ar contrito.  No sabia que o senhor estava nos Arquivos. Parte de nossas zonas brancas tem ligao com aquele prdio. Estvamos ampliando nossa busca. Fui eu quem desligou a energia eltrica. Se tivesse sabido...
     Robert  disse Vittoria, segurando a mo ferida dele e examinando-a  o Papa foi envenenado, Os Illuminati o mataram.
    Langdon ouviu as palavras, mas no as registrou. Estava exausto. S era capaz de sentir o calor das mos de Vittoria.
    O camerlengo tirou um leno de seda de sua batina e o entregou a Langdon para que ele se limpasse. O homem no dizia nada. Seus olhos pareciam brilhar com um novo fogo.
     Robert  insistiu Vittoria , voc disse que descobriu onde o prximo cardeal vai ser morto?
    Langdon sentia-se meio frvolo.
     Descobri,  na...
     No  interrompeu Olivetti.  Senhor Langdon, quando lhe pedi para no dizer mais nada no walkie-talkie, havia um motivo.  Virou-se para os guardas suos que os rodeavam.  Senhores, dem-nos licena.
    Os soldados desapareceram no centro de segurana. Sem qualquer indignidade. S submisso.
    Olivetti voltou-se para o grupo que restara.
     Por mais que seja doloroso para mim dizer isto, o assassinato do nosso Papa foi um ato perpetrado com a ajuda de algum que vive dentro destes muros. Para o bem de todos, no podemos confiar em mais ningum. At mesmo em nossos guardas.  Ele parecia estar sofrendo ao falar aquilo.
    Rocher, ansioso, disse:
     Conspirao interna, quer dizer que...
     Sim  disse Olivetti , que a validade de sua busca est comprometida. No entanto,  um risco que temos de correr. Continue procurando.
    Rocher ia dizer alguma coisa, mas pensou melhor e foi embora. O camerlengo respirou fundo. Ainda no dissera uma palavra sequer e Langdon notou que havia uma nova austeridade no homem, como se tivesse chegado a um momento decisivo.
     Comandante?  a voz do camerlengo era impenetrvel.  Vou interromper o conclave.
    Olivetti apertou os lbios, obstinado.
     No aconselho que faa isso. Ainda temos duas horas e vinte minutos.
      quase nada.
    O tom de Olivetti agora tinha um qu de desafio.
     O que pretende fazer? Tirar os cardeais do Vaticano sozinho?
     Pretendo salvar esta igreja com o poder que Deus me concedeu, seja qual for. Como vou agir no  mais da sua conta.
    Olivetti aprumou o corpo.
     O que quer que v fazer...  ele fez uma pausa  no tenho autoridade para impedi-lo. Principalmente depois do meu fracasso como chefe de segurana. Peo-lhe apenas que espere. Espere vinte minutos, at depois de dez horas. Se a informao do senhor Langdon estiver correta, ainda posso ter uma chance de apanhar esse assassino. Existe ainda uma chance de manter o protocolo e o decoro.
     Decoro?  o camerlengo deixou escapar uma risada abafada.  J deixamos a compostura para trs h muito tempo, comandante. Caso no tenha percebido, isto  uma guerra.
    Um guarda saiu do centro de segurana e falou com o camerlengo.
     Signore, acabei de receber a informao de que detivemos o reprter da BBC, o senhor Glick.
    O camerlengo fez um sinal com a cabea e disse:
     Faa com que ele e sua cinegrafista me encontrem do lado de fora da Capela Sistina.
    Os olhos de Olivetti arregalaram-se.
     O que vai fazer?
     Vinte minutos, comandante. S lhe dou mais vinte minutos.
    E se foi.
    Quando o Alpha Romeo de Olivetti saiu correndo da Cidade do Vaticano, dessa vez no havia a fila de carros sem identificao vindo atrs dele. No banco traseiro, Vittoria fazia um curativo na mo de Langdon, usando o material de um estojo de primeiros-socorros que encontrara no porta-luvas. Olivetti olhava para a frente.
     Ento, senhor Langdon, para onde vamos? 

CAPTULO 88

    Mesmo com a sirene agora instalada e ligada, o carro de Olivetti no parecia ser notado enquanto atravessava a ponte em louca disparada para o corao da cidade velha. Todo o trfego estava indo na direo contrria, para o Vaticano, como se ir para a Santa S de uma hora para outra tivesse se tornado o programa mais divertido de Roma.
    Langdon ia sentado no banco de trs, um torvelinho de perguntas agitando-se em sua cabea. Pensava no assassino, se iriam peg-lo desta vez, se ele lhes diria o que precisavam saber, se j no seria tarde demais. Quanto tempo teriam at que o camerlengo anunciasse ao povo na Praa de So Pedro que estavam em perigo? O incidente nos Arquivos ainda o intrigava. Um engano.
    Olivetti nem uma nica vez pisou no freio enquanto ziguezagueava com o barulhento Alpha Romeo rumo  igreja de Santa Maria della Vittoria. Langdon sabia que em qualquer outra ocasio os ns de seus dedos estariam brancos. No momento, porm, sentia-se anestesiado. S a mo latejante lembrava-lhe onde estava.
    E a sirene do carro uivava acima de suas cabeas. Nada melhor para avisar a ele que estamos chegando, pensou Langdon. Mas avanavam numa rapidez incrvel. Olivetti provavelmente desligaria a sirene quando chegassem mais perto.
    Com um pouco de tempo para refletir, ele se enchia de assombro com o assassinato do Papa, agora que afinal assimilava a notcia. A idia era inconcebvel e no entanto, ao mesmo tempo, parecia um acontecimento bastante lgico. A infiltrao sempre havia sido a base do poder dos Illuminati  a redistribuio interna do poder. E no era a primeira vez que assassinavam um Papa. Existiam inmeros boatos de traies passadas, mas, como no se fazia autpsia, nenhuma jamais fora confirmada. At recentemente. Alguns acadmicos haviam obtido permisso para radiografar a tumba do Papa Celestino V, que supostamente morrera nas mos de seu muito apressado sucessor, Bonifcio VIII. Os pesquisadores esperavam que os raios X pudessem revelar algum pequeno indcio de perfdia  um osso quebrado, no mximo. Mas o que se viu foi um prego de 25 centmetros enfiado no crnio do Papa.
    Langdon tambm se lembrou de diversos recortes de jornal que outros estudiosos dos Illuminati lhe haviam enviado anos atrs. A princpio, achando que se tratasse de uma brincadeira, ele consultara os arquivos de microfichas de Harvard para confirmar se os artigos eram mesmo autnticos. E eram. Pregara-os no seu quadro de avisos como exemplos de como at respeitveis rgos de notcias podiam ser tomados pela parania dos Illuminati. Naquela hora, porm, as suspeitas da mdia pareciam-lhe bem menos paranicas. Os textos dos artigos estavam bem claros em sua memria... 
    
THE BRITISH BROADCASTING CORPORATION
14 de junho de 1998
    O Papa Joo Paulo 1, que morreu em 1978, foi vtima de uma trama arquitetada pela Loja Manica P2... A sociedade secreta P2 decidiu matar Joo Paulo 1 quando soube que ele iria demitir o arcebispo norte-americano Paul Marcinkus da presidncia do Banco do Vaticano, O banco esteve implicado em nebulosos acordos financeiros com a Loja Manica...
    
THE NEW YORK TIMES
24 de agosto de 1998
    Por que o falecido Joo Paulo 1 estava na cama vestido com a camisa que usava durante o dia? Por que a camisa estava rasgada? As perguntas no param a. Nenhuma investigao mdica foi realizada, O cardeal Villot proibiu a autpsia alegando que nenhum Papa fora submetido a um exame desses. E os remdios de Joo Paulo 1 desapareceram misteriosamente de sua mesa-de-cabeceira, assim como seus culos, seus chinelos e seu testamento.

LONDON DAILY MAIL
27 de agosto de 1998
    ...uma conspirao envolvendo uma poderosa, implacvel e ilegal loja manica com tentculos que chegam at o Vaticano.
    
    O celular no bolso de Vittoria tocou, felizmente apagando aqueles pensamentos da cabea de Langdon. Vittoria atendeu, sem imaginar quem poderia estar ligando para ela. Mesmo de longe, Langdon reconheceu a voz cortante como laser que falava do outro lado.
     Vittoria? Aqui  Maximilian Kohler. J encontraram a antimatria?
     Max? Voc est bem?
     Vi as notcias. No fizeram referncia ao CERN nem  antimatria. Isto  bom. O que est acontecendo?
     Ainda no localizamos o tubo. A situao aqui est bastante complicada. Robert Langdon tem sido de grande ajuda. Conseguimos uma vantagem sobre o homem que est assassinando os cardeais. Neste momento, estamos indo para...
     Senhorita Vetra  interrompeu Olivetti.  J falou demais.
    Ela cobriu o bocal do telefone, aborrecida.
     Comandante, ele  o presidente do CERN. Tem o direito de saber...
     Ele teria o direito  retrucou Olivetti  de estar aqui lidando com esta situao. A senhorita est falando em uma linha aberta de celular. E j falou demais.
    Vittoria suspirou.
     Max?
     Tenho uma informao para voc  disse Max , sobre seu pai... Talvez eu saiba com quem ele falou a respeito da antimatria.
    O rosto de Vittoria anuviou-se.
     Max, meu pai disse que no contou nada a ningum.
     Receio, Vittoria, que seu pai tenha contado tudo a algum. Preciso verificar alguns registros confidenciais. Volto a entrar em contato com voc em breve.
    E desligou.
    Vittoria estava plida quando ps de novo o telefone no bolso.
     Voc est bem?  perguntou Langdon.
    Ela sacudiu a cabea, as mos trmulas denunciando a mentira.
     A igreja fica na Piazza Barberini  disse Olivetti, desligando a sirene e verificando seu relgio.  Temos nove minutos.
    Assim que Langdon descobriu qual era o terceiro marco, a localizao da igreja soou-lhe conhecida, mas no conseguia associar com qu. Piazza Barberini...
    Agora sabia o que era. A piazza tinha a ver com uma discutida estao de metr. Vinte anos antes, a construo de um terminal de metr criara grande alvoroo entre os historiadores de arte, que temiam que as escavaes sob a Piazza Barberini fizessem tombar um obelisco de muitas toneladas que havia no centro da praa. Os urbanistas removeram o obelisco e o substituram por uma pequena fonte chamada o Trito.
    No tempo de Bernini, concluiu Langdon, a Piazza Barberini tinha um obelisco! Qualquer dvida que Langdon tivesse sobre a localizao do terceiro marco teria se evaporado naquele instante.
    A um quarteiro da piazza, Olivetti entrou em uma viela, acelerou at o meio do caminho e parou com uma derrapada. Tirou o palet do uniforme, enrolou as mangas da camisa e carregou sua arma.
     No podemos correr o risco de vocs serem reconhecidos  disse.  Os dois apareceram na televiso. Quero que vo para o lado oposto da piazza, fora da vista, e observem a entrada da frente. Vou entrar por trs.  Pegou o revlver e entregou-o a Langdon.  S para garantir.
    Langdon franziu a testa. Era a segunda vez naquele dia que lhe davam aquela arma. Guardou-a no bolso interno do palet. Ao faz-lo, reparou que ainda carregava o flio do Diagramma. Esquecera de deix-lo nos Arquivos! Imaginou o curador do Vaticano contorcendo-se em espasmos de raiva pela afronta de saber que seu documento de valor incalculvel andara de um lado para outro em Roma como se fosse um mapa turstico. Depois, Langdon pensou na confuso de vidros quebrados e livros espalhados que deixara para trs. O curador teria outros problemas. Caso os arquivos durassem at o dia seguinte... Olivetti saiu do carro e apontou para trs.
     A piazza fica para aquele lado. Fiquem de olhos bem abertos e no deixem que ningum os veja.  Deu um tapinha no telefone em seu cinto.  Senhorita Vetra, vamos testar de novo nossa autodiscagem.
    Vittoria tirou seu telefone do bolso e apertou o nmero que ela e Olivetti tinham programado no Panteo. O telefone de Olivetti vibrou, com a campainha desligada, no seu cinto.
    O comandante disse:
     Muito bem, se virem alguma coisa, quero que me digam  e engatilhou a arma.  Vou estar l dentro esperando. Esse herege  meu.
    Naquele mesmo momento, bem perto dali, outro telefone celular tocou.
    O Hassassin atendeu.
     Fale.
     Sou eu, Janus.
    O Hassassin sorriu.  Ol, mestre.
      possvel que saibam onde voc est. E saram para tentar impedir que voc aja.
     Vo chegar tarde. J fiz os preparativos aqui.
     timo. Procure escapar com vida. Ainda h trabalho para ser feito.
     Os que se atravessarem no meu caminho vo morrer.
     Eles so instrudos.
     Est falando do especialista americano?
     Sabe quem ?
    O Hassassin deu uma risadinha.
      calmo mas ingnuo. Falei com ele ao telefone algumas horas atrs. Est com uma mulher que parece ser o oposto.
    O matador sentiu-se excitado ao lembrar o temperamento fogoso da filha de Leonardo Vetra.
    Houve um silncio momentneo na linha, a primeira hesitao que o Hassassin percebia em seu mestre Illuminati. Finalmente, Janus falou.
     Elimine-os se for necessrio.
    O matador riu.
     Considere isso feito.
    Uma clida expectativa espalhou-se por seu corpo. Embora talvez eu guarde a mulher como recompensa. 

CAPTULO 89

    Explodira uma guerra na Praa de So Pedro.
    A praa irrompera em um frenesi agressivo. Os furges da mdia tomavam posio cantando pneus, como se fossem veculos de assalto ocupando posies estratgicas. Reprteres desenrolavam fios de equipamentos de ltima gerao com um nervosismo de soldados armando-se para uma batalha. Em toda a praa, as redes de emissoras disputavam uma posio e corriam para levantar a mais nova arma das guerras da mdia  os displays de tela plana.
    Estes eram enormes telas de vdeo que podiam ser montadas no alto dos furges ou em armaes portteis. Serviam como uma espcie de anncio de outdoor para a rede, transmitindo a sua cobertura e ostentando o seu logotipo como um cinema ao ar livre. Se a tela ficasse bem situada  na frente do local da ao, por exemplo , uma rede concorrente no poderia filmar a histria sem fazer ao mesmo tempo a propaganda da adversria.
    A praa rapidamente se transformava no s em um extravagante espetculo multimdia, como em uma nervosa viglia pblica. Chegavam pessoas de todas as direes. Espao em um local que habitualmente no tinha limites comeava a ser um artigo valioso. Os espectadores amontoavam-se em torno das imensas telas e assistiam, agitados, atordoados, s reportagens ao vivo.
    
    A apenas uns 100 metros de distncia, dentro das grossas paredes da Baslica de So Pedro, o mundo estava sereno. O tenente Chartrand e trs outros guardas andavam em meio  escurido. Usando seus culos infravermelhos, cruzavam a nave movendo seus detectores de um lado para outro  sua frente. A busca nas reas do Vaticano abertas ao pblico at ento no dera em nada.
      melhor tirar os culos aqui  disse o guarda mais velho.
    Chartrand j estava fazendo isto. Aproximavam-se do Nicho dos Plios  o local rebaixado no centro da baslica. A luz de 99 lamparinas de leo atravs do infravermelho teria queimado os olhos deles.
    Chartrand ficou satisfeito por tirar os pesados culos e aproveitou para alongar o pescoo enquanto desciam ao nicho para fazer a varredura daquela rea. O aposento era muito bonito, dourado e luminoso. Ele nunca estivera ali antes.
    Parecia que, desde a sua chegada na Cidade do Vaticano, todos os dias Chartrand descobria um novo mistrio daquele lugar. Aquelas lamparinas de leo eram um deles. Exatamente 99, acesas permanentemente. Era a tradio. Os sacerdotes, vigilantes, enchiam as lamparinas com os leos sagrados de modo que nenhuma se apagasse. Dizia-se que queimariam at o fim dos tempos.
    Ou no mnimo at a meia-noite de hoje, pensou Chartrand, com a boca seca de novo.
    Chartrand passou seu detector sobre as lamparinas de leo. Nada escondido ali. No se surpreendeu. O tubo, de acordo com a imagem do vdeo, estava escondido em uma rea escura.
    Andando pelo nicho, chegou a uma grade que cobria uma abertura no cho. A abertura levava a uma escada ngreme e estreita que descia em linha reta. Ouvira histrias sobre o que havia l embaixo. Ainda bem que no teriam de descer. As ordens de Rocher tinham sido bem claras. Procurem apenas nas reas abertas ao acesso do pblico.  Que cheiro  esse?  perguntou, afastando-se da grade. Havia um perfume muito forte e doce no ar.
     Vem das lamparinas  um deles explicou.
    Chartrand surpreendeu-se.
     Cheira mais a colnia do que a querosene.
     No  querosene. Essas lamparinas esto prximas ao altar do Papa, de modo que se usa nelas uma mistura especial: etanol, acar, butano e perfume.
     Butano?  Chartrand olhou para as lamparinas, apreensivo.
    O guarda confirmou.
     Cuidado para no entornar nenhuma delas. A mistura tem cheiro de gua-de-colnia, mas queima como fogo.
    Os guardas haviam terminado a busca no Nicho dos Plios e estavam andando pela baslica quando seus walkies-talkies comearam a funcionar juntos.
    Era um alerta geral. Os guardas pararam para escutar, pasmos.
    Pelo jeito, teriam surgido novos transtornos que no podiam ser transmitidos pelos aparelhos, mas o camerlengo resolvera quebrar a tradio e entrar no conclave para falar com os cardeais. Nunca antes na Histria isto havia acontecido. Mas tambm, concluiu Chartrand, nunca antes o Vaticano estivera sob a ameaa de algo parecido com uma ogiva nuclear neotrica.
    O que tranqilizava Chartrand era saber que o camerlengo estava assumindo o controle. Ele era a pessoa dentro do Vaticano a quem Chartrand mais respeitava. Alguns dos guardas consideravam-no um beato  um fantico religioso cujo amor a Deus beirava a obsesso , mas at eles concordavam que, quando se tratava de combater os inimigos de Deus, o camerlengo era o homem certo para entrar na briga e jogar duro.
    A Guarda Sua tivera muito contato com o camerlengo naquela semana de preparao do conclave e todos tinham comentado que o homem parecia meio rspido, os olhos verdes mais intensos do que de costume. No era  toa, diziam. Ele era o responsvel por todo o planejamento do conclave e ainda por cima tinha de providenciar tudo aquilo logo depois da perda de seu mentor, o Papa.
    Havia poucos meses que Chartrand estava no Vaticano quando ouvira a histria da bomba que matara a me do camerlengo na frente do menino. Uma bomba na igreja e agora est acontecendo tudo de novo. Infelizmente, as autoridades nunca prenderam os desgraados que instalaram a tal bomba, provavelmente algum grupo extremista anticristo, disseram, e o caso cara no esquecimento. Talvez fosse por isso que o camerlengo no gostava de apatia.
    Uns dois meses antes, em uma tarde sossegada, Chartrand cruzara com o camerlengo vindo por um dos caminhos que cortavam a Cidade do Vaticano.
    O sacerdote reconhecera Chartrand como um dos novos guardas e convidara-o para acompanh-lo em um passeio a p. No conversaram sobre nenhum assunto em especial, mas o camerlengo fez Chartrand sentir-se imediatamente  vontade.
     Padre  disse Chartrand , posso lhe fazer uma pergunta esquisita?
    O camerlengo sorriu.
     S se eu puder lhe dar uma resposta esquisita.
    Chartrand achou graa.
     J perguntei isto a todos os padres que conheo e continuo no entendendo.
     O que  que voc no entende?
    O camerlengo ia na frente em passos rpidos, o p levantando a ponta da batina quando ele andava. Os sapatos eram pretos, de sola crepe, e combinavam com ele, pensou Chartrand, como se refletissem a essncia do homem moderno mas modesto e mostrando sinais de desgaste.
    Chartrand respirou fundo.
     No entendo o que vem a ser uma onipotncia benevolente.
    O camerlengo sorriu.
     Voc anda lendo a Sagrada Escritura.
     Eu tento.
     E est confuso porque a Bblia define Deus como uma divindade onipotente e benevolente.
     Exato.
     Onipotente e benevolente significa apenas que Deus  todo-poderoso e bem-intencionado.
     Compreendo o conceito.  que parece haver uma contradio a.
     Sim. A contradio  a dor. A fome, as guerras, as doenas.
     Exatamente!  Chartrand sabia que o camerlengo compreenderia.  Coisas terrveis acontecem neste mundo. A tragdia humana  como uma prova de que Deus no pode ser simultaneamente todo-poderoso e bem-intencionado. Se Ele nos ama e tem o poder de mudar nossa situao, Ele deveria tambm evitar nossas dores, no ?
     Deveria mesmo?  perguntou o camerlengo.
    Chartrand ficou embaraado. Teria passado dos limites? Ser que se tratava de uma daquelas perguntas religiosas que no se devia fazer?  Bem, se Deus nos ama, se  capaz de nos proteger, Ele deveria, sim. Parece que Ele  onipotente e indiferente ou, ao contrrio, benevolente e incapaz de nos ajudar.
     Tem filhos, tenente?
    Chartrand enrubesceu.
     No, signore.
     Imagine se tivesse um filho de oito anos. Voc o amaria?
     Claro.
     E faria tudo o que pudesse para evitar que ele sofresse na vida?
     Claro que sim.
     E deixaria que ele andasse de skate?
    Chartrand estacou, admirado. O camerlengo parecia singularmente por dentro para um sacerdote.
     Sim, acho que sim  disse Chartrand.  Com certeza deixaria que andasse de skate, mas diria a ele para ter cuidado.
     Quer dizer que, como pai desse menino, voc lhe daria uns bons conselhos bsicos e deixaria que sasse e cometesse seus prprios erros?
     Eu no correria atrs dele para mim-lo, se  o que o senhor quer dizer.
     E se ele casse e ralasse o joelho?
     Ele aprenderia a ser mais cuidadoso.
    O camerlengo sorriu de novo.
     Ento, quer dizer que, mesmo tendo o poder de interferir e evitar que seu filho sentisse dor, voc optaria por demonstrar seu amor deixando-o aprender suas prprias lies?
     Claro, a dor  parte do crescimento.  como aprendemos.
    O camerlengo sacudiu a cabea.
     Exatamente. 

CAPTULO 90

    Langdon e Vittoria observavam a Piazza Barberini das sombras de uma viela. A igreja ficava do lado oposto ao local onde se encontravam, a cpula enevoada emergindo de um vago aglomerado de construes do outro lado da praa. A noite trouxera consigo um frescor agradvel e Langdon no esperava encontrar a praa to deserta. Acima deles, pelas janelas abertas, o som das televises ligadas lembrou-lhe onde estavam as pessoas todas.
     ...o Vaticano ainda no se pronunciou ... assassinos Illuminati de dois cardeais ...presena satnica em Roma ...especulaes sobre maior infiltrao...
    As notcias se espalhavam como o incndio de Nero. Roma inteira estava siderada, assim como o resto do mundo. Langdon pensava se de fato eles seriam capazes de interromper o percurso daquele trem descontrolado.
    Examinando a praa enquanto esperava, ele notou que, apesar da invaso de edifcios modernos, a piazza ainda era notavelmente elptica. No alto, como uma espcie de moderno sacrrio para um heri do passado, um enorme letreiro de non piscava no teto de um hotel de luxo. Vittoria j o havia mostrado a Langdon. O letreiro parecia sinistramente adequado.
HOTEL BERNINI
     Cinco para as dez  disse Vittoria, seus olhos felinos percorrendo viva mente a praa.
    Mal tinha acabado de falar, agarrou o brao de Langdon e puxou-o para trs, escondendo-os na escurido. Fez um gesto em direo ao meio da praa.
    Langdon acompanhou o gesto dela. Quando viu o que apontava, ele ficou tenso. Atravessando a praa sob a luz de um poste, surgiram duas figuras sombrias.
    Ambas usavam capas e as cabeas vinham cobertas por xales negros, o acessrio tradicional das vivas catlicas. Poderiam ser mulheres, mas  noite no dava para se ter certeza. Um dos vultos parecia mais velho e movia-se como se sentisse dor, curvado, O outro, mais alto e forte, ajudava-o.
     Passe o revlver  disse Vittoria.
     Voc no pode ir...
    gil como um gato, ela ps a mo no bolso dele e pegou mais uma vez a arma. O metal do revlver cintilou. Ento, em silncio absoluto, como se seus ps nem tocassem as pedras do calamento, ela rodeou a praa pela esquerda, sempre no escuro, para se aproximar da dupla pelas costas. Langdon ficou paralisado ao v-la desaparecer. Depois, praguejando em voz baixa, saiu atrs dela.
    A dupla avanava devagar e bastou meio minuto para Langdon e Vittoria postarem-se atrs deles e irem se aproximando aos poucos. Vittoria escondeu o revlver sob os braos cruzados displicentemente, fora da vista mas acessvel em um instante.  medida que o espao entre eles diminua, ela dava a impresso de flutuar cada vez mais depressa, e Langdon se esforava para acompanh-la. Quando o sapato dele esbarrou em uma pedra que saiu quicando, Vittoria fulminou-o com um olhar de soslaio. Os dois vultos no escutaram, porm. Estavam falando.
    A uns dez metros de distncia, Langdon comeou a ouvir suas vozes. Mas no distinguiu nenhuma palavra. S leves murmrios. Ao lado dele, Vittoria andava mais rpido a cada passada, com os braos mais soltos e o revlver comeando a aparecer. Seis metros. As vozes ficaram mais ntidas  uma delas muito mais alta do que a outra. Zangada. Reclamando. Parecia a voz de uma mulher idosa. Rouca. Andrgina. Tentou ouvir o que ela dizia quando uma outra voz cortou o silncio da noite.
     Mi scusi! 
    O tom amistoso de Vittoria iluminou a praa como um holofote.
    Langdon retesou-se ao ver o par embrulhado em suas capas parar de repente e comear a virar. Vittoria continuava a andar na direo das duas pessoas mais depressa ainda, em rota de coliso. De trs, Langdon viu os braos dela se soltarem, a mo surgir e o revlver balanar para a frente. Depois, por cima do ombro dela, enxergou um rosto iluminado pela luz do poste de rua. O pnico fez suas pernas agirem e ele se precipitou para diante.
     Vittoria, no!
    Vittoria, contudo, parecia estar uma frao de segundo  frente dele. Em um movimento to ligeiro quanto natural, ela levantou os braos de novo fazendo desaparecer o revlver enquanto cingia o prprio corpo, como fazem as mulheres em uma noite fria. Langdon chegou tropeando ao lado dela, quase se chocando com a dupla encasacada.
     Buona sera  disse Vittoria, abruptamente, a voz meio alterada por causa do recuo.
    Langdon suspirou aliviado. Duas senhoras idosas olhavam srias para eles sob seus xales. Uma era to velha que a muito custo se mantinha de p. A outra amparava-a. Ambas seguravam rosrios. Pareciam espantadas com a sbita abordagem.
    Vittoria sorriu, embora com expresso abalada.
     Dov la chiesa Santa Mara della Vittoria? Onde  a igreja de...
    As duas apontaram juntas a silhueta macia de um prdio na rua inclinada de onde haviam sado.
      la.
     Grazie  disse Langdon, pondo as mos nos ombros de Vittoria e puxando-a de leve para trs. Era inacreditvel, mas quase tinham atacado duas senhoras de idade.
     Non si pu entrare  preveniu uma das senhoras.   chi usa temprano. 
     Fechou mais cedo?  perguntou Vittoria, espantada.  Perch?
    Ambas explicaram ao mesmo tempo. Zangadssimas. Langdon s entendeu parte das palavras resmungadas em italiano. Aparentemente, 15 minutos antes, as duas estavam na igreja rezando pelo Vaticano, que se encontrava naquela situao difcil, quando um homem aparecera e dissera que a igreja iria ser fechada mais cedo.
     Hanno conosciuto luomo? indagou Vittoria, nervosa.  Conheciam o homem? As mulheres sacudiram a cabea. O homem era um straniero crudo, completaram, e tinha obrigado todos que se encontravam l dentro a sair, at o jovem padre e o zelador, que disseram que iriam chamar a polcia. Mas o intruso limitara-se a rir e lhes dissera para recomendar  polcia que no se esquecesse de trazer cmeras.
    Cmeras?, repetiu Langdon mentalmente.
    Irritadas, as mulheres chamaram o homem de bar-rabo e continuaram seu caminho.
     Bar-rabo?  Langdon perguntou a Vittoria.  Um brbaro?
    Vittoria enrijeceu-se de repente.
     No. Bar-rabo  um trocadilho pejorativo. Significa rabo, rabe.
    Langdon sentiu um arrepio e virou-se para a igreja. Ao faz-lo, divisou algo atravs dos vitrais. A imagem encheu-o de pavor.
    Sem reparar, Vittoria pegou seu celular e apertou o boto combinado para a autodiscagem.
     Vou avisar Olivetti.
    Sem fala, Langdon tocou no brao dela. Com a mo trmula, apontou para a igreja.
    Vittoria prendeu a respirao.
    Dentro da igreja, fulgurantes como pupilas diablicas atravs do vidro colorido, reluziam os clares das primeiras chamas de um incndio. 

CAPTULO 91

    Langdon e Vittoria correram para a entrada principal da igreja de Santa Maria della Vittoria e encontraram a porta de madeira trancada. Vittoria disparou trs tiros na fechadura antiga e arrebentou-a.
    A igreja no possua trio, de modo que o santurio inteiro se abriu  vista em toda a sua extenso quando os dois escancararam a porta. Deram com uma cena to inesperada, to bizarra, que Langdon teve de fechar e abrir os olhos para assimil-la por inteiro.
    A igreja era toda de um profuso estilo barroco, com paredes e altares dourados. Bem no meio do santurio, sob a cpula principal, os bancos de madeira haviam sido empilhados e incendiados, formando uma espcie de pira funerria pica. Uma fogueira acesa lanando suas labaredas para o domo. Quando Langdon acompanhou com o olhar aquele inferno, o indizvel horror do espetculo completo desceu sobre ele como uma ave de rapina.
    Do alto, dos lados direito e esquerdo do teto, pendiam dois cabos de incensrios  cordes usados para balanar recipientes com incenso acima da congregao. Nesses cordes, porm, no havia agora nenhum incensrio pendurado. Nem os cordes estavam balanando. Haviam sido usados para outra finalidade...
    Suspenso pelos cordes havia um ser humano. Um homem despido. Cada um de seus pulsos fora amarrado a um dos cordes e ele fora iado e esticado quase ao ponto de ser partido ao meio. Seus braos estavam abertos como se tivesse sido pregado em uma cruz invisvel que pairasse no ar na casa de Deus.
    Paralisado, Langdon olhava para cima. No momento seguinte, presenciou a crueldade final. O velho estava vivo e mexeu a cabea. Um par de olhos aterrorizados voltou-se para baixo em uma splica silenciosa por ajuda. No peito do homem, o desenho da queimadura. Ele fora marcado a fogo. Langdon no conseguia ver com nitidez, mas no tinha dvidas sobre o que estava escrito. As labaredas cresceram e lamberam os ps da vtima, que gritou de dor, o corpo tremendo.
    Movido por uma fora inexplicvel, Langdon sentiu seu corpo entrar em movimento e sair correndo pela nave central na direo do fogo. Seus pulmes encheram-se de fumaa ao chegar mais perto. A trs metros da fogueira, a toda velocidade, ele se chocou com uma parede de calor. A pele de seu rosto ficou chamuscada e ele caiu para trs, protegendo os olhos com os braos, o corpo batendo com fora no cho de mrmore. Levantou-se cambaleando e tentou avanar outra vez, as mos erguidas na frente do rosto.
    Mas o calor era intenso demais.
    Retrocedeu e esquadrinhou as paredes da igreja. Uma tapearia pesada, pensou. Se de algum modo eu conseguir abafar o fogo... Mas sabia que seria impossvel encontrar uma tapearia ali. Isto  uma igreja barroca, Robert, no  um castelo alemo! Pense! Obrigou-se a olhar de novo para o homem pendurado.
    No alto, um torvelinho de fumaa e chamas agitava-se na cpula. Os cordes de incensrios que prendiam os punhos do homem subiam para o teto, passavam por roldanas e desciam novamente at duas braadeiras de metal colocadas em cada uma das paredes laterais da igreja. Langdon examinou uma das braadeiras. Ficava no alto da parede, mas se ele a alcanasse e afrouxasse um dos cordes, a tenso diminuiria e o corpo do homem balanaria, afastando-se bastante do fogo.
    As chamas aumentaram repentinamente e Langdon ouviu um grito lancinante vindo de cima. A pele dos ps do cardeal cobrira-se de bolhas. Ele estava sendo assado vivo. Langdon concentrou-se na braadeira e precipitou-se para ela.
    No fundo da igreja, Vittoria segurou-se com fora no encosto de um dos bancos tentando recuperar-se. A imagem no alto era medonha. Virou o rosto.
    Faa alguma coisa! Queria saber onde estava Olivetti. Teria encontrado o Hassassin? Ser que o pegara? Onde estariam eles agora? Andou na direo de Langdon para ajud-lo, mas um som a fez parar.
    O estalar das labaredas fazia cada vez mais barulho, mas havia tambm um segundo som cortando o ar. Uma vibrao metlica. Perto. A pulsao repetitiva parecia vir da extremidade do banco  sua esquerda. Era uma trepidao seca, como o toque de um telefone, mas dura, ptrea. Ela segurou o revlver com firmeza e caminhou ao longo da fileira de bancos. O som ficou mais alto. Soava e parava. Uma vibrao recorrente.
    Ao chegar no fim da passagem, percebeu que o som vinha do cho, atrs do ltimo banco. Quando avanou com o revlver na mo direita levantada, notou que tambm segurava algo na mo esquerda  seu telefone celular. Com toda aquela tenso, esquecera que o usara l fora para discar para o comandante, acionando a vibrao silenciosa do telefone dele, o aviso combinado. Vittoria colocou seu telefone no ouvido. Ainda estava tocando. O comandante no chegara a atender. Sbito, com um medo crescente, achou que sabia o que estava produzindo aquele rudo. Deu mais um passo, trmula.
    A igreja pareceu afundar sob seus ps quando se deparou com a forma sem vida no cho. Nenhum lquido flua do corpo. Nenhum sinal de violncia marcava a carne. Havia somente a terrvel geometria da cabea do comandante virada para trs, torcida 180 graus na direo errada. Vittoria lutou contra a lembrana do corpo mutilado de seu prprio pai.
    O telefone no cinto do comandante estava encostado no cho, vibrando sem parar de encontro ao mrmore frio. Vittoria desligou o seu e o rudo cessou. No silncio, ela escutou um outro som. A respirao de algum nas sombras atrs dela.
    Comeou a girar o corpo apontando a arma, mas j sabia que seria tarde demais. Foi como se um raio atingisse seu corpo do alto do seu crnio s solas dos ps quando o cotovelo do assassino encostou na sua nuca.
     Agora voc  minha  disse uma voz.
    Ento, tudo ficou negro.
    
    Do outro lado da igreja, na parede lateral esquerda, Langdon equilibrava-se em um banco, estendendo o brao em impulsos, tentando alcanar a braadeira. O cordo estava a mais de trs metros acima de sua cabea. Braadeiras como aquela eram comuns nas igrejas, sempre colocadas no alto para evitar que fossem tocadas. Langdon sabia que os padres usavam escadas de madeira chamadas piuli para alcanar as braadeiras. O matador obviamente usara a escada da igreja para iar sua vtima. Onde est o raio da escada? Langdon olhou para baixo, procurando-a pelo cho. Tinha uma vaga lembrana de ter visto uma escada por ali em algum lugar. Mas onde? Um segundo mais tarde, lembrou-se, desalentado, onde a vira. Voltou-se para a fogueira. L estava a escada, sobre a pilha de bancos, envolta em chamas.
    Desesperado, olhando do alto, procurou por toda a igreja algo que o pudesse ajudar a alcanar a braadeira. E, de repente, ocorreu-lhe: onde estar Vittoria? Ela desaparecera. Ser que foi buscar ajuda? Gritou o nome dela, mas no obteve resposta. E onde foi parar Olivetti?
    Ao ouvir um urro de dor vindo de cima, Langdon achou que j era tarde demais. Levantando os olhos de novo para a vtima que queimava lentamente, ele s pensou em uma coisa. gua. Muita gua. Para apagar o fogo. Pelo menos para diminuir a altura das chamas.
     Preciso de gua, de gua!  berrou ele.
     Mais tarde  rosnou uma voz vinda do fundo da igreja.
    Langdon girou, quase caindo do banco.
    Em largas passadas pela nave lateral, vinha em sua direo um monstro sombrio em forma de homem. Mesmo  luz da fogueira, seus olhos negros tinham um brilho escuro. Langdon reconheceu na mo dele o revlver que sara do bolso de seu prprio casaco, o que Vittoria estivera segurando ao entrarem na igreja.
    A repentina onda de pnico que o acometeu era uma mistura desconexa de muitos medos. Seu primeiro instinto foi pensar em Vittoria. O que aquele animal teria feito com ela? Estaria machucada? Ou algo pior? Naquele instante, o homem que estava suspenso l em cima comeou a gritar mais alto. O cardeal ia morrer. Era impossvel ajud-lo agora. Quando o Hassassin mirou o revlver no peito de Langdon, o pnico novamente se apoderou dele, seus sentidos ficaram sobrecarregados. E, quando o tiro partiu, seu reflexo foi pular de cabea, os braos estendidos para a frente, no mar de bancos da igreja.
    Chocou-se com os bancos com mais fora do que imaginara, rolando imediatamente para o cho. O mrmore recebeu o impacto do seu corpo com a mesma gentileza do ao frio. Passos aproximaram-se pela direita. Langdon virou o corpo para a frente da igreja e saiu agachado, oculto pelos bancos, tentando salvar a prpria vida.
    
    Muito acima do cho da igreja, o cardeal Guidera vivia seus ltimos torturantes minutos de conscincia. Ao baixar os olhos para seu corpo nu, viu a pele dos seus ps formando bolhas e soltando-se. Estou no inferno, concluiu. Deus, por que me abandonastes? Sabia que devia ser o inferno porque estava olhando para as letras em seu peito de cabea para baixo e, no entanto, como se por um sortilgio do demnio, a palavra era perfeitamente legvel. 

CAPTULO 92

    Trs votaes. E nada de Papa.
    Dentro da Capela Sistina o cardeal Mortati comeou a rezar por um milagre. Mande-nos os candidatos! O atraso j se prolongara demais. Um nico candidato faltando, dava para entender. Mas os quatro? No deixava nenhuma opo. Naquelas condies, s por um ato de Deus em pessoa obteriam a maioria de dois teros.
    Quando as dobradias da porta externa comearam a ranger e a porta se abriu, Mortati e todo o Colgio dos Cardeais voltaram-se juntos para a entrada. Mortati sabia que aquilo s poderia significar uma coisa. Pela lei, as portas da capela somente podiam ser abertas por duas razes  para retirar do recinto os que se encontrassem muito doentes ou para admitir os cardeais atrasados.
    Os preferiti esto chegando!
    O corao de Mortati alou vo. O conclave estava salvo.
    Todavia, quando a porta se abriu, o murmrio de espanto que ecoou pela capela no foi de alegria. Mortati viu, incrdulo, o homem entrar na capela. Pela primeira vez na histria do Vaticano, um camerlengo atravessava o sagrado limiar do conclave depois de selar as portas.
     O que ele pensa que est fazendo?
    O camerlengo encaminhou-se para o altar e posicionou-se para falar  platia estupefata.
     Signori  disse , esperei o mais que pude. Existe algo que todos aqui tm o direito de saber. 

CAPTULO 93

    Langdon avanava sem saber para onde ia. Sua nica bssola eram seus reflexos, afastando-o do perigo. Seus cotovelos e joelhos ardiam enquanto se esgueirava entre os bancos, mas no parava. Algo lhe dizia para ir para a esquerda. Se conseguir chegar  nave principal, posso correr para a sada. Mas isto seria impossvel. H uma parede de fogo no meio da nave principal! Com a cabea  cata de opes, ele prosseguia cegamente. Os passos aproximavam-se mais depressa, agora pela direita.
    Quando aconteceu, Langdon no estava preparado. Calculara que houvesse mais uns trs metros de fileiras de bancos at a parte da frente da igreja. Calculara mal. Inesperadamente, seu esconderijo terminou. Imobilizou-se um instante, meio exposto na frente da igreja. Erguendo-se no nicho  sua esquerda, estava a escultura que o levara ali. Esquecera-se completamente dela. O xtase de Santa Teresa de Bernini surgia como uma espcie de natureza-morta pornogrfica: a santa deitada de costas, o tronco arqueado de prazer, a boca entreaberta em um gemido e, acima dela, o anjo apontando sua lana de fogo.
    Uma bala explodiu no banco por cima da cabea de Langdon. Seu corpo precipitou-se como o de um atleta quando  dada a largada. Impelido somente pela adrenalina e sem ter muita conscincia de seus atos, ele subitamente estava correndo, curvado, a cabea abaixada, atravessando a frente da igreja para a direita. Com as balas pipocando s suas costas, mergulhou de novo e deslizou sem controle pelo piso de mrmore at ir de encontro  grade de um nicho na parede do lado direito.
    Foi ento que a viu. Cada no cho junto ao fundo da igreja. Vittoria! As pernas nuas estavam torcidas sob o corpo, mas Langdon de alguma forma pressentiu que ela estava respirando. E no tinha tempo para ajud-la.
    Imediatamente, o matador contornou as fileiras de bancos na extremidade esquerda da igreja e avanou para ele, implacvel. Em uma frao de segundo Langdon percebeu que no tinha mais sada. O matador levantou a arma e Langdon fez a nica coisa que podia. Rolou o corpo por cima da grade para dentro do nicho. Ao bater no cho do outro lado, as colunas de mrmore da balaustrada foram atingidas por uma saraivada de balas.
    Langdon sentiu-se como um animal encurralado ao recuar para o fundo do recinto semicircular. Diante dele, a nica pea que ocupava aquele espao parecia ironicamente oportuna  um sarcfago isolado. Talvez o meu, pensou. At a tumba em si era apropriada: uma scatola  um pequeno e despojado atade de mrmore. Um enterro de acordo com o oramento. O atade estava apoiado em dois blocos de mrmore e Langdon examinou a abertura entre eles tentando calcular se daria para passar por ali.
    Passos ecoaram atrs dele.
    Sem outra opo em vista, ele se comprimiu contra o cho e rastejou na direo da tumba. Agarrando os dois suportes de mrmore, um em cada mo, deu impulso como se estivesse nadando de peito e puxou o tronco para dentro da abertura sob o atade. O revlver do homem disparou.
    Junto com o estrondo do tiro, Langdon experimentou uma sensao que nunca tivera em sua vida, a de uma bala passando rente  sua carne. Ouviu o silvo do ar, igual ao que se escuta depois de uma chicotada, quando a bala raspou sua pele e depois penetrou no mrmore levantando uma nuvem de p. Com o sangue brotando, arrastou-se pelo resto do espao embaixo do atade. No final, levantou-se e correu para o outro lado.
    Para um beco sem sada.
    Langdon estava agora cara a cara com a parede do fundo do nicho, j convencido de que o espao exguo atrs da tumba seria o lugar onde iria cair morto. E vai ser logo, disse para si ao ver o cano da arma surgir na abertura sob o sarcfago. O Hassassin segurava o revlver quase encostado no cho, mirando direto no meio do tronco de Langdon.
    Impossvel errar.
    Um resto de autopreservao apoderou-se do inconsciente de Langdon. Torceu o corpo e virou-se de barriga, paralelamente ao atade. Com o rosto para baixo, fincou as mos no cho, o corte do vidro dos arquivos abrindo-se com uma ferroada. Sem fazer caso da dor, empurrou o corpo para cima de modo desajeitado, arqueando o estmago e afastando-o do cho no mesmo instante em que o outro atirou. Dava para sentir a onda de choque das balas passando por baixo dele e pulverizando o poroso mrmore travertino atrs. Fechou os olhos. Lutando contra a exausto, Langdon rezou para que o tiroteio parasse.
    E parou.
     trovoada de tiros seguiu-se o estalido seco de um tambor vazio.
    Langdon abriu os olhos devagar, quase temendo que suas plpebras fizessem algum rudo. Com um enorme esforo, apesar da dor que o fazia tremer, ele manteve a posio, arqueado como um gato. No se atrevia nem a respirar. Os tmpanos entorpecidos pelo barulho dos tiros, tentava escutar qualquer sinal que lhe indicasse que o assassino se fora. Silncio. Pensou em Vittoria, ansioso para ir ajud-la.
    O som que se seguiu foi ensurdecedor. Animalesco. Um grito gutural de esforo.
    O sarcfago acima da cabea de Langdon inclinou-se apoiado em um dos lados. O corpo de Langdon tombou e a pea de mrmore pesando centenas de quilos oscilou em sua direo. A gravidade superou o atrito e a tampa foi a primeira a cair, escorregando de cima da tumba e despencando com grande estrpito ao lado dele. O atade veio atrs, soltando-se de seus apoios e caindo emborcado em cima de Langdon.
    Quando o atade desceu, Langdon achou que ficaria sepultado no oco embaixo dele ou seria esmagado por um dos seus lados. Encolhendo as pernas e a cabea, ele compactou o prprio corpo e ainda puxou os braos para junto do tronco. Fechou os olhos na expectativa angustiante.
    O atade de mrmore bateu com fora no cho, que sacudiu inteiro. A borda superior assentara-se a milmetros do alto de sua cabea, fazendo seus dentes chacoalharem. Seu brao direito, que Langdon tivera a certeza de que seria esmigalhado, estava miraculosamente intacto. Abriu os olhos e viu uma faixa de luz. A borda direita do atade no chegara a encostar no cho e ainda estava em parte apoiada sobre seus suportes. Olhando para cima, contudo, Langdon viu-se literalmente encarando a morte.
    O ocupante original da tumba estava pendurado acima dele, tendo aderido ao fundo do sarcfago, como costuma acontecer com os corpos em decomposio. O esqueleto esperou um instante, como um amante cauteloso, e ento, crepitante, pegajoso, sucumbiu  gravidade e despregou-se. O esqueleto precipitou-se para abra-lo, em meio a uma chuva de p e ossos ptridos que lhe cobriram os olhos e a boca.
    Antes que Langdon pudesse reagir, um brao penetrou na abertura debaixo do atade, coleando por entre a ossada como uma serpente faminta. Tateou at encontrar o pescoo de Langdon e comprimiu-o. Langdon tentou lutar contra o punho de ferro que apertava sua garganta, mas descobriu que a manga esquerda de seu palet ficara presa sob a borda do atade. Tinha somente um brao livre e o resultado da luta seria uma batalha perdida.
    As pernas de Langdon dobraram-se no nico espao que havia, os ps procurando apoiar-se no fundo do atade acima. Encontrando o apoio, encolheu-se e firmou os ps. A mo em seu pescoo apertou mais forte; ele fechou os olhos e estendeu as pernas como um arete. O atade moveu-se ligeiramente para o lado, mas j foi o suficiente.
    Com um rangido spero, o sarcfago deslizou de cima dos suportes e bateu no cho. A borda de mrmore caiu sobre o brao do homem, que soltou uma exclamao abafada de dor. A mo largou o pescoo de Langdon, contorcendo-se e sacudindo no escuro. Quando o homem finalmente conseguiu puxar o brao para fora, o atade caiu com um baque definitivo de encontro ao cho liso de mrmore.
    Escurido completa. De novo. E silncio.
    No houve batidas frustradas do lado de fora do sarcfago virado. Nenhuma tentativa para levant-lo. Nada. Deitado no escuro no meio de uma pilha de ossos, Langdon procurou desviar o rumo de seus pensamentos.
    Vittoria. Ser que voc est viva?
    Se ele soubesse a verdade, a terrvel situao em que Vittoria se encontraria ao acordar, teria desejado, para o prprio bem dela, que estivesse morta. 

CAPTULO 94

    Sentado na Capela Sistina junto com seus companheiros estarrecidos, o cardeal Mortati tentava assimilar as palavras que escutava. Diante deles, iluminado apenas pela luz das velas, o camerlengo acabara de contar uma histria de tamanho dio e perfdia que Mortati, quando deu por si, estava tremendo. O camerlengo falou de cardeais seqestrados, cardeais marcados a fogo, cardeais assassinados. Falou dos antigos Illuminati, um nome que trazia  memria medos esquecidos, do ressurgimento deles e de seu juramento de vingana contra a Igreja. Com a voz cheia de pesar, o camerlengo falou de seu ltimo Papa, vtima de envenenamento pelos Illuminati. E por fim, num sussurro, falou de uma nova tecnologia mortal, a antimatria, que ameaava destruir toda a Cidade do Vaticano em menos de duas horas.
    Quando terminou, foi como se o prprio sat tivesse sugado todo o ar do ambiente. Ningum se mexia. As palavras do camerlengo pairavam na penumbra.
    O nico som que Mortati ouvia agora era o zumbido inusitado de uma cmera de TV ao fundo, uma presena eletrnica que nenhum conclave na histria jamais tolerara, mas uma presena exigida pelo camerlengo. Para espanto completo dos cardeais, o camerlengo entrara na Capela Sistina com dois reprteres da BBC  um homem e uma mulher  e anunciara que eles transmitiriam seu pronunciamento solene ao vivo para o mundo.
    Agora, falando diretamente para a cmera, o camerlengo deu um passo  frente.
     Aos Illuminati  disse ele, a voz mais grave  e aos homens de cincia, deixem que lhes diga uma coisa  e fez uma pausa.  Vocs ganharam a guerra.
    O silncio espalhara-se agora pelos recnditos mais profundos da capela. Mortati ouvia a batida desesperada de seu prprio corao.
     As engrenagens esto em movimento h muito tempo  disse o camerlengo.  Sua vitria foi inevitvel. Nunca antes isto ficou to evidente quanto neste momento. A cincia  o novo Deus.
    O que ele est dizendo!, pensou Mortati. Ser que enlouqueceu? O mundo inteiro est escutando isso!
     Medicina, comunicaes eletrnicas, viagens espaciais, manipulao gentica, estes so os milagres sobre os quais agora falamos s nossas crianas. Estes so os milagres que alardeamos como prova de que a cincia nos trar as respostas. As histrias antigas de concepes imaculadas e mares que se abrem no so mais relevantes. Deus ficou obsoleto. A cincia venceu a batalha. Ns nos rendemos. Um rumor de confuso e perplexidade agitou a capela.
     Mas a vitria da cincia  o camerlengo acrescentou, a voz se intensificando  nos custou caro. Custou muito caro para cada um de ns.
    Silncio.
     A cincia pode ter aliviado os sofrimentos das doenas e dos trabalhos enfadonhos e fatigantes, pode ter proporcionado uma srie de aparelhos engenhosos para nossa convenincia e distrao, mas deixou-nos em um mundo sem deslumbramento. Nossos crepsculos foram reduzidos a comprimentos de ondas e freqncias. As complexidades do universo foram desmembradas em equaes matemticas. At o nosso amor-prprio de seres humanos foi destrudo. A cincia proclama que o planeta Terra e seus habitantes so um cisco insignificante no grande plano. Um acidente csmico  e aqui o camerlengo fez uma pausa.  At a tecnologia que promete nos unir, ao contrrio, s nos divide. Cada um de ns est hoje eletronicamente conectado ao globo inteiro e, entretanto, todos nos sentimos ss. Somos bombardeados pela violncia, pela diviso, pela desintegrao e pela traio. O ceticismo passou a ser uma virtude. O cinismo e a exigncia de provas para tudo converteram-se em pensamento esclarecido. Algum ainda se admira que as pessoas hoje se sintam mais deprimidas e derrotadas do que em qualquer outra ocasio da histria do homem? Ser que existe alguma coisa que a cincia considere sagrada? A cincia procura respostas usando fetos no-nascidos como material de pesquisa. A cincia at se atreve a reorganizar nosso DNA. Despedaa o mundo de Deus em parcelas cada vez menores em busca de significados e s encontra mais perguntas.
    Mortati assistia a tudo cheio de assombro. O camerlengo falava de modo quase hipntico agora. Possua um vigor fsico nos movimentos e na voz que Mortati jamais presenciara em um altar do Vaticano. Suas palavras vinham impregnadas de convico e de tristeza.
     A velha guerra entre a cincia e a religio est encerrada  disse o camerlengo.  Vocs venceram. Mas no venceram honestamente. No venceram fornecendo respostas. Venceram redirecionando nossa sociedade de modo to radical que as verdades que outrora vamos como diretrizes agora parecem inaplicveis. A religio no tem capacidade para acompanhar isto. O crescimento cientfico  exponencial. Alimenta-se de si mesmo como um vrus. Cada novo avano abre caminho para outros novos avanos. A humanidade levou milhares de anos para evoluir da roda para o carro. E apenas dcadas do carro para o espao. Atualmente, calculamos por semana o progresso cientfico. Estamos girando fora de controle. O abismo entre ns se aprofunda sem parar e,  medida que a religio vai ficando para trs, as pessoas se vem em um vazio espiritual. Imploramos pelo sentido das coisas. E, acreditem, imploramos de fato. Vemos OVNIS, freqentamos mdiuns, buscamos contato com os espritos, experincias extracorpreas, uso do poder mental  todas essas idias excntricas tm um verniz cientfico, mas so descaradamente irracionais. So o grito desesperado da alma moderna, solitria e atormentada, deformada por seu prprio esclarecimento e por sua incapacidade de aceitar que haja sentido em qualquer coisa que seja estranha  tecnologia.
    Mortati reparou que, involuntariamente, se inclinara para a frente em seu assento. Ele, os outros cardeais e gente do mundo inteiro estavam presos a cada palavra daquele padre. O camerlengo falava sem empregar qualquer retrica ou virulncia. No fazia referncias  Bblia ou a Jesus Cristo. Usava termos modernos, sem enfeites, despojados. De certa forma, como se as palavras flussem do prprio Deus, ele utilizava uma linguagem moderna para transmitir a mensagem antiga. Naquela hora, Mortati entendeu uma das razes por que o falecido Papa apreciava tanto aquele moo. Em um mundo de apatia, cinismo e deificao tecnolgica, homens como o camerlengo, realistas que sabiam falar s nossas almas como ele acabara de fazer, eram a nica esperana da Igreja.
    O tom do camerlengo ficou mais veemente.
     A cincia, dizem vocs, vai nos salvar. A cincia, digo eu, nos destruiu. Desde o tempo de Galileu, a Igreja vem tentando diminuir o ritmo da marcha implacvel da cincia, s vezes por meios equivocados, mas sempre com intenes benficas. Ainda assim, as tentaes so grandes demais para o homem resistir. Previno-os, olhem em torno de si. As promessas da cincia no foram mantidas. As promessas de eficincia e simplicidade resultaram somente em poluio e caos. Somos uma espcie despedaada e frentica, seguindo um caminho que leva  destruio.
    O camerlengo fez uma pausa prolongada e ento olhou para a cmera com uma expresso penetrante.
     Quem  esse deus-cincia? Quem  esse deus que oferece poder a seu povo, mas nenhuma estrutura moral para lhe dizer como usar este poder? Que tipo de deus d fogo a uma criana, mas no a avisa sobre seus perigos? A linguagem da cincia no vem com diretrizes sobre o bem e o mal. Os livros cientficos explicam-nos como criar uma reao nuclear, mas no tm nenhum captulo discutindo se  uma boa ou m idia.
      cincia, quero dizer o seguinte: a Igreja est cansada. Estamos exaustos de tanto tentar ser uma diretriz para o mundo. Nossos recursos esto esgotados por sermos a voz do equilbrio enquanto vocs se atiram de cabea em sua busca por chips menores e lucros maiores. Nem perguntamos por que vocs no se controlam, pois como poderiam? Seu mundo anda to depressa que, se pararem por um instante que seja para refletir sobre as implicaes de seus atos, algum mais eficiente pode ultrapass-los em um piscar de olhos. Por isso, vocs vo em frente. Promovem o aumento das armas de destruio em massa, mas  o Papa quem tem de viajar pelo mundo suplicando aos lderes que tenham prudncia. Clonam criaturas vivas, mas  a Igreja que tem de lembrar a necessidade de considerarmos as implicaes morais de nossos atos. Incentivam as pessoas a interagir atravs de telefones, telas de vdeo e computadores, mas  a Igreja que abre suas portas e nos lembra de comungar aqui, no mundo real, que  como se deve fazer. Vocs at matam bebs que ainda no nasceram em nome de pesquisas que salvaro vidas. Mais uma vez, cabe  Igreja comprovar a falcia de tal raciocnio.
     E, o tempo todo, vocs proclamam que a Igreja  ignorante. Quem  mais ignorante, porm? O homem que no sabe definir o raio que cai durante um temporal ou o que no respeita seu poder admirvel? Esta igreja est tentando chegar a vocs. Est tentando chegar a todas as pessoas. E, todavia, quanto mais tentamos, mais vocs nos repelem. Mostrem-nos uma prova da existncia de Deus, dizem vocs. E eu respondo, usem seus telescpios para olhar o cu e me digam como  possvel no haver um Deus!  O camerlengo tinha lgrimas nos olhos.  Vocs perguntam com que Deus se parece, e eu, por minha vez, pergunto tambm: de onde vem essa pergunta? A resposta  uma s, a resposta  a mesma. No vem Deus em sua cincia? Como podem deixar de v-Lo! Vocs proclamam que a menor alterao na fora da gravidade ou no peso de um tomo teria convertido nosso universo em uma nvoa sem vida em vez do magnfico mar de corpos celestes que contemplamos, e ainda assim deixam de ver a mo de Deus nisso? Ser que  mesmo to mais fcil acreditar que escolhemos a carta certa em um baralho em que h bilhes delas? Ser que estamos to falidos espiritualmente que preferimos acreditar numa impossibilidade matemtica e no em um poder maior do que ns?
     Se vocs acreditam em Deus ou no  disse o camerlengo, a voz mais grave e carregada de deliberao , tm de acreditar nisto: quando ns, como espcie, abandonamos a confiana em um poder maior do que ns, abandonamos tambm nossa noo da obrigatoriedade de prestar contas. A f, todas as formas de f, so advertncias de que existe algo que no podemos compreender, algo a que temos de responder. Com f, prestamos contas uns aos outros, a ns mesmos e a uma verdade maior. A religio  falha, mas s porque o homem  falho. Se o mundo exterior pudesse ver esta igreja como eu vejo, alm do ritual de dentro dessas paredes, veria um milagre moderno, uma fraternidade de almas imperfeitas e simples, querendo apenas ser uma voz de compaixo em um mundo do qual se est perdendo o controle.
    O camerlengo fez um gesto para o Colgio dos Cardeais e a cinegrafista da BBC instintivamente o acompanhou, focalizando a multido de cardeais.
     Somos mesmo obsoletos?  perguntou o camerlengo?  Ser que esses homens so mesmo dinossauros? Ser que eu tambm sou? Ser que o mundo realmente precisa de uma voz para os pobres, os fracos, os oprimidos, para as crianas que ainda no nasceram? Ser que realmente precisamos de almas como essas que, apesar de imperfeitas, passam a vida nos implorando para seguirmos as diretrizes da moralidade e no nos extraviarmos de nosso caminho?
    Mortati percebeu que o camerlengo, conscientemente ou no, estava realizando uma brilhante manobra. Ao mostrar os cardeais, estava personalizando a Igreja. A Cidade do Vaticano no era mais uma construo, era feita de gente  gente como o camerlengo, que passara a vida a servio do bem.
     Esta noite, estamos  beira de um precipcio  disse o camerlengo.
     Nenhum de ns pode se dar ao luxo da indiferena. Quer encarem toda essa maldade como Sat, corrupo ou imoralidade, o fato  que as foras do mal esto vivas e crescendo a cada dia. No as ignorem.  O camerlengo baixou a voz a um sussurro e a cmera se aproximou.  As foras so poderosas, mas no so invencveis. O bem pode prevalecer. Ouam a voz de seus coraes. Ouam a voz de Deus. Juntos, podemos recuar deste abismo.
    E Mortati enfim compreendeu. Aquela era a razo. O conclave fora violado, mas era o nico jeito. O camerlengo fizera um dramtico e desesperado pedido de ajuda. Dirigira-se no s a seu inimigo como tambm a seus amigos. Estava rogando a todos, amigos ou inimigos, que compreendessem e parassem com aquela loucura. Com certeza, algum que estivesse escutando perceberia a insanidade daquela trama e tomaria uma atitude.
    O camerlengo ajoelhou-se no altar.
     Rezem comigo.
    O Colgio dos Cardeais caiu de joelhos para unir-se ao camerlengo em uma prece. L fora, na Praa de So Pedro e em todos os pases, o mundo aturdido ajoelhou-se junto com eles. 

CAPTULO 95

    O Hassassin deitou seu trofu inconsciente na traseira do furgo e levou uns instantes examinando o corpo estendido. No era to bonita quanto as mulheres que comprava, mas tinha um vigor animal que o excitava. O corpo era radioso, orvalhado de transpirao. E cheirava a almscar.
    Parado ali saboreando sua recompensa, ele ignorava o brao que latejava. O ferimento causado pela queda do sarcfago, embora doloroso, era insignificante. Valia bem a compensao que se encontrava diante dele. Consolava-o pensar que o americano que lhe fizera aquilo provavelmente estaria morto quela altura.
    Contemplando sua prisioneira inerte, o Hassassin visualizava o que o esperava. Correu a palma da mo sob a blusa dela. Os seios pareciam perfeitos sob o suti. Sim, sorriu. Voc valeu muito a pena. Lutando contra a vontade de possu-la de imediato, ele fechou a porta, sentou-se ao volante e desapareceu na noite.
    No havia necessidade de alertar a imprensa sobre aquela ltima morte: as labaredas do incndio fariam isso por ele.
    No CERN, Sylvie estava sob o efeito atordoante da fala do camerlengo. Nunca antes se sentira to orgulhosa de ser catlica e, ao mesmo tempo, to envergonhada de trabalhar no CERN. Ao sair do setor de lazer, reparou que a atmosfera em cada uma das salas era sombria e desconcertada. Quando voltou para o escritrio de Kohler, as sete linhas de telefone estavam tocando. As ligaes dos meios de comunicao nunca eram encaminhadas direto para a sala do diretor, portanto as chamadas s podiam ter um motivo.
    Dinheiro.
    A tecnologia da antimatria j tinha pretendentes.
    No Vaticano, Gunther Glick estava nas nuvens enquanto seguia o camerlengo na sada da Capela Sistina. Ele e Macri tinham acabado de fazer a transmisso ao vivo da dcada. E que transmisso extraordinria. O camerlengo fora fascinante. J no saguo, o camerlengo virara-se para Glick e Macri:
     Pedi  Guarda Sua para reunir algumas fotografias para vocs, tanto dos cardeais marcados a fogo quanto uma de Sua Santidade. Devo preveni-los de que no so imagens agradveis. Queimaduras medonhas, lngua negra. Mas gostaria que as divulgassem para o mundo.
    Ele quer que eu divulgue uma foto exclusiva do Papa morto?
     O senhor quer mesmo?  perguntou Glick, procurando no demonstrar sua animao.
    O camerlengo balanou a cabea.
     A Guarda Sua tambm vai lhe fornecer uma gravao ao vivo do tubo de antimatria em contagem regressiva.
    Glick estava pasmo.
     Os Illuminati esto prestes a descobrir  declarou o camerlengo  que jogara pesado demais. 

CAPTULO 96

    Como um tema recorrente em uma sinfonia demonaca, a sufocante escurido estava de volta.
    Sem luz. Sem ar. Sem sada.
    Langdon estava preso debaixo do sarcfago emborcado e sentia sua mente derivar perigosamente para o limiar da sanidade. Tentando desviar seus pensamentos para outro rumo alm do espao apertado em torno dele, forava a sua cabea a se ocupar com algum processo lgico  matemtica, msica, qualquer coisa. Mas no havia lugar para pensamentos calmantes. No posso me mexer! No posso respirar!
    A manga presa de seu palet felizmente se soltara quando o atade cara, deixando-o com mobilidade nos dois braos. Mesmo assim, ao empurrar para cima o teto de sua cela minscula, esta permaneceu imvel. Teria sido melhor ficar com a manga presa, que talvez deixasse uma fresta para o ar entrar.
    Quando tentou empurrar outra vez, sua manga escorregou e revelou o brilho de um velho amigo. Mickey. A carinha esverdeada de desenho animado olhava-o, zombeteira.
    Langdon examinou a escurido tentando distinguir algum outro vestgio de claridade, mas a borda do atade ajustava-se perfeitamente ao cho. Esses desgraados desses italianos perfeccionistas, praguejou ele; agora estava em perigo por causa da mesma excelncia artstica que ensinava seus alunos a reverenciar: acabamentos impecveis, paralelos perfeitos e, claro, s o mrmore de Carrara mais resistente e sem falhas.
    A preciso s vezes pode ser sufocante.
     Levante essa droga  disse em voz alta, empurrando com mais fora atravs do emaranhado de ossos. A tumba deslocou-se ligeiramente. Cerrando a mandbula, tentou levant-la de novo. Tinha a impresso de estar suspendendo uma pedra enorme, mas dessa vez o atade subiu alguns milmetros. Uma luminosidade fugidia cercou-o e depois o atade tombou com um baque seco. Langdon ficou arquejando no escuro. Tentou usar as pernas como fizera antes, mas, com o atade inteiramente encostado no cho, no havia espao nem para esticar seus joelhos.
    Invadiu-o um pnico claustrofbico e Langdon foi assoberbado por imagens do sarcfago encolhendo em torno dele. Pressionado pelo delrio, combateu a iluso com todos os restos de lgica intelectual que ainda possua.
     Sarcfago  enunciou em voz alta, com o mximo de esterilidade acadmica que conseguiu arranjar. No entanto, at a erudio parecia estar contra ele. Sarcfago vem do grego sarx, significando carne, e phagein, que quer dizer comer Estou preso em uma caixa literalmente criada para comer carne
    As imagens de carne sendo devorada at o osso serviram apenas de sinistro lembrete para o fato de que Langdon estava coberto de restos humanos. A conscincia disto deu-lhe nuseas e calafrios. Mas tambm lhe deu uma idia.
    Remexendo s cegas dentro do caixo, Langdon encontrou um pedao de osso. Uma costela, talvez? No importava o que fosse. O que ele queria era uma cunha. Se conseguisse levantar o caixo, nem que fosse uma pequena fresta, e enfiar o fragmento de osso entre a borda e o cho, talvez a quantidade de ar fosse suficiente para...
    Com uma das mos firmando o pedao estreito de osso entre a borda e o cho, ele estendeu a outra mo e empurrou. O atade no se moveu. Nem um pouco. Langdon tentou de novo. Por um instante o atade pareceu tremer ligeiramente, mas foi tudo.
    O mau cheiro da decomposio e a falta de oxignio j lhe tirando as foras, ele percebeu que s tinha tempo para mais uma tentativa. E que precisaria dos dois braos.
    Reorganizou-se e colocou o pedao alongado de osso de encontro  borda, deslocou um pouco o tronco e escorou o osso firmemente com o ombro. Com cuidado para no tir-lo do lugar, levantou os dois braos. Sentiu o recinto abafado comear a asfixi-lo e uma onda de pnico intenso apoderou-se dele. Era a segunda vez naquele dia que ficava preso em um local sem ar. Gritando, deu um empurro para cima num movimento de exploso. O atade ergueu-se por uma frao de segundo. Foi o bastante. O pedao de osso que prendera com o ombro encaixou-se no espao que se abriu. Quando o atade tombou de novo, o osso se espatifou. Mas dava para ver que ainda havia uma escora. Um filete de luz aparecia sob a borda.
    Extenuado, Langdon soltou o corpo. Torcendo para que a sensao de estrangulamento em sua garganta passasse, ele esperou. Entretanto, a sensao s piorou. O ar que penetrava atravs da minscula fresta parecia imperceptvel. Langdon pensava se daria para mant-lo vivo. E, se desse, por quanto tempo? Se ele desmaiasse, quem descobriria que estava ali?
    Levantou o brao, que pesava como chumbo, e olhou o relgio outra vez:
    10h12 da noite. Os dedos trmulos, ajustou o relgio e deu sua ltima cartada. Torceu um dos pequeninos ponteiros e apertou um boto.
     medida que a conscincia se esvaa e as paredes da tumba o comprimiam, os velhos medos o assaltaram. Tentou imaginar que se encontrava em um campo aberto. A cena que lhe ocorreu, porm, no ajudava em nada. O pesadelo que o assombrara desde pequeno voltou com toda a fora.
    As flores aqui parecem pinturas, pensou a criana, sorridente, correndo pela campina. Pena que seus pais no estavam ali tambm. Os dois tinham ficado instalando o acampamento.
     No v muito longe  dissera sua me.
    Ele fingiu no ter ouvido enquanto se afastava aos saltos pela mata.
    Agora, atravessando aquele campo magnfico, o menino encontrou pedras empilhadas. Imaginou que fossem fundaes de alguma casa de campo abandonada. No se aproximaria. Sabia que era melhor. Alm disso, seus olhos tinham sido atrados para outra coisa: uma esplndida orqudea selvagem, a flor mais rara e bonita de New Hampshire. S a vira nos livros.
    Empolgado, aproximou-se da flor. Ajoelhou-se ao lado dela. O solo estava fofo, mole. Viu que a flor havia encontrado um lugar muito frtil para germinar. Brotara de um pedao de madeira podre.
    Entusiasmado pela idia de levar aquela maravilha para casa, o menino estendeu o brao, os dedos prestes a alcanar o caule da flor.
    Que nem chegou a tocar.
    Com um barulho assustador, a terra cedeu. Nos segundos do vertiginoso terror da queda, ele achou que iria morrer. Preparou-se para o choque que lhe quebraria os ossos. Quando aconteceu, no houve dor. S maciez.
    E frio.
    Bateu na gua profunda primeiro com a cabea, mergulhando no estreito negrume. Rodopiando em saltos desorientados, tateou as paredes escorregadias que o cercavam por todos os lados. De alguma forma, talvez por instinto, manteve-se na superfcie.
    Luz.
    Fraca. L no alto. A quilmetros de distncia, parecia.
    Seus braos curvavam-se e agarravam a gua, procurando nas paredes do buraco um ponto onde se agarrar. S encontrava pedras lisas. Cara atravs da tampa apodrecida de um poo abandonado. Gritou pedindo socorro, mas seus gritos reverberavam na cavidade apertada. Gritou vrias vezes. Acima de sua cabea, o buraco de madeira arrebentada foi escurecendo.
    Caiu a noite.
    O tempo parecia deformar-se na escurido. O corpo ficou dormente dentro da gua em que ele boiava, nas profundezas, chamando, gritando. Tinha vises torturantes das paredes caindo e enterrando-o vivo. Seus braos ardiam de fadiga. Algumas vezes achou que ouvia vozes. Gritou, mas sua voz no saa... como nos sonhos.
     medida que a noite passava, mais o poo se aprofundava. As paredes aproximavam-se pouco a pouco. O menino apertava o corpo de encontro s pedras, empurrando-as. Esgotado, queria desistir. Entretanto, sentia a gua sustentando-o, esfriando aos poucos o ardor de seus medos at entorpec-lo.
    Quando a equipe de resgate chegou, encontraram-no quase inconsciente. Mantivera-se  tona durante cinco horas. Dois dias depois, o Boston Globe publicou uma matria de primeira pgina cujo ttulo era O Pequeno Nadador que Conseguiu 

CAPTULO 97

    O Hassassin sorriu quando entrou com seu furgo na colossal estrutura de pedra junto ao rio Tibre. Carregou sua presa escada acima, cada vez mais alto pelo tnel tambm de pedra, satisfeito por sua carga ser leve. Chegou  porta. A Igreja da Iluminao, regozijou-se. A antiga sala de encontros dos Illuminati. Quem imaginaria que ficava ali?
    L dentro, deitou-a em um sof macio. Em seguida, amarrou com habilidade os braos dela atrs das costas e atou-lhe os ps. Sabia que aquilo por que ansiava teria de esperar at que sua ltima tarefa estivesse terminada. gua.
    Ainda assim, pensou, podia se permitir um momento. Ajoelhou-se junto a ela e correu a mo por sua coxa. Era macia. A mo subiu. Mais. Seus dedos escuros penetraram sob a bainha do short dela. Mais.
    Ele parou. Pacincia, disse a si mesmo, sentindo-se excitado. Ainda h trabalho a fazer.
    Encaminhou-se para a alta sacada do aposento. A brisa da noite lentamente esfriou seu ardor. Muito abaixo, o Tibre corria, vociferante. Levantou os olhos para o domo de So Pedro, a pouco mais de um quilmetro dali, desnudo sob o claro das luzes da imprensa.
     Sua hora final  disse em voz alta, pensando nos milhares de muulmanos massacrados durante as Cruzadas.   meia-noite, vo encontrar seu Deus.
    Atrs dele, a mulher se mexeu. O Hassassin se virou. Ponderou se a deixaria acordar. Ver o terror nos olhos das mulheres era o seu melhor afrodisaco.
    Optou pela prudncia, pois seria melhor que ela ficasse inconsciente enquanto ele estava fora. Embora estivesse amarrada e nunca fosse escapar, o Hassassin no queria voltar e encontr-la exausta de tanto lutar. Quero sua fora preservada para mim.
    Levantou um pouco a cabea dela, colocou a palma da mo na parte posterior de seu pescoo e encontrou a depresso logo abaixo do crnio. Aquele meridiano era um ponto de presso que ele j usara inmeras vezes. Com fora esmagadora, comprimiu o polegar contra a cartilagem macia e sentiu-a afundar. O corpo da mulher afrouxou de imediato. Vinte minutos, pensou. Ela seria um final tentador para um dia perfeito. Depois que ela o servisse e ele a matasse, o Hassassin iria para a sacada assistir aos fogos de artifcio do Vaticano  meia-noite.
    gua. Seria o ltimo.
    Retirando uma tocha da parede como j fizera trs vezes antes, comeou a aquecer a ponta do objeto. Quando estava em brasa, levou-o para a cela.
    Dentro, um nico homem estava em silncio. Velho e solitrio.
     Cardeal Baggia  sibilou o matador.  J rezou?
    Os olhos do italiano no demonstravam medo.
     S pela sua alma. 
CAPTULO 98

    Os seis pompieri destacados para o incndio de Santa Maria della Vittoria apagaram a fogueira no meio da igreja com jatos de gs Halon. gua seria mais barato, mas o vapor que produzia teria estragado os afrescos na igreja e o Vaticano pagava caro aos pompieri romanos para a prestao de servios com rapidez e prudncia em todas as construes de sua propriedade.
    Os pompieri, pela natureza de seu trabalho, presenciavam tragdias quase diariamente, mas a execuo perpetrada dentro daquela igreja foi algo que nenhum deles jamais esqueceria. Ao mesmo tempo crucificao, enforcamento e queima na fogueira, a cena parecia ter sado de um pesadelo gtico.
    Infelizmente, a imprensa, como de costume, chegara antes dos bombeiros. J tinham feito inmeras gravaes antes que os pompieri esvaziassem a igreja. Quando enfim os bombeiros desceram a vtima e deitaram-na no cho, todos sabiam de quem se tratava.
     Cardinale Guidera  murmurou um deles , di Barcelona.
    O homem estava nu. A metade inferior de seu corpo estava toda queimada, escarlate e negra, o sangue escorrendo de rachaduras abertas nas coxas. Do joelho para baixo, os ossos das pernas estavam expostos. Um dos bombeiros vomitou. Outro teve de sair para tomar ar.
    O maior horror, contudo, era o smbolo marcado a fogo no peito do cardeal. O chefe dos bombeiros contornou o corpo, amedrontado. Lavoro del diavolo, dizia para si. Feito pelo prprio diabo. E fez o sinal-da-cruz pela primeira vez desde a infncia.
     Un altro corpo!  gritou algum. Um dos bombeiros encontrara outro corpo.
    O chefe reconheceu imediatamente a segunda vtima. O austero comandante da Guarda Sua era um homem por quem poucos dos responsveis pela manuteno da lei e da ordem na cidade sentiam qualquer afeto. O chefe telefonou para o Vaticano, mas todas as linhas estavam ocupadas. Sabia que no era necessrio. A Guarda Sua receberia a notcia pela televiso em questo de minutos.
    Enquanto avaliava os estragos e tentava reconstituir o que poderia ter acontecido ali, o chefe viu um nicho crivado de furos de balas. Uma tumba estava virada no cho, provavelmente cara de cima de seus suportes durante alguma luta. O lugar estava um caos. Isso  trabalho para a polcia e para a Santa S, pensou o chefe, dando as costas para aquela confuso. Assim que se virou, entretanto, ele parou. Ouviu um som que vinha de dentro do atade. Um som que todo bombeiro tinha pavor de ouvir.
     Bomba!  bradou ele.  Tuttifuori!
    Quando os membros do esquadro antibombas desviraram o caixo, porm, descobriram a origem do bipe eletrnico. Desnorteados, ficaram parados, olhando.
     Mdico!  um deles finalmente gritou.  Mdico! 
CAPTULO 99

     Alguma notcia de Olivetti?  perguntou o camerlengo com aparncia esgotada, quando Rocher o acompanhava da Capela Sistina para o escritrio do Papa.
     No, signore. Temo que tenha acontecido o pior.
    Quando chegaram ao escritrio do Papa, a voz do camerlengo estava pesada.
     Capito, acho que no h muito mais que eu possa fazer aqui esta noite. Receio que j tenha feito at demais. Vou entrar neste escritrio para rezar. Gostaria de no ser incomodado. O resto est nas mos de Deus.
     Sim, signore.
     J  tarde, capito. Encontre aquele tubo.
     Nossa busca prossegue.  Rocher hesitou.  Parece que a arma est muito bem escondida.
    O camerlengo teve um estremecimento, como se no conseguisse pensar no assunto.
      verdade. s 11h15 exatamente, se a igreja ainda estiver em perigo, quero que voc retire daqui os cardeais. Estou colocando a segurana deles em suas mos. Peo apenas uma coisa: que esses homens possam sair deste lugar com dignidade. Faa-os sair para a Praa de So Pedro para ficar lado a lado com o resto do mundo. No quero que a ltima imagem desta igreja seja a de um bando de velhos assustados esgueirando-se por uma porta dos fundos.
     Muito bem. E o signore? Devo vir busc-lo tambm  mesma hora?
     No ser preciso.  Como assim?
     Vou sair quando tiver esprito para isso.
    Rocher refletiu que talvez o camerlengo pretendesse afundar com o navio.
    O camerlengo abriu a porta do escritrio do Papa e entrou.
     Na verdade...  disse ele, virando-se.  H uma coisa.
     Signore?
     Parece que h uma friagem neste escritrio esta noite. Estou tremendo.
     O aquecimento eltrico est desligado. Permita que acenda a lareira para o senhor. O camerlengo deu um sorriso cansado.
     Obrigado, muito obrigado. Rocher saiu do escritrio do Papa deixando o camerlengo rezando  luz da lareira diante de uma estatueta da Virgem Maria. Era uma cena soturna. Uma sombra negra ajoelhada na luminosidade bruxuleante. Quando Rocher cruzava o saguo, um guarda apareceu, correndo em sua direo. Mesmo  luz de velas, Rocher reconheceu o tenente Chartrand. Jovem, inexperiente e empenhado.
     Capito  chamou Chartrand, segurando um telefone celular.  Acho que o pronunciamento do camerlengo deu resultado. H uma pessoa aqui ao telefone que diz ter informaes que podem nos ajudar. Ligou para uma das linhas particulares do Vaticano. No sei como ele conseguiu o nmero.
    Rocher se deteve.
     O qu?
     Ele disse que s vai falar com o oficial superior.
     Alguma notcia de Olivetti?
     No, senhor.
    Ele apanhou o telefone.
     Aqui  o capito Rocher. Sou o oficial superior no momento.
     Rocher  disse a voz.  Vou explicar a voc quem sou eu. Depois, vou lhe dizer o que tem de fazer.
    Quando o interlocutor se calou e desligou, Rocher ficou esttico. Agora sabia de quem estava recebendo ordens. No CERN, Sylvie Baudeloque tentava freneticamente dar conta de todos os pedidos de licena que chegavam no correio de voz de Kohler. A linha particular na mesa do diretor comeou a tocar, sobressaltando-a. Ningum tinha aquele nmero. Ela atendeu.
     Sim?
     Senhorita Baudeloque? Aqui  o diretor Kohler. Entre em contato com meu piloto. Meu jato tem de estar preparado para decolar em cinco minutos. 

CAPTULO 100

    Robert Langdon no sabia onde estava nem quanto tempo ficara inconsciente quando abriu os olhos e deu com o interior de uma cpula barroca coberta de afrescos. Havia fumaa ondulando l em cima. Algo cobria sua boca. Uma mscara de oxignio. Ele a puxou. Um cheiro horrvel pairava no ambiente  de carne queimada.
    Langdon contraiu-se, a cabea latejando. Tentou sentar-se. Um homem de branco estava ajoelhado junto dele.
     Riposati!  disse o homem, fazendo Langdon voltar a se deitar.  Sono il paramedico.
    Langdon obedeceu, a cabea girando como a fumaa no alto. Que diabos aconteceu? Sensaes tnues de pnico passavam rpidas por sua mente.
     Topo salvatore  disse o paramdico.  Ratinho salvador.
    Langdon ficou ainda mais perdido. Ratinho salvador?
    O homem apontou para o relgio do Mickey Mouse no pulso de Langdon. Os pensamentos dele comearam a clarear. Lembrou-se ter preparado o alarme do relgio. Olhando distrado para o mostrador, viu tambm a hora: 10h28.
    Sentou-se de repente.
    Ento, tudo lhe voltou  memria.
    Langdon estava perto do altar-mor com o chefe dos bombeiros e alguns dos seus homens. Eles o bombardeavam de perguntas. Ele no escutava. Tinha suas prprias perguntas. Seu corpo inteiro doa, mas ele sabia que precisava agir depressa. Um bombeiro aproximou-se dele vindo do outro lado da igreja.
     Verifiquei de novo, senhor. Os nicos corpos que encontramos foram os do cardeal Guidera e do comandante da Guarda Sua. No h nem sinal de uma mulher aqui.
     Grazie  disse Langdon, entre aliviado e assustado. Sabia que vira Vittoria cada no cho, inconsciente. Agora, ela havia desaparecido. A nica explicao para isso no era nada reconfortante. O matador no fora nem um pouco sutil ao telefone. Uma mulher de fibra. Estou excitado. Talvez, antes que esta noite acabe, eu encontre voc. E quando isto acontecer...
    Langdon olhou em torno.
     Onde est a Guarda Sua?
     Ainda no conseguimos entrar em contato com eles. As linhas telefnicas do Vaticano esto todas ocupadas.
    Langdon sentiu-se prostrado e sozinho. Olivetti estava morto. O cardeal morrera. Vittoria sumira. Meia hora de sua vida desaparecera em um piscar de olhos.
    L fora ouvia-se o alvoroo da imprensa. Desconfiava que as imagens da horripilante morte do terceiro cardeal estariam no ar em breve, se  que j no estavam. Langdon esperava que o camerlengo tivesse admitido o impasse e comeado a agir. Esvaziem a droga do Vaticano! Chega de esconde-esconde! Ns perdemos!
    Langdon ento se conscientizou de que todos os elementos catalisadores que o vinham mobilizando  ajudar a salvar a Cidade do Vaticano, resgatar os quatro cardeais, ver de perto a fraternidade que ele estudara durante tantos anos  tinham se evaporado de sua cabea. A guerra estava perdida. Uma nova compulso acendera-se dentro dele. Simples. Inflexvel. Primordial.
    Encontrar Vittoria.
    Sentia um inesperado vazio dentro de si. Sempre ouvira falar que situaes intensas s vezes uniam mais duas pessoas do que dcadas de convivncia. Agora acreditava naquilo. Com a ausncia de Vittoria, experimentava algo que h anos no sentia. Solido. E o sentimento doloroso deu-lhe foras.
    Afastando tudo o mais de sua mente, Langdon procurou concentrar-se. Rezava para que o Hassassin cuidasse da obrigao antes do prazer. Seno, Langdon sabia que seria tarde demais. No, disse consigo, voc tem tempo. O captor de Vittoria ainda tinha trabalho a fazer. Precisava mostrar-se uma ltima vez antes de desaparecer para sempre.
    O ltimo altar da cincia, pensou Langdon. O matador tinha uma derradeira tarefa a cumprir. Terra. Ar. Fogo. gua.
    Olhou para o relgio. Trinta minutos. Passou pelos bombeiros em direo ao xtase de Santa Teresa. Dessa vez, diante do marco de Bernini, no tinha dvidas sobre o que estava procurando.
    Que os anjos o guiem em sua busca sublime...
    Acima da santa reclinada, diante de um fundo de chamas douradas, pairava o anjo de Bernini. Na mo dele, uma lana pontiaguda de fogo. Langdon seguiu a direo da lana, um arco que indicava o lado direito da igreja. Seus olhos deram com a parede. Examinou o local para onde a lana apontava. No havia nada ali. Ele sabia, claro, que a lana apontava para um lugar muito alm da parede da igreja, no meio da noite de Roma.
     Que direo  aquela?  perguntou Langdon ao chefe dos bombeiros com renovada determinao.
     Direo?  o chefe olhou, sem compreender bem, para onde Langdon apontava.  No estou bem certo. Oeste, acho.
     Que igrejas ficam naquela direo?
    O chefe ficou ainda mais confuso.
     H dezenas delas. Por qu?
    Langdon fez uma careta. Claro que havia dezenas.
     Preciso de um mapa da cidade. Agora mesmo.
    O chefe mandou algum correndo ao caminho dos bombeiros buscar um mapa.
    Langdon virou-se para a esttua. Terra... Ar... Fogo... VITTORIA.
    O marco final  o da gua, disse a si mesmo. A gua de Bernini. Estava em uma daquelas igrejas l fora. Uma agulha no palheiro. Vasculhou sua mente passando em revista todas as obras de Bernini de que se lembrava. Preciso de um tributo  gua!
    Ocorreu-lhe a esttua Trito de Bernini  o deus grego do mar. E lembrou-se de que estava localizada na praa do lado de fora daquela mesma igreja e na direo totalmente errada. Forou-se a pensar. Que figura Bernini teria esculpido para glorificar a gua? Netuno e Apolo? Infelizmente, aquela esttua se encontrava no Museu Victoria & Albert, de Londres.
     Signore?  um bombeiro chegou apressado trazendo um mapa.
    Langdon agradeceu e abriu o mapa em cima do altar. Instantaneamente, percebeu que fizera o pedido s pessoas certas. O mapa de Roma do Corpo de Bombeiros era o mais detalhado que Langdon j encontrara.
     Onde estamos agora?
    O homem mostrou.
     Junto  Piazza Barberini.
    Langdon deu outra olhadela na lana do anjo para se orientar. O chefe calculara certo. De acordo com o mapa, a lana apontava para oeste. Langdon traou uma linha reta no mapa a partir do lugar onde estavam rumo a oeste. E logo suas esperanas se esvaram. A cada centmetro que seu dedo percorria, encontrava uma construo marcada com uma pequena cruz negra. Igrejas. A cidade estava cheia delas. Por fim, o dedo de Langdon no encontrou mais igrejas e perdeu-se nos subrbios de Roma. Ele suspirou, desanimado, e afastou-se do mapa. Droga.
    Observando Roma como um todo, seu olhar se deteve nas trs igrejas onde os trs primeiros cardeais tinham sido mortos. A Capela Chigi, So Pedro, aqui...
    Contemplando os trs locais, Langdon reparou algo estranho em suas posies. Imaginara que as igrejas estivessem espalhadas ao acaso pela cidade. Mas no estavam, com toda a certeza. Por mais que lhe parecesse improvvel, as trs igrejas estavam separadas sistematicamente, formando um enorme tringulo que abrangia toda a cidade. Verificou de novo. No estava imaginando coisas.
     Penna  pediu, sem levantar a cabea.
    Algum lhe entregou uma caneta esferogrfica.
    Langdon fez um crculo sobre cada igreja. Seu pulso se acelerou. Conferiu sua marcao. Um tringulo simtrico!
    Seu primeiro pensamento foi a associao com o sinete da nota de um dlar  o tringulo contendo o olho que tudo v. Entretanto, aquilo no fazia sentido. Ele marcara apenas trs pontos. Deveria haver um total de quatro.
    Ento, onde diabos est a gua? Onde quer que colocasse o quarto ponto, o tringulo seria destrudo. A nica opo para manter a simetria seria situar o quarto ponto dentro do tringulo, no centro. Olhou para o local no mapa. Nada. A idia ainda assim o importunava. Os quatro elementos da cincia eram considerados iguais. A gua no era especial, no havia justificativa para que ficasse no centro.
    De qualquer maneira, seu instinto lhe dizia que o arranjo sistemtico no podia ser acidental. No estou distinguindo o quadro completo. Havia somente uma alternativa: os quatro pontos no formarem um tringulo e sim uma outra figura.
    Langdon olhou para o mapa. Um quadrado, talvez? Embora o quadrado no fizesse sentido simbolicamente, pelo menos era simtrico. Langdon apoiou o dedo no mapa em um dos pontos que converteriam o tringulo em um quadrado. Viu logo que um quadrado perfeito seria impossvel. Os ngulos do tringulo original eram oblquos e criariam algo mais prximo de um quadriltero torto. Enquanto estudava os outros pontos possveis em torno do tringulo, aconteceu algo inesperado. Notou que a linha que desenhara antes para indicar a direo assinalada pela lana do anjo passava precisamente por uma das possibilidades. Estupefato, Langdon fez um crculo sobre aquele ponto. Tinha  sua frente agora quatro pontos marcados a tinta no mapa, dispostos em um formato um tanto desajeitado, parecendo uma pipa, o formato de um diamante.
    Franziu o cenho. Os diamantes tambm no eram um smbolo dos Illuminati. Refletiu um pouco. No entanto...
    Por um instante, lembrou-se do clebre Diamante Illuminati. Mas a idia era ridcula. Descartou-a. Alm do mais, o diamante era oblongo  como uma pipa  e no seria um bom exemplo da impecvel simetria pela qual os Illuminati eram reverenciados.
    Quando se curvou para examinar onde colocara o ltimo marco, Langdon surpreendeu-se ao constatar que o quarto ponto ficava bem no centro da famosa Piazza Navona. Estava certo de que havia uma igreja importante na piazza, mas seu dedo j passara por ela e, que soubesse, no continha nenhuma obra de Bernini. A igreja chamava-se Santa Ins  ou Santa Agnes  em Agonia, uma santa jovem e virgem que fora condenada a uma vida de escravido sexual por recusar-se a renunciar  sua f.
    Deve haver alguma coisa naquela igreja! Langdon deu tratos  bola tentando lembrar o interior da igreja. No tinha conhecimento de qualquer obra de Bernini l dentro, muito menos relacionada com gua. A disposio dos pontos no mapa tambm o incomodava. Um diamante. Era precisa demais para ser coincidncia, mas no era precisa o suficiente para fazer sentido. Uma pipa? Conjeturou se no teria escolhido o ponto errado. O que  que est faltando?
    Langdon levou uns trinta segundos para achar a resposta mas, quando achou, exultou como nunca antes em toda a sua vida acadmica.
    A genialidade dos Illuminati, pelo jeito, era infinita.
    A forma que via no era a de um diamante, no fora planejada para ser a de um diamante. Os quatro pontos s formavam um diamante porque Langdon ligara pontos adjacentes. Os Illuminati acreditavam em opostos! Ao ligar vrtices opostos com sua caneta, os dedos de Langdon tremiam. Ali no mapa  sua frente havia uma enorme cruz. Uma cruz! Os quatro elementos da cincia estendidos diante de seus olhos, cruzando a cidade de Roma de ponta a ponta.
    Enquanto se extasiava com sua descoberta, um verso ressoou em sua mente como um velho amigo de cara nova.
    Atravs de Roma se estendem os msticos elementos.
    Cross Rome the mystic elements unfold. Cross Rome... 
    A nvoa comeou a se dissipar. A resposta estivera diante dele a noite inteira! O poema Illuminati dizia-lhe como os altares da cincia estava dispostos. Em cruz!
    Cross Rome the mystic elements unfold!
    Um astuto jogo de palavras. Langdon lera a palavra cross  cruz  como uma abreviatura de across  atravs. Presumiu que se tratasse de uma licena potica para manter a mtrica do poema em ingls. Mas era muito mais do que isso, era outra pista disfarada!
    A forma da cruz no mapa, constatou ele, era a extrema dualidade Illuminati, um smbolo religioso formado por elementos da cincia. O Caminho da Iluminao de Galileu era um tributo tanto  cincia quanto a Deus!
    O resto das peas do quebra-cabeas encaixou-se prontamente.
    Piazza Navona.
    No centro da Piazza Navona, perto da igreja de Santa Ins em Agonia, Bernini instalara uma de suas mais celebradas esculturas. Todas as pessoas que visitavam Roma iam v-la.
    A Fonte dos Quatro Rios!
    Um primoroso tributo  gua, a Fonte dos Quatro Rios de Bernini glorificava os quatro maiores rios conhecidos do Velho Mundo  o Nilo, o Ganges, o Danbio e o Prata.
    gua, pensou Langdon, o marco final. Perfeito.
    E ainda mais perfeito, lembrou ele,  que bem no alto da fonte de Bernini havia um imenso obelisco.
    Deixando para trs os bombeiros confusos, Langdon atravessou a igreja s pressas em direo ao corpo sem vida de Olivetti.
    10h31, pensou. Tenho tempo  bea. Pela primeira vez naquele dia sentia-se com vantagem sobre o inimigo.
    Ajoelhando-se ao lado de Olivetti, fora de viso atrs de alguns bancos da igreja, Langdon apoderou-se discretamente da arma do comandante e de seu walkie-talkie. Teria de pedir socorro, mas no ali. O ltimo altar da cincia tinha de permanecer em segredo por enquanto. A imprensa e o Corpo de Bombeiros correndo para a Piazza Navona com a sirene ligada no seriam de grande ajuda.
    Sem dizer uma palavra, Langdon escapuliu pela porta e driblou a imprensa, que agora entrava na igreja em tropel. Cruzou a Piazza Barberini. Nas sombras, ligou o walkie-talkie. Tentou chamar a Cidade do Vaticano, mas s ouviu esttica. Ou ele estava fora de rea ou o transmissor precisava de algum tipo de cdigo de autorizao para o contato. Langdon mexeu nos complicados botes e controles sem qualquer resultado. Deu-se conta de que seu plano de conseguir ajuda no iria funcionar. Procurou em torno por um telefone pblico. No havia nenhum. As linhas do Vaticano estariam congestionadas, de qualquer forma.
    Estava sozinho.
    Com seu impulso inicial de confiana bastante abalado, Langdon parou um momento para avaliar o estado deplorvel em que se encontrava  coberto de poeira de ossos, machucado, em uma exausto que beirava o delrio e, ainda por cima, faminto.
    Olhou para a igreja l atrs. Espirais de fumaa saam da cpula, iluminadas pelas luzes da mdia e pelos caminhes dos bombeiros. Ponderou se deveria voltar e pedir ajuda. O instinto, porm, lhe dizia que mais ajuda, sobretudo ajuda no especializada, seria um risco. Se o Hassassin nos v chegar... Pensou em Vittoria e pressentiu que aquela seria a ltima oportunidade de enfrentar o homem que a capturara.
    Piazza Navona, refletiu, sabendo que poderia chegar l com tempo de sobra e ficar  espreita. Procurou um txi, mas as ruas estavam quase desertas. At os motoristas de txi, aparentemente, tinham largado tudo para ver televiso. A praa ficava a pouco mais de um quilmetro de distncia, mas Langdon no tinha a inteno de gastar uma energia preciosa indo a p. Olhou de novo para a igreja, imaginando se poderia pegar algum veculo emprestado.
    Um carro de bombeiros? Um furgo da imprensa? Tenha juzo, criatura.
    Com as opes e os minutos se esgotando, Langdon tomou uma deciso. Tirou a arma do bolso e teve uma atitude to incompatvel com seu carter que achou que sua alma devia estar possuda. Aproximou-se de um solitrio Citron sed parado em um sinal e apontou a arma para o motorista pela janela aberta.
     Fuori!  gritou.
    O homem saiu do carro, trmulo.
    Langdon sentou-se depressa ao volante e acelerou. 

CAPTULO 101

    Gunther Glick sentou-se em um banco de uma cela do escritrio da Guarda Sua. Rezava para todos os deuses que lhe passavam pela cabea. Por favor, faa com que NO seja um sonho. Tinha sido o furo de sua vida. A reportagem da vida de qualquer um. Todos os reprteres, sem exceo, gostariam de ser Glick naquele momento. Voc no est sonhando, disse consigo. E  uma celebridade. Dan Rather deve estar aos prantos neste instante.
    Macri estava ao lado dele, um pouco atordoada. Glick compreendia. Alm de divulgarem com exclusividade o discurso do camerlengo, ela e Glick haviam fornecido ao mundo fotografias impressionantes dos cardeais e do Papa  aquela lngua dele! , assim como um vdeo com imagens ao vivo do tubo de antimatria em contagem regressiva. Incrvel!
    Claro que tudo acontecera sob os auspcios do camerlengo, portanto no era essa a razo pela qual Glick e Macri estavam presos na Guarda Sua. O que no tinha agradado aos guardas fora aquele audacioso acrscimo de Glick  matria. Glick sabia que a conversa que havia noticiado no fora destinada a seus ouvidos, mas tratava-se da maior oportunidade da sua vida. Mais um furo de reportagem de Glick!
     O Samaritano da Dcima Primeira Hora?  Macri resmungou, sentada ao lado dele no banco, com cara de pouco caso.
    Glick sorriu.
     Foi o mximo, no foi?
     O mximo da idiotice.
    Ela est  com inveja, pensou Glick. Logo depois que o camerlengo terminou seu discurso, Glick, mais uma vez e por pura sorte, viu-se no lugar certo e na hora certa. Por acaso, tinha ouvido Rocher dando novas ordens a seus homens. Ao que tudo indica, Rocher havia recebido uma ligao de uma pessoa no identificada que tinha informaes importantssimas sobre a crise que estavam passando. Rocher estava falando como se esse homem pudesse ajud-los e orientava seus guardas para se aprontarem para a chegada do visitante.
    Embora a informao fosse nitidamente confidencial, Glick agiu como qualquer reprter dedicado faria  sem nenhum respeito. Procurou um canto escuro, pediu a Macri para ligar a cmera s escondidas e divulgou a notcia.
     Novidades surpreendentes na cidade de Deus  anunciou, apertando os olhos para dar mais nfase s palavras. E continuou informando que um convidado misterioso estava chegando  Cidade do Vaticano para salvar a situao. O Samaritano da Dcima Primeira Hora, Glick assim o batizou  um nome perfeito para um homem sem rosto que aparecia no ltimo instante para fazer uma boa ao. Outras redes de emissoras adotaram a alcunha do personagem, que soava bem, e Glick foi mais uma vez imortalizado.
     Sou o mximo, pensou. Peterlennings deve ter acabado de se atirar de uma ponte.
     evidente que Glick no parou por a. Com a ateno do mundo voltada para ele, aproveitou para acrescentar gratuitamente um pouco da prpria teoria conspiratria.
    O mximo. Simplesmente o mximo.
     Voc acabou conosco  disse Macri.  Estragou tudo.
     Do que est falando? Fui perfeito!
    Macri olhou para ele, incrdula.
     O ex-presidente George Bush? Um Illuminatus?
    Glick sorriu. Nada podia ser mais evidente. George Bush era um comprovado maom de trigsimo terceiro grau e ocupava o mais alto posto da CIA quando a agncia encerrou as investigaes sobre os Illuminati por falta de provas. E todos aqueles discursos sobre milhares de pontos de luz e uma Nova Ordem Mundial Claro que Bush era um dos Illuminati.
     E aquela parte sobre o CERN?  disse Macri em tom de reprovao.
     Amanh, voc vai encontrar uma fila bem comprida de advogados  sua porta.
     O CERN? Ora, pare com isso! Est to na cara! Pense bem! Os Illuminati desapareceram da face da Terra por volta de 1950, mais ou menos na mesma ocasio em que o CERN foi fundado. O CERN  um paraso para as pessoas mais esclarecidas da Terra. Eles recebem toneladas de recursos financeiros de origem privada e conseguiram construir uma arma com capacidade para destruir a Igreja que, opa, eles no sabem onde foi parar?!
     E a voc espalha para o mundo inteiro que o CERN  a nova sede dos Illuminati?
      claro! As fraterniclades no desaparecem assim sem mais nem menos. Os Illuminati tinham de ir para algum lugar. E o CERN  o esconderijo perfeito. No estou dizendo que todo mundo no CERN seja Illuminati. Provavelmente, aquilo funciona como uma colossal loja manica, onde a maioria  inocente, mas o escalo superior...
     J ouviu falar em difamao, Glick? Em responsabilidade civil?
     J ouviu falar de jornalismo de verdade?
     Jornalismo? Voc est inventando chifre em cabea de burro! Eu devia ter desligado a cmera! E que besteira foi aquela sobre o logotipo do CERN? Aquela histria de simbologia satnica? Perdeu o juzo? Glick sorriu. A inveja de Macri estava toda  mostra. O logotipo do CERN foi a sua proeza de maior brilhantismo. Desde o discurso do camerlengo, todas as emissoras estavam falando sobre o CERN e a antimatria. Alguns canais mostravam o logotipo do CERN como tela de fundo. O logotipo parecia bastante comum  dois crculos que se cruzam, representando dois aceleradores de partculas, e cinco linhas tangenciais representando tubos de injeo de partculas. O mundo inteiro no tirava os olhos desse logotipo, mas fora Glick, que tambm tinha os seus conhecimentos sobre smbolos, quem primeiro havia reparado na simbologia dos Illuminati ali camuflada.
     Voc no  especialista em simbologia  reclamou Macri ,  apenas um reprter com sorte. Devia ter deixado a simbologia por conta do tal sujeito de Harvard.
     O sujeito de Harvard deixou passar essa  respondeu Glick.
    A expresso dos Illuminati neste logotipo  muito bvia!
    Glick estava rindo de alegria por dentro. Embora o CERN tivesse inmeros aceleradores, o logotipo mostrava apenas dois. Dois  o nmero da dualidade para os Illuminati. E embora a maioria dos aceleradores tivesse apenas um tubo de injeo, o logo mostrava cinco. Cinco  o nmero do pentagrama dos Illuminati. Ento veio o golpe de mestre, o mais brilhante de todos. Glick observou que no logotipo estava desenhado o nmero 6 bem grande, formado por uma das linhas e um dos crculos, e, se o logotipo fosse girado, apareceria outro nmero seis e depois mais um. O logotipo tinha trs nmeros seis! 666! O nmero do demnio! A marca da besta!
    Glick era um gnio.
    Macri estava a ponto de agredi-lo.
    A inveja dela passaria, disso Glick tinha certeza, enquanto sua mente j se desviava para outro pensamento. Se o CERN fosse mesmo a sede dos Illuminati, seria l o local onde eles guardavam o famoso Diamante Illuminati? Glick lera sobre isso na Internet: um diamante sem jaa, nascido dos antigos elementos com tamanha perfeio que todos os que o viam ficavam extasiados
    Glick ficou imaginando se o paradeiro secreto do Diamante Illuminati poderia vir a ser mais um mistrio que ele desvendaria naquela noite. 

CAPTULO 102

    Pazza Navona, Fonte dos Quatro Rios.
    As noites em Roma, como as do deserto, podem ser surpreendentemente frias, mesmo depois de um dia quente. Langdon estava todo encolhido nos arredores da Piazza Navona, apertando o palet contra o corpo. Assim como o rudo do trfego  distncia, uma cacofonia de reportagens ressoava por toda a cidade. Olhou o relgio. Quinze minutos. Era bom ter alguns momentos para descansar.
    A piazza estava deserta. A magistral fonte de Bernini agitava suas guas diante dele, enfeitiante, imponente. O tanque espumante lanava para cima uma nvoa mgica, iluminada por holofotes submersos. Langdon captava uma glida eletricidade no ar.
    A caracterstica mais impressionante da fonte era sua altura. A parte central sozinha ultrapassava seis metros  uma montanha escarpada de mrmore travertino talhado em cavernas e grutas entre as quais a gua se revolvia. Toda a elevao era rodeada de smbolos pagos. No alto, ficava um obelisco que avanava mais 12 metros. Langdon acompanhou-o com o olhar. Na ponta do obelisco, uma tnue silhueta desenhava-se no cu: um pombo solitrio pousado silenciosamente.
    Uma cruz, pensou Langdon, ainda admirado com a disposio dos marcos atravs de Roma. A Fonte dos Quatro Rios de Bernini era o ltimo altar da cincia. Fazia apenas algumas horas, Langdon estava dentro do Panteo, certo de que o Caminho da Iluminao havia sido interrompido e de que ele jamais chegaria at ali. Que grande tolice. Na verdade, o caminho inteiro estava intacto. Terra, Ar, Fogo, gua. E Langdon o havia percorrido do comeo ao fim.
    No exatamente at o fim, fez-se lembrar. O caminho tinha cinco pontos, no quatro. Essa fonte, o quarto marco, de certa maneira apontava para o destino final, o refgio sagrado dos Illuminati: a Igreja da Iluminao. Ele conjeturava se o esconderijo ainda existiria. Pensava se teria sido para l que o Hassassin levara Vittoria.
    Langdon examinava as figuras da fonte em busca de alguma pista do caminho para o esconderijo. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. Quase que imediatamente, porm, uma percepo inquietante ocupou seus pensamentos. No havia sequer um anjo nessa fonte. Nenhum anjo, pelo menos nenhum que se avistasse de onde Langdon se encontrava, e nenhum que ele tivesse visto no passado. A Fonte dos Quatro Rios era uma obra pag. As esculturas eram todas profanas  seres humanos, animais, at mesmo um deselegante tatu. Um anjo aqui no passaria despercebido.
    Seria o lugar errado? Meditou sobre a disposio em cruz dos quatro obeliscos. Cerrou os punhos. Esta fonte  perfeita.
    Ainda eram 10h46 da noite quando um furgo preto apareceu na ruela do lado mais afastado da praa. Langdon no teria prestado maior ateno se o furgo no estivesse com os faris desligados. Como um tubaro rondando em uma baa enluarada, o carro circulou em volta da praa.
    Langdon ps-se junto ao cho, agachado nas sombras da imensa escadaria que leva  igreja de Santa Ins em Agonia. Olhou em direo  praa, o pulso acelerado.
    Depois de dar duas voltas completas, o furgo descreveu uma curva na direo da fonte de Bernini. Parou junto ao tanque e deslocou-se paralelamente  borda at a lateral do furgo ficar ao nvel da fonte. Estacou de repente, a porta corredia somente alguns centmetros acima das guas revoltas.
    A nvoa erguia-se em turbilhes pelo ar.
    Langdon teve um pressentimento ruim. Ser que o Hassassin viera antes da hora? Teria vindo em um furgo? Langdon imaginara o assassino escoltando sua ltima vtima a p pela praa, como tinha feito em So Pedro, o que permitiria que Langdon atirasse a descoberto. Mas se o Hassassin tivesse chegado em um furgo, as regras tinham acabado de mudar.
    De repente, a porta lateral do furgo se abriu.
    Sobre o piso do furgo, contorcido de dor, jazia um homem nu, o corpo enrolado em muitos metros de pesadas correntes. Ele se debatia em vo em meio aos elos de ferro. Um deles atravessava-lhe a boca como um freio de cavalo, sufocando seus gritos de socorro. Foi ento que Langdon viu uma segunda figura movimentando-se no escuro atrs do prisioneiro, como se finalizasse os preparativos.
    Langdon sabia que tinha apenas segundos para agir.
    Pegou a arma, tirou o palet e jogou-o no cho. No queria o estorvo adicional de um palet de l, nem tinha inteno nenhuma de levar o Diagramma de Galileu para perto da gua. O documento ali ficaria em segurana e seco.
    Langdon seguiu com cautela pela direita. Fez uma volta em torno da fonte e parou de frente para o furgo. A imensa pea central da fonte impedia-lhe a viso. Levantou-se e correu direto para o tanque. Contava que o barulho da gua abafasse o rudo de seus passos. Ao alcanar a fonte, passou por cima da borda e caiu no tanque espumante.
    A gua lhe batia na altura da cintura e estava gelada. Langdon cerrou os dentes e avanou com esforo. O fundo escorregadio era duplamente traioeiro devido a uma camada de moedas jogadas para atrair sorte. Langdon percebeu que iria precisar de mais do que boa sorte.  medida que a nvoa o envolvia, ficou imaginando se seria o frio ou o medo que fazia com que a arma lhe tremesse nas mos.
    Conseguiu chegar ao interior da fonte e circundou-a pela esquerda de onde estava. Caminhava com dificuldade, mantendo-se encoberto pelas figuras de mrmore. Escondido atrs de uma imensa escultura em forma de cavalo, Langdon parou para espreitar. O furgo encontrava-se a pouco mais de cinco metros. O Hassassin estava agachado no assoalho do furgo, as mos sobre o cardeal enrolado nas correntes, prestes a empurr-lo porta afora para dentro da fonte.
    Com gua pela cintura, Robert Langdon levantou a arma e saiu da nvoa, sentindo-se como uma espcie de caubi aqutico pronto para gravar uma cena final.
     No se mexa  disse, a voz mais firme que a arma.
    O Hassassin ergueu os olhos. Por um instante pareceu confuso, como se tivesse visto um fantasma. Depois, os lbios se apertaram em um sorriso maldoso. Ps os braos para cima em sinal de obedincia e respondeu:
     Assim seja.
     Para fora do furgo.
     Voc est um pouco molhado.
     E voc chegou cedo.
     Estou louco para voltar para a minha presa.
    Langdon apontou-lhe a arma.
     No vou hesitar em atirar.
     J hesitou.
    Langdon sentiu a presso do dedo no gatilho. O cardeal j no se mexia. Parecia exausto,  beira da morte.
     Solte-o.
     Esquea-o. Voc veio por causa da mulher. No finja que no.
    Langdon fez um grande esforo naquela hora para no terminar tudo de uma vez.
     Onde ela est?
     Em um lugar seguro. Esperando que eu volte.
    Est viva. Langdon sentiu um fio de esperana.  Na Igreja da Iluminao?
    O assassino sorriu.
     Jamais vai descobrir onde .
    Era difcil de acreditar. O esconderijo ainda est de p. Apontou a arma.
     Onde?
     O lugar  um mistrio h sculos. Eu mesmo s vim a saber dele h pouco. Prefiro a morte a trair este segredo.
     Vou conseguir encontr-lo sem voc.
     Uma idia bem arrogante.
    Langdon gesticulou na direo da fonte.
     Cheguei at aqui.
     Como muitos outros. A etapa final  a mais difcil.
    Langdon foi-se aproximando, os ps instveis sob a gua. O Hassassin parecia extraordinariamente calmo agachado no fundo do furgo, os braos erguidos sobre a cabea. Langdon apontou direto para o peito dele, ponderando se deveria simplesmente atirar e acabar logo com o assunto. No. Ele sabe onde est Vittoria. Sabe onde est a antimatria. Preciso obter essas informaes!
    Da escurido do furgo, o Hassassin observava o agressor. No pde deixar de achar graa e ao mesmo tempo sentir uma certa pena dele. O americano era corajoso, isto ele j comprovara. Mas tambm no tinha muita prtica. O que tambm havia sido comprovado. Herosmo sem experincia era suicdio. Havia regras de sobrevivncia. Regras antigas. E o americano estava quebrando todas elas.
    Voc tinha uma vantagem, o elemento surpresa. E desperdiou-a.
    O americano estava indeciso, provavelmente esperando reforos ou talvez um ato falho do assassino que deixasse escapar informaes decisivas.
    Nunca faa um interrogatrio antes de neutralizar a vtima. Um inimigo encurralado  um inimigo mortfero.
    De novo, o americano estava falando. Sondando. Manipulando.
    O assassino estava a ponto de cair na gargalhada. Este no  um dos seus filmes de Hollywood, nada de longas discusses com a arma na mo antes do tiro final. Este  o final. Agora.
    Sem desgrudar os olhos do outro, o assassino foi estendendo as mos bem devagar at encontrar o que procurava no teto do furgo. Olhando direto para frente, agarrou o objeto.
    E fez a sua jogada. O movimento foi absolutamente inesperado. Por um instante, Langdon achou que as leis da fsica haviam deixado de existir. O assassino pareceu pairar no ar enquanto suas pernas se desdobravam em um salto, as botas atingindo um lado do cardeal, empurrando seu corpo carregado de correntes para fora. O cardeal afundou, espalhando gua para todo lado.
    Com a gua escorrendo-lhe pelo rosto, Langdon compreendeu tarde demais o que tinha acontecido. O assassino tinha agarrado uma das barras da estrutura do furgo e a usara como ponto de apoio para balanar o corpo. Agora, vinha em sua direo, os ps na frente, em meio  chuva de respingos dgua.
    Langdon puxou o gatilho e o silenciador cuspiu fogo. A bala explodiu na bota esquerda do Hassassin, atravessando-a na altura do dedo grande. No mesmo segundo, Langdon sentiu as solas das duas botas do Hassassin no seu peito, atirando-o para trs com um chute violento.
    Os dois homens caram espadanando gua e sangue.
    Quando o lquido gelado engoliu o corpo de Langdon, a primeira coisa que sentiu foi dor. O instinto de sobrevivncia veio depois. Notou que no segurava mais a arma. Ela tinha cado. Mergulhou, tateando o fundo lamacento. A mo tocou em metal. Um punhado de moedas. Deixou-as cair. Abriu os olhos e explorou o tanque iluminado. As guas agitavam-se ao redor de Langdon como se ele estivesse em uma jacuzzi gelada.
    Apesar do instinto de subir para respirar, o medo fez com que permanecesse no fundo. Mexia-se o tempo todo. No fazia a menor idia de onde viria o prximo golpe. Precisava encontrar a arma! Desesperadamente, suas mos procuravam s apalpadelas.
    Voc est em vantagem agora, disse consigo. Est em seu elemento. Mesmo vestido com uma camisa de gola rul ensopada, era um nadador gil. A gua  o seu elemento.
    Quando, pela segunda vez, os dedos de Langdon tocaram metal, acreditou que a sorte havia mudado de lado. O objeto que segurava no era um punhado de moedas. Agarrou-o e tentou pux-lo para si, mas, ao faz-lo, sentiu o prprio corpo deslizando pela gua. O objeto estava preso.
    Langdon percebeu, antes mesmo de alcanar o corpo contorcido do cardeal, que havia agarrado parte da corrente de metal que o mantinha submerso. Ele hesitou por um momento, imobilizado com a viso apavorante do rosto que o encarava do fundo da fonte.
    Espantado por ainda encontrar vida nos olhos do homem, Langdon estende as mos para baixo e segurou com fora as correntes, tentando levant-lo at a superfcie. O corpo movimentou-se devagar, como uma ncora. Langdon puxou com mais fora. Quando a cabea do cardeal irrompeu da gua, ele aspirou o ar umas poucas vezes, desesperado. Ento, com grande mpeto, o corpo girou, o que fez com que Langdon perdesse a pega da corrente escorregadia. Como uma pedra, Baggia foi de novo para o fundo e desapareceu por baixo da espuma da gua.
    Langdon mergulhou, olhos abertos na gua turva. Encontrou o cardeal. Dessa vez, quando Langdon o agarrou, as correntes na altura do peito de Baggia deslocaram-se e revelaram mais uma crueldade: a palavra marcada em sua carne com ferro em brasa. 
     
    Uma frao de segundo depois, Langdon avistou duas botas. De uma delas, jorrava sangue. 

CAPTULO 103

    Como jogador de plo aqutico, Robert Langdon j sofrera mais ataques debaixo dgua do que merecia. A selvageria competitiva que impera sob a superfcie de uma piscina de plo aqutico, longe dos olhos dos rbitros, pode ser comparada  das mais grosseiras competies de luta livre. Langdon j tinha sido chutado, arranhado, retido e at mesmo, uma vez, mordido por um zagueiro frustrado, de quem procurara se desviar durante o jogo todo.
    Agora, porm, lutando nas guas glidas da fonte de Bernini, Langdon reconhecia estar a anos luz da piscina de Harvard. Aquele no era um jogo por pontos, mas pela prpria vida. Era a segunda vez que os dois estavam lutando. Sem rbitros. Sem revanche. Os braos que lhe foravam a cabea de encontro ao fundo exerciam tamanha presso que no deixavam dvidas sobre sua inteno de matar.
    Num gesto instintivo, Langdon girou o corpo igual a um torpedo. Livrar-se da pega! Mas o atacante, aproveitando-se da vantagem que nenhum jogador de plo aqutico jamais teve, a de estar com os ps firmes no cho, girou-o de volta. Langdon se contorceu, tentando apoiar os ps. O Hassassin parecia estar afrouxando a presso em um dos braos, mas apesar disso continuava segurando firme.
    Langdon convenceu-se de que no iria conseguir subir  superfcie. Fez, ento, a nica coisa que lhe passou pela cabea. Parou de fazer fora para subir. Se no d para ir para o norte, v para leste. Juntando as ltimas foras que lhe restavam, bateu as pernas como um golfinho e movimentou os braos por baixo do corpo em uma desajeitada braada de estilo borboleta. Seu corpo avanou para frente.
    A repentina mudana de direo pegou o Hassassin desprevenido, O movimento lateral de Langdon empurrou os braos do outro para os lados, prejudicando-lhe o equilbrio. Ao sentir uma leve diminuio de presso, Langdon bateu as pernas de novo. A sensao foi como se um cabo de reboque se partisse. De repente, Langdon estava livre. Expirou o que lhe restava de ar nos pulmes e, num arranco, foi para a superfcie. Respirar uma nica vez foi tudo o que conseguiu. Com uma fora arrasadora, o Hassassin estava de novo em cima dele, as palmas das mos nos ombros de Langdon, todo o peso do seu corpo sobre o adversrio. Langdon tentou levantar-se, mas uma perna do Hassassin projetou-se para a frente, derrubando-o.
    E ele afundou outra vez.
    Os msculos de Langdon queimavam enquanto tentava desvencilhar-se. Dessa vez, todas as investidas foram em vo. Atravs da gua borbulhante, Langdon vasculhava o fundo atrs da arma. Tudo estava embaado, as borbulhas cada vez mais densas. Uma luz ofuscante bateu-lhe no rosto quando o assassino o empurrou para baixo, na direo de um refletor instalado no fundo. Langdon esticou os braos e agarrou a caixa do refletor. Estava quente. Langdon fez fora para arranc-la, mas estava fixada por meio de dobradias, girou em sua mo e ele perdeu o apoio.
    O Hassassin empurrou-o mais ainda para baixo.
    Foi ento que Langdon o viu. Fincado nas moedas, bem na frente de seus olhos. O cilindro estreito, preto. O silenciador da arma de Olivetti! Langdon se esticou, mas quando seus dedos seguraram o cilindro no sentiu o contato com metal, mas com plstico. Ao pux-lo, uma mangueira flexvel veio molemente em sua direo como se fosse uma cobra. Tinha uns 60 centmetros e as bolhas de ar jorrando de uma das pontas. Langdon no tinha encontrado arma nenhuma. Era um dos muitos spumanti, inocentes aparelhos de fazer bolhas de ar, instalados na fonte.
    Bem perto dali, o cardeal Baggia sentia a alma deixando-lhe o corpo. Embora tivesse se preparado a vida inteira para aquele momento, jamais imaginara que seu fim seria desse jeito. Seu corpo sofria intensamente  havia sido queimado, machucado e mantido submerso sob um peso intolervel. Lembrou-se de que o prprio sofrimento no era nada se comparado com o de Jesus.
    Ele morreu pelos meus pecados...
    Baggia escutava os golpes da luta violenta que se desenrolava por perto. Era demais pensar que quem o tinha capturado estava tambm quase terminando com outra vida, a do homem de olhos bondosos que tentara socorr-lo.
    Quando a dor aumentou, Baggia mirou, atravs da gua, o cu escuro que encobria tudo. Por um momento, pensou ter visto estrelas.
    Era chegada a hora.
    Libertando-se de todo medo e dvida, abriu a boca e expeliu o que seria o ltimo sopro de sua vida. Observou seu prprio esprito gorgolejar na direo do cu em um jorro de bolhas de ar transparentes. Ento, em uma reao involuntria, respirou. A gua penetrou como finos punhais de gelo em seus flancos. A dor durou apenas alguns segundos.
    Depois, veio a paz.
    O Hassassin ignorava o p que doa, concentrado apenas em afogar o americano, que agora mantinha imobilizado sob o peso do seu corpo, no meio da gua turbulenta. Destru-lo por completo. Apertou com mais fora ainda, sabendo que desta vez Robert Langdon no sobreviveria. Conforme havia previsto, sua vtima mostrava cada vez menos reao.
    De repente, o corpo de Langdon ficou rgido. Comeou a tremer loucamente. Sim, pensou o Hassassin. Os tremores. Quando a gua afinal chega aos pulmes. Os tremores, sabia, iriam durar uns cinco segundos.
    Duraram seis.
    Ento, exatamente como o Hassassin havia calculado, o corpo da vtima de repente ficou flcido. Como um imenso balo que perdesse o ar, Robert Langdon
    relaxou. Estava morto. O Hassassin ainda o segurou por mais uns trinta segundos, para que a gua inundasse todo o tecido pulmonar. Aos poucos, sentiu que o corpo de Langdon afundava por conta prpria. Afinal, o Hassassin o soltou.
    A imprensa encontraria uma dupla surpresa na Fonte dos Quatro Rios.
    Tabban!, praguejou o Hassassin, saindo da fonte e examinando o dedo do p que sangrava sem parar. A ponta da bota estava arrebentada e a extremidade do dedo grande havia sido arrancada. Furioso consigo mesmo pelo descuido, rasgou a bainha da cala e enfiou o tecido pelo buraco da bota, comprimindo-o contra a ferida. A dor subiu-lhe pela perna. Ibn al-kalb! Cerrou os punhos de dor e empurrou o pano com mais fora. O sangramento foi diminuindo at restar apenas um filete de sangue.
    Tirando seus pensamentos da dor e voltando-os para o prazer, o Hassassin entrou no furgo. O trabalho em Roma estava terminado. Sabia muito bem o que lhe aliviaria o incmodo. Vittoria Vetra estava amarrada e  sua espera. O Hassassin, mesmo com frio e ensopado, sentiu-se sexualmente excitado.
    Fiz por onde merecer meu prmio.
    Do outro lado da cidade, Vittoria acordou toda dolorida. Estava deitada de costas. Todos os msculos estavam duros como pedra. Tensos. Retesados. Os braos doam. Tentou se mexer, mas sentiu espasmos nos ombros. Levou poucos segundos para compreender que suas mos estavam amarradas nas costas. A primeira reao foi de confuso. Estou sonhando? Mas, quando quis levantar a cabea, a dor lancinante na base do crnio avisou-a de que estava totalmente acordada.
    A confuso inicial deu lugar ao medo, e ela examinou o lugar.
    Encontrava-se em uma sala despojada, grande e bem mobiliada, iluminada por tochas acesas e com paredes de pedra. Uma espcie de antigo salo de reunies. Havia bancos antiquados dispostos em crculo mais adiante.
    Vittoria sentiu uma brisa, agora fria, percorrer-lhe a pele. No longe de onde estava, um conjunto de portas duplas abria-se para uma sacada. Atravs das brechas da balaustrada, Vittoria podia jurar ter visto o Vaticano. 

CAPTULO 104

    Robert Langdon jazia deitado sobre uma camada de moedas no fundo da Fonte dos Quatro Rios, a mangueira de plstico ainda na boca. O ar que era bombeado atravs do tubo dos spumanti para fazer a fonte borbulhar vinha poludo e sua garganta ardia. No podia reclamar, porm. Afinal, estava vivo.
    No tinha certeza se sua imitao de um afogado fora convincente, mas, tendo passado a vida inteira em contato com a gua, Langdon j ouvira muitas descries de afogamentos. Fizera o melhor que podia. Quase no final, teve de expirar todo o ar dos pulmes e parar de respirar para que a massa muscular levasse seu corpo para o fundo.
    Por sorte, o Hassassin engolira a histria e o soltara.
    Agora, deitado no fundo da fonte, Langdon esperou o quanto pde. Estava prestes a morrer asfixiado. Tentou adivinhar se o Hassassin ainda estaria l fora. Aspirou o ar queimado que vinha do tubo, entregou os pontos e atravessou nadando o fundo da fonte at encontrar a elevao da parte central. Bem devagar, subiu acompanhando-a e emergindo sem ser visto nas sombras projetadas na gua pelas imensas figuras de mrmore.
    O furgo tinha ido embora.
    Era tudo o que Langdon precisava ver. Respirou bem fundo, enchendo os pulmes de ar, e voltou para o local onde o cardeal Baggia afundara. Langdon sabia que o homem j estaria inconsciente e que as chances de sobrevivncia eram mnimas, mas tinha de tentar. Quando encontrou o corpo, abriu as pernas sobre ele e apoiou bem os ps, abaixou as mos e agarrou as correntes que envolviam o cardeal. Ento, Langdon puxou. Quando o cardeal saiu da gua, Langdon viu que os olhos dele j estavam revirados para cima, salientes. No era um bom sinal. No havia respirao nem pulso.
    Sabendo que jamais conseguiria levantar o corpo e faz-lo passar pela borda do tanque da fonte, Langdon puxou o cardeal Baggia pela gua at uma concavidade sob a elevao central. Ali era mais raso e havia uma espcie de salincia inclinada. Langdon arrastou o corpo nu para cima da salincia o mais que lhe foi possvel. E ps-se a trabalhar.
    Comprimiu o peito coberto de correntes do cardeal e bombeou a gua para fora dos seus pulmes. Depois aplicou a ressuscitao cardiopulmonar, fazendo a contagem com todo o cuidado, cheio de determinao e resistindo ao instinto de soprar com fora demais ou depressa demais. Durante trs minutos, Langdon tentou reanimar o cardeal. Passados cinco minutos, reconheceu que no havia mais nada a fazer.
    Il preferito. O homem que teria sido Papa. Morto diante dele.
    De algum modo, mesmo naquelas circunstncias, cado no escuro sobre a pedra meio submersa, o cardeal Baggia ainda mantinha um ar de serena dignidade. A gua agitava-se mansamente sobre o seu peito, parecendo arrependida, como se pedisse perdo por ter sido a assassina final, como se quisesse purificar a ferida da queimadura que tinha o seu nome.
    Delicadamente, Langdon passou a mo no rosto do homem e fechou-lhe os olhos. Ao faz-lo, sentiu dentro de si um estremecimento e lgrimas de exausto inundaram seus olhos. Espantou-se com isto. E, pela primeira vez em anos, Langdon chorou. 

CAPTULO 105

    A nebulosa sensao de esgotamento emocional foi se dissipando aos poucos  medida que Langdon, andando dentro da gua, se afastava do cardeal morto e voltava para o trecho mais fundo. Extenuado e s, ele pensava que fosse desmaiar no meio da fonte. Mas, em vez disso, sentiu uma nova compulso ir crescendo em seu ntimo. Incontestvel. Veemente. Seus msculos se retesaram com uma sbita firmeza. A mente, ignorando a tristeza do corao, ps de lado os acontecimentos passados para dar lugar  nica e arriscada tarefa que tinha pela frente.
    Encontrar o refgio dos Illuminati. Ajudar Vittoria.
    Virando-se para o centro montanhoso da fonte de Bernini, Langdon reuniu suas esperanas e lanou-se na busca do ltimo marco dos Illuminati. Tinha certeza de que em algum lugar, no meio das massas contorcidas de figuras, estava a pista que indicaria o refgio. Enquanto vasculhava a fonte, entretanto, suas esperanas esvaram-se rapidamente. As palavras do segno pareciam vir, zombeteiras, do burburinho das guas que o rodeavam. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. Langdon olhava para as figuras  sua frente. A fonte  pag! No h nenhum anjo em lugar algum!
    Depois de terminar sem resultado a busca na parte central, seu olhar instintivamente subiu pela altiva coluna de pedra. Quatro marcos, pensou, espalhados por Roma em uma cruz gigantesca.
    Examinou os hierglifos que cobriam o obelisco e ficou imaginando se haveria uma pista escondida nos smbolos egpcios. Rejeitou a idia imediatamente. Os hierglifos eram anteriores a Bernini em muitos sculos e s tinham sido decifrados depois da descoberta da Pedra de Rosetta. Ainda assim, Langdon arriscou, quem sabe Bernini teria esculpido ali mais um smbolo? Um smbolo que passasse despercebido no meio dos hierglifos?
    Sentindo uma centelha de esperana, Langdon caminhou ao redor da fonte, mais uma vez analisando as quatro fachadas do obelisco. Levou uns dois minutos e, quando chegou ao final da ltima face, suas esperanas desapareceram. Nada nos hierglifos se destacava como sendo qualquer tipo de acrscimo. E muito menos havia anjos.
    Langdon verificou o relgio. Onze horas em ponto. No saberia dizer se o tempo estava voando ou andando devagar. Imagens de Vittoria e do Hassassin comearam a obcec-lo enquanto circundava a fonte, impaciente, a frustrao crescendo a cada volta intil. Abatido e exausto, Langdon estava a ponto de cair. Levantou a cabea para gritar para a noite.
    O som ficou preso na sua garganta.
    Langdon estava olhando direto para o topo do obelisco. O objeto empoleirado era um que vira antes sem dar qualquer importncia. Dessa vez, porm, ele o fez parar. No era um anjo. Longe disso. Na verdade, no o havia percebido como parte da fonte de Bernini. Pensou que estivesse vivo, que fosse mais um dos pequenos animais que ciscavam nas ruas da cidade, encarapitado em cima da torre.
    Um pombo.
    Langdon apertou os olhos na direo do vulto, a viso embaada pela nvoa luminosa  volta. Era um pombo, no era? Via nitidamente o contorno da cabea e do bico contra um aglomerado de estrelas. No entanto, o pssaro no se movera desde a chegada de Langdon na praa, mesmo com todo aquele alvoroo em baixo. Estava exatamente na mesma posio. Empoleirado no alto do obelisco, mirando tranqilamente o oeste da cidade.
    Langdon olhou fixo para ele por um momento e depois mergulhou a mo na fonte, agarrou um punhado de moedas e arremessou-as para cima. Bateram com um rudo seco contra a parte superior do obelisco de granito. O pssaro no se mexeu. Tentou de novo. Dessa vez, uma das moedas atingiu o alvo. Um leve som de metal contra metal ecoou pela praa.
    O maldito pombo era de bronze.
    Voc est procurando um anjo, no um pombo, lembrou-o uma voz em sua cabea. Tarde demais. Langdon j fizera a associao. Percebeu que a ave no era propriamente um pombo comum.
    Era uma pomba.
    Sem se dar conta dos prprios atos, Langdon saiu espalhando gua para o centro da fonte e comeou a escalar a montanha de mrmore travertino, subindo em imensos braos e cabeas, cada vez mais alto. A meio caminho da base do obelisco conseguiu vencer a camada de nvoa que encobria todo o tanque e ver melhor a cabea do pssaro.
    No tinha dvida. Era uma pomba. A enganadora colorao escura do pssaro era resultado da poluio de Roma, que manchava o tom original do bronze. E o significado ficou claro para ele. Vira, horas antes, um par de pombas no Panteo. Um par de pombas no representa nenhum smbolo. Essa pomba, porm, estava s.
    A pomba solitria  o smbolo pago do Anjo da Paz.
    A descoberta praticamente transportou Langdon pelo resto do percurso para o obelisco. Bernini escolhera um smbolo pago para o anjo de forma a poder disfar-lo em uma fonte pag. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. A pomba  o anjo! Langdon no poderia conceber pouso mais sublime para o ltimo marco dos Illuminati do que no alto desse obelisco.
    O pssaro apontava para oeste. Langdon tentou acompanhar sua mirada, mas no conseguia enxergar por cima dos prdios. Subiu mais. Uma citao de So Gregrio de Nyssa veio-lhe  mente: Quando o esprito  iluminado, toma a magnfica forma de uma pomba.
    Langdon subiu rumo ao cu. Rumo  pomba. Quase voando. Alcanou a plataforma que servia de base para o obelisco, de onde no poderia subir mais. Mas bastou uma olhada ao redor para saber que isso no seria necessrio. Roma se estendia diante dele. A vista era deslumbrante.
     esquerda, a iluminao catica dos carros da imprensa em torno de So Pedro.  direita, a cpula envolta em fumaa de Santa Maria delia Vittoria. Em frente,  distncia, a Piazza del Popolo. Abaixo dele, o quarto e ltimo marco. Uma cruz gigantesca de obeliscos.
    Trmulo, Langdon olhou para a pomba l em cima. Virou-se para a direo correta e depois abaixou os olhos para a linha do horizonte.
    Em um instante, viu tudo.
    To bvio. To claro. To tortuosamente simples.
    Observando-o agora, Langdon achava quase inacreditvel que o refgio dos Illuminati tivesse permanecido secreto por tantos anos. Tinha a impresso de que a cidade toda desaparecia aos poucos em torno da monstruosa estrutura de pedra do outro lado do rio, diante dele. Um dos muitos prdios famosos de Roma. Ficava s margens do rio Tibre, prximo, em diagonal, ao Vaticano. A geometria da construo era perfeita  um castelo circular construdo dentro de uma fortaleza quadrada e, do lado de fora dos muros, rodeando toda a estrutura, um parque em forma de pentagrama.
    As antigas muralhas de pedra diante de Langdon recebiam uma iluminao suave vinda de holofotes, com um efeito espetacular. No alto do castelo, o colossal anjo de bronze. O anjo apontava sua espada para baixo, para o centro exato do prdio. E, como se no bastasse, levando nica e exclusivamente para a entrada principal do castelo, havia a clebre Ponte dos Anjos, uma impressionante via de acesso, ornamentada com 12 majestosos anjos esculpidos por ningum menos que o prprio Bernini.
    Em uma ltima revelao sensacional, Langdon concluiu que a cruz de obeliscos de Bernini, que abarcava toda a cidade, tambm marcava a fortaleza da forma mais condizente com os princpios dos Illuminati: o brao central da cruz passava diretamente pelo meio da ponte do castelo, dividindo-a em duas metades idnticas.
    Langdon pegou o palet de l, segurando-o afastado do corpo que pingava. Entrou no carro roubado e apertou o acelerador com o sapato encharcado, saindo a toda velocidade pela noite. 

CAPTULO 106

    Eram 11h07. O carro de Langdon corria pela noite romana.
    Descendo a Lungotevere di Tor Di Nona, paralela ao rio, Langdon via seu destino avolumando-se  direita como uma grande montanha.
    Castel SantAngelo. Castelo do Anjo.
    Sem indicao prvia, o acesso  estreita Ponte dos Anjos  a Ponte SantAngelo  surgiu de repente. Langdon enfiou o p no freio e deu uma guinada. Conseguiu, mas a ponte estava fechada com barreiras. Ele derrapou uns trs metros e bateu em uma poro de pequeninas colunas de cimento que lhe barravam o caminho. Langdon cambaleou para a frente e o motor do carro afogou, falhando e estremecendo. No sabia que a Ponte dos Anjos, para ser preservada, agora se convertera em rea exclusiva para pedestres. Desconcertado, Langdon saltou do carro amassado desejando ter escolhido um dos outros acessos. Tremia de frio, a roupa molhada da gua da fonte. Vestiu o casaco de tweed em cima da camisa mida, contente com o forro duplo que o fabricante colocava nos casacos. O flio do Diagramma continuaria seco.  sua frente, erguia-se a fortaleza feita de pedra. Enfraquecido, doido, Langdon saiu correndo, as passadas pouco firmes.
    Dos seus dois lados, como uma escolta enfileirada, o cortejo de anjos de Bernini ia ficando para trs, fechando o percurso e encaminhando-o para seu destino final. Que os anjos o guiem em sua busca sublime. O castelo aumentava conforme ele avanava, montanha impossvel de escalar, inatingvel, ainda mais intimidador do que So Pedro lhe parecera. Correu para l em meio aos vapores da noite, vendo o anjo descomunal brandindo a espada no alto do ncleo circular da cidadela.
    O castelo parecia deserto.
    Langdon sabia que, no decorrer dos sculos, a construo fora usada pelo Vaticano como tumba, fortaleza, esconderijo do Papa, priso para inimigos da Igreja e museu. Pelo jeito, o castelo tivera igualmente outros inquilinos  os Illuminati. De certa forma, at que fazia um sentido sinistro. Apesar de ser propriedade do Vaticano, o castelo s era utilizado esporadicamente e Bernini realizara diversas reformas ali ao longo dos anos. Hoje acredita-se que ele seria um labirinto de entradas secretas, passagens e cmaras escondidas. Langdon tinha certeza de que o anjo e o parque pentagonal que o cercava eram tambm trabalho de Bernini.
    Ao chegar s descomunais portas duplas da entrada, Langdon empurrou-as o mais que pde. Como era de se esperar, as portas no se moveram. Possuam duas aldravas de ferro penduradas na altura do rosto de uma pessoa. Langdon no fez caso delas. Recuou alguns passos, examinando a parede externa at em cima. Aquelas muralhas tinham resistido a exrcitos de brberes, pagos e mouros. Achou que suas probabilidades de penetrar ali  fora eram exguas.
     Vittoria, pensou Langdon, ser que voc est a dentro?
    Langdon contornou a parede externa.  Deve haver outra entrada!
    Rodeando a segunda muralha a oeste, chegou ofegante a um pequeno estacionamento prximo  Lungotevere Castello. Nessa muralha encontrou uma segunda entrada para o castelo, uma espcie de ponte levadia, suspensa e trancada. Langdon olhou para cima outra vez.
    As nicas luzes no castelo eram as dos holofotes externos que iluminavam a fachada. Todas as diminutas janelas no interior estavam s escuras. Os olhos de Langdon foram subindo. No ponto mais alto da torre central, 30 metros acima, precisamente sob a espada do anjo, projetava-se uma sacada isolada. O parapeito de mrmore reluzia ligeiramente, como se o aposento adjacente estivesse iluminado por uma tocha acesa. Langdon parou, com um calafrio sbito em seu corpo encharcado. Uma sombra? Ele esperou, tenso. E viu a sombra outra vez! Um arrepio percorreu sua espinha. H algum l em cima!
     Vittoria!  gritou, incapaz de se conter, mas sua voz foi engolida pelo rugir do rio Tibre atrs dele.
    Andou em crculos, perguntando-se onde estaria a maldita Guarda Sua. Ser que tinham ouvido sua transmisso?
    Do outro lado do estacionamento havia um grande caminho de alguma emissora parado. Langdon correu para ele. Um homem barrigudo com fones de ouvido na cabea estava sentado na cabine ajustando seu equipamento. Langdon bateu com a mo na lateral do caminho. O homem deu um pulo, viu as roupas molhadas de Langdon e arrancou os fones da cabea.
     Qual o problema, companheiro?  tinha um sotaque australiano.
     Preciso usar seu telefone  Langdon estava frentico.
    O homem deu de ombros.
     No tem sinal. Estou tentando h horas. Os circuitos esto todos congestionados.
    Langdon praguejou em voz alta.
     Viu algum entrar a?  e apontou para a ponte levadia.
     Para falar a verdade, vi, sim. Um furgo preto saiu e entrou uma poro de vezes esta noite.
    Langdon sentiu um peso na boca do estmago.
     Sortudo desgraado  disse o australiano, olhando para a torre e fazendo uma careta para sua vista obstruda do Vaticano.  Aposto que a viso de l  perfeita. No consegui passar pelo trfego em So Pedro, por isso estou transmitindo daqui.
    Langdon no estava escutando. Procurava opes.
     O que  que voc acha?  perguntou o australiano.  Ser que o Samaritano da Dcima Primeira Hora  para valer?
    Langdon virou-se.
     O qu?
     No ouviu? O capito da Guarda Sua recebeu um telefonema de algum que diz ter informaes de primeira. O cara est vindo para c de avio. S sei  que, se ele conseguir salvar a ptria, l se vo os nossos ndices!
    O homem deu uma risada.
    Langdon no compreendia. Um bom samaritano ia chegar de avio para ajudar? E sabia onde estava a antimatria? Ento, por que no dizia logo para a Guarda Sua? Por que estava vindo em pessoa? Era tudo muito esquisito, mas Langdon no dispunha de tempo para tentar decifrar a questo.
     Ei  disse o australiano, observando o rosto de Langdon mais atentamente , voc no  o sujeito que vi na televiso? O que tentou salvar aquele cardeal na Praa de So Pedro?
    Langdon no respondeu. Sua ateno fixara-se em um aparelho preso no teto do caminho  uma antena parablica com uma haste dobrvel. Olhou de novo para o castelo. A muralha externa tinha uns 15 metros de altura. A fortaleza interior era ainda mais alta. Uma dupla defesa. No daria para alcanar a parte de cima dali, mas talvez, se passasse do primeiro muro...
    Langdon girou nos calcanhares e apontou para o brao da antena.
     At que altura aquilo vai?
    O homem ficou meio desconcertado.
     Quinze metros. Por qu?
     Tire o caminho da. Estacione junto ao muro. Preciso de ajuda.
     Que histria  essa?
    Langdon explicou.
    O australiano arregalou os olhos.
     Ficou maluco? Aquilo ali  uma extenso telescpica de 200 mil dlares. No  uma escada!
     Quer seus ndices? Tenho informaes que vo fazer voc ganhar o dia.
    Langdon estava desesperado.
     Informaes que tambm valem essa nota toda?
    Langdon disse a ele o que revelaria em troca do favor.
    Noventa segundos mais tarde, Robert Langdon encontrava-se agarrado  ponta de um brao de antena parablica, balanando na brisa a 15 metros do solo. Inclinando-se, segurou a beirada da primeira muralha, arrastou-se para cima da parede e pulou para dentro do bastio mais baixo do castelo.
     Agora mantenha sua promessa!  gritou l de baixo o australiano.  Onde ele est?
    Langdon sentiu-se culpado por revelar essa informao, mas trato era trato. Alm do mais, o Hassassin provavelmente daria a informao  imprensa de qualquer maneira.
     Piazza Navona  gritou Langdon.  Ele est dentro da fonte.
    O australiano recolheu sua antena parablica e foi atrs do maior furo de sua carreira. 
    
    Em uma cmara de pedra acima da cidade, o Hassassin tirou as botas encharcadas e enfaixou o dedo do p ferido. Doa muito, mas no tanto que o impedisse de se divertir.
    Dirigiu-se para seu prmio.
    Ela estava em um canto do aposento, deitada em um div primitivo, as mos atadas atrs do corpo e amordaada. O Hassassin encaminhou-se para ela. A mulher estava acordada. Isso o agradou. Surpreendentemente, viu fogo em seus olhos em vez de medo.
    O medo vir. 

CAPTULO 107 

    Robert Langdon percorreu rapidamente a muralha externa do castelo, satisfeito por poder contar com a iluminao dos holofotes. O ptio abaixo dele parecia um museu das guerras da Antiguidade  catapultas, pilhas de balas de canho feitas de mrmore e um arsenal de terrveis artefatos. Partes do castelo eram abertas aos turistas durante o dia, e o ptio fora parcialmente restaurado e devolvido ao seu estado original.
    Do outro lado do ptio encontrava-se o ncleo central da fortaleza. A cidadela circular elevava-se mais de trinta metros at o anjo de bronze que a encimava. Na sacada do alto ainda havia luz. Langdon queria chamar, mas achou melhor no o fazer. Teria de encontrar uma forma de entrar.
    Olhou o relgio.
    11h12 da noite.
    Descendo depressa a rampa de pedra que contornava o interior do muro, Langdon chegou ao ptio. De volta ao nvel do cho, oculto pelas sombras, circundou a fortaleza no sentido dos ponteiros do relgio. Passou por trs prticos, todos hermeticamente fechados. Como o Hassassin entrou? E Langdon prosseguiu. Passou por duas entradas modernas, ambas trancadas por fora com cadeados. No foi por aqui. E continuou a correr.
    J rodeara quase todo o prdio quando viu um caminho de cascalho cruzando o ptio. Numa das extremidades do caminho, na parede externa do castelo, viu a ponte levadia que levava  sada. Na outra extremidade, o caminho desaparecia dentro da fortaleza. Parecia dar em uma espcie de tnel
     Uma abertura para o ncleo central. Il traforo! Langdon lera sobre o traforo desse castelo, uma gigantesca rampa em espiral que circulava dentro do forte, usada pelos comandantes para ir a cavalo da base ao topo com mais rapidez. O Hassassin entrou de carro! O porto de ferro do tnel estava aberto, levantado, indicando por onde Langdon deveria seguir. Ele se sentia quase exultante ao correr para o tnel. Quando se aproximou da abertura, porm, seu entusiasmo arrefeceu.
    O tnel descia em espiral.
    O caminho no era aquele. Aquele trecho do traforo, pelo jeito, ia para as masmorras, no para cima.
    Parado junto ao poo escuro que penetrava fundo na terra, ele hesitou, levantando os olhos mais uma vez para a sacada. Seria capaz de jurar que vira algum movimento ali. Decida-se! Sem outra opo, entrou no tnel.
    L em cima, o Hassassin debruava-se sobre sua presa. Correu a mo pelo brao dela. A pele era macia como seda. A expectativa de explorar os tesouros do corpo daquela mulher o inebriava. De quantas maneiras poderia violent-la?
    Sabia que merecia a mulher. Servira bem a Janus. Ela era um esplio de guerra e, quando terminasse, a empurraria do div e a obrigaria a ficar de joelhos. E a mulher o serviria de novo. A submisso extrema. Ento, no momento em que ele atingisse o clmax, cortaria a garganta dela.
    Ghayat assaadah, como diziam. O prazer extremo.
    Mais tarde, saboreando sua glria, ficaria na sacada para apreciar o apogeu do triunfo dos Illuminati, uma vingana desejada por tantos durante tanto tempo.
    O tnel tornou-se mais escuro. Langdon descia sem parar.
    Depois de uma volta completa sob a terra, a luz se fora por completo. O piso nivelou-se e Langdon diminuiu o ritmo, pressentindo, pelo eco de seus passos, que entrara em uma grande cmara. Na sua frente, em meio s trevas, julgou ter vislumbrado ligeiros lampejos, vagos reflexos luminosos. Avanou, estendendo a mo. Encontrou superfcies lisas. Vidro e metais cromados. Era um veculo. Tateou a superfcie, encontrou uma porta e a abriu. A luz interna do veculo acendeu-se. Langdon deu um passo atrs e reconheceu o furgo preto. Uma onda de averso o fez parar um instante, mas logo ele entrou, revirando tudo na esperana de encontrar uma arma para substituir a que perdera na fonte. No encontrou nenhuma. Achou, contudo, o telefone celular de Vittoria. Quebrado, sem condies de uso. Ao v-lo, sentiu medo. Rezou para no ter chegado tarde demais.
    Acendeu os faris do furgo. O ambiente iluminou-se, sombras severas projetaram-se em uma cmara simples. Langdon deduziu que o local talvez j tivesse sido usado para guardar cavalos e munio. Era, alm disso, um beco sem sada.
     Vim pelo caminho errado!
    Angustiado, saltou do furgo e examinou as paredes ao redor. Nenhuma porta nem porto. Lembrou-se do anjo acima da entrada do tnel e pensou se teria sido uma coincidncia. No! Ouviu de novo as palavras do matador na fonte. Ela est na Igreja da Iluminao, esperando a minha volta. Langdon no chegara to longe para falhar no final. Seu corao batia com fora. A frustrao e o dio estavam comeando a prejudicar seus sentidos.
    Quando viu sangue no cho, seu primeiro pensamento foi para Vittoria. Todavia, acompanhando as manchas de sangue, percebeu que eram pegadas. Os passos eram grandes. Os borres vermelhos eram produzidos apenas pelo p esquerdo. O Hassassin!
    Langdon seguiu as pegadas, que iam na direo de um ngulo do aposento, sua sombra espalhada se tornando menos ntida a cada passo.  medida que se aproximava da parede, ficava mais intrigado. As marcas de sangue pareciam ir diretamente para aquele canto e depois sumiam.
    Ao chegar perto da quina, mal pde acreditar no que viu. Ali, o bloco de granito do piso no era quadrado como os outros. Langdon encontrava-se diante de mais um sinalizador. O bloco fora esculpido na forma de um perfeito pentagrama, com uma extremidade apontando para o canto. Engenhosamente disfarada por paredes superpostas, uma estreita fenda na pedra servia de sada. Langdon esgueirou-se por ela. Saiu em um corredor. Mais adiante, viu os restos da vedao de madeira que antes estivera fechando aquele tnel.
    Alm, havia luz.
    Langdon correu. Passou por cima dos pedaos de madeira em direo  luz.
    O corredor logo chegou a outra cmara, maior do que a anterior. Ali, uma nica tocha acesa reluzia, presa na parede. Langdon estava em um setor do castelo onde no havia luz eltrica, um setor que nenhum turista jamais veria.
    A sala teria sido assustadora mesmo  luz do dia, mas a tocha tornava-a mais horripilante ainda. Havia l dezenas de minsculas celas de priso, as barras de ferro da maioria j carcomidas pela ferrugem. Uma das celas maiores, porm, permanecia intacta e, no cho, Langdon viu algo que quase fez seu corao parar. Batinas negras e faixas de seda vermelha espalhadas. Foi aqui que ele prendeu os cardeais!
    Junto  cela, na parede, um batente de porta feito de ferro. A porta estava escancarada e, alm dela, dava para ver uma espcie de passagem. Ele correu para l, mas parou antes. A trilha de sangue no seguia pela passagem. Ao ver as palavras que haviam sido esculpidas na arcada, entendeu por qu.
    Il Passetto.
    Ficou atnito. Ouvira falar daquele tnel muitas vezes sem saber exatamente onde seria a entrada. Il Passetto  a Pequena Passagem, ou Corredor  era um tnel estreito de 1.200 metros construdo entre o Castelo SantAngelo e o Vaticano. Fora usado por vrios Papas para escapar em segurana durante cercos ao Vaticano, bem como por alguns Papas menos piedosos para visitar secretamente suas amantes ou supervisionar as torturas infligidas a seus inimigos. Atualmente, as duas extremidades do tnel estavam supostamente trancadas com cadeados da maior segurana cujas chaves deviam ser guardadas em algum cofre do Vaticano. Langdon desconfiava que sabia agora como os Illuminati tinham entrado e sado do Vaticano. Deu por si tentando adivinhar quem teria trado a Igreja e entregado as chaves aos inimigos. Olivetti? Algum da Guarda Sua? Nada disso importava mais.
    O sangue no cho levava ao lado oposto da priso. Langdon seguiu-o. Surgiu um porto enferrujado coberto de correntes. O cadeado fora retirado e o porto estava aberto. Depois dele, havia uma subida ngreme por escadas em espiral. O cho naquele ponto tambm fora marcado com um bloco em forma de pentagrama. Langdon olhou para o bloco, trmulo, pensando se Bernini em pessoa teria segurado o cinzel que talhara aquela pea. Acima, a arcada fora enfeitada com um diminuto querubim esculpido. Era tudo.
    A trilha de sangue subia as escadas.
    Antes de subir, Langdon ponderou que iria precisar de uma arma, qualquer uma. Encontrou um pedao de barra de ferro de mais ou menos um metro junto a uma das celas. Tinha uma ponta aguda, despedaada. Apesar de absurdamente pesado, era o melhor que poderia conseguir. Esperava que o elemento surpresa, combinado com o ferimento do Hassassin, fossem suficientes para equilibrar a balana a seu favor. Mais do que tudo, entretanto, esperava que no fosse tarde demais.
    Os degraus da escada em espiral estavam gastos e inclinavam-se muito para cima. Langdon subiu, atento a qualquer som. Nenhum. Conforme subia, a luz que vinha da priso ia aos poucos ficando fraca. Logo, a escurido tornou-se completa e foi preciso manter uma das mos na parede. Imaginava o fantasma de Galileu naqueles mesmos degraus, ansioso para partilhar suas vises do cu com outros homens de cincia e de f.
    Ainda se sentia em estado de choque a respeito da localizao do refgio dos Illuminati. A sala de encontros dos Illuminati era dentro de um prdio que pertencia ao Vaticano. Seguramente, enquanto os guardas do Vaticano saam para revistar as casas e os pores de cientistas conhecidos, os Illuminati se reuniam ali, bem debaixo do nariz da Igreja. Tudo parecia de repente to perfeito. Bernini, como o arquiteto que chefiara as reformas, teria acesso ilimitado quela estrutura, reformando-a de acordo com suas prprias especificaes sem ter de explicar nada a ningum. Quantas entradas secretas Bernini teria acrescentado ao prdio? Quantos embelezamentos sutis para apontar o caminho?
    A Igreja da Iluminao. Langdon estava perto dela.
    Quando as escadas comearam a se estreitar, Langdon sentiu o corredor se fechando em torno dele. As sombras da histria sussurravam no escuro, mas ele foi em frente. Ao divisar uma faixa horizontal de luz, percebeu que estava alguns degraus abaixo de um patamar, onde o brilho da tocha passava sob a soleira de uma porta em frente dele. Silenciosamente, subiu mais.
    No sabia em que lugar do castelo se encontrava naquele momento, mas sabia que subira o bastante para estar perto do ponto mais alto. Imaginou o anjo colossal no topo do castelo e calculou que deveria estar justamente acima daquele ponto.
     Olhe por mim, anjo, pensou, empunhando a barra de ferro. Ento, sem rudo, estendeu a mo para a porta.
    
    No div, os braos de Vittoria doam. Ao acordar e descobrir que estavam amarrados atrs de suas costas, achou que conseguiria relaxar o corpo e soltar as mos. Mas o tempo se esgotara. A besta-fera estava de volta. Agora, ele estava de p junto dela, o peito nu largo e robusto, cheio de cicatrizes das batalhas que lutara. Os olhos pareciam duas fendas negras analisando o corpo dela. Vittoria pressentiu que naquele momento ele imaginava as faanhas que estava prestes a realizar. Devagar, como para escarnecer dela, o Hassassin tirou o cinto molhado e deixou-o cair no cho. Vittoria sentiu uma repulsa horrvel. Fechou os olhos. Quando os reabriu, o Hassassin estava segurando um canivete. Fez a lmina saltar com um estalo bem na frente do seu rosto.
    Vittoria viu o prprio rosto aterrorizado refletido no ao da lmina.
    O Hassassin virou a lmina e correu a parte de trs pela barriga dela. O metal gelado deu-lhe arrepios. Com um olhar de desdm, ele deslizou a lmina por dentro do cs do short cqui. Ela prendeu a respirao. Ele moveu a lmina de um lado para outro, lentamente, perigosamente mais baixo. Ento, curvou-se para ela, o hlito quente em seu ouvido, e sussurrou:
     Foi com esta lmina que arranquei o olho de seu pai.
    Naquele instante, Vittoria descobriu que era capaz de matar.
    O Hassassin virou de novo a lmina e comeou a cortar o tecido do short. De repente, parou e levantou a cabea. Havia mais algum na sala.
     Afaste-se dela  uma voz profunda soou raivosa da porta.
    Vittoria no podia enxergar quem falara, mas reconheceu a voz. Robert! Ele est vivo!
    O Hassassin tinha a expresso de quem v um fantasma.
     Senhor Langdon, o senhor deve ter um anjo da guarda. 

CAPTULO 108

    Na frao de segundo de que disps para avaliar o ambiente, Langdon percebeu que se encontrava em um lugar sagrado. Os ornatos na sala oblonga, apesar de velhos e desbotados, estavam repletos de uma simbologia conhecida. Azulejos em forma de pentagrama, afrescos representando os planetas. Pombas. Pirmides.
    A Igreja da Iluminao. Pura e simplesmente. Ele chegara.
    Na sua frente, emoldurado pela abertura da sacada, estava o Hassassin. Tinha o peito nu e junto dele, deitada e amarrada mas bem viva, estava Vittoria. Langdon sentiu um grande alvio ao v-la. Por um instante, seus olhos se encontraram e uma torrente de emoes fluiu entre os dois  gratido, desespero e pena.
     Quer dizer que nos encontramos de novo  disse o Hassassin. Viu a barra de ferro na mo de Langdon e deu uma risada alta.  E desta vez  com isso que vem atrs de mim?  Solte-a.
    O Hassassin encostou a faca no pescoo de Vittoria.
     Vou mat-la.
    Langdon no duvidava de que ele fosse capaz de tal coisa. Forou-se a falar em um tom calmo.
     Imagino que ela gostaria muito disso, considerando-se a alternativa.
    O Hassassin sorriu ao ouvir o insulto.
     Tem razo. Ela tem muito a oferecer. Seria um desperdcio.
    Langdon deu um passo  frente, segurando com firmeza a barra enferrujada, e mirou o Hassassin com a ponta quebrada. O corte em sua mo ardeu fortemente.
     Deixe-a ir.
    Por um momento, o Hassassin deu a impresso de estar refletindo a respeito. Suspirando, descaiu os ombros. Era nitidamente um gesto de rendio e, no entanto, naquele instante exato, o brao do homem acelerou-se de modo inesperado. Os msculos escuros formaram um borro e a lmina veio reluzindo pelo ar na direo do peito de Langdon.
    Se foi instinto ou exausto o que na hora vergou os joelhos de Langdon, ele no soube, mas o canivete passou rente  sua orelha esquerda e caiu no cho com um rudo metlico. O Hassassin, imperturbvel, sorriu para Langdon, que se ajoelhara, segurando a barra de ferro. O matador deixou Vittoria e encaminhou-se para seu adversrio como um leo que avana para a presa.
    Langdon levantou-se apressado erguendo outra vez a barra  a camisa e a cala molhadas tolhendo-lhe os movimentos. O Hassassin, seminu, movia-se com mais rapidez, a ferida no p aparentemente em nada o atrapalhava. Aquele homem devia estar acostumado  dor. Pela primeira vez na vida Langdon desejou estar segurando um revlver muito grande.
    O Hassassin rodeou-o devagar, com ar divertido, sempre fora de alcance, tentando se aproximar da faca no cho. Langdon ps-se no meio do caminho. Ento, o matador voltou para perto de Vittoria. Mais uma vez, Langdon interps-se.
     Ainda h tempo  arriscou Langdon.  Diga onde est a antimatria. O Vaticano pode lhe pagar mais do que os Illuminati jamais fariam.
     Voc  ingnuo.
    Langdon dava estocadas com a barra. O Hassassin desviava-se. Langdon contornou um banco segurando a arma diante de si, tentando encurralar o outro na sala oval. Esta sala desgraada no tem cantos! Curiosamente, o Hassassin no se mostrava interessado em atacar ou fugir. Fazia apenas o jogo de Langdon. Esperando, com frieza. Esperando o qu? O matador continuava se deslocando em crculo, um mestre na arte de se posicionar. Era como um interminvel jogo de xadrez. A arma na mo de Langdon ia ficando pesada e logo ele achou que sabia o que o Hassassin esperava. Ele est me cansando. E est dando certo. Uma onda de fadiga invadiu-o, a adrenalina sozinha no bastando para mant-lo alerta. Tinha de tomar uma iniciativa qualquer.
    O matador pareceu adivinhar os pensamentos de Langdon e mudou de posio outra vez, como se tencionasse lev-lo para junto da mesa que ficava no centro do aposento. Langdon reparou que havia alguma coisa em cima da mesa. Algo que reluziu  luz da tocha. Uma arma? Langdon manteve os olhos fixos no Hassassin e manobrou para chegar antes dele perto da mesa. Quando o outro lanou um olhar inocente, prolongado, para a mesa, Langdon tentou no engolir a isca. Mas o instinto prevaleceu. Relanceou os olhos para l. E fez-se o estrago.
    No se tratava de arma nenhuma. O que viu momentaneamente o fascinou.
    Sobre a mesa havia uma arca primitiva de cobre coberto de ptina. Tinha a forma de um pentgono. A tampa estava aberta. Arrumados dentro dela em cinco compartimentos acolchoados estavam cinco ferros de marcar, grandes instrumentos com fortes cabos de madeira. Langdon j sabia o que diziam.
ILLUMINATI, EARTH, AIR, FIRE, WATER.
    Virou rpido a cabea de volta, temendo que o Hassassin fosse aproveitar para atacar. Mas ele no o fez. Esperava, quase como se aquele jogo o descansasse. Langdon esforou-se para recuperar a concentrao e o contato visual com seu oponente, arremetendo com o cano. A imagem da arca, porm, no lhe saa da cabea. Embora a viso dos prprios ferros de marcar fosse quase hipntica  poucos estudiosos dos Illuminati sequer acreditavam que tais objetos existissem , ele notou que havia algo mais na arca que lhe despertara um mau pressgio. Quando o Hassassin fez uma nova manobra, Langdon lanou outro olhar para baixo.
     Deus meu!
    Dentro da arca, os cinco ferros estavam dispostos em cinco compartimentos em torno da borda exterior. No centro, porm, havia outro compartimento. Vazio, naquele momento, mas claramente o lugar onde era guardado mais um ferro, muito maior do que os outros e todo quadrado.
    O ataque veio como um raio.
    O Hassassin precipitou-se sobre ele como uma ave de rapina. Langdon, cuja concentrao fora magistralmente desviada, tentou revidar, mas a barra de ferro pesava como um tronco de rvore em suas mos. Deu um golpe devagar demais. O Hassassin esquivou-se. Quando Langdon tentou puxar a barra de novo para si, as mos do outro projetaram-se para a frente e agarraram-na. O homem tinha muita fora nas mos, o brao ferido no parecia afet-lo mais. Os dois lutaram violentamente. Langdon sentiu o outro arrancar-lhe a barra e, ao mesmo tempo, uma dor lancinante na palma da mo. No instante seguinte, Langdon encarava a ponta quebrada da barra de ferro. O caador virara caa.
    A sensao era a de ser atingido por um ciclone. O Hassassin rodeava-o, sorrindo, encurralando-o contra a parede.
     Como  mesmo aquele ditado?  zombava ele.  Aquele sobre a curiosidade e o gato?
    Langdon mal conseguia se concentrar. Amaldioou seu descuido enquanto o adversrio se aproximava mais. Nada fazia sentido. Uma sexta marca Illuminati? Frustrado, falou sem pensar:
     Nunca li nada sobre uma sexta marca dos Illuminati!
     Acho que deve ter lido, sim.  O matador deu uma risadinha, fazendo Langdon se deslocar ao longo da parede oval.
    Langdon estava perdido. Seguramente, nunca soubera da existncia dela. Havia cinco marcas Illuminati. Recuou, procurando na sala alguma coisa que lhe pudesse servir de arma.
     Uma unio perfeita de antigos elementos  disse o Hassassin.  A marca final  a mais brilhante de todas.  uma pena, mas acho que voc nunca a ver.
    Langdon receava que deixasse de ver muita coisa dentro de pouco tempo. Continuou a recuar, buscando uma opo de defesa na sala.
     E voc j viu essa marca final?  perguntou Langdon, tentando ganhar tempo.
     Pode ser que algum dia eles me dem essa honra. Conforme eu provar meu valor.  E deu uma estocada em Langdon, como se aquilo fosse um jogo animado.
    Langdon deslizou para trs mais uma vez. Tinha a sensao de que o Hassassin conduzia-o ao longo da parede para um ponto desconhecido. Para onde? No podia se permitir olhar o que havia atrs.
     E essa marca  perguntou , onde est ela?
     No est aqui. Janus  aparentemente o nico que a usa.
     Janus?  Langdon no reconheceu o nome.
     O lder Illuminati. Vai chegar em breve.
     Ele est vindo para c?
     Para fazer a ltima marcao. Langdon lanou um olhar assustado para Vittoria. Ela parecia estranhamente calma, os olhos fechados para o mundo a seu redor, os pulmes bombeando o ar devagar, fundo. Seria ela a vtima final? Seria ele?
     Que presuno  desdenhou o Hassassin, acompanhando o olhar de Langdon.  Vocs dois no so nada. Vo morrer, claro, isto  certo. Mas a vtima final de que falo  um inimigo verdadeiramente perigoso.
    Langdon tentou dar sentido s palavras do Hassassin. Um inimigo perigoso? Os cardeais mais importantes estavam mortos, O Papa estava morto. Os Illuminati tinham acabado com todos eles. Langdon encontrou a resposta no vcuo dos olhos do Hassassin.
     O camerlengo.
    O camerlengo Ventresca fora o nico homem que funcionara como um farol de esperana para o mundo atravs de todas aquelas atribulaes. O camerlengo fizera mais naquela noite para condenar os Illuminati do que dcadas de teorias conspiratrias. Tudo indicava que pagaria um preo por isto. Era ele o alvo final dos Illuminati.
     Voc nunca chegar at ele  Langdon desafiou-o.
     Eu, no  replicou o Hassassin, obrigando Langdon a recuar mais contra a parede.  Essa honra est reservada para o prprio Janus.
     O lder dos Illuminati em pessoa pretende marcar a fogo o camerlengo?
     O poder tem seus privilgios.
     Ningum vai conseguir entrar no Vaticano agora!
    O Hassassin observou, com ar pretensioso:
     A no ser que ele tenha um encontro marcado.
    Langdon custou a entender. A nica pessoa esperada no Vaticano naquele momento era o tal personagem que a imprensa estava chamando de Samaritano da Dcima Primeira Hora, a pessoa que Rocher dissera ter informaes que poderiam salvar...
     Deus do Cu!
    O homem riu um riso afetado, claramente se divertindo com o choque de Langdon.
     Tambm me perguntei como Janus conseguiria entrar. Ento, quando vinha para c, ouvi no rdio do carro a notcia sobre o Samaritano da Dcima Primeira Hora.  Ele sorriu.  O Vaticano vai receber Janus de braos abertos.
    Langdon quase perdeu o equilbrio. Janus  o Samaritano! Tratava-se de um disfarce impensvel. O lder dos Illuminati teria uma escolta real at os aposentos do camerlengo. Mas como Janus enganou Rocher? Ou ser que Rocher est de alguma forma envolvido? Langdon sentiu um calafrio. Desde que quase morrera asfixiado nos arquivos secretos deixara de confiar inteiramente em Rocher.
    O Hassassin deu uma espetadela sbita, acertando o lado do corpo de Langdon.
    Ele saltou para trs, cheio de raiva.
     Janus no vai sair vivo de l!
    O outro deu de ombros.
     Existem causas pelas quais vale a pena morrer.
    O assassino falava srio. Janus iria  Cidade do Vaticano em uma misso suicida? Era uma questo de honra? Em segundos, a mente de Langdon reconstruiu todo o aterrorizante processo. O ciclo da trama dos Illuminati estava se fechando. O sacerdote que os Illuminati tinham inadvertidamente levado ao poder ao matarem o Papa surgia como um adversrio de peso. Em um ato final de desafio, o lder dos Illuminati iria destru-lo.
    Inesperadamente, a parede atrs de Langdon desapareceu. Uma lufada de ar frio envolveu-o e ele recuou cambaleando dentro da noite. A sacada! Agora sabia o que o Hassassin tinha em mente.
    Langdon sentiu logo o precipcio s suas costas  uma queda de 30 metros no ptio abaixo. Tinha visto ao entrar. O Hassassin no perdeu tempo. Com um impulso vigoroso, investiu. A lana improvisada mirou o tronco de Langdon. Ele se desviou e a ponta passou rente, pegando somente sua camisa. Outra vez, a ponta da barra de ferro veio para cima dele. Langdon deslizou mais para trs, quase encostado na balaustrada. Certo de que o golpe seguinte o mataria, tentou o absurdo. Girando para o lado, estendeu a mo e agarrou a barra, sentindo uma ferroada de dor na palma ferida. Mas no a largou.
    O Hassassin no se abalou. Os dois puxaram durante um momento, cada um para um lado, face a face, o hlito ftido do Hassassin junto s narinas de Langdon. A barra comeou a escorregar, o Hassassin era muito forte. Num ltimo gesto de desespero, Langdon esticou a perna, arriscando perigosamente seu equilbrio, tentando pisar no dedo ferido do p do Hassassin. Mas o homem era um profissional e sabia como proteger seu ponto fraco.
    Langdon dera sua cartada final. E sabia que perdera a mo.
    Os braos do Hassassin explodiram para cima, fazendo Langdon ir de encontro  grade da sacada. S havia o espao vazio atrs dele agora, j que a grade chegava apenas  altura de suas ndegas. O Hassassin segurou a barra na horizontal e pressionou-a contra o peito de Langdon. As costas dele arquearam-se no espao.
     Maassalamah  zombou o Hassassin.  Adeus.
    Com um olhar impiedoso, deu o empurro final. O centro de gravidade de Langdon deslocou-se e seus ps levantaram-se do cho. Apelando para a ltima esperana de sobrevivncia, Langdon agarrou-se  grade quando seu corpo virou e passou por cima dela. A mo esquerda escapuliu, mas a direita se manteve. Ficou pendurado de cabea para baixo, preso pelas pernas e por uma das mos, fazendo fora para no se soltar.
    E viu o Hassassin assomar no alto com a barra erguida acima da cabea, preparando-se para desc-la em sua direo. Quando a barra comeou a se acelerar, Langdon teve uma viso. Talvez fosse a iminncia da morte ou simplesmente o medo cego, mas naquele momento uma aura cercou o vulto do Hassassin. Um claro fulgurante foi aumentando por trs dele vindo do nada, como uma bola de fogo chegando.
    No meio do movimento de ataque, ele largou a barra e gritou de dor.
    A barra de ferro passou por Langdon e desceu retinindo na escurido. O matador virou-se e Langdon viu a enorme queimadura da tocha nas costas dele. Langdon puxou o corpo para cima e viu Vittoria, os olhos dardejantes, agora enfrentando o Hassassin.
    Ela agitava a tocha diante de si, a vingana em seu rosto resplandecendo nas chamas. Como ela escapara, Langdon no sabia nem queria saber. Ele subiu pela grade para voltar para a sacada.
    A batalha no duraria muito. O Hassassin era um oponente mortal. Com um urro furioso, ele arremeteu contra ela. Ela tentou se esquivar, mas ele segurou a tocha e estava prestes a tir-la da mo dela. Langdon no esperou. Pulou da grade da sacada e lanou o punho fechado na queimadura das costas do homem.
    O berro dele pareceu ecoar at o Vaticano.
    O homem se imobilizou um instante, as costas curvadas em agonia. Soltou a tocha e Vittoria ento a comprimiu com toda a fora no rosto de seu inimigo. A carne queimada chiou, o olho esquerdo dele crepitou. O homem deu outro urro, levando as duas mos ao rosto.
     Olho por olho  disse Vittoria, a voz sibilante.
    E, dessa vez, girou a tocha como um basto que, quando atingiu o alvo, fez o homem recuar vacilando de encontro  grade da sacada. Langdon e Vittoria correram ao mesmo tempo para ele, ambos levantando-o e empurrando. O corpo do Hassassin tombou de costas por cima da grade e mergulhou na noite. No houve mais gritos. O nico som foi o de sua espinha dorsal se partindo quando ele caiu de braos abertos em cima de uma pilha de balas de canho no ptio.
    Langdon virou-se e olhou para Vittoria, perplexo. As cordas ainda pendiam, frouxas, da sua cintura e dos ombros. Os olhos relampejavam, ameaadores.
     Houdini fazia ioga. 

CAPTULO 109

    Enquanto isso, na Praa de So Pedro, a barreira formada pelos homens da Guarda Sua gritava ordens e tentava fazer a multido recuar para uma distncia segura. No adiantava. A massa de gente era densa demais e, pelo jeito, estava muito mais interessada na catstrofe iminente do Vaticano do que na prpria segurana. Os teles da imprensa instalados na praa transmitiam ao vivo a contagem regressiva da bomba de antimatria  em imagem direta do monitor de segurana da Guarda Sua , com os cumprimentos do camerlengo. Infelizmente, a imagem do contador em nada contribua para afastar o povo. As pessoas olhavam para a gotinha minscula de lquido em suspenso no tubo e aparentemente concluam que no era to ameaadora quanto haviam pensado. Tambm podiam ver agora os nmeros no contador  faltavam pouco menos de 45 minutos para a detonao. Tempo mais do que suficiente para ficar ali e observar tudo.
    Mesmo assim, a Guarda Sua era unnime em admitir que a corajosa deciso do camerlengo de contar a verdade ao mundo e em seguida fornecer  imprensa a prova visual da traio dos Illuminati tinha sido uma hbil manobra. Os Illuminati com certeza esperavam que o Vaticano adotasse sua atitude reticente habitual diante das adversidades. Isso no acontecera naquela noite. O camerlengo Carlo Ventresca provara ser um adversrio respeitvel.
    Dentro da Capela Sistina, o cardeal Mortati ia ficando inquieto. Passava de 11h15. Muitos cardeais continuavam a rezar, mas outros haviam se agrupado perto da sada, visivelmente aflitos com a hora. Alguns comearam a bater na porta com os punhos.
    Do outro lado da porta, o tenente Chartrand ouvia as batidas e no sabia o que fazer. Verificou seu relgio. Estava na hora. O capito Rocher dera ordens rigorosas, determinando que no deixasse os cardeais sarem enquanto ele no mandasse. As batidas na porta se intensificaram e Chartrand sentiu-se embaraado. Ser que o capito simplesmente se esquecera? Ele vinha agindo de modo muito estranho desde o misterioso telefonema.
    Chartrand tirou seu walkie-talkie.
     Capito? Aqui  Chartrand. J passou da hora. Devo abrir a Sistina? 
     A porta permanece fechada. Acho que j lhe del essa ordem.
     Sim, senhor,  que...
     Nosso visitante deve estar chegando. Leve alguns homens para cima e vigiem a porta do escritrio do Papa. O camerlengo no pode sair de l sob hiptese alguma.
     Como disse, senhor?
     O que  que no est compreendendo, tenente?
     No foi nada, senhor, estou a caminho.
    L em cima, no escritrio do Papa, o camerlengo contemplava o fogo em silenciosa meditao. D-me foras, meu Deus. Faa um milagre. Atiou as chamas da lareira, pensando se sobreviveria quela noite. 

CAPTULO 110

    Onze horas e vinte e trs minutos.
    Vittoria estava na sacada do Castelo SantAngelo, ainda trmula, o olhar na cidade de Roma, os olhos midos de lgrimas. Queria muito abraar Robert Langdon, mas no podia. Seu corpo parecia anestesiado, reajustando-se, acomodando o que ocorrera. O homem que matara seu pai jazia l embaixo, morto, e ela quase se tornara tambm uma vtima dele.
    Quando a mo de Langdon tocou o ombro dela, a infuso de calor magicamente desfez aquela sensao enregelante. Seu corpo estremeceu de volta para a vida. A nvoa se levantou e ela se virou. Robert encontrava-se em um estado lastimvel, molhado, o cabelo todo emaranhado  era evidente que passara por um verdadeiro purgatrio para vir salv-la.
     Obrigada...  ela murmurou.
    Ele deu um sorriso cansado e lembrou-lhe que era ela quem merecia os agradecimentos. Sua habilidade para praticamente deslocar os ombros acabara de salvar ambos. Vittoria enxugou os olhos. Gostaria de ter ficado ali para sempre com ele, mas a trgua seria breve.
     Temos de sair daqui  disse Langdon. A mente de Vittoria estava em outro lugar. Ela olhava na direo do Vaticano. O menor pas do mundo encontrava-se a uma proximidade perturbadora, imerso na luz branca dos refletores da imprensa. Para espanto seu, grande parte da Praa de So Pedro ainda estava cheia de gente! A Guarda Sua aparentemente s conseguira isolar uns cinqenta metros  a rea diretamente fronteira  baslica , o que constitua menos de um tero da praa. A rea restante da praa estava compactada com os que estavam a uma distncia segura pressionando para ver melhor e encurralando os outros na parte de dentro. Esto perto demais! Pensou Vittoria. Perto demais!
     Vou voltar para l  disse Langdon, categrico.
    Vittoria virou-se para ele, incrdula.
     Para o Vaticano?
    Langdon contou-lhe sobre o Samaritano e que se tratava de um ardil. O lder dos Illuminati, um homem chamado Janus, chegaria em pessoa para marcar a fogo o camerlengo. Um gesto de dominao final dos Illuminati.
     Ningum no Vaticano sabe  disse Langdon.  No tenho como fazer contato com eles e esse sujeito deve chegar a qualquer minuto. Preciso avisar os guardas antes que o deixem entrar.
     Mas voc no vai conseguir passar por essa multido!
    A voz de Langdon soou confiante.
     H um jeito. Confie em mim.
    Vittoria pressentiu mais uma vez que o historiador sabia de algo que ela desconhecia.
     Tambm vou.
     No. Por que nos arriscarmos os dois...
     Tenho de encontrar um modo de tirar aquela gente dali! Esto correndo grave perigo.
    No mesmo instante, a sacada comeou a tremer. Um rugido ensurdecedor abalou todo o castelo. Em seguida, uma luz branca vinda da Praa de So Pedro cegou-os. Vittoria s pensou em uma coisa. Oh, Deus! A antimatria aniquilou-se antes da hora!
    Em vez de um estrondo, porm, uma ruidosa saudao ergueu-se do povo. Vittoria apertou os olhos contra a luz. Uma barreira de luz de refletores vinha da praa e, ao que parecia, agora apontava para eles! Todos se voltavam na direo deles, apontando e chamando. O ronco ficou mais alto. A atmosfera na praa de repente dava a impresso de estar mais alegre.
    Langdon estava desnorteado.
     Que diabos... Um rugido ecoou pelo cu.
    Por trs da torre, sem aviso, surgiu o helicptero do Papa. Trovejou uns 15 metros acima da cabea deles, indo em linha reta para a Cidade do Vaticano. Quando passou, brilhando  luz dos refletores, o castelo tremeu. As luzes acompanharam o percurso do helicptero, deixando Langdon e Vittoria de novo no escuro.
    Vittoria teve a sensao desconfortvel de estarem atrasados ao ver o enorme aparelho deter-se acima da Praa de So Pedro. Levantando uma nuvem de poeira, o helicptero desceu no trecho vazio da praa, entre a multido e a baslica, tocando o solo na base das escadarias da baslica.
     Falando sobre entrar no Vaticano...  disse Vittoria.
    Destacando-se contra o fundo de mrmore branco, viu ao longe a figura diminuta de uma pessoa sair do Vaticano e dirigir-se para o helicptero. Nunca teria reconhecido quem era se no fosse pela boina vermelha na cabea.
     Recebido com tapete vermelho.  Rocher.
    Langdon deu um soco na grade.
     Algum tem de avisar a eles!  e fez meia volta para sair.
    Vittoria segurou o brao dele.
     Espere!
    Acabara de ver algo mais, algo em que se recusava a acreditar. Com os dedos trmulos, apontou para o helicptero. Mesmo  distncia, no havia engano possvel. Descendo pela prancha de desembarque vinha uma outra figura, que se movia de maneira to peculiar que s poderia ser um homem. Embora estivesse sentado, ele acelerou pela praa aberta sem esforo e a uma velocidade surpreendente.
    Um rei sentado em um trono eltrico.
    Era Maximilian Kohler. 

CAPTULO 111

    Kohler estava enojado com a opulncia do saguo do Belvedere. S revestimento de ouro do teto daria para financiar um ano de pesquisas sobre o cncer. Rocher subiu com ele uma rampa, conduzindo-o por um caminho tortuoso ao Palcio Apostlico. 
     No tem elevador?  perguntou Kohler.
     Estamos sem luz.  Rocher mostrou as velas acesas em torno deles no edifcio escuro.   parte de nossa estratgia de busca.
     Estratgia que certamente falhou.
    Rocher concordou.
    Kohler teve outro ataque de tosse e ocorreu-lhe que talvez fosse um dos ltimos de sua vida. No era um pensamento de todo desagradvel.
    Ao chegarem ao andar de cima e entrarem no corredor que levava ao escritrio do Papa, quatro guardas suos correram na direo deles com ar preocupado.
     Capito, o que esto fazendo aqui em cima? Pensei que esse senhor tivesse informaes que...
     Ele s vai falar com o camerlengo.
    Os guardas recuaram, desconfiados.
     Avise ao camerlengo  disse Rocher, em tom enrgico  que o diretor do CERN, Maximilian Kohler, est aqui para v-lo. Imediatamente.
     Sim, senhor!
    Um dos guardas saiu apressado para o escritrio do camerlengo. Os outros mantiveram suas posies. Observavam Rocher com ar constrangido.
     S um momento, capito. Vamos anunciar seu visitante.
    Kohler, porm, no se deteve. Deu uma guinada repentina e manobrou sua cadeira, contornando os sentinelas.
    Os guardas giraram e saram trotando ao lado dele.
     Fermati! Senhor! Pare!
    Kohler sentia averso por eles. Nem a fora de segurana mais elitista do mundo estava imune  pena que todos sentiam pelos aleijados. Se Kohler fosse um homem saudvel, os guardas o teriam segurado. Os aleijados so impotentes, pensou Kohler. Ou o mundo acredita que eles so.
    Kohler sabia que dispunha de pouco tempo para levar a cabo o que tinha vindo fazer. Sabia tambm que poderia morrer ali naquela noite. Ficou surpreso ao constatar quo pouco se importava. A morte era um preo que estava pronto para pagar. Suportara coisas demais em sua vida para que seu trabalho fosse destrudo por algum como o camerlengo Ventresca.
     Signore!  gritaram os guardas, correndo na frente e formando uma fila de lado a lado do corredor.  O senhor tem de parar!  Um deles puxou uma arma e apontou-a para Kohler.
    Kohler parou.
    Rocher interps-se, contrito. 
     Senhor Kohler, por favor. S vai levar um momento. Ningum entra no escritrio do Papa sem ser anunciado.
    Kohler viu nos olhos de Rocher que no tinha escolha a no ser esperar. Muito bem, pensou, vamos esperar.
    Os guardas, por maldade talvez, tinham feito Kohler parar junto a um espelho de moldura dourada que ia do teto ao cho. A viso de sua figura disforme causava-lhe repulsa. A velha raiva mais uma vez veio  tona. Fortalecia-o. Estava no meio do inimigo naquele momento. Aquelas eram as pessoas que o haviam privado de sua dignidade. Eram elas mesmas. Por causa delas, nunca sentira o corpo de uma mulher, nunca se levantara para receber um prmio. Qual  a verdade que essa gente possui? Que provas, malditos sejam? Um livro de fbulas antigas? Promessas de milagres que esto por vir? A cincia produz milagres todos os dias!
    Contemplou seus olhos de pedra. Esta noite pode ser que eu morra nas mos da religio, pensou. Mas no ser a primeira vez.
    E voltou aos seus 11 anos. Deitado em sua cama na manso de seus pais em Frankfurt, os lenis que o envolviam, feitos com o melhor linho da Europa, estavam empapados de suor. O jovem Max sentia o corpo em fogo, uma dor inimaginvel torturando-o. Ajoelhados ao lado de sua cama, de onde no saam j fazia trs dias, estavam seu pai e sua me. Ambos rezavam.
    Nas sombras do quarto encontravam-se trs dos melhores mdicos de Frankfurt.
     Insisto que pensem melhor!  disse um dos mdicos.  Olhem para o menino! A febre est aumentando. Ele est com dores terrveis. E corre risco de vida!
    Max, todavia, sabia o que sua me responderia antes mesmo que ela abrisse a boca.
     Gott wird ihn beschtzen.
    Sim, pensou Max. Deus vai me proteger. A convico na voz de sua me deu-lhe foras. Deus vai me proteger.
    Uma hora mais tarde, Max sentia dores tamanhas, como se seu corpo estivesse sendo esmagado por um carro. Sequer conseguia respirar para gritar.
     Seu filho est sofrendo demais  disse outro mdico.  Deixe-me ao menos aliviar as dores dele. Tenho na minha mala uma injeo simples de...
     Ruhe, bitte!  O pai de Max fez o mdico calar-se sem ao menos abrir os olhos, continuando a rezar.
     Papai, por favor!  Max queria gritar.  Deixe que ele faa a dor parar!
     Mas suas palavras perderam-se em um espasmo de tosse. Uma hora depois, a dor tinha piorado ainda mais.
     Seu filho pode ficar paraltico  advertiu um dos mdicos.  E at morrer! Temos remdios que podem ajudar!
    Frau e Herr Kohler no permitiram. No acreditavam em remdios. Quem eram eles para interferir nos planos divinos? Rezaram com maior intensidade. Afinal, se Deus os abenoara com aquele menino, por que Deus o levaria embora? Sua me sussurrou-lhe que fosse forte. Explicou que Deus o estava testando como na histria de Abrao na Bblia, um teste de f.
    Max tentava ter f, mas as dores eram excruciantes.
     No agento ver isso!  disse afinal um dos mdicos, saindo s pressas do quarto.
    Ao amanhecer, Max estava semiconsciente. Todos os seus msculos contraam-se em espasmos de agonia. Onde est Jesus? Delirava. Ele no me ama? Max sentia a vida esvaindo-se de seu corpo.
    Sua me adormecera ao lado da cama, as mos ainda entrelaadas em cima dele. O pai estava junto  janela, do outro lado do quarto, vendo o dia clarear. Parecia estar em transe. Max escutava o murmrio de suas splicas incessantes por misericrdia.
    Nesse momento Max divisou a figura pairando acima dele. Um anjo? Ele no enxergava direito. Seus olhos estavam muito inchados. A figura cochichou em seu ouvido, mas no era a voz de um anjo. Max reconheceu a voz de um dos mdicos, o que estava sentado em um canto havia dois dias, sem desistir, rogando aos pais de Max que o deixassem administrar na criana um novo remdio vindo da Inglaterra.
     Nunca vou me perdoar  sussurrou o mdico  se no fizer isso.  E, com delicadeza, pegou o brao frgil do menino.  Gostaria de t-lo feito mais cedo.
    Max sentiu uma pequenina espetadela no brao, que mal distinguiu em meio a tanta dor.
    O mdico ento guardou suas coisas em silncio. Antes de sair, pousou a mo na testa de Max.
     Isto vai salvar sua vida. Tenho muita f no poder da medicina.
    Poucos minutos depois, Max sentiu como se uma espcie de esprito mgico flusse em suas veias. O calor espalhou-se por seu corpo e amorteceu a dor. Finalmente, pela primeira vez em dias, Max dormiu.
    Quando a febre cedeu, seu pai e sua me proclamaram que era um milagre de Deus. Mas, quando ficou evidente que o filho estava aleijado, ficaram melanclicos. Levaram-no  igreja em uma cadeira de rodas e pediram que um padre os aconselhasse.
     Foi apenas pela graa de Deus  disse o padre  que esse menino sobreviveu.
    Max escutava sem dizer nada.
     Mas nosso filho no anda mais!  chorava Frau Kohler.
    O padre sacudiu a cabea, com ar triste.
     Sim. Parece que Deus o puniu por no ter f suficiente.
    
     Senhor Kohler?  era o guarda suo que correra na frente quem falava.
     O camerlengo disse que conceder uma audincia ao senhor.
    Kohler resmungou algo, acelerando de novo pelo corredor afora.
     Ele est surpreso com a sua visita  disse o guarda.
     Estou certo que sim  Kohler respondeu, prosseguindo.  Gostaria de v-lo a ss.
     Impossvel  disse o guarda.  Ningum...
     Tenente  falou Rocher, rspido , a reunio ser como o senhor Kohler deseja.
    O guarda olhou fixo para ele, incrdulo.
    Do lado de fora do escritrio do Papa, Rocher autorizou seus guardas a tomarem as precaues de praxe antes de deixar Kohler entrar. O detector de metais manual perdeu toda a utilidade com os inmeros aparelhos eletrnicos instalados na cadeira de rodas de Kohler. Os guardas o revistaram, mas sua deficincia evidentemente os encabulou e no o fizeram como deveriam. No encontraram o revlver escondido sob a cadeira. Nem o outro objeto, aquele que, Kohler sabia, fecharia de modo inesquecvel a seqncia de acontecimentos daquela noite.
    Quando Kohler entrou no escritrio do Papa, o camerlengo Ventresca estava sozinho, ajoelhado, rezando ao lado do fogo quase extinto da lareira. No abriu os olhos.
     Senhor Kohler  disse o camerlengo.  O senhor veio para me transformar em um mrtir? 

CAPTULO 112

    O tnel estreito chamado Il Passetto estendia-se em linha reta diante de Langdon e Vittoria enquanto os dois corriam rumo  Cidade do Vaticano. A tocha na mo de Langdon s produzia claridade para que enxergassem uns poucos metros adiante. As paredes eram muito prximas e o teto era baixo. Havia um cheiro desagradvel de umidade no ar. Langdon avanava depressa pela escurido com Vittoria seguindo-o de perto.
    O tnel inclinava-se de modo acentuado ao sair do Castelo SantAngelo, prosseguindo em sentido ascendente por dentro da parte inferior de um bastio de pedra semelhante a um aqueduto romano. Ali, o tnel se estabilizava e continuava seu percurso secreto na direo da Cidade do Vaticano.
    No caminho, os pensamentos sucediam-se como um caleidoscpio de imagens confusas na cabea de Langdon  Kohler, Janus, o Hassassin, Rocher, uma sexta marca? Voc j ouviu falar da sexta marca, dissera o matador. A mais brilhante de todas. Langdon tinha certeza de que no ouvira. Nem nas teorias conspiratrias havia qualquer referncia a uma sexta marca, real ou imaginria. Sabia de boatos sobre barras de ouro e sobre um diamante Illuminati sem qualquer jaa, mas nunca ouvira meno alguma a uma sexta marca.
     Kohler no pode ser Janus!  afirmou Vittoria, correndo pelo tnel atrs de Langdon.   impossvel!
    Impossvel era uma palavra que Langdon deixara de usar naquela noite.
     No sei  gritou ele para trs, sem parar.  Kohler tinha um ressentimento srio e tambm exerce uma grande influncia.
     Esta crise fez o CERN parecer monstruoso! Max nunca faria nada para prejudicar a reputao do CERN!
    Por um lado, Langdon sabia que o CERN ficara desacreditado naquela noite devido  insistncia dos Illuminati em fazer daquilo tudo um espetculo pblico. Por outro, ponderava o quanto de fato o CERN teria sido prejudicado. As crticas da Igreja no eram novidade para o CERN. Na verdade, quanto mais Langdon pensava a respeito, mais achava que a crise iria na realidade beneficiar o CERN. Se o negcio era publicidade, a antimatria ganhara o grande prmio da loteria naquela noite. No planeta inteiro s se falava dela.
     Sabe o que dizia o promotor P. T. Barnum?  disse Langdon por cima do ombro.  No me importo que falem mal de mim, contanto que escrevam meu nome certo! Aposto como j deve ter uma fila de gente interessada em obter a licena da tecnologia da antimatria. E depois que virem o que ela  capaz de fazer  meia-noite de hoje...
     No tem lgica  disse Vittoria.  Fazer publicidade de avanos tecnolgicos no  mostrar seu poder destrutivo! Isto  terrvel para a antimatria, acredite!
    A tocha de Langdon estava quase no fim.
     Ento deve ser mais simples do que isso. Talvez Kohler tenha apostado que o Vaticano manteria segredo sobre a antimatria para no fortalecer os Illuminati. Kohler esperava que o Vaticano se comportasse com a sua reserva de costume sobre a ameaa, mas o camerlengo mudou as regras.
    Vittoria ficou calada enquanto prosseguiam.
    Aos poucos, as coisas foram fazendo mais sentido para Langdon.
      isso! Kohler no contava com a reao do camerlengo. O camerlengo quebrou a tradio de segredo do Vaticano e foi a pblico falar da crise. Ele foi tremendamente franco. Chegou a pr a antimatria na TV! Foi uma reao brilhante, Kohler jamais a esperava. E a ironia de tudo  que o tiro dos Illuminati saiu pela culatra. Sem querer, produziu um novo lder da Igreja na pessoa do camerlengo. E agora Kohler est chegando para mat-lo!
     Max  um canalha  declarou Vittoria , mas no  um assassino. E nunca estaria envolvido no assassinato do meu pai.
    Na mente de Langdon, foi a prpria voz de Kohler que respondeu: 
     Leonardo era considerado perigoso por muitos puristas do CERN. Unir cincia e Deus  a suprema heresia cientfica.
     Talvez Kohler tenha descoberto sobre o projeto da antimatria h semanas e no tenha ficado satisfeito com as implicaes religiosas.
     E matado meu pai por causa disso? Ridculo! Alm do mais, Max Kohler no sabia que o projeto existia.
     Enquanto voc estava fora, talvez seu pai tenha sucumbido e consultado Kohler, pedindo orientao. Voc mesma disse que seu pai estava preocupado com as implicaes morais de criar uma substncia to mortal.
     Pedir orientao moral a Maximilian Kohler?  desdenhou Vittoria.  Acho que no!
    O tnel desviava-se ligeiramente para oeste. Quanto mais depressa corriam, mais fraca se tornava a luz da tocha. Langdon comeou a temer que ficasse totalmente escuro, como se tivessem apagado a luz. Trevas totais.
     Alm disso, por que Kohler teria se incomodado em ligar para voc hoje de manh cedo para pedir ajuda se ele prprio estivesse por trs de tudo?
    Langdon j tinha considerado a possibilidade.
     Ao ligar para mim, Kohler estava cobrindo suas bases. Da em diante, ningum poderia acus-lo de omisso em um momento de crise. Provavelmente no contava que fssemos to longe.
    A idia de ter sido usado por Kohler irritou Langdon. Seu envolvimento dera credibilidade aos Illuminati. Suas qualificaes e seus trabalhos publicados haviam sido citados a noite inteira pela imprensa e, por mais ridculo que fosse, a presena de um professor de Harvard na Cidade do Vaticano de certa forma afastara a possibilidade de que toda aquela situao pudesse ser um delrio paranide, tambm convencendo os cticos do mundo todo de que a fraternidade dos Illuminati no era apenas um fato histrico, mas uma fora a ser levada em conta.
     Aquele reprter da BBC  disse Langdon  acha que o CERN  o novo refgio dos Illuminati.
     O qu!  Vittoria tropeou atrs dele. Ps-se de p e alcanou-o.  Ele disse isso?!
     No ar. Comparou o CERN s lojas manicas. Uma organizao inocente abrigando a fraternidade dos Illuminati dentro dela.
     Meu Deus, isso vai destruir o CERN.
    Langdon no tinha tanta certeza. De qualquer maneira, a teoria agora parecia mais coerente. O CERN era o supremo paraso cientfico, onde viviam cientistas de mais de dez pases. Aparentemente, dispunham de inesgotvel financiamento privado. E Maximilian Kohler era o diretor.
    Kohler  Janus.
     Se Kohler no est envolvido  argumentou Langdon , o que veio fazer aqui?
     Provavelmente tentar impedir que essa loucura continue. Demonstrar apoio. Talvez ele esteja realmente agindo como o Samaritano! Pode ter descoberto quem sabia sobre o projeto da antimatria e veio trazer informaes.
     O matador disse que ele viria para marcar o camerlengo a fogo.
     Preste ateno no que est dizendo! Isto seria uma misso suicida. Max jamais sairia vivo daqui.
    Langdon refletiu. Talvez seja esta a questo.
    Os contornos de um porto de ferro delinearam-se  frente bloqueando-lhes a passagem. O corao de Langdon quase parou. Quando se aproximaram, entretanto, encontraram o velho cadeado solto. O porto podia ser aberto  vontade.
    Langdon suspirou aliviado, percebendo, como j desconfiava, que o velho tnel fora usado. Recentemente. Naquele mesmo dia. Agora no tinha dvidas de que quatro cardeais aterrorizados haviam sido conduzidos por ali secretamente horas antes.
    Continuaram a correr. Dava para ouvir agora o som do caos  esquerda. Era a Praa de So Pedro. Estavam chegando.
    Passaram por outro porto, este mais pesado e tambm destrancado. O barulho na Praa de So Pedro diminuiu de intensidade atrs deles e Langdon calculou que tinham ultrapassado o muro externo da Cidade do Vaticano. Perguntava-se onde terminaria aquela antiga passagem. Nos jardins? Na baslica? Na residncia do Papa?
    Ento, inesperadamente, o tnel chegou ao fim.
    A incmoda porta que lhes obstrua o caminho era uma grossa muralha de ferro rebitado. Mesmo  luz bruxuleante da tocha, agora em seus ltimos lampejos, dava para ver que a porta era inteiria  sem maaneta, sem puxadores, sem buraco de fechadura, sem dobradias. Sem jeito de entrar.
    Sentiu uma onda de pnico. Em linguagem de arquiteto, aquele raro tipo de porta era chamado de senza chiave: uma passagem de sentido nico, usada para fins de segurana, s opervel de um dos lados  do outro lado, no caso. As esperanas de Langdon apagaram-se junto com a tocha em sua mo.
    Olhou para o relgio. Mickey brilhava no escuro.
    11h29.
    Com um grito de frustrao, Langdon atirou longe a tocha e comeou a esmurrar a porta. 

CAPTULO 113

    Algo estava errado.
    O tenente Chartrand encontrava-se do lado de fora do escritrio do Papa e, pela postura constrangida do soldado que montava guarda com ele, percebia que ambos partilhavam a mesma ansiedade. O encontro particular que estavam protegendo, dissera Rocher, poderia salvar o Vaticano da destruio. Portanto, Chartrand no compreendia por que motivo seu instinto de preservao estava to aguado. E por que Rocher estaria agindo de modo to estranho?
    Decididamente, algo estava errado. O capito Rocher encontrava-se  direita de Chartrand, olhando fixo para a frente, seu olhar arguto estranhamente distante. Chartrand mal reconhecia o capito. Rocher nem parecia o mesmo naquela ltima hora. As decises dele no faziam sentido.
    Algum tinha de estar presente l dentro durante este encontro, pensou Chartrand. Escutara Maximilian Kohler trancar a porta depois de entrar. Por que Rocher permitira aquilo?
    Mas havia muito mais coisas incomodando Chartrand. Os cardeais. Os cardeais ainda estavam trancados na Capela Sistina. Isso era uma insanidade total. O camerlengo queria que eles tivessem sado 15 minutos antes! Rocher passara por cima da deciso e no informara o camerlengo. Chartrand demonstrara preocupao e Rocher quase arrancara a cabea dele. A cadeia de comando nunca era questionada na Guarda Sua, e agora quem mandava era Rocher.
    Meia hora, pensou Rocher, discretamente verificando seu cronmetro suo  luz mortia do candelabro que iluminava o saguo. Por favor, apressem-se.
    Chartrand gostaria de poder escutar o que estava acontecendo do outro lado das portas. Ainda assim, sabia que ningum melhor do que o camerlengo para lidar com aquela crise. O homem passara por provas durssimas naquela noite sem esmorecer. Enfrentara o problema de cabea erguida  verdadeiro, franco, brilhando, um exemplo para todos. Chartrand estava sentindo orgulho de ser catlico. Os Illuminati tinham cometido um engano ao desafiarem o camerlengo Ventresca.
    Naquele momento, porm, os pensamentos de Chartrand foram abalados por um som inesperado. Batidas. Vinham do fundo do corredor. As batidas soavam distantes e abafadas, mas incessantes. Rocher levantou a cabea. O capito fez um sinal para Chartrand. Chartrand compreendeu, ligou sua lanterna e foi investigar.
    As batidas soavam mais desesperadas agora. Chartrand percorreu 30 metros do corredor at um cruzamento. O barulho parecia vir de algum ponto depois da curva, alm da Sala Clementina. Chartrand estava perplexo. S havia um aposento ali  a biblioteca particular do Papa, que estava trancada desde a morte de Sua Santidade. No podia haver ningum l!
    Chartrand entrou depressa no segundo corredor, dobrou mais uma esquina e correu para a porta da biblioteca. O prtico de madeira era diminuto, mas surgia no escuro como uma austera sentinela. As batidas vinham de dentro. Chartrand hesitou. Nunca estivera antes na biblioteca particular. Poucos tinham estado. Ningum tinha autorizao para entrar ali a no ser acompanhado pelo prprio Papa. Tateando, encontrou a maaneta e virou-a. Como previra, a porta estava trancada. Encostou a orelha na porta. As batidas ficaram mais altas. Ento, ouviu mais alguma coisa. Vozes! Algum chamando!
    No distinguia as palavras, mas notava o pnico nos gritos. Algum estaria preso na biblioteca? Ser que a Guarda Sua no evacuara completamente o prdio? Chartrand estava indeciso, sem saber se deveria voltar e consultar Rocher. Ora, ele que se danasse. Chartrand fora treinado para tomar decises e era o que faria agora. Tirou a arma da cintura e deu um nico tiro no trinco. A madeira estourou e a porta se abriu.
    L dentro, Chartrand s viu escurido. Apontou a lanterna. A sala era retangular  tapetes orientais, altas estantes de carvalho cheias de livros, um sof de couro e uma lareira de mrmore. Chartrand ouvira histrias sobre aquele lugar  trs mil livros antigos lado a lado com centenas de revistas e jornais modernos, qualquer coisa que Sua Santidade solicitasse. A mesa baixa de centro estava coberta de publicaes especializadas sobre cincia e poltica.
    As batidas estavam mais ntidas agora. Chartrand dirigiu o foco da lanterna para o lado oposto, de onde vinha o som. Na parede do fundo, alm do conjunto de sof e cadeiras, havia uma enorme porta de ao. De aparncia to impenetrvel quanto a de um cofre. Tinha quatro fechaduras colossais. O que estava escrito em letras pequeninas bem no centro da porta tirou o flego de Chartrand.
IL PASSETTO
    Chartrand estava boquiaberto. A sada secreta do Papa! J escutara comentrios sobre o Passetto,  claro, e at ouvira falar que antigamente existia uma entrada ali, pela biblioteca, mas no se usava o tnel havia sculos! Quem poderia estar do outro lado?
    O rapaz pegou a lanterna e bateu com ela na porta. Soou uma exclamao abafada de alegria do outro lado. As batidas cessaram e as vozes gritaram mais alto. Chartrand no distinguia direito as palavras atravs da barreira.
     Kohler... mentira... camerlengo...
     Quem est a?  gritou Chartrand.
     ... ert Langdon... Vittoria Ve...
    Chartrand compreendeu, mas no assimilou logo o que ouviu. Pensei que estivessem mortos!
     ... a porta  gritaram as vozes.  Abra...!
    Chartrand olhou para a porta de ao e achou que seria preciso usar dinamite para abri-la.  Impossvel!  gritou de volta.  Grossa demais!
     ...encontro ...impedir ...erlengo... perigo...
    A despeito de seu treinamento sobre os riscos do pnico, o guarda foi acometido por uma onda de medo ao ouvir as ltimas palavras. Ser que compreendera direito? Com o corao acelerado, virou-se para voltar correndo para o escritrio. Ao faz-lo, porm, estacou. Seu olhar parou em algo na porta  algo mais impressionante ainda do que a mensagem que vinha do outro lado. Presas em todos os buracos das enormes fechaduras da porta havia chaves. As chaves estavam ali? Como? Ele piscava, esttico, sem acreditar. As chaves daquela porta supostamente deveriam estar guardadas em algum cofre! Aquela passagem nunca era usada  no nos ltimos sculos!
    Chartrand pousou sua lanterna no cho. Virou a primeira chave. O mecanismo estava enferrujado e duro, mas ainda funcionava. Algum o abrira recentemente. Abriu a segunda fechadura. E a seguinte. Quando a ltima lingeta se soltou, ele puxou a porta. O bloco de ao abriu-se com um rangido. Ele pegou a lanterna e dirigiu-a para a entrada.
    Robert Langdon e Vittoria Vetra tinham o aspecto de duas aparies ao entrarem cambaleantes na biblioteca. Ambos estavam em frangalhos e cansados, mas bem vivos.
     O que houve?  perguntou Chartrand.  O que est acontecendo? De onde vocs vieram?
     Onde est Max Kohler?  perguntou Langdon.
    Chartrand apontou.
     Em um encontro particular com o camer...
    Langdon e Vittoria passaram por ele e correram para a porta da biblioteca. Chartrand, por instinto, levantou o revlver para as costas deles. Mas logo abaixou a arma e foi atrs dos dois. Rocher provavelmente os ouviu se aproximando porque, quando chegaram  porta do escritrio do Papa, ele se posicionara com as pernas afastadas e apontava-lhes o revlver.
     Alto!
     O camerlengo est em perigo!  berrou Langdon, levantando os braos e parando.  Abra a porta! Max Kohler vai matar o camerlengo!
    Rocher parecia zangado.
     Abra a porta!  disse Vittoria.  Depressa!
    Mas era tarde demais.
    De dentro do escritrio do Papa veio um grito pavoroso. Era o camerlengo. 

CAPTULO 114

    O confronto durou apenas alguns segundos.
    O camerlengo Ventresca ainda estava gritando quando Chartrand passou por Rocher e arrebentou a porta do escritrio do Papa com um tiro. Os guardas entraram correndo, com Langdon e Vittoria atrs deles.
    A cena com que se depararam era estarrecedora.
    O aposento s contava com a iluminao de velas e do fogo quase apagado da lareira. Kohler estava perto da lareira, de p, desajeitado, junto  sua cadeira de rodas. Brandia uma pistola, apontada para o camerlengo, que jazia no cho a seus ps, contorcendo-se de dor. A batina do camerlengo estava rasgada e seu peito nu fora marcado a fogo. Langdon, do outro lado da sala, no conseguiu distinguir o smbolo, mas um grande ferro de marcar quadrado encontrava-se no cho perto de Kohler. O metal ainda estava em brasa.
    Dois guardas suos agiram sem vacilar. Abriram fogo. As balas penetraram no peito de Kohler, jogando-o para trs. Kohler caiu em sua cadeira de rodas, o sangue jorrando. O revlver resvalou pelo cho.
    Langdon, aturdido, no passou da porta.
    Vittoria ficou paralisada.
     Max...  murmurou.
    O camerlengo, ainda se revirando no cho, rolou o corpo na direo de Rocher e, tendo no rosto a expresso de terror exaltado dos primeiros caadores de bruxas, apontou o dedo indicador para Rocher e berrou uma nica palavra:
     ILLUMINATUS!
     Seu canalha  disse Rocher, correndo para ele.  Seu canalha hipcrita...
    Dessa vez foi Chartrand quem reagiu por instinto, metendo trs balas nas costas de Rocher. O rosto do capito bateu primeiro no piso de azulejos e ele escorregou inerte em seu prprio sangue. Chartrand e os guardas correram ento para o camerlengo, que se contraa todo, com dores atrozes.
    Os guardas soltaram exclamaes horrorizadas ao verem o smbolo marcado no peito do camerlengo. O segundo guarda viu a marca de cabea para baixo e recuou cambaleante, cheio de medo. Chartrand, igualmente perturbado pelo smbolo, puxou a batina rasgada do camerlengo para cima da queimadura, escondendo-o.
    Langdon teve a sensao de estar delirando ao cruzar o aposento. Em meio  bruma de insanidade e violncia, ele tentava entender o que estava presenciando. Um cientista aleijado, num gesto final de autoridade simblica, voara at a Cidade do Vaticano para marcar a fogo o personagem mais eminente da Igreja. H coisas pelas quais vale a pena morrer, dissera o Hassassin. Langdon se perguntava como um deficiente fsico poderia ter dominado o camerlengo. Mas Kohler estava armado. No importava como o fizera! Kohler cumprira sua misso!
    Langdon aproximou-se da cena medonha. O camerlengo j estava sendo assistido e Langdon foi atrado pelo ferro fumegante cado perto da cadeira de Kohler. A sexta marca? Quanto mais olhava, menos compreendia. A marca parecia ser um quadrado perfeito, bastante grande e seguramente viera do sagrado compartimento central da arca que estava no refgio dos Illuminati. A sexta marca, dissera o Hassassin. A mais brilhante de todas.
    Langdon ajoelhou-se ao lado de Kohler e estendeu a mo para pegar o objeto. O metal ainda irradiava calor. Segurou o cabo de madeira e levantou-o. No sabia o que esperava ver, mas decerto no era isso.

    Olhou fixamente para a pea durante um longo e confuso momento. Nada fazia sentido. Por que os guardas tinham gritado, apavorados, ao ver a marca? Era um quadrado de rabiscos incompreensveis. A mais brilhante de todas? Era simtrica, dava para notar ao gir-la na mo, mas era um deboche.
    Ao sentir a mo de algum em seu ombro, Langdon ergueu a cabea, pensando que era Vittoria. A mo, porm, estava coberta de sangue. Pertencia a Maximilian Kohler, que a estendia de sua cadeira de rodas.
    Langdon deixou cair o ferro de marcar e levantou-se apressadamente. Kohler ainda estava vivo!
    O corpo afundado na cadeira, o diretor agonizava mas ainda estava respirando, embora com dificuldade, arquejante. Seus olhos encontraram os de Langdon com a mesma expresso dura que o recebera no CERN horas antes. Parecia ainda mais severa na hora da morte, com a averso e a animosidade vindo  tona. O corpo do cientista ainda se agitava em leves convulses e Langdon achou que ele estava tentando se mexer. Todos na sala se concentravam no camerlengo naquele momento. Langdon quis chamar algum, mas no foi capaz de reagir. Fascinava-o a intensidade que emanava de Kohler nos segundos finais de sua vida, O diretor, com esforo, trmulo, levantou o brao e tirou um pequeno objeto do brao de sua cadeira. Do tamanho de uma caixa de fsforos. Segurou-o no ar, oscilante. Langdon chegou a pensar que Kohler tivesse uma arma. Mas era outra coisa.
     En... tregue...  a voz no passava de um sussurro entrecortado.  En... tregue isto...  imprensa.
    Kohler tombou, imvel, e o aparelho caiu em seu colo.
    Abalado, Langdon olhou para o aparelho. Era eletrnico. As palavras SONY RUVI estavam impressas na frente. Tratava-se de uma dessas pequenas cmeras de vdeo em miniatura que cabem na palma da mo. Que audcia desse sujeito, pensou. Kolher provavelmente gravara alguma mensagem suicida e queria que a imprensa a divulgasse  sem dvida algum sermo sobre a importncia da cincia e os malefcios da religio. Langdon decidiu que j fizera demais pela causa daquele homem naquela noite. Antes que Chartrand visse a pequenina cmera, Langdon enfiou-a no bolso mais fundo de seu palet. A mensagem final de Koller que v para o inferno!
    Foi a voz do camerlengo que quebrou o silncio. Ele tentava se sentar.
     Os cardeais  disse ele a Chartrand, ofegante.
     Ainda esto na Capela Sistina!  exclamou Chartrand.  O capito Rocher ordenou...
     Faa-os sair agora. Todos.
    Chartrand despachou s pressas um dos outros guardas para soltar os cardeais.
    O camerlengo fez uma careta de dor.
     O helicptero... a na frente... para me levar para um hospital. na praa em torno dele era to grande que a barulheira abafava o som de seus rotores ligados. Aquela no era certamente uma daquelas viglias solenes  luz de velas. No sabia como ainda no havia acontecido um tumulto pior.
    Faltavam menos de 25 minutos para a meia-noite e as pessoas ainda estavam amontoadas l, umas rezando, outras chorando pela Igreja, algumas gritando obscenidades e proclamando que era isso mesmo o que a Igreja merecia, outras entoando versculos apocalpticos da Bblia.
    A cabea do piloto latejava mais quando os focos de luz das emissoras passavam pelo seu pra-brisa, ofuscando-o. Apertava os olhos para a massa turbulenta. Cartazes e faixas eram agitados pela multido.
A ANTIMATERIA  O ANTICRISTO!
CIENTISTAS-SATANISTAS,
ONDE EST SEU DEUS AGORA?
    O piloto gemia, a cabea piorando. Ponderava se deveria cobrir o pra-brisa com a proteo de vinil para no ver nada, mas achava que iria levantar vo em questo de minutos. O tenente Chartrand acabara de falar com ele pelo rdio dando notcias graves. O camerlengo fora atacado por Maximilian Kohler e estava seriamente ferido. Chartrand, o americano e a mulher iriam sair com o camerlengo para que ele fosse levado a um hospital.
    O piloto sentia-se pessoalmente responsvel pelo ataque. Censurava-se por no ter agido com mais audcia. Pouco antes, ao pegar Kohler no aeroporto, percebera algo estranho nos olhos mortos do cientista. No sabia definir, mas no gostara nada. No que isso importasse. Rocher era quem mandava e ele insistira que era aquele sujeito. Pelo jeito, enganara-se.
    Um novo clamor ergueu-se da multido. O piloto levantou os olhos e viu uma fila de cardeais indo solenemente do Vaticano para a Praa de So Pedro. O alvio dos cardeais por sarem da zona de risco era rapidamente superado pelas expresses de espanto diante do espetculo que se desenrolava fora da igreja.
    O alarido intensificou-se mais ainda. A cabea do piloto latejava. Precisava de uma aspirina. Talvez de trs. No gostava de voar depois de tomar remdios, mas a aspirina seria decerto menos debilitante do que aquela dor de cabea furiosa. Pegou o estojo de primeiros-socorros, guardado junto com diversos mapas e manuais em uma caixa presa entre os dois bancos dianteiros. Quando tentou abri-lo, porm, estava trancado. Olhou em torno procurando a chave e finalmente desistiu. Aquela no era mesmo a sua noite de sorte. Voltou a massagear as tmporas. 

CAPTULO 115

    Na Praa de So Pedro,o piloto da Guarda Sua estava sentado na cabine do helicptero do Vaticano estacionado e esfregava as tmporas. O caos dentro da baslica s escuras, Langdon, Vittoria e os dois guardas avanavam, ofegantes, para a sada principal. Sem conseguirem encontrar nada mais adequado, os quatro transportavam o camerlengo ferido em cima de uma mesa estreita, o corpo inerte equilibrado entre eles como em uma maca. L fora, o rudo distante da aglomerao humana tornou-se audvel. O camerlengo encontrava-se  beira da inconscincia.
    O tempo estava se esgotando.

CAPTULO 116

    Eram 11h39 quando Langdon saiu com os outros da Baslica de So Pedro. Uma claridade ofuscante atingiu-o. A iluminao da imprensa refletia-se na brancura do mrmore como a luz do sol na tundra coberta de neve. Langdon apertou os olhos, procurando refugiar-se atrs das enormes colunas da fachada, mas a luz vinha de todas as direes. Na sua frente, uma coleo de enormes telas de vdeo destacava-se acima da multido.
    Do alto da magnfica escadaria que se projetava para a praa, Langdon sentiu-se um ator relutante no maior palco do mundo. Em algum ponto alm das luzes ofuscantes, ouviu um motor de helicptero ligado e o rumor de milhares de vozes.  esquerda, a procisso dos cardeais continuava seguindo para a praa. Todos pararam, visivelmente pesarosos com a cena que naquele momento se desenrolava nas escadarias.
     Com cuidado, agora  recomendou Chartrand, concentrado, quando o grupo comeou a descer as escadas a caminho do helicptero.
    Langdon tinha a sensao de que se moviam debaixo dgua. Seus braos doam com o peso do camerlengo e da mesa. Perguntava a si mesmo se poderia haver momento mais constrangedor do que aquele. E logo teve a resposta. Os dois reprteres da BBC, que deviam estar atravessando a praa para voltar  rea da imprensa, tinham mudado de idia ao ouvir o vozerio das pessoas. Glick e Macri vinham correndo na direo deles, a cmera de Macri funcionando. L vm os abutres, pensou Langdon.
     Alto!  gritou Chartrand.  Para trs!
    Mas os reprteres no se detiveram. Langdon calculou que as outras emissoras levariam uns seis segundos para tambm comear a transmitir aquela cena ao vivo. Estava errado. Levaram dois. Como se unidas por uma espcie de conscincia universal, todas as telas na piazza interromperam a transmisso das imagens da bomba de antimatria e das opinies de seus especialistas em Vaticano e passaram a mostrar a mesma coisa  uma seqncia oscilante das escadarias da baslica. Agora, para qualquer ponto que se olhasse, via-se o corpo inerte do camerlengo em close colorido.
    Isto no est certo!, pensou Langdon, com vontade de descer as escadas e intervir, mas sem poder. No teria ajudado nada, porm. Se foi a algazarra do povo ou o ar frio da noite a causa de tudo o que se seguiu, Langdon jamais saberia, mas o fato  que, naquele momento, o inconcebvel aconteceu.
    Como se o camerlengo acordasse de um pesadelo, seus olhos se abriram de repente e ele se sentou ao mesmo tempo. Tomados inteiramente de surpresa, Langdon e os outros atrapalharam-se com o deslocamento do peso. A parte da frente da mesa tombou e o camerlengo comeou a deslizar. Eles tentaram recuperar o equilbrio colocando a mesa no cho, mas j era tarde demais. O camerlengo escorregou para a frente. Inacreditavelmente, ele no caiu. Seus ps apoiaram-se no mrmore, ele oscilou um pouco e depois se aprumou. Permaneceu parado um instante, meio desorientado, e ento, antes que algum pudesse impedir, precipitou-se escada abaixo, as passadas incertas, na direo de Macri.
     No!  Langdon gritou.
    Chartrand correu, tentando segurar o camerlengo, que, entretanto, se virou para ele dizendo com ar desvairado, enlouquecido:
     Largue-me!
    Chartrand deu um pulo para trs.
    A cena foi de mal a pior. A batina rasgada do camerlengo, que Chartrand apenas puxara para cima de seu peito, abriu-se e comeou a cair. Por um segundo, Langdon pensou que a roupa fosse agentar, mas o segundo passou. A batina se rompeu, descendo pelos ombros dele at a cintura.
    A exclamao que veio da multido pareceu percorrer o mundo inteiro e voltar em um instante. As cmeras rodaram, os flashes espocaram. Nas telas de televiso de todos os lugares projetou-se a imagem do peito do camerlengo marcado a fogo, ampliado e em horrveis detalhes. Algumas telas chegaram a congelar a imagem e gir-la 180 graus.
    A suprema vitria dos Illuminati.
    Langdon viu a marca nas telas de televiso. Apesar de ser a impresso produzida pelo ferro quadrado que tivera nas mos pouco antes, o smbolo agora fazia sentido. Completo. O poder impressionante da marca atingiu-o com o impacto de um trem.
    Direo. Langdon esquecera a primeira regra da simbologia. Quando  que um quadrado no  um quadrado? Tambm esquecera que os ferros de marcar, assim como os carimbos de borracha, nunca se parecem com a marca que produzem. So invertidos. Langdon olhara para o negativo da marca!
     medida que aumentava o caos na praa, uma velha citao dos Illuminati ecoou em sua mente com um novo significado: Um diamante sem jaa, nascido dos antigos elementos com tamanha perfeio, que todos os que o viam ficavam extasiados. Agora sabia que o mito era verdadeiro.
    Terra, Ar, Fogo, gua.
    O diamante Illuminati.

CAPTULO 117
    Robert Langdon no duvidava que o caos e a histeria que se alastraram pela Praa de So Pedro naquela ocasio tivessem suplantado tudo o que o Vaticano j vira. Nenhuma batalha, crucificao, peregrinao ou viso mstica  nada na histria de dois mil anos do santurio poderia se igualar s dimenses e  dramaticidade daquele momento.
    Enquanto a tragdia se desenrolava, Langdon sentia-se estranhamente distante, como se pairasse ali ao lado de Vittoria no alto da escadaria. A ao pareceu distender-se como uma deformao do tempo, toda aquela insanidade passando cada vez mais devagar. O camerlengo marcado a fogo, delirando para o mundo inteiro ver.
    O diamante Illuminati revelado em toda a sua diablica engenhosidade.
    A contagem regressiva do relgio da antimatria registrando os ltimos 20 minutos da histria do Vaticano.
    O drama, porm, estava apenas comeando.
    O camerlengo, como se estivesse vivendo um transe ps-traumtico, mostrou-se repentinamente cheio de vigor, possudo por demnios. Balbuciava, murmurava coisas para espritos invisveis, olhando para o cu e levantando os braos para Deus.
     Fale!  gritou ele para os cus.  Sim, estou escutando!
    E Langdon compreendeu. Foi como se um peso casse dentro dele.
    Vittoria tambm compreendera. Ficou plida.
     Ele est em estado de choque  disse.  Est tendo alucinaes. Acha que est falando com Deus.
    Algum tem de impedir que isso continue, pensou Langdon. Era um final lamentvel, embaraoso. Levem esse homem para um hospital!
    Ao p da escadaria, Chinita Macri instalara-se em um ponto ideal e estava filmando tudo. As imagens apareciam instantaneamente nas enormes telas atrs dela na praa, como filmes interminveis de cinema ao ar livre, mostrando a mesma tragdia angustiante.
    A cena toda tinha um tom pico. O camerlengo, a batina rasgada, a marca da queimadura no peito, parecia uma espcie de paladino ferido que tivesse ultrapassado todos os crculos do inferno por aquele momento de revelao. Ele bradava para os cus.
     Ti sento, Dio! Estou ouvindo, Deus!
    Chartrand recuou, o rosto cheio de temor.
    Um silncio espalhou-se pela multido, instantneo, absoluto. E foi como se o planeta inteiro mergulhasse no mesmo silncio. Todas as pessoas ficaram rgidas diante de suas televises, prendendo a respirao em conjunto.
    O camerlengo parou nas escadas, diante do mundo, e abriu os braos. Igual a Cristo, despido e machucado. Levantou os braos e, olhando para cima, exclamou:
     Grazie! Grazie, Dio!
    Nenhum rudo rompeu o silncio.
     Grazie, Dio!  repetiu o camerlengo. Como a luz do sol passando atravs de nuvens de tempestade, uma expresso de alegria indizvel de repente iluminou o rosto dele.  Grazie, Dio!
    Obrigado, Deus? Langdon assistia  cena, sem compreender.
    O camerlengo mostrava-se radiante agora, a misteriosa transformao j completa. Ainda olhava para o cu, sacudindo a cabea, arrebatado. Gritou para o cu.
     Sobre esta pedra edificarei minha igreja!
    Langdon conhecia a frase, mas no entendia por que o camerlengo a pronunciara.
    O camerlengo voltou-se para o povo e gritou outra vez para dentro da noite.
     Sobre esta pedra edificarei minha igreja!  E, com os braos erguidos, riu alto, repetindo uma vez mais:  Grazie, Dio! Grazie!
    O homem indiscutivelmente enlouquecera.
    O mundo assistia, hipnotizado.
    O clmax de tudo aquilo, entretanto, foi algo que ningum esperava.
    Com um exultante brado final, o camerlengo deu meia-volta e disparou para dentro da Baslica de So Pedro. 
CAPTULO 118

    11h42.
    Langdon nunca imaginou que fosse um dia fazer parte de uma comitiva frentica como a que se lanou atrs do camerlengo, muito menos que fosse ele a sair na frente. Era ele quem estava mais prximo da porta e acabou agindo por instinto.
    O camerlengo vai morrer aqui, pensou Langdon, correndo para o interior escuro da baslica.
     Camerlengo! Pare!
    A escurido com que Langdon se deparou era absoluta. Suas pupilas estavam contradas por causa da claridade do lado de fora e seu campo de viso limitava-se a alguns metros. Ele parou. Em algum ponto l dentro ouviu o farfalhar do tecido da batina do camerlengo, que corria s cegas para o fundo da baslica.
    Vittoria e os guardas vieram logo atrs. As lanternas foram acesas, mas as luzes j estavam fracas e no bastavam para alcanar as profundezas do templo. Os fachos de luz iam e vinham, mostrando apenas colunas e o cho vazio. No se via o camerlengo em parte alguma.
     Camerlengo!  gritou Chartrand, com medo na voz.  Espere! Signore!
    Um tumulto na porta atrs deles fez todos se virarem. O volumoso vulto de Chinita Macri assomou na entrada. Uma luz vermelha brilhando na cmera apoiada no ombro dela revelava que ainda estava transmitindo tudo. Glick vinha correndo atrs, microfone na mo, gritando-lhe que fosse mais devagar.
    Aqueles dois eram inacreditveis. No  hora disso, pensou Langdon.
     Fora!  exclamou Chartrand.  Isto no  para os seus olhos!
    Mas Macri e Glick no pararam.
     Chinita!  a voz de Glick soava amedrontada.  Isto  suicdio! Vou voltar!
    Macri no fez caso dele. Apertou um boto em sua cmera. O projetor em cima dela acendeu-se, ofuscando todos.
    Langdon protegeu o rosto com a mo e abaixou a cabea, zonzo. Droga! Quando a levantou, porm, a igreja estava iluminada uns 30 metros em torno deles.
    A voz do camerlengo ecoou em algum ponto distante:
     Sobre esta pedra edificarei minha igreja!
    Macri direcionou sua cmera para o som. L longe, na rea cinzenta alm do alcance da luz do projetor, viu-se ondular um tecido escuro, revelando uma forma conhecida que corria pela nave principal.
    Seguiu-se um instante fugaz de hesitao enquanto todos os olhos acompanhavam a imagem bizarra. Depois, rompeu-se o dique. Chartrand passou por Langdon e lanou-se no encalo do camerlengo. Langdon foi logo atrs. Depois, os guardas e Vittoria.
    Macri fechava a retaguarda iluminando o caminho de todos e transmitindo a caada sepulcral para o mundo. Glick praguejava em voz alta enquanto a acompanhava a contragosto, assustado.
    A nave central da Baslica de So Pedro, calculara certa vez o tenente Chartrand, era mais comprida do que um campo de futebol. Naquela noite dava a impresso de ser o dobro. Correndo atrs do camerlengo, o guarda se perguntava para onde ele estaria indo. O homem estava em choque, seguramente, abalado pelo trauma fsico e por ter presenciado aquele massacre terrvel no escritrio do Papa.
    Mais alm, depois do trecho iluminado pelo projetor da BBC, a voz do camerlengo soava jubilosa:
     Sobre esta pedra edificarei minha igreja!
    Chartrand sabia que ele estava citando a Bblia  Mateus, 16:18, se no se enganava. Sobre esta pedra edificarei minha igreja. Uma inspirao quase cruel de to inadequada  a igreja em questo estava prestes a ser destruda. O camerlengo com certeza enlouquecera.
    Ou ele?
    Por um momento, a alma de Chartrand alou vo. Sempre tinha considerado as vises celestes e as divinas mensagens como iluses, o produto de mentes excessivamente zelosas que ouviam o que desejavam ouvir. Deus no interagia diretamente!
    Logo em seguida, contudo, como se o prprio Esprito Santo descesse para persuadi-lo de Seu poder, Chartrand teve uma viso.
    Uns 50 metros  frente, no centro da igreja, um fantasma apareceu, um vulto difano, reluzente. A figura plida era a do camerlengo seminu. O espectro parecia transparente, irradiando luz. Chartrand estacou, com um aperto no estmago. O camerlengo est brilhando! O corpo passou a reluzir mais ainda. Ento, comeou a afundar, mais e mais, at desaparecer, como por um passe de mgica, no cho escuro.
    Langdon tambm vira o fantasma. E, por uma frao de segundo, tambm pensou ter tido uma viso mgica. No entanto, ao passar pelo aturdido Chartrand em direo ao ponto onde o camerlengo desaparecera, percebeu o que havia acontecido. O camerlengo chegara ao Nicho dos Plios  a cmara rebaixada e iluminada por 99 lamparinas de leo. As lamparinas dentro do nicho iluminaram-no como um fantasma, de baixo para cima. Depois, quando o camerlengo desceu as escadas no meio da luz das lamparinas, pareceu desaparecer sob o cho.
    Langdon chegou ofegante  borda do recinto rebaixado. Olhou para baixo, para as escadas. No fundo, sob a luminosidade amarelada das lamparinas de leo, viu o camerlengo atravessar a cmara de mrmore rumo s portas de vidro que levavam ao aposento onde fica a famosa arca dourada.
    O que ele est fazendo, perguntou-se Langdon. Ser que acha que a arca dourada...
    O camerlengo escancarou as portas e entrou. Entretanto, no tomou conhecimento da arca dourada, passando direto por ela. Mais ou menos um metro e meio depois da arca, caiu de joelhos e comeou a tentar levantar uma grade de ferro presa no cho.
    Langdon assistia a tudo estarrecido, percebendo aonde o camerlengo queria ir.
    Deus do cu, no! E desceu depressa as escadas ao encontro dele.
     Padre! No! Assim que Langdon abriu as portas de vidro e correu para o camerlengo, este suspendeu a grade de ferro, que, ao girar nas dobradias, caiu, abrindo-se com um estrondo ensurdecedor e revelando uma abertura estreita com uma escada quase a prumo. Quando o camerlengo j se encaminhava para a abertura, Langdon segurou seus ombros nus e puxou-o de volta. A pele estava escorregadia de suor, mas Langdon conseguiu det-lo.
    O camerlengo virou-se rapidamente para ele, espantado.
     O que est fazendo!
    Langdon surpreendeu-se quando seus olhos se encontraram. O camerlengo no tinha mais aquela expresso de quem est em transe. Estava alerta, cheio de lcida determinao. O aspecto da queimadura em seu peito era aflitivo.
     Padre  instou Langdon com toda a calma possvel , o senhor no pode entrar a. Temos de sair da baslica.
     Meu filho  disse o camerlengo, a voz extraordinariamente sensata , acabei de receber uma mensagem. Eu sei que...
     Camerlengo!  Chartrand e os outros tinham chegado. Desceram correndo as escadas sob a luz da cmera de Macri.
    Quando Chartrand viu a grade aberta no cho, seu rosto se encheu de medo. Fez o sinal-da-cruz e lanou um olhar agradecido a Langdon por ter impedido o camerlengo. Langdon compreendeu. Lera o suficiente sobre a arquitetura do Vaticano para saber o que havia depois da grade. Era o local mais sagrado da cristandade. Terra Santa. Solo sagrado. Alguns chamavam-no de Necrpole. Outros, de Catacumbas. Segundo os relatos dos poucos religiosos que ao longo do tempo haviam descido ali, a Necrpole era um labirinto escuro de criptas subterrneas que poderia engolir um visitante se ele se perdesse. No era um bom lugar para correr atrs do camerlengo.
     Signore  suplicou Chartrand , o senhor est em estado de choque. Temos de sair daqui. No pode descer a.  suicdio.
    O camerlengo pareceu estico de repente. Estendeu o brao e pousou a mo com serenidade no brao de Chartrand.
     Obrigado por sua preocupao e seus prstimos. No sei como lhe dizer. Nem tenho como lhe dizer o quanto o compreendo. Mas tive uma revelao. Sei onde est a antimatria.
    Todos olhavam para ele, estticos.
    O camerlengo voltou-se para o grupo.
     Sobre esta pedra edificarei minha igreja. Esta foi a mensagem. O significado  claro.
    Langdon ainda no conseguia compreender a convico do camerlengo de que falara com Deus e muito menos de que decifrara a mensagem divina. Sobre esta pedra edificarei minha igreja? As palavras que Jesus proferira ao escolher Pedro como seu primeiro apstolo. O que tinham a ver com a situao?
    Macri aproximou-se para conseguir um ngulo melhor. Glick estava mudo, como quem tomou um grande susto.
    O camerlengo falava rapidamente, explicando.
     Os Illuminati colocaram seu instrumento de destruio na prpria pedra angular desta igreja. Nas suas fundaes.  Fez um gesto para as escadas abaixo.
     Na pedra sobre a qual esta igreja foi construda. E eu sei onde essa pedra est. Langdon achava que chegara a hora de subjugar o camerlengo e sair dali.
    Por mais que parecesse lcido, o padre no estava dizendo coisa com coisa. Uma pedra? A pedra angular das fundaes? Aqueles degraus no levavam s fundaes, mas  Necrpole!
     A citao  uma metfora, senhor. No existe uma pedra de verdade!
    O rosto do camerlengo ficou estranhamente triste.
     Existe uma pedra, sim, filho  e apontou para a abertura.  Pietro  la pietra.
    Langdon congelou. Tudo ficou claro.
    A austera simplicidade daquilo deu-lhe arrepios. Ali, de p com os outros, olhando para a longa escada que descia, percebeu que havia de fato uma pedra enterrada nas trevas sob aquela igreja.
    Pietro  la pietra. Pedro  a pedra.
    Pedro tinha uma f to slida em Deus que Jesus o chamava de a rocha  o discpulo resoluto sobre cujos ombros Jesus construiria sua igreja. Naquele lugar exato, a Colina Vaticana, Pedro fora crucificado e enterrado. Os primeiros cristos ergueram um pequeno santurio em cima de sua tumba.  medida que o cristianismo se espalhava, o santurio foi crescendo pouco a pouco, culminando com aquela colossal baslica. A f catlica fora construda, de modo bastante literal, em cima de So Pedro. Da rocha. Da pedra.
     A antimatria est na tumba de So Pedro  disse o camerlengo com voz cristalina.
    A despeito da suposta origem sobrenatural da informao, Langdon reconhecia que havia lgica nela. Colocar a antimatria na tumba de So Pedro agora parecia dolorosamente bvio. Os Illuminati, num gesto de desafio simblico, tinham escondido a antimatria no mago da cristandade, literal e figurativamente. A suprema infiltrao.
     E se vocs precisarem de provas concretas  disse o camerlengo, agora impaciente , acabei de encontrar esta grade destrancada  e mostrou a grade aberta no cho.  Nunca fica destrancada. Algum esteve aqui embaixo recentemente. Todos olharam para dentro da abertura.
    No instante seguinte, com insuspeitada agilidade, o camerlengo pegou uma das lamparinas e desceu as escadas. 

CAPTULO 119

    Os degraus de pedra seguiam em declive acentuado para dentro da terra.
    Vou morrer l embaixo, pensou Vittoria, segurando o corrimo feito de corda pesada ao enveredar pela passagem estreita atrs dos outros. Embora Langdon tivesse feito um movimento para impedir que o camerlengo entrasse na abertura da escada, Chartrand interferira segurando Langdon. Pelo jeito, o jovem guarda convencera-se de que o camerlengo sabia o que estava fazendo.
    Depois de uma breve luta, Langdon soltara-se e seguira o camerlengo, com Chartrand em seus calcanhares. Instintivamente, Vittoria fora atrs de ambos.
    Agora precipitava-se por uma descida ngreme em que qualquer passo em falso poderia causar uma queda fatal. Bem abaixo, distinguia o brilho dourado da lamparina de leo do camerlengo. Na retaguarda, ouvia os reprteres da BBC, que se apressavam para chegar perto deles. O refletor da cmera lanava sombras retorcidas nas profundezas, iluminando Chartrand e Langdon. Era inacreditvel que o mundo estivesse testemunhando aquela loucura. Desligue a maldita cmera! Mas logo depois admitia que sem a luz da cmera nenhum deles saberia aonde estava indo.
    Enquanto aquela corrida louca prosseguia, os pensamentos de Vittoria agitavam-se, tempestuosos. O que o camerlengo poderia fazer ali embaixo? Mesmo que encontrasse a antimatria? No havia mais tempo!
    Vittoria surpreendeu-se ao descobrir sua intuio lhe dizendo que o camerlengo provavelmente tinha razo. Colocar a antimatria to fundo dentro da terra era uma opo quase nobre e misericordiosa. quela profundidade  tal como no laboratrio do CERN , o aniquilamento da antimatria seria parcialmente contido. No haveria o deslocamento de ar quente nem os fragmentos voando para ferir as pessoas, s uma abertura bblica da terra e uma gigantesca baslica desmoronando dentro de uma cratera.
    Teria sido este o nico gesto de generosidade de Kohler? Poupar vidas?
    Vittoria ainda no compreendia o envolvimento do diretor. Aceitava que tivesse dio da religio, mas aquela conspirao apavorante no combinava com ele. Ser que a averso fora assim to profunda? A ponto de destruir o Vaticano? De contratar um assassino? E planejar os assassinatos do pai dela, do Papa e de quatro cardeais? Parecia impensvel. E como teria Kohler induzido toda aquela traio dentro dos muros do Vaticano? Rocher era o contato de Kohler, pensou Vittoria. Rocher era um Illuminatus. Devia ter as chaves de todos os lugares  dos aposentos do Papa, do Passetto, da Necrpole, da tumba de So Pedro, de tudo. Ele prprio poderia ter colocado a antimatria na tumba de So Pedro  um local altamente restrito  e depois ter recomendado que seus guardas no perdessem tempo procurando nas reas restritas do Vaticano. Rocher sabia que ningum jamais encontraria a antimatria.
    Mas Rocher no contava com a mensagem que o camerlengo recebera do alto.
    A mensagem. Vittoria ainda lutava para acreditar nela. Deus teria realmente se comunicado com o camerlengo? Em seu ntimo, Vittoria dizia que no e, todavia, a sua especialidade como cientista era a fsica do entanglement, ou emaranhamento  a da interconexo. Presenciava comunicaes milagrosas todos os dias  ovos gmeos de tartarugas marinhas separados e colocados em laboratrios a quilmetros de distncia um do outro que eclodiam no mesmo instante, milhares de guas-vivas dentro dgua pulsando no mesmo ritmo como se fossem uma s. Existem linhas invisveis de comunicao em toda parte, refletiu.
    Mas tambm entre Deus e o homem?
    Vittoria desejou que seu pai estivesse ali para dar-lhe f. Ele certa vez explicara-lhe a divina comunicao em termos cientficos e fizera com que acreditasse. Ainda lembrava que o vira rezando e perguntara:
     Pai, por que se d ao trabalho de rezar? Deus no pode responder.
    Leonardo Vetra interrompera suas meditaes e olhara para ela com um sorriso paternal.
     Minha filha ctica. Quer dizer que voc no acredita que Deus fale com o homem? Deixe que lhe explique com uma linguagem que voc compreende.  Pegou um modelo do crebro humano em uma prateleira e colocou na frente dela.  Como j deve saber, Vittoria, os seres humanos normalmente utilizam apenas uma parcela muito pequena de sua capacidade cerebral. Contudo, se forem expostos a situaes emocionalmente intensas, como traumas fsicos, alegria ou medo extremos, meditao profunda, de repente seus neurnios comeam a se acelerar como loucos, o que resulta em um aumento enorme de clareza mental. 
     E da?  argumentou Vittoria.  S porque algum pensa com clareza no significa que fale com Deus.
     Ah!  exclamou Vetra.  No entanto, solues extraordinrias para problemas supostamente impossveis costumam ocorrer nesses momentos de clareza.  o que os gurus chamam de conscincia elevada. Os bilogos, de estados alterados. Os psiclogos, de superpercepo  e ele fez uma pausa.  E os cristos, de preces atendidas.  Com um sorriso largo, acrescentou:  s vezes, a revelao divina significa simplesmente adaptar seu crebro para escutar o que seu corao j sabe.
    Agora, descendo as escadas sombrias, sentia que talvez seu pai tivesse razo. Seria to difcil assim acreditar que o trauma sofrido pelo camerlengo tivesse posto a mente dele em um estado que lhe permitira perceber a localizao da antimatria?
    Cada um de ns  um Deus, dissera Buda. Cada um de ns sabe tudo. Precisamos apenas abrir nossas mentes para escutar nossa sabedoria.
    Naquele momento de clareza, descendo ao fundo da terra, Vittoria sentiu sua mente se abrir, sua sabedoria vir  tona. Sabia agora sem sombra de dvida quais eram as intenes do camerlengo. Aquela conscientizao fez Vittoria sentir um medo to grande como nunca experimentara antes.
     Camerlengo, no!  gritou.  O senhor no est entendendo!  Vittoria lembrou da multido em torno da Cidade do Vaticano e seu sangue gelou nas veias.  Se levar a antimatria para cima, toda aquela gente vai morrer!
    Langdon descia pulando de trs em trs degraus, ganhando terreno. A passagem era apertada, mas ele no sentia claustrofobia. Seu antigo medo paralisante fora sobrepujado por um terror mais profundo.
     Camerlengo!  Langdon ia diminuindo a distncia que o separava do brilho da lamparina.  O senhor tem de deixar a antimatria onde est! No h outro jeito!
    Ao mesmo tempo em que pronunciava aquelas palavras, Langdon custava a acreditar no que dizia. No s aceitara como verdadeira a revelao divina ao camerlengo da localizao da antimatria, como estava argumentando a favor da destruio da Baslica de So Pedro  uma das maiores proezas arquitetnicas da Terra e de toda a arte que ela continha.
    Mas h pessoas do lado de fora,  o nico jeito.
    Parecia uma cruel ironia que a nica forma de salvar as pessoas fosse a destruio da igreja. Langdon imaginava que os Illuminati estivessem achando graa no simbolismo.
    O ar que subia do fundo do tnel era frio e mido. Em algum ponto l embaixo ficava a sagrada Necrpole, onde tinham sido enterrados So Pedro e inmeros outros primeiros cristos. Langdon sentiu um calafrio, esperando que aquela no fosse uma misso suicida.
    Subitamente, a lamparina do camerlengo parou. Langdon logo o alcanou. Os degraus terminavam abruptamente. Um porto de ferro batido com trs caveiras em relevo fechava a base das escadas. O camerlengo empurrou o porto e o abriu. Langdon pulou na frente e o fechou, bloqueando o caminho do camerlengo. Os outros vieram descendo s carreiras, fazendo barulho, todos fantasmagricos sob a luz branca do refletor da BBC, sobretudo Glick, cada vez mais lvido.
    Chartrand puxou Langdon.
     Deixe o camerlengo passar!
     No!  exclamou Vittoria, ofegante.  Temos de abandonar este lugar agora mesmo! O senhor no pode tirar a antimatria daqui! Se lev-la para cima, todos os que esto l fora vo morrer!
    A voz do camerlengo estava extraordinariamente calma.
     Todos vocs tm de ter confiana. Temos pouco tempo.
     O senhor no entendeu  disse Vittoria.  Uma exploso ao nvel do cho seria muito pior do que uma exploso aqui embaixo!
    O camerlengo olhou para ela, os olhos verdes resplandecentes e firmes.
     Quem falou de exploso ao nvel do cho?
    Vittoria espantou-se.
     O senhor vai deix-la aqui?
    A convico do camerlengo era hipntica.
     No haver mais mortes esta noite.
     Padre, mas...
     Por favor, tenham um pouco de f  a voz dele adquiriu um tom de quietude irresistvel.  No estou pedindo a ningum que me acompanhe. Sintam-se todos livres para ir embora. S peo que no interfiram com a vontade de Deus. Deixem que eu faa o que me foi determinado fazer  o olhar do camerlengo ficou mais intenso.  Tenho de salvar esta igreja. E posso faz-lo. Juro por minha prpria vida.
    O silncio que se seguiu teve o mesmo efeito de uma trovoada. 

CAPTULO 120

    11h51.
    Necrpole significa literalmente cidade dos mortos.
    Nada do que Robert Langdon lera sobre aquele lugar o havia preparado para o que encontrou. A colossal cavidade subterrnea estava repleta de mausolus em runas, como pequenas casas dentro de uma caverna. O ar cheirava a ausncia de vida. Uma canhestra rede de caminhos serpenteava entre os monumentos deteriorados, a maior parte deles feita de tijolos fragmentados e placas de mrmore. Semelhantes a colunas feitas de p, inmeros pilares de terra no escavada erguiam-se para apoiar um cu tambm de p, que se estendia, pesado e baixo, sobre o pequeno povoado imerso na penumbra.
    Cidade dos mortos, repetiu Langdon, dividido entre o deslumbramento acadmico e o medo puro e simples. Ele e os outros enveredaram correndo pelas trilhas sinuosas. Ser que fiz a opo errada?
    Chartrand tinha sido o primeiro a sucumbir ao fascnio do camerlengo, escancarando o porto e declarando que confiava nele. Glick e Macri, por sugesto do camerlengo, tinham nobremente concordado em fornecer luz para a busca, embora, levando-se em conta os louvores que os esperavam caso sassem vivos dali, suas motivaes fossem no mnimo suspeitas. Vittoria fora quem mostrara menos entusiasmo e Langdon vira nos olhos dela uma cautela que se parecia um bocado com uma inquietante intuio feminina.
    Agora  tarde, pensou, enquanto ele e Vittoria corriam junto com os outros. J estamos envolvidos.
    Vittoria ia calada, mas ele sabia que ambos pensavam a mesma coisa. Nove minutos no bastam para sair da Cidade do Vaticano se o camerlengo estiver errado.
    Rodeando os mausolus, Langdon comeou a sentir as pernas cansadas, notando com surpresa que o grupo estava subindo uma elevao acentuada. Ao perceber o motivo, sentiu arrepios. A topografia sob seus ps era a do tempo de Cristo. Estavam subindo a Colina Vaticana original! J ouvira especialistas em Vaticano afirmar que a tumba de So Pedro ficava quase no alto da Colina Vaticana e sempre se perguntara como eles poderiam saber. Agora compreendia. A maldita colina ainda existe!
    Tinha a impresso de estar percorrendo pginas de um livro de histria. Em algum ponto adiante encontrava-se a tumba de So Pedro  a relquia crist por excelncia. Era difcil conceber que a sepultura original tivesse sido assinalada de incio apenas com um modesto santurio. No mais.  medida que se espalhou a importncia de So Pedro, novos santurios foram construdos por cima do antigo e agora a homenagem prolongava-se quase 135 metros para o alto, at o topo do domo de Michelangelo, cujo pice fora posicionado diretamente acima da tumba original com uma insignificante margem de erro.
    A subida tortuosa continuava. Langdon olhou o relgio. Oito minutos. Comeava a achar que ele e Vittoria em breve fariam companhia permanentemente queles mortos.
     Cuidado!  Glick gritou atrs deles.  Buracos de cobra!
    Langdon viu-os a tempo. Uma sucesso de pequenos orifcios pontilhava o caminho  frente. Deu um pulo, esquivando-se.
    Vittoria pulou tambm, quase pisando nos buracos. Perguntou, inquieta, enquanto seguiam adiante:
     Buracos de cobra?
     No exatamente  disse Langdon.  Tenho certeza de que no vai querer saber o que so.
    Os orifcios eram tubos de libaes. Os primeiros cristos acreditavam na ressurreio da carne e usavam aqueles buracos para literalmente alimentar os mortos, derramando leite e mel nas criptas sob o cho.
    O camerlengo sentiu-se fraco.
    Mas no se deteve, as pernas encontrando foras no cumprimento de seu dever a Deus e aos homens. Quase chegando. Sentia dores incrveis. A mente pode causar muito mais dor do que o corpo. Ainda assim, sentia-se cansado. Sabia que dispunha de muito pouco tempo.
     Vou salvar sua igreja, meu Pai. Juro.
    Apesar da luz da BBC atrs dele, pela qual era grato, o camerlengo levava sua lamparina de leo com o brao levantado. Sou um farol na escurido. Sou a luz. O leo balanava conforme ele corria e, por um instante, receou que o lquido inflamvel se derramasse e o queimasse. Sua carne j fora queimada demais por uma noite.
    Quando se aproximou do alto da colina, estava encharcado de suor, com a respirao difcil. Ao atingir o topo, entretanto, sentiu-se renascer. Parou cambaleante sobre o trecho plano de terra onde j estivera muitas vezes. O caminho terminava ali. A Necrpole chegava abruptamente ao final em uma parede de terra. Um marco diminuto trazia a inscrio: 
Mausoleum 5.
La tomba di San Pietro.
    Havia uma abertura na parede que lhe chegava  cintura. Sem nenhuma placa dourada. Sem ostentao. Somente uma simples cavidade na parede, alm da qual havia uma pequena gruta e um sarcfago pobre, esfacelando-se. O camerlengo lanou um olhar l dentro e deu um sorriso cansado. Ouvia os outros se aproximando. Pousou sua lamparina de leo no cho e ajoelhou-se para rezar.
    Obrigado, meu Deus. Est quase acabando.
    Do lado de fora, na praa, rodeado pelos cardeais atnitos, o cardeal Mortati acompanhava pela tela grande o drama que se desenrolava na cripta. No sabia mais em que acreditar. Ser que o mundo inteiro vira o mesmo que ele? Deus teria mesmo falado com o camerlengo? Ser que a antimatria iria de fato aparecer na Baslica de So...
     Olhem!  o povo prendeu a respirao.
     Est l!  todos apontavam para a tela.   um milagre!
    Mortati olhou para cima. A cmera no estava firme, mas a imagem era bem clara. E inesquecvel.
    Filmado de trs, o camerlengo estava rezando ajoelhado no cho de terra. Na frente dele, um buraco tosco cavado na parede. Dentro, em meio a pedregulhos e terra acumulados pelo tempo, havia um caixo de terracota. Mortati vira-o apenas uma vez na vida, mas sem dvida sabia o que continha.
    San Pietro.
    Mortati no era ingnuo a ponto de achar que os gritos de alegria e espanto que ressoavam pela praa eram de exaltao por contemplarem uma das mais sagradas relquias do cristianismo. As pessoas no estavam caindo de joelhos em oraes e agradecimentos espontneos por causa da tumba de So Pedro, mas por causa do objeto que se encontrava em cima da tumba.
    O tubo de antimatria. L estava, no mesmo lugar onde estivera escondido o dia todo: na escurido da Necrpole. Sorrateiro. Incansvel. Mortal. A revelao do camerlengo estava certa.
    Mortati olhava perplexo para o cilindro transparente. O glbulo de lquido pairava no meio dele. A gruta que o continha refletiu a luz vermelha intermitente do contador marcando os cinco minutos finais das baterias.
    Tambm pousada dentro da tumba, a centmetros de distncia do cilindro, encontrava-se a cmera sem fio da Guarda Sua, que apontara para o tubo e transmitira sua imagem todo aquele tempo. Mortati benzeu-se com o sinal-da-cruz, certo de que se tratava da imagem mais assustadora que vira em toda a sua vida. Um momento mais tarde, porm, percebeu que estava prestes a ficar ainda pior.
    O camerlengo levantou-se repentinamente. Agarrou o tubo de antimatria e virou-se para os outros, o rosto completamente em foco. Passou pelos outros e comeou a descer a Necrpole do mesmo modo como subira, correndo ladeira abaixo.
    A cmera pegou Vittoria Vetra paralisada de terror.
     Onde o senhor est indo? Camerlengo! O senhor no disse que...
     Tenha f!  exclamou ele, sempre correndo.
    Vittoria dirigiu-se a Langdon.
     O que fazemos agora?
    Robert Langdon tentou barrar o caminho do camerlengo, mas Chartrand agora o protegia, aparentemente confiante na deciso dele.
    A seqncia que vinha da cmera da BBC ficou igual  de uma corrida de montanha-russa, sacudindo, subindo e descendo, fazendo voltas. Surgiam de vez em quando lampejos de confuso e pavor enquanto o cortejo excntrico voltava aos tropees para a entrada da Necrpole.
    Na praa, Mortati deixou escapar uma exclamao amedrontada.
     Ele vai traz-la aqui para cima?
    Nas televises do mundo todo, em tamanho grande, o camerlengo saa a toda a velocidade da Necrpole segurando o recipiente da antimatria nos braos estendidos.
     No haver mais mortes esta noite!
    Mas o camerlengo estava enganado. 

CAPTULO 121

    Exatamente s 11h56 o camerlengo irrompeu pelas portas da Baslica de So Pedro para o espao aberto. Vacilou  claridade estonteante dos holofotes, carregando a antimatria nas duas mos estendidas como se fosse uma oferenda divina. Seus olhos ardiam, mas ele via sua prpria figura, semi-nua e ferida, em propores gigantescas nas telas das redes de emissoras espalhadas pela praa. O clamor que se ergueu da multido na Praa de So Pedro foi algo que ele nunca tinha ouvido antes  choros, gritos, ladainhas, rezas, uma mistura de venerao e terror.
     Livrai-nos do mal, ele murmurou.
    Sentia-se completamente esgotado por sua corrida para sair da Necrpole. Aquela sada quase terminara em desastre. Robert Langdon e Vittoria Vetra tinham tentado intercept-lo e levar o tubo de volta ao esconderijo subterrneo, pretendendo depois correr para fora e se abrigar. Tolos, cegos!
    O camerlengo via agora, com assustadora clareza, que jamais teria vencido aquela corrida em qualquer outra noite. Naquela, porm, Deus estivera com ele mais uma vez. Robert Langdon quase o alcanara, mas fora impedido por Chartrand, sempre confiante e leal aos seus rogos para que tivessem f. Os reprteres, evidentemente, estavam enfeitiados demais e sobrecarregados com muito equipamento para interferirem.
     O Senhor trabalha de maneira misteriosa.
    O camerlengo ouvia os outros vindo atrs dele agora  via-os nas telas, aproximando-se. Reuniu o resto de suas foras e levantou a antimatria acima da cabea. Ento, endireitou os ombros nus, num gesto de desafio  marca dos Illuminati em seu peito, e desceu depressa as escadas.
    Ainda haveria um ato final.
     Vou com Deus! Vou com Deus!
    Quatro minutos...
    Langdon pouco enxergou assim que saiu da baslica. Mais uma vez o mar de luzes agrediu suas retinas. S vislumbrava a silhueta indistinta do camerlengo, direto  sua frente, descendo depressa as escadas. Por um instante, refulgente com seu halo de luzes, o camerlengo pareceu celestial, uma espcie de divindade moderna. A batina cara-lhe at a cintura e envolvia-o como um sudrio. O corpo tinha sido queimado e ferido pelos inimigos e mesmo assim ele resistia. Corria para as massas com o corpo ereto, exortando o mundo a ter f, levando a arma de destruio.
    Langdon seguiu-o. O que ele est fazendo? Vai matar toda essa gente!
     A obra de Sat  gritava o camerlengo  no tem lugar na Casa de Deus!
    E corria na direo das pessoas, agora apavoradas.
     Padre!  chamava Langdon atrs dele.  No h mais para onde ir!
     Olhe para o cu! Esquecemos de olhar para o cu!
    Ao entender para onde o camerlengo se encaminhava, Langdon sentiu aquela magnfica verdade invadi-lo. Embora as luzes dos refletores no o deixassem enxergar, sabia que a salvao estava justamente acima deles.
    No cu da Itlia repleto de estrelas.
    O helicptero que o camerlengo solicitara para lev-lo ao hospital estava esperando ali perto, o piloto na cabine, as ps zumbindo em ponto morto. Correndo atrs do camerlengo, Langdon foi tomado por uma repentina e avassaladora alegria.
    Uma enxurrada de pensamentos passou-lhe rapidamente pela cabea.
    Primeiro, veio a imagem do espao aberto do mar Mediterrneo. A que distncia ficava dali? Oito quilmetros? Quinze? Sabia que a praia em Fiumicino ficava somente a uns sete minutos de trem. Mas de helicptero, a mais de 400 quilmetros por hora, sem paradas... Se conseguissem levar o tubo bem longe acima do mar e jog-lo do helicptero... Havia outras opes ainda, lembrou, sentindo-se quase sem peso enquanto corria. La Cava Romana! As pedreiras de mrmore ao norte da cidade ficavam a menos de cinco quilmetros de distncia. Qual era o tamanho delas? Cinco quilmetros quadrados? Deviam estar desertas quela hora! Jogar o tubo de antimatria ali...
     Para trs!  berrava o camerlengo. Seu peito doa enquanto ele corria.
     Saiam da! Agora!
    A Guarda Sua postada em torno do helicptero olhava boquiaberta para o camerlengo que se aproximava.
     Saiam!  o padre gritava.
    Os guardas se afastaram.
    Com o mundo inteiro assistindo embasbacado, o camerlengo contornou o aparelho at a porta do piloto e a escancarou.
     Saia da, meu filho! J!
    O piloto pulou fora.
    O camerlengo avaliou a altura do assento da cabine e percebeu que, exausto como estava, precisaria das duas mos para subir. Virou-se para o piloto, trmulo a seu lado, e ps o cilindro de antimatria nas mos dele.
     Segure isto. Me entregue quando eu estiver sentado.
    Ao subir, o camerlengo ouviu Langdon gritando com grande excitao chegando perto do helicptero. Agora voc compreendeu, pensou o camerlengo. Agora voc tem f! O camerlengo acomodou-se no assento, ajustou algumas alavancas que j conhecia e debruou-se para pegar o cilindro.
    O piloto, porm, estava de mos vazias.
     Ele o pegou!  exclamou.
    O camerlengo sentiu um baque no corao.
    -Quem?
    O piloto apontou.
    -Ele!
    Robert Langdon surpreendeu-se ao verificar como o tubo era pesado. Correu para o outro lado do helicptero e pulou para o compartimento traseiro onde ele e Vittoria tinham sentado poucas horas antes. Deixou a porta aberta e afivelou o cinto de segurana. E gritou para o camerlengo no banco da frente.
     Decole, padre!
    O camerlengo virou a cabea para Langdon, o rosto branco de susto.
     O que vai fazer?
     O senhor pilota! Eu jogo o tubo!  vociferou Langdon.  No h tempo! Faa o bendito helicptero levantar vo!
    O camerlengo pareceu momentaneamente paralisado, a iluminao forte penetrando na cabine e acentuando os vincos em seu rosto.
     Posso fazer isto sozinho  murmurou.  Tenho de fazer isto sozinho.
    Langdon no lhe deu ouvidos. Decole!, ouviu-se gritar. Agora! Estou aqui para ajudar! Olhou para o cilindro e sua garganta se apertou ao ver os nmeros.
     Trs minutos, padre! Trs!
    O nmero fez o camerlengo voltar a si. Sem titubear, voltou-se para os controles. Com um rugido, o helicptero levantou vo.
    Atravs de uma nuvem de poeira, Langdon viu Vittoria chegar correndo. Seus olhos se encontraram e depois ela sumiu, como uma pedra que afunda na gua. 

CAPTULO 122

    Dentro do aparelho, o barulho do motor e a ventania que entrava pela porta aberta assaltaram os sentidos de Langdon com um caos ensurdecedor. Firmou-se contra a fora ampliada da gravidade  medida que o camerlengo acelerava o helicptero para cima em linha reta. O brilho da Praa de So Pedro encolheu abaixo deles at se transformar em uma elipse luminosa, radiante no mar de luzes da cidade.
    O tubo de antimatria era como um peso morto nas mos de Langdon. Segurava-o com fora, as palmas das mos escorregadias de suor e sangue. Dentro do cilindro, o glbulo de antimatria oscilava calmamente, pulsando sob a luz vermelha do relgio em contagem regressiva.
     Dois minutos!  gritou Langdon, tentando adivinhar onde o camerlengo pretendia jogar o tubo.
    As luzes da cidade l embaixo espalhavam-se por todas as direes. Para oeste, ao longe, ele avistava o contorno cintilante da costa do Mediterrneo  uma orla pontilhada de luminescncias, alm da qual estendia-se uma infindvel e escura extenso de nada. O mar parecia mais longnquo agora do que Langdon imaginara. Alm disso, a concentrao de luzes na costa era um lembrete amargo de que, mesmo bem longe, uma exploso no mar poderia ter conseqncias devastadoras. E ele nem chegara a considerar os efeitos de uma onda gigantesca de dez quilotons atingindo o litoral.
    Ao olhar para a frente, atravs da janela da cabine de comando, ficou mais esperanoso. As sombras ondulantes dos contrafortes de Roma surgiam no meio da noite, salpicadas de luzes  as villas dos muito ricos -; entretanto, a pouco mais de um quilmetro ao norte, as colinas ficavam escuras. No havia nenhuma luz ali, s um enorme espao negro. Nada mais.
    As pedreiras! Langdon pensou. La Cava Romana!
    Avaliando o trecho estril de terreno, Langdon achou que seria grande o bastante. E parecia prximo, alm disso. Mais prximo do que o mar. Animado, achou que era de fato para l que o camerlengo planejava levar a antimatria! O helicptero estava apontado para aquela direo! As pedreiras! O estranho, porm,  que os motores faziam um rudo cada vez mais alto, o helicptero movia-se no ar, mas as pedreiras no ficavam mais prximas.
    Desconcertado, lanou um olhar pela porta lateral para se localizar. O que viu transformou sua animao em pnico. Diretamente abaixo deles, distantes, brilhavam as fortes luzes da imprensa na Praa de So Pedro.
    Ainda estamos sobrevoando o Vaticano!
     Camerlengo!  chamou ele, engasgado de aflio.  V em frente! J subimos bastante! Temos de comear a seguir em frente! No podemos jogar o tubo de volta na Cidade do Vaticano!
    O camerlengo no respondeu. Aparentemente, concentrava-se em pilotar o aparelho.
     Temos menos de dois minutos!  gritou Langdon, levantando o cilindro.
     Estou vendo daqui! La Cava Romana! Uns dois quilmetros ao norte! No temos...
     No  disse o camerlengo ,  perigoso demais. Sinto muito.  O helicptero continuou subindo, O camerlengo virou-se e deu um sorriso triste para Langdon.
     Preferia que no tivesse vindo, meu amigo. Voc fez o supremo sacrifcio.
    Langdon olhou para o rosto cansado do camerlengo e ento compreendeu. Seu sangue congelou.
     Mas deve haver algum lugar para onde possamos ir!
     Para cima  respondeu o camerlengo, a voz resignada.   a nica alternativa garantida.
    Langdon mal conseguia pensar. Interpretara de modo completamente errado o plano do camerlengo. Olhe para o cu!
    O cu, s agora entendia, era literalmente para onde estavam indo, O camerlengo nunca tivera a inteno de lanar fora a antimatria. Estava simplesmente se afastando o mximo possvel da Cidade do Vaticano.
    Aquela era uma viagem sem volta.

CAPTULO 123

    Na Praa de So Pedro, Vittoria olhava para cima. O helicptero no passava de um pontinho agora que as luzes dos refletores no o alcanavam mais. At o barulho dos rotores transformara-se em um zumbido distante. Parecia que o mundo inteiro se concentrava no alto, emudecido antecipadamente, os rostos de todos voltados para o cu  todas as pessoas, de todas as crenas, todos os coraes batendo como se fossem um s. As emoes de Vittoria eram um turbilho de agonias. Quando o helicptero desapareceu, ela lembrou o rosto de Robert, afastando-se dentro dele. O que ser que ele pensou? Ser que no compreendeu?
    Em torno da praa, as cmeras de televiso sondavam a escurido, esperando. Milhares de rostos voltavam-se para o cu, unidos em uma contagem silenciosa. Todos os teles mostravam a mesma cena tranqila: o cu romano pontilhado de estrelas brilhantes. Vittoria sentiu as lgrimas comearem a brotar.
    Atrs dela, na escadaria de mrmore, 161 cardeais olhavam para cima em silenciosa reverncia. Alguns tinham as mos juntas em orao. A maioria permanecia imvel, aturdida. Alguns choravam. Os segundos passavam.
    Nas casas das pessoas, em bares, escritrios, aeroportos, hospitais do mundo todo, os espritos se uniam em testemunho universal. Homens e mulheres davam-se as mos. Outros seguravam seus filhos. Como se o tempo pairasse no limbo, as almas suspensas em unssono.
    Ento, cruelmente, os sinos de So Pedro comearam a tocar.
    Vittoria deixou as lgrimas virem.
    E, com o mundo inteiro assistindo, o tempo se esgotou.
    O silncio mortal do acontecimento foi seu aspecto mais aterrorizante.
    Muito acima do Vaticano, um ponto de luz apareceu no cu. Por um instante fugaz, um novo corpo celeste nasceu, uma centelha de luz pura e branca como nunca se vira.
    Depois, tudo comeou.
    Um lampejo. O ponto luminoso encapelou-se, como se se alimentasse de si mesmo, desenrolando-se pelo cu em um raio que se dilatava, de um branco ofuscante. Projetou-se para todas as direes, acelerando com indizvel rapidez, devorando sofregamente a escurido.  medida que a esfera de luz crescia, tambm se intensificava, como o rebento de um demnio preparando-se para consumir o cu inteiro. Correu para baixo, na direo deles, ganhando velocidade.
    Estarrecidos, os milhares de rostos iluminados pela luz implacvel arquejaram juntos, as mos protegendo os olhos, todos deixaram escapar um grito estrangulado de medo.
    A luz se propagou em todas as direes e, sbito, deu-se o inimaginvel. Como se fosse contido pela prpria vontade de Deus, o raio crescente pareceu bater em uma parede, como se de alguma forma a exploso ficasse retida dentro de uma gigantesca esfera de vidro. A luz ricocheteou, aguando-se, ondulando sobre si mesma. A onda parecia ter alcanado um dimetro predeterminado e pairava ali. Durante aquele instante, uma perfeita e silenciosa esfera de luz brilhou sobre Roma. A noite virou dia.
    Ento houve o impacto.
    A concusso foi profunda e surda  uma estrondosa onda de choque vinda de cima. Desceu sobre eles como a ira do inferno, sacudindo as fundaes de granito da Cidade do Vaticano, golpeando o ar para fora dos pulmes das pessoas, fazendo-as cambalear. A reverberao percorreu a colunata, seguida por uma repentina lufada de ar quente. O vento se abateu sobre a praa, soltando um gemido sepulcral ao sibilar entre as colunas e fustigar as paredes. A poeira redemoinhava no ar, as pessoas se encolhiam, testemunhas do Armagedon.
    Em seguida, to depressa quanto surgira, a esfera implodiu, sugando-se a si prpria, comprimindo-se, retornando ao diminuto ponto de luz de onde viera.

CAPTULO124

    Nunca antes tantos tinham ficado em silncio ao mesmo tempo.
    Os rostos na Praa de So Pedro, um a um, desviaram os olhos do cu escuro e voltaram-se para baixo, cada pessoa em seu momento particular de assombro. Os refletores da imprensa fizeram o mesmo, baixando seus focos luminosos para a terra, como em reverncia pelas trevas que se instalavam acima deles. Parecia que o mundo inteiro curvava a cabea junto.
    O cardeal Mortati ajoelhou-se para rezar e os outros cardeais acompanharam-no. A Guarda Sua baixou suas longas lanas e imobilizou-se. Ningum falava. Ningum se mexia. Em toda parte, emoes espontneas abalavam os coraes. Consternao. Medo. Espanto. Crena. E um respeito temeroso pelo novo e impressionante poder cuja manifestao tinham acabado de presenciar.
    Vittoria Vetra permanecia, trmula, ao p das amplas escadarias da baslica. Ela fechou os olhos. Atravs da tempestade de emoes que percorriam seu corpo, uma nica palavra soava triste como o dobrar de um sino distante. Intacta. Cruel. Ela tentava afast-la, mas a palavra voltava e voltava. A dor era grande demais. Vittoria procurou ocupar-se com as imagens que inflamavam as mentes das outras pessoas  o poder inquietante da antimatria, a salvao do Vaticano, o camerlengo, gestos de bravura, milagres, desprendimento. E a palavra ainda ecoava, soando atravs do tumulto com uma amargura pungente.
     Robert.
    Ele fora atrs dela no Castelo SantAngelo.
    Ele a salvara.
    E agora fora destrudo pela criao dela.
    Enquanto rezava, o cardeal Mortati conjeturava se ele tambm ouviria a voz de Deus como o camerlengo tinha ouvido. Temos de acreditar em milagres para vivenci-los? Mortati era um homem moderno que pertencia a uma antiga religio. Os milagres nunca tinham representado qualquer papel em sua crena. Sua religio sem dvida falava de milagres  chagas nas mos, ascenso dos mortos, marcas em sudrios  e, contudo, a mente racional de Mortati sempre explicara esses relatos como parte do mito. Eram simplesmente o resultado da maior fraqueza do homem  sua necessidade de provas. Os milagres eram nada mais que histrias a que nos apegvamos porque desejvamos que fossem verdade.
    No entanto...
    Ser que sou to moderno que no consigo aceitar o que acabei de ver com meus prprios olhos? Foi um milagre, no foi? Sim! Deus, ao sussurrar umas poucas palavras no ouvido do camerlengo, interferiu e salvou Sua Igreja. Por que seria assim to difcil de acreditar? O que teramos a dizer sobre Deus se Deus no tivesse feito nada? Que o Todo-Poderoso no se importa conosco? Que Ele no tinha poder para impedir a desgraa? Um milagre era a nica resposta possvel!
    Mortati ajoelhou-se, reverente, e rezou pela alma do camerlengo. Deu graas pelo jovem camarista que, apesar da pouca idade, abrira os olhos de um velho para os milagres da f inquestionvel.
    Mortati jamais poderia suspeitar, porm, at que ponto sua f seria testada.
    O silncio na Praa de So Pedro foi quebrado por um leve rudo a princpio, que se transformou em murmrio. E, ento, repentinamente, em bramido. Sem aviso, a multido gritava a uma s voz.
     Olhem! Olhem!
    Mortati abriu os olhos e voltou-os para o povo. Todos apontavam para um mesmo lugar atrs dele, na fachada da Baslica de So Pedro. Estavam plidos. Alguns caram de joelhos. Alguns desmaiaram. Outros desataram a chorar.
     Olhem! Olhem! Mortati, atarantado, acompanhou com o olhar as mos estendidas que mostravam o nvel mais alto da baslica, o terrao no telhado onde imensas esttuas de Cristo e dos apstolos velavam pelo povo.
    Ali,  direita de Jesus, com os braos estendidos para o mundo, estava o camerlengo Carlo Ventresca.

CAPTULO 125

    Robert Langdon no estava mais caindo.
    Acabara-se o pavor. E a dor. E o som sibilante do vento. Havia apenas o barulho suave da gua, como se ele estivesse confortavelmente dormindo em uma praia.
    Num paradoxo de autoconscincia, Langdon pressentiu que aquilo era a morte. Ficou contente. Deixou-se levar pelo entorpecimento que tomava conta dele. Deixou que o levasse para onde tivesse de ir. Sua dor e seu medo tinham sido anestesiados e ele no os queria de volta de jeito nenhum. A ltima lembrana que tinha s poderia ter sido conjurada no inferno.
     Leve-me. Por favor...
    Mas o barulho da gua que o acalentava com uma longnqua sensao de paz tambm estava trazendo-o de volta. Tentava despert-lo de um sonho. No! Deixe-me! Ele no queria acordar. Entrevia demnios que o aguardavam nas fronteiras de sua bem-aventurana, insistindo em despedaar sua beatitude. Imagens imprecisas giravam. Vozes gritavam. O vento agitava tudo. No, por favor! Quanto mais lutava, mais a fria se infiltrava atravs de sua conscincia.
    Ento, duramente, reviveu tudo...
    O helicptero prosseguia em sua subida vertiginosa. Ele estava preso l dentro. Pela porta aberta via as luzes de Roma distanciando-se mais a cada segundo. Seu instinto de sobrevivncia dizia-lhe para lanar fora o cilindro imediatamente. Langdon sabia que levaria menos de 20 segundos para o tubo cair uns 800 metros. S que cairia em uma cidade cheia de gente.
    Mais alto! Mais alto!
    Calculava a que altura estariam. Jatos pequenos costumavam voar a altitudes de cerca de seis mil metros. Aquele helicptero j devia estar a uma boa parcela disto. Trs mil metros? Quatro? Ainda havia uma chance. Se calculasse a queda perfeitamente, o tubo cairia s parte do caminho para a terra e explodiria a uma distncia segura acima do solo e longe do helicptero. Langdon olhou para a cidade que se espalhava l embaixo.
     E se voc calcular errado?  disse o camerlengo.
    Langdon espantou-se. O camerlengo nem estava olhando para ele e provavelmente lera seus pensamentos vendo seu reflexo esbranquiado no pra-brisa. Estranhamente, o camerlengo no estava mais ocupado com os controles. Suas mos nem seguravam mais o manete. O helicptero devia estar funcionando com o piloto automtico, subindo sempre. O camerlengo levantou a mo para o teto da cabine e tirou de um compartimento de cabos uma chave, presa ali fora da vista.
    Langdon viu desnorteado o camerlengo destrancar rapidamente a caixa metlica instalada entre os assentos. Tirou de l um grande embrulho de nilon preto, que colocou no assento a seu lado. As idias de Langdon se embaralharam. Os movimentos do camerlengo eram calmos e deliberados, como se ele j tivesse uma soluo.
     Passe o cilindro para mim  disse, com um tom de voz sereno.
    Langdon no sabia mais o que pensar. Entregou o cilindro.
     Noventa segundos!
    O que o camerlengo fez com a antimatria pegou Langdon completamente de surpresa. Segurando o cilindro com cuidado, ele o colocou dentro da caixa metlica. Depois, fechou a tampa pesada e trancou-a.
     O que est fazendo?!  perguntou Langdon.
     Afastando de ns a tentao  e jogou a chave pela janela aberta.
    A chave mergulhou na escurido da noite e Langdon sentiu sua alma caindo junto.
    O camerlengo ento pegou o embrulho de nilon e enfiou os braos nas alas. Fechou a presilha de uma outra tira que lhe envolveu o estmago e ajustou tudo como se fosse uma mochila. Finalmente, disse a um estupefato Robert Langdon:
     Sinto muito. No era para acontecer desta maneira.
    Em seguida, abriu a porta e atirou-se no espao.
    A imagem queimava no inconsciente de Langdon e com ela vinha a dor. Dor de verdade. Dor fsica. Atormentando-o. Penetrante. Ele suplicou que fosse levado para que a dor terminasse, mas, com o som da gua mais alto em seus ouvidos, novas imagens relampejavam em sua cabea. O inferno apenas comeara. Via pedaos dele, cenas esparsas de puro pnico. Encontrava-se entre a morte e o pesadelo, implorando para ser libertado, mas as imagens ficavam mais ntidas em sua mente.
    O tubo de antimatria estava trancado e inacessvel. A contagem de seu relgio diminua ao mesmo tempo que o helicptero aumentava a altitude. Cinqenta segundos. Mais alto. Mais alto. Langdon agitava-se loucamente dentro da cabine, tentando compreender o que acabara de presenciar. Quarenta e cinco segundos. Procurou outro pra-quedas debaixo dos assentos. Quarenta segundos. No havia mais nenhum! Trinta e cinco segundos. Foi para a porta aberta do helicptero, exposto ao vento furioso, e olhou para as luzes de Roma embaixo. Trinta e dois segundos.
    Ento, tomou sua deciso.
    A incrvel deciso.
    Sem pra-quedas, Robert Langdon pulou do helicptero.  medida que a noite engolia seu corpo, tinha a impresso de que o helicptero subia como um foguete acima dele, o som de seus rotores dissipando-se no rudo ensurdecedor de sua prpria queda livre.
    Na descida a prumo para terra, Langdon sentiu algo que no vivenciava desde o tempo em que praticava salto de plataforma  a inexorvel atrao da gravidade durante um mergulho. Quanto mais rpido caa, mais a terra parecia pux-lo, sug-lo. Desta vez, porm, o mergulho no era de 15 metros dentro de uma piscina, mas de milhares de metros em uma cidade  uma extenso infindvel de concreto e asfalto.
    Em meio ao vento e ao desespero, a voz de Kohler ecoava do tmulo com as palavras que ele dissera naquela mesma tarde junto ao tnel de queda livre do CERN: Um metro quadrado de algo que oferea resistncia ao ar retarda a queda de um corpo em quase 20 por cento. Vinte por cento, Langdon constatava, nem chegava perto do que seria necessrio para algum sobreviver a uma queda como aquela. De qualquer modo, mais por inrcia do que por esperana, apertou nas mos com fora a nica coisa que agarrara ao pular do helicptero. Era uma lembrana esquisita, mas que por um instante fugaz dera-lhe alguma esperana.
    A lona protetora do pra-brisa estava jogada na traseira do aparelho. Era um retngulo que se amoldava  forma cncava do pra-brisa do helicptero  de uns quatro metros por dois  semelhante a um grande lenol, o mais tosca mente parecido com um pra quedas que se possa imaginar. No tinha arneses, s alas elsticas em cada extremidade para ajust-lo  curvatura do vidro. Langdon pegara a lona, enfiara as mos nas alas e saltara no vazio.
    Seu ltimo grande gesto de desafio juvenil.
    No tinha mais iluses sobre a vida alm daquele momento.
    Langdon caa como uma pedra. Ps primeiro. Braos esticados para cima. Mos agarradas nas alas. A lona ondulava acima de sua cabea com o formato de um cogumelo. O vento se deslocava com grande velocidade em torno dele.
    Durante a queda, deu-se a exploso no alto. Mais longe do que ele esperava. Quase instantaneamente a onda de choque atingiu-o. O impacto comprimiu seus pulmes. Um calor repentino espalhou-se pelo ar em torno dele. Langdon lutou para no largar a lona. Uma parede quente veio de cima para baixo. O topo da lona comeou a arder, mas no se rompeu.
    Langdon descia a toda a velocidade, no limiar de um vu ondulante de luz, sentindo-se como um surfista que tenta sair da frente de uma onda de quilmetros de altura. De repente, porm, o calor retrocedeu e ele voltou a mergulhar na fria escurido.
    Por um instante, teve esperana. No momento seguinte, entretanto, a esperana se foi, tal e qual a onda de calor. Apesar de seus braos estendidos garantirem-lhe que a lona desacelerava sua queda, o vento ainda passava por seu corpo com uma velocidade espantosa. Ele no tinha qualquer dvida de que estivesse indo depressa demais para sobreviver  queda. Seria esmagado quando batesse no cho.
    Clculos matemticos embaralhavam-se em sua cabea, ele estava entorpecido demais para organiz-los  um metro quadrado de algo que oferea resistncia ao ar... quase 20 por cento de reduo de velocidade. O mximo que conseguia raciocinar  que a lona acima de sua cabea era grande o bastante para retard-lo mais do que 20 por cento. Infelizmente, pela velocidade do vento, ele deduzia que a lona no bastava, por melhor que fosse. Estava caindo depressa demais, no sobreviveria ao impacto no mar de concreto que o esperava.
    L embaixo, as luzes de Roma espalhavam-se para todos os lados. A cidade parecia um enorme cu estrelado no qual Langdon iria cair, s interrompido por uma faixa escura que dividia a cidade em dois  uma fita larga e no iluminada que serpenteava por entre os pontos de luz como uma cobra gorda. Langdon olhou para os meandros escuros ao longe.
    E, como a crista de uma onda inesperada, surgiu outra vez uma esperana.
    Com um vigor quase manaco, Langdon deu puxes fortes na lona com a mo direita. A lona agitou-se mais, ondulando, procurando o ponto  direita, de menor resistncia. Langdon sentiu-se deslizar de lado. Puxou de novo, com mais fora, sem fazer caso da dor na palma de sua mo. A lona inflou-se e Langdon notou que seu corpo voava para o lado. No muito. Mas um pouco! Olhou de novo para baixo, para a sinuosa serpente negra. Ficava bem para a direita, mas ele ainda estava bastante alto. Ser que tinha esperado demais? Puxou com toda a fora que pde e da em diante aceitou que estava nas mos de Deus. Concentrou-se na parte mais larga da serpente e, pela primeira vez em sua vida, rezou por um milagre.
    O resto no passou de uma lembrana nebulosa.
    A escurido se fechando por cima dele, os reflexos do mergulhador voltando, o instintivo posicionamento da coluna e das pontas dos ps, os pulmes se inflando para proteger os rgos vitais, as pernas flexionando-se para funcionar como um arete e, finalmente, a gratido pelo ondulante rio Tibre estar cheio e revolto, o que tornava suas guas espumantes e cheias de ar trs vezes mais macias do que a gua parada.
    Depois houve o impacto e as trevas.
    Foi o barulho trovejante da lona batendo que fez o grupo tirar os olhos da bola de fogo no alto. O cu de Roma estivera cheio de vises naquela noite: um helicptero subindo em linha reta como um foguete, uma enorme exploso e agora aquele estranho objeto que mergulhara nas guas agitadas do rio Tibre, ao largo da pequenina ilha que havia no rio, a Isola Tiberina.
    Desde o tempo em que a ilha fora usada para manter doentes de quarentena durante a praga que assolou Roma em 1656, dizia-se que possua propriedades curativas msticas. Por esta razo, mais tarde fora ali instalado o Hospital Tiberina de Roma.
    O corpo estava bastante machucado quando foi puxado para a margem. O homem ainda tinha uma leve pulsao, o que era espantoso, pensaram. Especularam se no teria sido a lendria reputao da Isola Tiberina para a cura que de alguma forma teria mantido o corao dele batendo. Minutos depois, quando o homem comeou a tossir e a lentamente recuperar a conscincia, o grupo concluiu que a ilha devia ser mesmo mgica. 
CAPTULO 126

    O cardeal Mortati sabia que no existiam palavras em nenhuma lngua capazes de acrescentar o que quer que fosse ao mistrio daquele momento. O silncio da viso no alto da Praa de So Pedro era mais eloqente do que um coro de anjos.
    Quando levantou os olhos para o camerlengo Ventresca, Mortati sentiu um choque paralisante entre seu corao e sua mente. A viso parecia real, tangvel. E, no entanto, como era possvel? Todos tinham visto o camerlengo entrar no helicptero. Todos tinham testemunhado a presena da bola de luz no cu. E agora, sem que se soubesse como, o camerlengo estava no terrao da baslica. Transportado por anjos? Reencarnado pela mo de Deus?
    Isso  impossvel...
    O corao de Mortati queria acreditar, mas sua mente exigia razes. E os cardeais que o cercavam, evidentemente vendo o mesmo que ele via, olhavam para cima imveis, deslumbrados.
    Era o camerlengo. Sem sombra de dvida. Mas ele parecia de certa forma diferente. Divino. Como se tivesse sido purificado. Um esprito? Um homem? Sua carne branca brilhava  luz dos refletores com uma leveza incorprea.
    Na praa havia choro, vivas, aplausos espontneos. Um grupo de freiras caiu de joelhos e entoou saetas. Um rudo ritmado elevou-se da multido. Sbito, a praa inteira repetia o nome do camerlengo. Os cardeais, alguns com lgrimas rolando nas faces, uniram-se ao povo. Mortati olhou em torno de si e tentou compreender. Isto realmente est acontecendo?
    O camerlengo Carlo Ventresca, do terrao no telhado da Baslica de So Pedro, contemplava os milhares de pessoas voltadas para ele. Estava acordado ou sonhando? Sentia-se transformado, sobrenatural. Pensava se teria sido seu corpo ou somente seu esprito que tinha descido flutuando do cu para a maciez e a penumbra dos Jardins do Vaticano, pousando como um anjo silencioso nos gramados desertos, seu pra-quedas negro protegido da loucura pela sombra imponente da Baslica de So Pedro. Pensava se teria sido seu corpo ou seu esprito que tivera foras para subir a antiga Escadaria dos Medalhes at o terrao onde agora se encontrava. Sentia-se leve como um fantasma. Embora as pessoas l embaixo estivessem entoando seu nome, sabia que no era ele quem estavam saudando. Saudavam por um mero impulso de alegria, a mesma alegria que ele sentia todos os dias de sua vida quando meditava sobre o Todo-Poderoso. Vivenciavam o que todos sempre tinham desejado: uma garantia do alto, uma comprovao do poder do Criador.
    O camerlengo Ventresca rezara toda a sua vida por esse momento e, ainda assim, nem ele conseguia acreditar inteiramente que Deus encontrara uma forma para torn-lo manifesto. Queria gritar para as pessoas. Seu Deus  um Deus vivo! Atentem para todos os milagres que as cercam!
    Permaneceu um pouco ali, entorpecido e ao mesmo tempo sentindo tudo com mais intensidade do que jamais sentira. Quando afinal a disposio de esprito o fez mover-se, curvou a cabea e recuou, afastando-se da beirada do terrao.
    Sozinho, ajoelhou-se e rezou. 

CAPTULO 127

    Imagens imprecisas rodeavam-no, indo e vindo. Os olhos de Langdon lentamente comearam a v-las em foco. Suas pernas doam e seu corpo parecia ter sido atropelado por um caminho. Estava deitado de lado no cho. Algo cheirava mal, como blis. Ainda ouvia o rudo incessante de gua. No lhe soava tranqilo como antes. Havia outros sons  gente falando perto dele. Entreviu vultos brancos, embaados. Todos estavam vestidos de branco? Langdon concluiu que devia estar em um hospcio ou ento no cu. Pelo ardor em sua garganta, achou que no poderia ser o cu.
     Ele parou de vomitar  disse um homem em italiano.  Virem-no.  A voz era firme e profissional.
    Langdon sentiu mos virarem seu corpo devagar para deit-lo de costas. Sua cabea girava. Tentou sentar-se, mas as mos delicadamente o foraram a permanecer deitado. Seu corpo submeteu-se. Ento, sentiu algum examinando seus bolsos, tirando coisas de dentro deles.
    Depois, perdeu por completo os sentidos. O doutor Jacobus no era um homem religioso. A medicina fizera-o deixar de ser j fazia muito tempo. Contudo, os acontecimentos daquela noite na Cidade do Vaticano tinham posto em teste sua lgica sistemtica. Agora caem corpos do cu?
    O doutor Jacobus tomou o pulso do homem sujo e molhado que tinham retirado do rio Tibre. O mdico admitiu que o prprio Deus entregara em mos e em segurana aquele homem. O impacto com a gua pusera-o inconsciente e, se no fosse Jacobus e sua equipe estarem na beira do rio assistindo ao espetculo no cu, essa alma cada no teria sido notada e com certeza teria se afogado.
      americano  disse uma enfermeira, revirando a carteira do homem depois de o terem levado para terra firme.
    Americano? Os romanos costumavam caoar que havia tantos americanos em Roma que os hambrgueres deveriam passar a ser a comida oficial italiana. Mas americanos caindo do cu? Jacobus piscou a luz de uma pequena lanterna nos olhos do homem para testar a dilatao da pupila.
     Senhor? Est ouvindo? Sabe onde est?
    O homem estava inconsciente outra vez. Jacobus no se surpreendeu. Vomitara muita gua depois que Jacobus lhe aplicara a ressuscitao cardiorrespiratria.
     Si chiama Robert Langdon  disse a enfermeira, lendo a carteira de motorista da vtima.
    Todo o grupo reunido no cais parou de repente.
     Impossibile!  declarou Jacobus.
    Robert Langdon era o homem da televiso  o professor americano que vinha ajudando o Vaticano. Jacobus vira o senhor Langdon, poucos minutos antes, entrar em um helicptero na Praa de So Pedro e voar quilmetros pelo ar. Jacobus e os outros tinham sado correndo para o cais para ver a exploso da antimatria  uma fantstica esfera de luz, diferente de tudo o que j tinham visto. Como poderia ser a mesma pessoa?
      ele mesmo!  exclamou a enfermeira, afastando-lhe da testa o cabelo molhado.  Estou reconhecendo o casaco de l dele!
    Subitamente, algum gritou da entrada do hospital. Era uma das pacientes. A mulher berrava, parecia enlouquecida, segurando seu rdio porttil no brao estendido para o alto e dando graas a Deus. Dizia que o camerlengo Ventresca acabara de aparecer miraculosamente no telhado do Vaticano.
    O doutor Jacobus decidiu que, quando seu planto terminasse, s 8h, ele iria direto para a igreja. As luzes acima da cabea de Langdon eram mais brilhantes agora, frias. Ele se encontrava em uma espcie de mesa de exame. Sentia o cheiro de desinfetantes, de estranhos produtos qumicos. Algum lhe dera uma injeo e tinham tirado suas roupas.
     Decididamente, no so ciganos, concluiu ele em seu delrio semiconsciente. Extraterrenos, talvez? J ouvira falar de coisas assim. Felizmente, esses seres no lhe fariam mal. S queriam os seus...
     De jeito nenhum!  Langdon sentou-se abruptamente, abrindo os olhos.
     Attento!  gritou uma das criaturas, segurando-o. Usava um pequeno crach onde estava escrito Doutor Jacobus Parecia bastante humano.
    Langdon gaguejou:
     Eu... pensei...
     O senhor est em um hospital.
    A nvoa comeou a se dissipar. Langdon sentiu uma onda de alvio. Detestava hospitais, mas decerto menos do que extraterrenos prestes a extrair seus testculos.
     Meu nome  doutor Jacobus  disse o homem. Explicou o que acabara de acontecer.  Tem muita sorte por estar vivo.
    Langdon no se sentia muito sortudo. Mal concatenava suas prprias lembranas  o helicptero, o camerlengo. Seu corpo doa todo. Deram-lhe um pouco de gua e fizeram um curativo na palma de sua mo.
     Onde est a minha roupa?  perguntou. Estava vestido com uma tnica de papel.
    Uma das enfermeiras mostrou-lhe um amontoado de pedaos rasgados de tecido cqui e l tweed pingando de cima de um balco.
     Estavam encharcadas. Tivemos de cortar tudo para tir-las do senhor.
    Langdon olhou para seu tweed Harris em frangalhos e franziu a testa.
     O senhor tinha uma poro de lenos de papel em seu bolso  disse a enfermeira.
    S ento Langdon notou os fragmentos de pergaminho espalhados pelo forro do palet. O flio do Diagramma de Galileu. O ltimo exemplar do mundo se dissolvera. Ele estava abalado demais para saber como reagir. Ficou parado, apenas, olhando fixo para o balco.
     Conseguimos salvar seus objetos pessoais  ela lhe estendeu uma caixa plstica.  Carteira, cmera porttil de vdeo e caneta. Sequei a cmera o melhor que pude.  No tenho nenhuma cmera de vdeo.
    A enfermeira levantou as sobrancelhas e deu-lhe a caixa. Langdon olhou para os objetos que continha. Junto com sua carteira e sua caneta havia uma pequena cmera de vdeo Sony. Agora se lembrava. Kohler entregara-a a ele, pedindo que a mostrasse  imprensa.
     Ns a encontramos em seu bolso. Acho que o senhor vai precisar de uma nova.  A enfermeira abriu a tela de duas polegadas na parte de trs da cmera.
     A tela est rachada.  Ento, seu rosto se animou.  Mas o som ainda funciona! Mais ou menos.  Encostou a mquina no ouvido.  Fica repetindo a mesma coisa sem parar.  Escutou mais um pouco e depois ficou sria, entregando-a a Langdon.  So dois sujeitos discutindo, acho.
    Intrigado, Langdon pegou a cmera e aproximou-a do ouvido. As vozes soavam anasaladas, metlicas, mas eram discernveis. Uma, perto. A outra, longe. Langdon reconheceu ambas.
    Sentado ali, vestido com a tnica descartvel do hospital, Langdon escutou espantado toda a conversa. Apesar de no poder ver o que estava acontecendo, deu graas por ter sido poupado da parte visual ao ouvir o final chocante.
    Meu Deus!
    Com a conversa recomeando do incio, Langdon abaixou a cmera de seu ouvido e continuou sentado, impressionado, estupefato. A antimatria, o helicptero... A mente de Langdon comeou a funcionar.
    Ento, isso quer dizer que...
    Teve vontade de vomitar outra vez. Agitado, com uma raiva crescente, ele desceu da mesa e ficou de p, as pernas bambas.
     Senhor Langdon!  disse o mdico, tentando impedi-lo.
     Preciso de umas roupas  pediu Langdon, sentindo a corrente de ar em seu traseiro por causa da tnica aberta atrs.
     Mas o senhor precisa descansar.
     Estou saindo. Agora. Preciso de roupa.
     Mas o senhor...
     Agora!
    Todos se entreolharam, desconcertados.
     No temos roupas  disse o mdico.  Talvez amanh algum amigo seu possa traz-las para o senhor.
    Langdon respirou fundo com uma expresso paciente e encarou o mdico.
     Doutor Jacobus, vou sair por aquela porta agora mesmo. Preciso de roupas. Vou para a Cidade do Vaticano. Ningum pode ir para o Vaticano de bunda de fora. Deu para entender? O doutor Jacobus engoliu em seco.
     Dem-lhe alguma coisa para vestir. Quando Langdon saiu mancando do Hospital Tiberina, sentia-se como um lobinho, um escoteiro-mirim, s que crescido. Usava um macaco azul de paramdico com zper na frente, enfeitado com distintivos de pano que aparentemente indicavam as numerosas qualificaes do dono.
    A mulher que o acompanhava era robusta e usava um macaco igual ao dele. O mdico garantira a Langdon que ela o levaria ao Vaticano em tempo recorde.
     Molto traffico  disse Langdon, lembrando-lhe que a rea em torno do Vaticano estaria congestionada por carros e pessoas.
    A mulher no se mostrou preocupada. Apontou orgulhosa para um dos seus distintivos.
     Sono conducente di ambulanza.
     Ambulanza?  Ento estava explicado. Langdon achou que um passeio de ambulncia viria a calhar.
    A mulher conduziu-o para a parte lateral do edifcio. Em um aforamento de terra acima da gua havia um deque de cimento onde o veculo a esperava. Quando Langdon o viu, parou. Era um velho helicptero de transporte mdico. Na carcaa estava escrito Aero-Ambulanza.
    Ele baixou a cabea.
    A mulher sorriu.
     Voar Cidade do Vaticano. Muito rpido. 

CAPTULO 128

     O Colgio dos Cardeais estava em ebulio ao voltar para a Capela Sistina. Mortati, ao contrrio, sentia crescer dentro de si uma confuso to grande que quase poderia levant-lo do cho e carreg-lo. Acreditava nos antigos milagres das Escrituras e, todavia, o que acabara de testemunhar era algo que no conseguia compreender. Depois de uma vida inteira de devoo, 79 anos, Mortati sabia que tais acontecimentos deveriam despertar nele uma piedosa exuberncia, uma f ardorosa e viva. No entanto, s sentia um constrangimento espectral e cada vez maior. Havia algo errado.
     Signore Mortati!  gritou um guarda suo aproximando-se s pressas.
     Fomos ao telhado da baslica como o senhor pediu. O camerlengo  de carne e osso!  um homem de verdade! No  um esprito!  exatamente a pessoa que conhecemos!
     Ele falou com vocs?
     Est ajoelhado rezando em silncio! Ficamos com medo de tocar nele!
    Mortati estava perdido.
     Digam a ele que seus cardeais esto esperando.
     Signore, por ele ser mesmo um homem...  o guarda hesitou.
     O que ?
     O peito dele... ele est queimado. Podemos fazer um curativo na ferida? Ele deve estar sentindo dor.
    Mortati refletiu. Nada em todo o seu tempo de servio  Igreja o preparara para aquela situao.
     Ele  um homem, portanto tratem dele como se trata de um homem. Lavem-no. Cuidem de suas feridas. Dem-lhe roupas limpas. Esperamos por ele na Capela Sistina.
    O guarda saiu correndo.
    Mortati seguiu para a capela. O resto dos cardeais j se encontrava l dentro. Caminhando pelo corredor, viu Vittoria Vetra sozinha, com ar abatido, sentada em um banco ao p da Escadaria Real. A dor e a solido da perda eram visveis no rosto dela e Mortati teve vontade de ir ao seu encontro, mas sabia que isso teria de esperar. Tinha trabalho a fazer, embora no tivesse a menor idia de qual pudesse ser esse trabalho.
    Mortati entrou na capela. Havia uma excitao ruidosa no ambiente. Fechou a porta.  Que Deus me ajude.
    A Aero-Ambulanza de dois rotores do Hospital Tiberina contornava a Cidade do Vaticano por trs, e Langdon cerrava os dentes, jurando por Deus que aquela seria a ltima viagem de helicptero de sua vida.
    Depois de convencer a mulher que fazia as vezes de piloto de que as regras que regiam o espao areo do Vaticano eram o que menos preocupava a cidade do Papa naquele momento, ele a guiou, sem serem vistos, por cima do muro de trs, at a aterrissagem no heliporto do Vaticano. 
     Grazie  disse ele, descendo penosamente. Ela lhe soprou um beijo e decolou rpido, desaparecendo dentro da noite na direo de onde viera.
    Langdon respirou fundo, tentou clarear a mente, procurando entender o que estava prestes a fazer. Com a cmera na mo, embarcou no mesmo carrinho de golfe em que andara mais cedo naquele mesmo dia. No tinha sido recarregado e o medidor indicava que a bateria estava no final. Ele dirigiu com os faris apagados para economizar energia.
    Tambm preferia que ningum o visse chegar.
    Nos fundos da Capela Sistina, o cardeal Mortati parou atordoado diante do pandemnio que se formara.
     Foi um milagre!  um dos cardeais gritava.  Foi obra de Deus!
     Sim!  exclamavam outros.  Deus manifestou sua vontade!
     O camerlengo ser nosso Papa!  gritou outro.  Ele no  cardeal, mas Deus enviou um sinal milagroso!
     Sim!  concordou algum.  As leis do conclave so leis do homem. A vontade de Deus est diante de ns! Solicito uma eleio imediatamente!
     Uma eleio?  perguntou Mortati, caminhando na direo deles.  Acho que esta  minha funo.
    Todos se viraram.
    Mortati notou que os cardeais o examinavam. Pareciam distantes, desnorteados, ofendidos com a sua sobriedade. Mortati desejava muito que seu corao tambm fosse arrebatado por aquela miraculosa exaltao que via nos rostos que o cercavam. Mas no conseguia. Sentia uma dor inexplicvel em seu ntimo, uma dolorosa tristeza que no sabia definir. Havia jurado dirigir aqueles procedimentos com pureza de alma e sua hesitao era algo que no podia negar.
     Meus amigos  disse Mortati, subindo ao altar. Quase no reconhecia a prpria voz.  Acho que at o fim dos meus dias vou debater comigo mesmo o significado daquilo que testemunhamos hoje. E, no entanto, o que sugerem com relao ao camerlengo no pode ser de jeito algum a vontade de Deus.
    Fez-se silncio na capela.
     Como pode dizer isso?  perguntou afinal um dos cardeais.  O camerlengo salvou a Igreja. Deus falou diretamente ao camerlengo! O homem sobreviveu  prpria morte! De que outro sinal precisamos mais?
     O camerlengo vir ao nosso encontro aqui  disse Mortati.  Vamos esperar. Vamos escut-lo antes de fazer uma eleio. Pode haver uma explicao.  Uma explicao?
     Como seu Grande Eleitor, jurei preservar as leis do conclave. Todos sem dvida esto cientes de que, pela Santa Lei, o camerlengo  inelegvel para o papado. Ele no  cardeal.  um padre, um camarista. H tambm a questo de sua idade inadequada.  Mortati notou olhares mais duros.  Ao consentir que se realizasse uma eleio, eu estaria permitindo que os senhores aprovassem um homem que a Lei Vaticana considera inelegvel. Estaria pedindo a cada um que quebrasse um juramento sagrado.
     Mas o que aconteceu aqui esta noite  algum disse, titubeante  certamente transcende as nossas leis!
     Ser mesmo?  Mortati replicou, cheio de autoridade, sem ao menos saber de onde vinham suas palavras.  Ser que  a vontade de Deus que deixemos de lado as regras da Igreja? Ser que Deus quer que abandonemos a razo e nos entreguemos ao delrio?
     Mas o senhor no viu o que ns vimos?  um outro o desafiou, irritado.
     Como pode se atrever a questionar um poder como aquele?
    A voz de Mortati projetou-se ento com uma ressonncia que ele jamais conhecera.
     No estou questionando o poder de Deus! Foi Deus quem nos concedeu razo e circunspeco!  a Deus que servimos exercendo a prudncia! 

CAPTULO 129

    Sentada em um banco junto  base da Escadaria Real, no corredor do lado de fora da Capela Sistina, Vittoria Vetra parecia entorpecida. Quando avistou a figura que entrava pela porta dos fundos, pensou que estivesse vendo outro esprito. Ele estava enfaixado, mancando e vestido com uma espcie de uniforme mdico.
    Ela se levantou, incapaz de acreditar na viso.
     Ro... bert?
    Ele nem respondeu. Caminhou direto para ela e a envolveu em seus braos. Apertou seus lbios contra os dela em um beijo impulsivo, longamente desejado, cheio de gratido.
    Vittoria sentiu as lgrimas chegando.
     Oh, Deus... oh, obrigada, meu Deus... 
    Ele a beijou de novo, um beijo mais apaixonado, e ela comprimiu seu corpo contra o dele, perdendo-se no abrao. Seus corpos se uniram como se j se conhecessem h anos. Ela esqueceu o medo e a dor e fechou os olhos, a alma leve, naquele momento perfeito.
      a vontade de Deus!  algum gritava, a voz ecoando na Capela Sistina.
     Quem mais alm do escolhido poderia ter sobrevivido quela exploso diablica?
     Eu  uma voz reverberou do fundo da capela.
    Mortati e os outros viraram-se espantados para a figura maltratada que se aproximava pelo centro da nave.
     Senhor Langdon?!
    Sem uma palavra, Langdon encaminhou-se devagar para a frente da capela. Vittoria Vetra entrou tambm. Logo depois, dois guardas surgiram apressados empurrando um carrinho com uma grande televiso em cima. Langdon esperou enquanto eles ligavam o aparelho, a tela voltada para os cardeais. Ento, Langdon fez sinal para que os guardas se retirassem. Eles o fizeram, fechando as portas atrs de si. Agora era entre Langdon, Vittoria e os cardeais. Langdon conectou a cmera Sony  televiso e apertou o boto play.
    A tela se acendeu.
    A cena que se materializou diante dos cardeais passava-se no escritrio do Papa. O vdeo fora filmado de forma desajeitada, como se a cmera estivesse escondida. Descentrado na tela, o camerlengo aparecia meio na penumbra, em frente  lareira acesa. Embora parecesse estar falando diretamente para a cmera, logo ficou evidente que estava falando com algum  a pessoa que filmava. Langdon disse aos cardeais que o vdeo fora filmado por Maximilian Kohler, o diretor do CERN. Apenas uma hora antes, Kohler filmara secretamente seu encontro com o camerlengo usando a minscula cmera de vdeo que trazia disfarada sob um dos braos de sua cadeira de rodas.
    Mortati e os cardeais assistiam a tudo perplexos. A conversa j comeara, mas Langdon no se deu ao trabalho de rebobinar a fita. O que ele queria que os cardeais vissem ainda estava por vir.
    ...  Leonardo Vetra mantinha um dirio?  dizia o camerlengo.  Imagino que isso seja uma boa notcia para o CERN. Se os dirios contm seus processos para criar antimatria...
     No contm  disse Kohler.  Vai ser um alvio para o senhor saber que esses processos morreram com Leonardo. No entanto, os dirios falam de um assunto diferente. Do senhor.
    O camerlengo pareceu perturbar-se.
     No compreendo.
     Descrevem um encontro que Leonardo teve no ms passado. Com o senhor.
    O camerlengo hesitou, depois olhou para a porta.
     Rocher no deveria ter autorizado sua entrada sem me consultar. Como chegou aqui?
     Rocher sabe da verdade. Telefonei antes de vir e contei a ele o que o senhor fez.
     O que eu fiz? Seja qual for a histria que contou a ele, Rocher  da Guarda Sua e fiel demais a esta Igreja, no acreditaria mais em um cientista amargo do que em seu camerlengo.
     Na realidade, ele  fiel demais para no acreditar.  to fiel que, apesar da prova de que um dos seus leais guardas traiu a Igreja, ele se recusou a aceitar o fato. O dia inteiro vem procurando outra explicao.
     Que o senhor deu a ele.
     A verdade. Por mais chocante que fosse.
     Se Rocher tivesse acreditado no senhor, teria me prendido.
     No. Eu no deixei. Ofereci a ele o meu silncio em troca deste encontro.
    O camerlengo deu uma risada estranha.
     O senhor pretende chantagear a Igreja com uma histria em que ningum vai acreditar?
     No preciso fazer chantagem nenhuma. Quero simplesmente ouvir a verdade de sua boca. Leonardo Vetra era meu amigo.
    O camerlengo nada disse. Limitou-se a olhar para Kohler.
     Vejamos, ento  comeou Kohler, spero.  H cerca de um ms, Leonardo Vetra entrou em contato com o senhor solicitando uma audincia urgente com o Papa. Uma audincia que o senhor concedeu porque o Papa admirava o trabalho de Leonardo e porque Leonardo disse que era uma emergncia.
    O camerlengo voltou-se para o fogo da lareira. No disse nada.
     Leonardo veio ao Vaticano em absoluto segredo. Estava traindo a confiana de sua filha ao vir aqui, um fato que o perturbava grandemente, mas ele achava que no tinha opo. Suas pesquisas haviam criado um profundo conflito em seu ntimo e ele sentia necessidade de orientao espiritual da Igreja. Em um encontro particular, contou ao Papa que havia feito uma descoberta cientfica com profundas implicaes religiosas. Havia provado que o Gnese era fisicamente possvel e que intensas fontes de energia, que Vetra chamava de Deus, poderiam reproduzir o momento da Criao.
    Silncio.
     O Papa ficou entusiasmado  Kohler continuou.  Queria que Leonardo divulgasse a experincia. Sua Santidade achava que essa descoberta poderia comear a aproximar a cincia da religio, um dos sonhos da vida do Papa. Ento, Leonardo explicou ao senhor o aspecto negativo da descoberta, o motivo pelo qual ele solicitara a orientao da Igreja. Parecia que sua experincia da Criao, exatamente como a Bblia relata, produzia tudo aos pares. Opostos. Luz e trevas. Alm do processo de criao da matria, Vetra descobriu o da criao da antimatria. Devo prosseguir?
    O camerlengo manteve-se calado. Inclinou-se para atiar as brasas da lareira.
     Depois que Leonardo Vetra veio aqui  disse Kohler , o senhor foi ao CERN ver o trabalho dele. Os dirios de Leonardo dizem que o senhor fez uma visita pessoal ao laboratrio dele.
    O camerlengo levantou a cabea.
    Kohler foi em frente.
     O Papa no poderia viajar sem atrair a ateno da mdia, por isso mandou o senhor. Leonardo levou-o para uma excurso secreta pelo laboratrio. Fez uma demonstrao de aniquilamento de antimatria, o Big-Bang, o poder da Criao. Tambm lhe mostrou um grande espcime que mantinha escondido e que provava que seu novo mtodo poderia produzir antimatria em larga escala. O senhor ficou assombrado. Voltou para a Cidade do Vaticano para contar ao Papa o que tinha presenciado.
    O camerlengo suspirou.
     E  isso que o incomoda? Que eu tenha respeitado a confiana de Leonardo ao fingir perante o mundo esta noite que nada sabia sobre a antimatria?
     No! O que me incomoda  que Leonardo Vetra praticamente provou a existncia de seu Deus e o senhor fez com que ele fosse assassinado!
    O camerlengo voltou-se para ele afinal, o rosto impenetrvel.
    O nico som era o estalar do fogo.
    Sbito, a cmera balanou e o brao de Kohler apareceu no enquadramento. Ele se curvou para a frente, tentando alcanar algo preso debaixo de sua cadeira de rodas. Quando endireitou o corpo, segurava uma pistola. O ngulo da cmera era arrepiante: visto por trs, o brao estendido apontava o revlver direto para o camerlengo.
    Kohler disse:  Confesse os seus pecados, padre. Agora.
    O camerlengo parecia assustado.
     No vai sair vivo daqui.
     A morte seria um alvio bem-vindo para o sofrimento pelo qual sua religio me faz passar desde que eu era criana  Kohler segurava o revlver com as duas mos agora.  Estou lhe dando uma chance. Confesse os seus pecados ou morra agora mesmo.
    O camerlengo olhou de soslaio para a porta.
     Rocher est l fora  desafiou-o Kohler.  Ele tambm est preparado para mat-lo.
     Rocher jurou proteger a Ig...
     Rocher deixou que eu entrasse aqui. Armado. Est enojado com as suas mentiras. O senhor tem uma nica opo. Confessar-se a mim. Tenho de ouvir tudo de sua prpria boca.
    O camerlengo hesitou.
    Kohler levantou a arma.
     Realmente duvida que eu v mat-lo?
     No importa o que lhe conte  disse o camerlengo  um homem como o senhor nunca entenderia.
     Experimente.
    O camerlengo permaneceu imvel por um instante, uma silhueta dominante em meio  vaga luminosidade do fogo. Quando falou, suas palavras ecoaram com uma dignidade mais apropriada a uma gloriosa narrativa de altrusmo do que a uma confisso.
     Desde o princpio dos tempos  disse o camerlengo , a Igreja lutou contra os inimigos de Deus. s vezes com palavras. Outras vezes com espadas. E sempre sobrevivemos.
    O camerlengo irradiava convico.
     Os demnios do passado  continuou ele  eram demnios de fogo e abominao. Esses eram inimigos contra os quais podamos lutar, inimigos que inspiravam medo. Mas Sat  astuto. Com o passar do tempo, abandonou sua fisionomia diablica e assumiu uma nova face: a face da pura razo. Transparente e insidiosa, mas tambm sem alma.  A voz do camerlengo enraiveceu-se de modo inesperado, numa transio quase insana.  Diga-me, senhor Kohler, como pode a Igreja condenar o que faz sentido, o que  lgico para nossas mentes? Como podemos censurar o que hoje  o prprio fundamento de nossa sociedade? Cada vez que a Igreja levanta a voz para fazer uma advertncia, vocs gritam mais alto e nos chamam de ignorantes. De paranicos. De controladores! E assim a sua maldade cresce. Encoberta por um vu de virtuoso intelectualismo. Espalha-se como um cncer. Santificada pelos milagres de sua prpria tecnologia. Deificando-se a si mesma! At se dissipar a nossa desconfiana e passarmos a achar que  pura bondade. A cincia chegou para nos salvar de nossas doenas, de nossa fome e de nosso sofrimento! Eis a cincia, o novo Deus de infinitos milagres, onipotente e benevolente! Ignorem as armas e o caos. Esqueam a solido dilacerada e os perigos interminveis! A cincia est aqui!  O camerlengo deu um passo na direo do revlver.  Mas eu vi o rosto de Sat  espreita, vi o perigo.
     O que  que est dizendo! A cincia de Vetra praticamente provou a existncia de seu Deus! Ele era seu aliado!
     Aliado? A cincia e a religio no andam juntas nisso! No buscamos o mesmo Deus, voc e eu! Quem  seu Deus? Um Deus de prtons, massa e cargas de partculas? Como o seu Deus inspira seus fiis? Como  que o seu Deus chega ao corao do homem para lembrar-lhe que ele  explicvel por um poder maior? Ou que ele  responsvel por seus semelhantes? Vetra estava desencaminhado. Seu trabalho no era religioso, era sacrlego! O homem no pode colocar a Criao de Deus dentro de um tubo de ensaio e exibi-la para o mundo! Isto no glorifica Deus, isto desmerece Deus!
    O camerlengo, a essa altura, apertava o prprio corpo com as mos em garra, a voz enlouquecida.
     E por isso mandou matar Leonardo Vetra!
     Pela Igreja! Por toda a humanidade! Que loucura era aquela! O homem no est preparado para ter o poder de Deus em suas mos. Deus em um tubo de ensaio? Uma gotinha de lquido que pode desintegrar uma cidade inteira? Ele tinha de ser detido!
    O camerlengo calou-se abruptamente. Parecia estar considerando suas opes.
    As mos de Kohler levantaram o revlver.
     Voc confessou. No tem mais escapatria.
    O camerlengo riu um riso triste.
     Ento no sabe que confessar os pecados  a forma de escapar?  Olhou para a porta.  Quando Deus est do nosso lado, temos opes que um homem como voc no  capaz de compreender.
    Com essas palavras ainda ressoando no ar, o camerlengo agarrou a sua batina pela gola e rasgou-a com violncia, deixando seu peito nu.
    Kohler fez um movimento brusco, obviamente espantado.
     O que est fazendo?
    O camerlengo no respondeu. Deu um passo para trs, para junto da lareira, e tirou um objeto das brasas reluzentes.  Pare!  ordenou Kohler, a arma ainda levantada.  O que est fazendo?
    Quando o camerlengo se virou, segurava um ferro de marcar em brasa. O diamante Illuminati. O homem tinha uma expresso desvairada.
     Pretendia fazer isto sozinho  falava com uma intensidade selvagem , mas agora vejo que Deus queria que voc estivesse aqui. Voc  minha salvao.
    Antes que Kohler pudesse esboar qualquer reao, o camerlengo fechou os olhos, arqueou as costas e comprimiu o ferro em brasa no centro do prprio peito. Sua carne chiou.
     Me Maria! Me Bendita! Olhe seu filho!  e gritou alto de dor. Kohler surgiu no enquadramento mal se equilibrando nas pernas, o revlver agitando-se descontroladamente.
    O camerlengo gritou mais alto, o corpo oscilando. Ele lanou o ferro de marcar aos ps de Kohler e caiu no cho, contorcendo-se em agonia.
    O que aconteceu em seguida foi difcil de distinguir.
    Houve um grande tremor na imagem da tela quando a Guarda Sua irrompeu na sala. Ouviu-se o som de tiroteio. Kohler dobrou os braos no peito, foi lanado para trs, sangrando, e caiu da cadeira de rodas.
    No!  gritou Rocher, tentando impedir seus guardas de atirarem em Kohler.
    O camerlengo, ainda se contorcendo no cho, girou o corpo e apontou freneticamente para Rocher:
     Illuminatus!
     Canalha!  berrou Rocher, correndo para ele.  Seu canalha santarro...
    Chartrand abateu-o com trs tiros. Rocher caiu morto no cho da sala.
    Ento, os guardas correram para o camerlengo ferido, rodeando-o. Ao mesmo tempo que eles se reuniam, o vdeo pegava o rosto estarrecido de Robert Langdon, ajoelhado perto da cadeira de rodas, olhando para o ferro de marcar. Depois, a imagem sacudiu fortemente. Kohler recuperara a conscincia e estava soltando a pequenina cmera do suporte localizado debaixo do brao de sua cadeira. Em seguida, tentava estender a mo com a cmera para Langdon.
     Ent...tregue...  arquejou Kohler , en...tregue isto...  imprensa.
    E a tela ficou branca. 

CAPTULO 130

    O camerlengo comeou a sentir a nvoa de exaltao e de adrenalina se dissipar. Enquanto a Guarda Sua o ajudava a descer a Escadaria Real para ir para a Capela Sistina, o camerlengo escutou cnticos na Praa de So Pedro e soube que montanhas haviam sido removidas. 
     Grazie Dio.
    Ele rezara pedindo foras e Deus as concedera. Nos momentos em que duvidara, Deus falara. Tua misso  Santa, Deus dissera. Dar-te-ei foras. Mesmo com a fora de Deus, o camerlengo sentira medo, questionara a correo de seu caminho.
     Se no fores tu, Deus o desafiara, QUEM o far?
     Se no for agora, QUANDO ser?
     Se no for assim, COMO ser?
    Jesus, Deus lembra-lhe, salvara-os todos, salvara-os da prpria apatia. Com dois atos, Jesus abrira-lhes os olhos. Horror e Esperana. A crucificao e a ressurreio. Ele mudara o mundo.
    Mas isto acontecera havia milnios. O tempo corroera o milagre. As pessoas haviam se esquecido. Tinham se voltado para os falsos dolos  tecnodivindades e milagres da mente. E quanto aos milagres do corao?
    O camerlengo sempre rezava para que Deus lhe mostrasse como fazer os homens acreditarem outra vez. Mas Deus permanecia em silncio. Foi somente no momento mais sombrio que Deus veio ao encontro do camerlengo. Ah, que noite terrvel!
    O camerlengo ainda se lembrava de estar deitado no cho com a roupa de dormir em frangalhos cravando as unhas na prpria carne, tentando purgar sua alma do sofrimento provocado por uma verdade infame que descobrira pouco antes. No pode ser!, gritara. Entretanto, sabia que era. O engano queimava-o como o fogo do inferno. O bispo que o acolhera, o homem que fora como um pai para ele, o religioso ao lado de quem o camerlengo sempre ficara enquanto ele subia at chegar ao papado, era uma fraude. Um pecador comum. Mentindo para o mundo sobre um ato to traioeiro em sua essncia que o camerlengo duvidava que o prprio Deus pudesse perdo-lo.
     Seu juramento!  o camerlengo gritara para o Papa.  O senhor quebrou seu juramento a Deus! Logo o senhor, entre todos os homens!
    O Papa tentou se explicar, mas o camerlengo no lhe deu ouvidos. Saiu correndo, cambaleando s cegas pelos corredores, vomitando, rasgando a prpria pele at dar por si ensangentado e sozinho, cado no cho de terra diante da tumba de So Pedro. Me Maria, o que fao agora? Foi naquele momento de dor e traio, quando o camerlengo estava prostrado na Necrpole, rezando para Deus lev-lo deste mundo sem f, que Ele veio.
    A voz em sua cabea ressoou como um trovo.
     Juraste servir teu Deus?
     Sim!  bradou o camerlengo.
     Morrerias por teu Deus?
     Sim! Leve-me agora!
     Morrerias por tua Igreja?
     Sim! Liberte-me, por favor!
     Mas morrerias pela humanidade?
    No silncio que se seguiu, o camerlengo sentiu-se despencando no abismo. Cada vez mais fundo, cada vez mais depressa, sem controle. No entanto, sabia a resposta. Sempre soubera.
     Sim!  gritou em meio  loucura.  Eu morreria pelos homens! Como Teu filho, morreria por eles!
    Horas depois, o camerlengo ainda tiritava cado no cho. Viu o rosto de sua me. Deus tem planos para voc, ela dizia. O camerlengo mergulhou mais ainda no desvario. Ento, Deus falou de novo. Desta vez, com silncio. Mas o camerlengo compreendeu. Restaure a f dos homens.
     Se no fosse eu, quem seria?
     Se no fosse agora, quando seria?
    Quando os guardas destrancaram a porta da Capela Sistina, o camerlengo Ventresca sentiu o poder fluindo em suas veias, exatamente como quando ele era menino. Deus o escolhera. Muito tempo antes.
     Seja feita a Sua vontade.
    O camerlengo sentia-se renascido. A Guarda Sua encarregara-se de enfaixar seu peito, de banh-lo e vestir nele uma batina limpa de linho branco. Tinham-lhe dado tambm uma injeo de morfina para a dor da queimadura. O camerlengo desejara no ter tomado analgsico algum. Jesus suportou Suas dores durante trs dias na cruz! J sentia a droga lhe amortecendo os sentidos, uma vertigem que o arrastava.
    Ao entrar na capela, no se surpreendeu nada com os olhares admirados dos cardeais para ele.  uma admirao reverente por Deus, lembrou a si mesmo. No por mim, mas pela maneira como Deus trabalha ATRAVS da minha pessoa. Enquanto caminhava pelo centro da nave, via perplexidade em todos os rostos. A cada rosto por que passava, porm, percebia algo mais no olhar. O que seria? O camerlengo imaginara antes como eles o receberiam naquela noite. Com alegria? Com respeito? Tentou ler seus olhos e no encontrou neles nenhuma dessas duas emoes.
    Foi ento que o camerlengo olhou para o altar e viu Robert Langdon. 

CAPTULO 131

    O camerlengo Carlo Ventresca parou entre as fileiras de cadeiras, no meio da Capela Sistina. Os cardeais estavam todos de p, prximos da frente da igreja, olhando para ele. Robert Langdon estava no altar ao lado de uma televiso ligada, onde se desenrolava uma cena que o camerlengo reconhecia mas no podia imaginar como fora parar ali. Vittoria Vetra encontrava-se junto de Langdon, o rosto tenso.
    O camerlengo fechou os olhos por um momento, esperando que tudo fosse uma alucinao causada pela morfina e que, quando os reabrisse, a cena pudesse ser diferente. Mas no era.
    Eles sabiam.
    Curiosamente, no sentiu medo. Mostre-me o caminho, Pai. D-me as palavras para faz-los ver a Sua viso, pediu.
    Mas o camerlengo no obteve resposta.
     Pai, chegamos longe demais para fracassar agora.
    Silncio.
     Eles no compreendem o que Ns fizemos.
    O camerlengo no soube de quem era a voz que ele escutou em sua prpria mente, mas a mensagem era brutalmente simples.
     E a verdade o libertar...
    E foi assim que o camerlengo Ventresca manteve a cabea erguida ao avanar pela Capela Sistina. Andando na direo dos cardeais, nem a difusa luminosidade das velas suavizava os olhares penetrantes que eles lhe lanavam. Explique-se, diziam os rostos. D sentido a esta loucura. Diga que nossos temores so infundados!
    A verdade, disse o camerlengo a si mesmo. S a verdade. Havia segredos demais entre aquelas paredes, um deles to sombrio que o levara  loucura. Mas da loucura viera a luz.
     Se pudessem dar sua prpria alma para salvar milhes  disse ele, enquanto andava , no o fariam?
    Os rostos na capela limitaram-se a olhar para ele. Ningum se mexia. Ningum falava. Alm das paredes, trechos alegres de cnticos vinham da praa.
    O camerlengo caminhava para eles.
     Qual  o maior pecado? Matar o inimigo? Ou ficar inativo enquanto seu verdadeiro amor  esmagado? Eles esto cantando na Praa de So Pedro!  O camerlengo parou por um instante e contemplou o teto da Capela Sistina. O Deus de Michelangelo, na abbada obscurecida, olhava para baixo e parecia satisfeito.
     Eu no podia ficar parado  disse o camerlengo. Cada vez mais prximo dos cardeais, ainda assim no encontrou nenhum lampejo de compreenso nos olhares deles. Ser que no enxergavam a radiante simplicidade de seus atos? No percebiam a sua necessidade absoluta?
    Haviam sido to puros.
    Os Illuminati. Cincia e Sat juntos.
    Ressuscitar o antigo medo. Depois o esmagar.
    Horror e Esperana. Faz-los acreditar outra vez.
    Naquela noite, o poder dos Illuminati fora desencadeado mais uma vez, com conseqncias gloriosas. A apatia se evaporara. O medo percorrera todo o mundo como um relmpago, unindo as pessoas. E ento a majestade de Deus vencera as trevas.
    Eu no podia deixar de interferir!
    A inspirao viera do prprio Deus  aparecendo como um farol luminoso na noite de agonia do camerlengo. Ah, mundo sem f! Algum tem de salv-lo. Voc. Se no for voc, quem ser? Voc foi salvo por uma razo. Mostre-lhes os velhos demnios. Lembre-os de como tinham medo. Apatia  morte. Sem trevas, no h luz. Faa-os escolher. Luz ou trevas. Onde est o medo? Onde esto os heris? Se no for agora, quando ser?
    O camerlengo andou pelo centro da nave direto para a multido de cardeais. Sentiu-se como Moiss quando o mar de faixas e capelos vermelhos abriu-se  sua frente dando-lhe passagem. No altar, Robert Langdon desligou a televiso, pegou a mo de Vittoria e abandonou o altar. O fato de Robert Langdon ter sobrevivido, o camerlengo sabia, s podia ser a vontade de Deus. Deus salvara Robert Langdon. O camerlengo se perguntava por qu.
    A voz que quebrou o silncio foi a da nica mulher presente na Capela Sistina.
     Voc matou meu pai?  perguntou ela, dando um passo  frente.
    Quando o camerlengo encarou Vittoria Vetra, no soube definir bem a expresso no rosto dela  sofrimento, sim, mas raiva? Ela certamente devia compreender. O talento de seu pai era perigoso. Ele tinha de ser impedido de continuar. Para o bem da humanidade.
     Ele estava fazendo o trabalho de Deus  disse Vittoria.
     O trabalho de Deus no  feito dentro de um laboratrio.  feito no corao.
     O corao de meu pai era puro! E as pesquisas dele provaram...
     As pesquisas dele provaram outra vez que a mente do homem est progredindo mais depressa do que a sua alma!  a voz do camerlengo soou mais estridente do que ele esperava. Ele baixou o tom.  Se um homem to espiritualizado quanto seu pai foi capaz de criar uma arma como a que vimos esta noite, imagine o que um homem comum no faria com essa tecnologia que ele criou!
     Um homem como voc?
    O camerlengo respirou fundo. Ser que ela no via? A moral humana no avanava to depressa quanto a cincia. A humanidade no era bastante evoluda espiritualmente para os poderes que possua. Nunca criamos uma arma que no tenhamos usado! E ainda assim ele sabia que a antimatria no era nada  apenas mais uma arma no j copioso arsenal do homem. O homem ainda podia destruir. O homem aprendera a matar havia muito tempo. E o sangue de sua me cara como chuva. O talento de Leonardo Vetra era perigoso por outra razo.
     Durante sculos  disse o camerlengo , a Igreja se manteve impassvel enquanto a cincia desmoralizava a religio pouco a pouco. Desmascarando milagres. Treinando a mente para superar o corao. Condenando a religio como o pio das massas. Deus foi acusado de ser uma alucinao  um arrimo ilusrio para os muito fracos, incapazes de aceitar que a vida no tem qualquer sentido. Eu no podia ficar parado enquanto a cincia se atrevia a captar o poder do prprio Deus! Voc falou de prova? Sim, prova da ignorncia da cincia. O que est errado em admitir que algo existe alm de nossa compreenso? O dia em que a cincia comprovar a existncia de Deus em um laboratrio ser o dia em que as pessoas no tero mais necessidade da f!
     Voc quer dizer o dia em que as pessoas no tero mais necessidade da Igreja  desafiou-o Vittoria, andando na sua direo.  A dvida  o seu ltimo farrapo de controle.  a dvida que traz as almas para vocs. A necessidade humana de saber se a vida tem sentido. A insegurana e a necessidade do homem de uma mente instruda que lhe garanta que tudo  parte de um plano geral. S que a Igreja no  a nica mente instruda do planeta! Ns todos buscamos Deus de diferentes maneiras. De que tem medo? Que Deus se mostre em algum outro lugar fora destas paredes? Que as pessoas O encontrem em suas prprias vidas e deixem esses rituais antiquados para trs? As religies evoluem! A mente encontra respostas, o corao se apega a novas verdades. Meu pai buscava o mesmo que voc! Em um caminho paralelo! Como no enxergou isto? Deus no  uma autoridade onipotente que nos olha de cima, ameaando nos atirar em um poo de fogo se desobedecermos. Deus  a energia que flui atravs das sinapses de nossos sistemas nervosos e dos ventrculos de nossos coraes! Deus est em todas as coisas!
     Exceto na cincia  rebateu o camerlengo, os olhos demonstrando somente pena.  A cincia, por definio, no tem alma.  alheia ao corao. Os milagres intelectuais como a antimatria chegam ao mundo sem instrues ticas anexas. Isto em si mesmo  perigoso! E quando a cincia alardeia suas atividades mpias como sendo o caminho esclarecido a seguir? Prometendo respostas a perguntas cuja beleza  no ter resposta?  ele sacudiu a cabea.  No.
    Houve um momento de silncio. O camerlengo sentiu-se de repente cansado sob o olhar inflexvel de Vittoria. No era assim que deveria ser. Deus o estaria submetendo a um teste final?
    Foi Mortati quem quebrou o feitio do momento.
     Os preferiti  disse ele, num murmrio horrorizado.  Baggia e os outros. Por favor, diga que no...
    O camerlengo voltou-se para ele, surpreso com a dor que transparecia em sua voz. Decerto Mortati seria capaz de compreender. Os milagres da cincia ocupavam as manchetes dos jornais todos os dias. Fazia quanto tempo que o mesmo no acontecia com a religio? Sculos? A religio precisava de um milagre! Algo que despertasse o mundo adormecido. Que o levasse de volta para o caminho da retido. Que restaurasse a f. De qualquer maneira, os preferiti no eram lderes, eram transformadores. Liberais preparados para abraar o novo mundo e abandonar os velhos mtodos! S havia um jeito. Um novo lder. Jovem. Vigoroso. Vibrante. Milagroso. Os preferiti serviram mais  Igreja na morte do que jamais o teriam feito quando vivos. Horror e Esperana. Oferecer quatro almas para salvar milhes. O mundo lembraria deles para sempre como mrtires. A Igreja prestaria gloriosas homenagens a seus nomes. Quantos milhares morreram pela glria de Deus? Eles eram somente quatro.
     Os preferiti  repetiu Mortati.  Partilhei a dor deles  defendeu-se o camerlengo, apontando para o peito.  E eu tambm teria morrido por Deus, mas meu trabalho apenas comeou. Esto cantando na Praa de So Pedro!
    O camerlengo vislumbrou horror nos olhos de Mortati e novamente ficou confuso. Seria a morfina? Mortati olhava para ele como se o camerlengo tivesse matado aqueles homens com suas prprias mos. At isto eu teria feito por Deus, pensou o camerlengo, e contudo no o fizera. A tarefa tinha sido realizada pelo Hassassin, uma alma pag que fora levada a acreditar que estava trabalhando para os Illuminati. Sou Janus, dissera-lhe o camerlengo. Vou provar meu poder. E o fizera. O dio do Hassassin transformara-o em um joguete nas mos de Deus.
     Escutem os cnticos  disse o camerlengo, sorrindo, seu corao se enchendo de alegria.  Nada une mais os coraes do que a presena do mal. Queimem uma igreja e a comunidade se levanta, dando-se as mos, cantando hinos de desafio enquanto a reconstri. Vejam como eles afluem hoje para c. O medo os trouxe de volta para casa. Temos de forjar demnios modernos para o homem moderno. A apatia est morta. Mostremos a eles a face do mal, os adoradores de Satans  espreita no meio de ns, dirigindo nossos governos, nossos bancos, nossas escolas, ameaando destruir a prpria Casa de Deus com sua cincia pervertida. A corrupo  profunda. O homem precisa estar vigilante. Procurar a virtude. Tornar-se a virtude!
    No silncio, o camerlengo esperava que agora eles tivessem entendido. Os Illuminati no tinham ressurgido. Os Illuminati estavam mortos fazia muito tempo. Apenas seu mito ainda vivia. O camerlengo fizera os Illuminati ressurgirem como um lembrete. Aqueles que conheciam a histria dos Illuminati reviveram sua maldade. Os que no conheciam passaram a conhecer e ficaram espantados por terem sido to cegos. Os antigos demnios tinham sido ressuscitados para despertar um mundo indiferente.
     Mas... os ferros de marcar?  a voz de Mortati soava dura de tanta repulsa.
    O camerlengo no respondeu. Mortati no tinha como saber, mas as marcas haviam sido confiscadas pelo Vaticano mais de um sculo antes. Tinham ficado trancadas, esquecidas e cobertas de poeira no cofre papal, o relicrio particular do Papa, no fundo dos Aposentos Brgia. O cofre papal continha certos objetos que a Igreja considerava perigosos demais para outros olhos a no ser os do Papa.
    Por que escondiam algo que inspirava medo? O medo levava as pessoas a Deus!
    A chave do cofre-forte passava de um Papa para outro. O camerlengo Ventresca tinha furtado a chave e entrado. O mito que envolvia o contedo do cofre era fascinante: o manuscrito original dos 14 livros da Bblia conhecidos como Apocrypha, a terceira profecia de Ftima, as duas primeiras tendo se realizado e a terceira sendo to terrvel que a Igreja nunca a revelara. Alm de tudo isso, o camerlengo encontrara a Coleo Illuminati, todos os segredos que a Igreja descobrira depois de banir o grupo de Roma: seu infame Caminho da Iluminao, a astuciosa fraude de um dos principais artistas do Vaticano, Bernini, os cientistas mais importantes da Europa zombando da religio ao se reunirem secretamente no Castelo SantAngelo, propriedade do Vaticano. A coleo inclua uma caixa pentagonal contendo os ferros de marcar, um deles o mtico diamante Illuminati. Aquela era uma parte da histria do Vaticano que os antigos achavam melhor esquecer. O camerlengo, porm, no concordava com isso.
     Mas a antimatria...  disse Vittoria.  O Vaticano correu o risco de ser destrudo!
     No h riscos quando Deus est a seu lado  objetou o camerlengo.  Esta causa era Dele.
     Voc  louco!  exclamou ela, fervendo de indignao.
     Milhes foram salvos.
     Pessoas morreram!
     Almas foram salvas.
     Diga isto a meu pai e a Max Kohler!
     A arrogncia do CERN tinha de ser revelada. Uma gotcula de lquido que pode desintegrar um quilmetro? E  a mim que voc chama de louco?
     O camerlengo sentiu a raiva subir. Ser que achavam que a incumbncia dele era simples?  Aqueles que crem so submetidos a grandes testes por amor a Deus! Deus pediu a Abrao para lhe sacrificar seu filho! Deus ordenou a Jesus que passasse pelo tormento da crucificao! E ns penduramos o smbolo da cruz diante de nossos olhos, sangrento, doloroso, agoniante, para nos lembrarmos do poder do mal! Para manter nossos coraes vigilantes! As chagas no corpo de Jesus so uma lembrana viva dos poderes das trevas! Minhas feridas so uma lembrana viva da mesma coisa! O mal est vivo, mas o poder de Deus triunfar!
    Seus brados ecoaram na parede dos fundos da Capela Sistina e depois um profundo silncio caiu sobre todos. O tempo parou. O ltimo Julgamento, de Michelangelo, erguia-se ameaador atrs do camerlengo  Jesus lanando os pecadores no inferno. Os olhos de Mortati encheram-se de lgrimas.
     O que voc fez, Carlo  perguntou Mortati, num sussurro. Ele fechou os olhos e uma lgrima rolou por sua face , com o Santo Padre?
    Um suspiro coletivo de dor ergueu-se, como se todos at ento tivessem esquecido o fato, O Papa. Envenenado.  Um mentiroso vil  disse o camerlengo.
    Mortati protestou, chocado.
     O que quer dizer? Ele era honesto! E amava voc!
     E eu a ele. Ah, como o amava! Mas a fraude! O juramento a Deus que foi quebrado!
    O camerlengo sabia que naquele momento eles no compreendiam, mas logo compreenderiam. Quando lhes contasse, eles veriam! O Santo Padre era a fraude mais nefasta que a Igreja jamais tivera. O camerlengo ainda se lembrava daquela noite terrvel. Ele voltara de sua viagem ao CERN com as informaes sobre o Gnese de Vetra e o poder horripilante da antimatria. O camerlengo estava certo de que o Papa veria os perigos envolvidos na descoberta, mas o Santo Padre viu apenas esperana nos avanos cientficos de Vetra. Chegou a levantar a possibilidade de o Vaticano financiar o trabalho de Vetra como um gesto de boa vontade para com a pesquisa cientfica baseada na espiritualidade.
    Loucura! A Igreja investir em uma pesquisa que ameaava tornar a prpria Igreja obsoleta? Em um trabalho que produzia armas de destruio em massa? A bomba que matara sua me...
     O senhor no pode fazer isto!  exclamara o camerlengo.
     Tenho uma dvida muito grande com a cincia  replicara o Papa.
     Algo que escondi a minha vida inteira. A cincia me concedeu uma ddiva quando eu era jovem. Uma ddiva que nunca esqueci.
     No compreendo. O que teria a cincia a oferecer a um homem de Deus?
      complicado  dissera o Papa.  Vou precisar de tempo para faz-lo compreender. Mas antes h um fato a meu respeito que voc precisa saber. Mantive segredo sobre isto durante todos estes anos. Acho que j  hora de lhe contar.
    E o Papa contara a ele a assombrosa verdade. 

CAPTULO 132

    O camerlengo jazia encolhido no cho de terra diante da tumba de So Pedro. Fazia frio na Necrpole, mas isto ajudava a coagular o sangue das feridas que ele fizera na prpria carne. O Santo Padre no o encontraria ali.
     complicado  a voz do Papa ecoava em sua mente. Vou precisar de tempo para faz-lo compreender...
    Entretanto, o camerlengo sabia que tempo nenhum o faria compreender. Mentiroso! Acreditei em voc! DEUS acreditou em voc!
    Com uma nica frase, o Papa fizera desmoronar o mundo do camerlengo. Tudo em que o camerlengo acreditara sobre seu mentor fora despedaado diante de seus olhos. A verdade atingiu o corao do camerlengo com tanta fora que ele recuou vacilante para fora do escritrio do Papa e vomitou no corredor.
     Espere!  o Papa o chamara, indo atrs dele.  Por favor, deixe-me explicar!
    Mas o camerlengo fugiu. Como o Santo Padre poderia esperar que ele agentasse mais alguma coisa? Ah, que desgraa, quanta depravao! E se algum descobrisse? Que profanao da Igreja! Ento os votos sagrados do Papa nada significavam?
    A loucura chegou rpida, gritando em seus ouvidos, at ele acordar diante da tumba de So Pedro. Foi quando Deus veio a ele com uma assombrosa ferocidade.
TEU DEUS  UM DEUS VINGADOR!
    Juntos, tinham feito planos. Juntos, iriam proteger a Igreja. Juntos, iriam devolver a f a este mundo sem f. O mal estava em toda parte. E todavia o mundo se tornara imune a ele! Juntos, iriam mostrar a escurido do mal e Deus triunfaria no fim! Horror e Esperana. Ento, o mundo iria acreditar!
    O teste final de Deus no fora to horrvel quanto o camerlengo imaginara. Esgueirar-se no quarto de dormir do Papa, encher a sua seringa, cobrir a boca do embusteiro enquanto o corpo dele se entregava aos espasmos da morte.  luz da lua, o camerlengo via nos olhos aflitos do Papa que havia algo que ele queria dizer.
    Tarde demais.
    O Papa j dissera o suficiente. 

CAPTULO 133

     O Papa teve um filho.
    Dentro da Capela Sistina, o camerlengo permaneceu inabalvel enquanto falava. Cinco palavras solitrias e uma concluso estarrecedora. Toda a assemblia pareceu recuar em conjunto. Os semblantes acusadores dos cardeais transformaram-se em expresses de pasmo, como se cada criatura ali dentro rezasse para o camerlengo estar errado.
    O Papa teve um filho. O choque atingiu Langdon tambm. A mo de Vittoria na sua estremeceu, e a mente de Langdon, j atordoada com perguntas no respondidas, procurou encontrar um centro de gravidade.
    A declarao do camerlengo parecia que iria pairar acima deles para sempre. Mesmo no olhar delirante do camerlengo, Langdon conseguia ver pura convico. E tinha vontade de fugir dali, dizer a si mesmo que tudo no passava de um grotesco pesadelo e acordar em um mundo que fizesse sentido.
     Deve ser mentira!  gritou um dos cardeais.
     No acredito!  protestou outro.  O Santo Padre era um dos homens mais piedosos e sinceros que j existiram!
    Foi Mortati quem falou em seguida, com um fio de voz, abalado.
     Meus amigos, o que o camerlengo diz  verdade.  Todos os cardeais na capela voltaram-se para ele ao mesmo tempo, como se ele tivesse proferido uma obscenidade.  O Papa realmente teve um filho.
    Os cardeais empalideceram de susto.
    O camerlengo ficou estupefato.
     Voc sabia? Mas como poderia saber uma coisa dessas?
    Mortati suspirou.
     Quando Sua Santidade foi eleito, eu fui o Advogado do Diabo.
    Ouviu-se o rudo de todos prendendo a respirao em unssono.
    Langdon compreendeu. Aquilo significava que a informao era provavelmente verdadeira. O abominvel Advogado do Diabo era a autoridade mxima quando se tratava de informaes escandalosas dentro do Vaticano. Segredos vergonhosos nas vidas dos Papas eram perigosos e, antes das eleies, eram realizadas investigaes secretas sobre o passado dos candidatos por um nico cardeal que servia de Advogado do Diabo, a pessoa encarregada de desenterrar razes por que cada um dos cardeais elegveis no deveria se tornar Papa. Essa funo era uma indicao antecipada do Papa em exerccio como um preparativo para a sua prpria morte. O Advogado do Diabo nunca revelava a sua identidade. Jamais.
     Eu fui o Advogado do Diabo  repetiu Mortati.  Foi como descobri.
    Os queixos caram. Pelo jeito, naquela noite todas as regras estavam sendo atiradas pela janela. O camerlengo encheu-se de raiva.
     E voc no contou a ningum? ...  Eu interroguei Sua Santidade  disse Mortati  e ele confessou. Explicou a histria inteira e pediu somente que eu deixasse meu corao guiar a minha deciso de revelar ou no o seu segredo.
     E seu corao lhe disse para enterrar a informao?
     Ele era o candidato favorito para o papado. As pessoas o amavam. O escndalo teria afetado profundamente a Igreja.
     Mas ele teve um filho! Quebrou seu voto sagrado de celibato!
    O camerlengo estava aos berros. Ouvia a voz de sua me. Uma promessa feita a Deus  a promessa mais importante de todas. Jamais quebre uma promessa feita a Deus.
     O Papa quebrou seu voto!
    Mortati parecia  beira do delrio de tanta angstia.
     Carlo, o amor dele era casto. Ele no quebrou voto algum. Ele no explicou a voc?
     Explicar o qu?
    O camerlengo lembrava-se de ouvir o Papa dizer enquanto ele fugia correndo: Deixe-me explicar!
    Lentamente, tristemente, Mortati contou toda a histria. Muitos anos antes, o Papa, quando ainda era apenas um padre, apaixonara-se por uma jovem freira. Ambos tinham feito voto de celibato e nunca pensaram em romper seu compromisso com Deus. Assim mesmo, o amor deles se aprofundou e, embora conseguissem resistir s tentaes da carne, viram-se ambos desejando algo em que nunca tinham pensado: participar do supremo milagre da criao, um filho. Seu filho. O anseio, especialmente da parte dela, tornou-se avassalador. Mas Deus ainda vinha em primeiro lugar. Um ano mais tarde, quando a frustrao tomara propores quase insuportveis, ela foi ao encontro dele toda alvoroada. Acabara de ler um artigo sobre um novo milagre da cincia  um processo pelo qual duas pessoas, sem terem relaes sexuais, podiam ter um filho. Ela pressentia que aquilo era um sinal de Deus. O padre viu a felicidade nos olhos dela e concordou. Um ano mais tarde, ela teve um filho por meio do milagre da inseminao artificial.
     Isto no pode ser verdade  disse o camerlengo, em pnico, esperando que fosse o efeito da morfina em seus sentidos. Devia estar ouvindo coisas.
    Mortati tinha lgrimas nos olhos.
     Carlo, foi por isso que o Santo Padre sempre apreciou a cincia. Achava que tinha uma dvida de gratido. A cincia permitiu que ele experimentasse as alegrias da paternidade sem quebrar seu voto de celibato. Sua Santidade contou-me que lamentava apenas uma coisa: que sua posio cada vez mais destacada na Igreja lhe impedisse de estar perto da mulher que amava vendo seu filho crescer.
    O camerlengo Carlo Ventresca sentiu a loucura se instalando nele outra vez. Tinha mpetos de rasgar a prpria carne. Como eu poderia saber?
     O Papa no cometeu pecado nenhum, Carlo. Ele era casto.
     Mas...  o camerlengo vasculhou sua mente angustiada  procura de uma base racional  ... pensem nos riscos desses atos  a voz dele ficou fraca.  E se essa meretriz dele aparecesse? Ou, Deus nos livre, se o filho aparecesse? Imaginem que vergonha seria para a Igreja.
    Mortati disse com voz trmula:
     O filho dele j apareceu.
    Tudo parou.
     Carlo  e Mortati quase sucumbiu , o filho do Santo Padre  voc.
    Naquele momento, o camerlengo sentiu o fogo da f quase se extinguir em seu corao. Tremia de p no altar, emoldurado pelo ltimo Julgamento, de Michelangelo. Acabara de vislumbrar o prprio inferno. Abriu a boca para falar, mas seus lbios se moveram sem emitir som algum.
     No v?  disse Mortati, a voz embargada.  Foi por isso que Sua Santidade foi ao seu encontro no hospital em Palermo quando voc era pequeno. Foi por isso que o recolheu e criou. A freira que ele amava era Maria, sua me. Ela deixou o convento para criar voc, mas nunca abandonou sua rigorosa devoo a Deus. Quando o Papa tomou conhecimento de que ela morrera em uma exploso e voc, filho dele, sobrevivera milagrosamente, jurou a Deus que nunca mais o deixaria. Carlo, seus pais eram ambos virgens. Mantiveram seus votos a Deus. E assim mesmo encontraram uma forma de traz-lo ao mundo. Voc foi o filho miraculoso deles.
    O camerlengo tapou os ouvidos para no ouvir as palavras. Ficou imvel no altar. Depois, com o mundo se desfazendo sob seus ps, caiu de joelhos e deixou escapar um gemido desesperado.
    Segundos. Minutos. Horas.
    O tempo perdera todo o sentido entre as quatro paredes da capela. Vittoria libertou-se devagar da paralisia que tomara conta de todos. Soltou a mo de Langdon e saiu andando pelo meio dos cardeais. A porta da capela pareceu-lhe estar a quilmetros de distncia e ela se movia como se estivesse embaixo dgua, em cmera lenta. Ao passar no meio das batinas, seu movimento ia tirando os outros do transe. Alguns cardeais comearam a rezar. Outros choravam. Uns se viraram para v-la passar, os rostos apticos tornando-se aos poucos apreensivos  medida que ela se aproximava da porta. Quase chegara ao fundo do aglomerado de pessoas quando a mo de algum segurou seu brao. O toque era frgil, mas resoluto. Ela se deparou com um cardeal idoso, enrugado. No rosto dele, um temor sombrio.
     No  murmurou o homem.  Voc no pode fazer isso.
    Vittoria sustentou-lhe o olhar, incrdula. Outro cardeal surgiu ao lado dela.
     Temos de pensar antes de agir.
    E outro.
     O sofrimento que isso pode causar...
    Vittoria estava cercada. Olhou para todos eles, surpresa.
     Mas os atos que foram cometidos hoje, esta noite... o mundo tem de saber a verdade.
     Meu corao concorda  disse o cardeal idoso, ainda segurando o brao dela , mas este seria um caminho sem volta. Precisamos levar em conta as esperanas destrudas. O ceticismo. Como as pessoas poderiam voltar a ter confiana um dia?
    Mais cardeais impediam-na de prosseguir. Havia uma parede de batinas negras em torno dela.
     Oua as pessoas na praa  disse um.  O que vai ser do corao delas? Temos de ser prudentes.
     Precisamos de tempo para refletir e rezar  disse outro.  Temos de pensar antes de agir. As repercusses de tudo isso...
     Ele matou meu pai!  protestou Vittoria.  Ele matou o prprio pai dele!
     Tenho certeza de que ele vai pagar por seus pecados  disse tristemente o cardeal que segurava o brao dela.
    Vittoria tambm tinha certeza e pretendia tomar providncias para garantir que isso acontecesse. Tentou chegar  porta, mas os cardeais juntaram-se mais, os rostos assustados.
     O que vo fazer?  exclamou ela.  Me matar?
    Os velhos empalideceram e Vittoria no mesmo instante se arrependeu de ter dito aquilo. Podia ver que eram boas almas. Tinham enfrentado violncia demais naquela noite. No queriam amea-la. Estavam simplesmente encurralados. Amedrontados. Tentando se orientar.
     S desejo  disse o cardeal idoso  fazer o que  correto.
     Ento vai deix-la sair  declarou uma voz grave atrs dela. As palavras eram calmas, mas o tom era categrico. Robert Langdon postou-se ao lado de Vittoria e segurou-lhe a mo.  A senhorita Vetra e eu vamos sair desta capela. Agora.
    Sem jeito, hesitantes, os cardeais comearam a abrir caminho para os dois.
     Esperem!  era Mortati.
    Veio ao encontro deles pelo meio da nave, deixando o camerlengo sozinho e derrotado no altar. Mortati parecia mais velho de uma hora para outra, cansado alm da conta. Caminhava como se carregasse um pesado fardo de vergonha. Ao chegar, pousou uma das mos no ombro de Langdon e a outra no de Vittoria. Vittoria sentiu sinceridade no gesto. Ele tinha os olhos vermelhos.
      claro que podem sair quando quiserem  disse Mortati.  Claro  e fez uma pausa, seu sofrimento quase tangvel.  Peo apenas uma coisa...  e baixou a cabea durante um longo momento, depois voltou a olhar para os dois.  Deixem que eu faa isso. Vou para a praa agora e encontro uma forma qualquer de dizer a eles. No sei como, mas vou encontrar. A confisso da Igreja deve vir de dentro. As falhas so nossas, ns mesmos devemos apresent-las.
    Mortati virou-se com ar melanclico para o altar.
     Carlo, voc colocou a Igreja em uma situao desastrosa  e parou, procurando em torno. No havia mais ningum no altar.
    Com um farfalhar de tecido na passagem lateral, uma porta se fechou.
    O camerlengo se fora. 

CAPTULO 134

    A batina branca do camerlengo Ventresca ondulava enquanto ele se afastava pelo corredor que saa da Capela Sistina. Os guardas suos ficaram perplexos quando surgiu desacompanhado de dentro da capela e lhes disse que precisava ficar sozinho um momento. Eles obedeceram e o deixaram passar.
    Agora, ao dobrar uma esquina e fora da viso deles, o camerlengo sentiu um redemoinho de emoes que no imaginava que fosse possvel um ser humano experimentar. Ele envenenara o homem que chamava de Santo Padre, o homem que o chamava de meu filho Sempre achara que as palavras pai e filho faziam parte da tradio religiosa, mas agora conhecia a verdade diablica  as palavras haviam sido literais. Chovia na manh em que os funcionrios do Vaticano bateram com fora  porta do camerlengo, despertando-o de um sono intermitente, O Papa, diziam, no respondia  porta nem ao telefone. O clero estava preocupado. O camerlengo era o nico que podia entrar nos aposentos do Papa sem se fazer anunciar.
    O camerlengo entrou sozinho e encontrou o Papa, como na noite anterior, contorcido e morto em sua cama. O rosto de Sua Santidade parecia-se com o de Sat. A lngua estava negra como a morte. O prprio Demnio dormira na cama do Papa.
    O camerlengo no sentia remorso. Deus havia falado.
    Ningum veria a traio, ainda no. Isto viria mais tarde.
    Ele deu a terrvel notcia  Sua Santidade morrera de um derrame. Depois, o camerlengo preparou-se para o conclave.
    A voz de Me Maria sussurrava em seu ouvido: Jamais quebre uma promessa feita a Deus.
     Estou escutando, Me  respondeu ele.  Este  um mundo sem f. Eles precisam ser levados de volta para o caminho da retido. Horror e Esperana.  o nico jeito.
     Sim  concordou ela.  Se no for voc, ento quem ser? Quem vai fazer a Igreja sair das trevas?
    Decerto nenhum dos preferiti. Eles eram velhos,  beira da morte, liberais que seguiriam o Papa, protegendo a cincia em sua memria, buscando seguidores modernos ao abandonar as velhas frmulas. Homens velhos e atrasados fingindo pateticamente no o serem. Iriam fracassar,  claro. A tradio era a fora da Igreja, no sua transitoriedade. O mundo inteiro era transitrio. A Igreja no precisava mudar, precisava apenas lembrar ao mundo que isto era irrelevante! O mal est vivo! Deus triunfar!
    A Igreja precisava de um lder. Velhos no inspiram ningum! Jesus inspirou! Jovem, vibrante, vigoroso, MILAGROSO.  Saboreiem seu ch  o camerlengo disse aos quatro preferiti, deixando-os na biblioteca particular do Papa antes do conclave.  Seu guia vai chegar daqui a pouco.
    Os preferiti agradeceram-lhe, todos animados pela oportunidade de entrar no famoso Passetto. Extraordinrio! O camerlengo, antes de sair, destrancara a porta do Passetto e, na hora combinada, a porta se abrira e um padre com aparncia estrangeira e uma tocha acesa na mo fizera os entusiasmados preferiti entrarem no corredor. De onde nunca mais saram. Eles sero o Horror. Eu serei a Esperana. No. Eu sou o Horror. O camerlengo percorria agora com passadas incertas a escurido da Baslica de So Pedro. De alguma forma, atravs da insanidade e da culpa, atravs das imagens de seu pai, atravs da dor e da revelao, at mesmo atravs dos efeitos da morfina, ele encontrara uma brilhante clareza. Uma noo de destino. Sei qual  meu propsito, pensou, admirado com tanta lucidez.
    Desde o incio, nada naquela noite correra exatamente como ele planejara. Obstculos imprevistos haviam surgido, mas o camerlengo adaptara-se a eles, fizera ousados ajustes. Contudo, nunca imaginou que a noite terminasse daquela maneira, apesar de agora perceber a preordenada majestade de tudo.
    No poderia terminar de outra forma.
    Ah, o pavor que sentira na Capela Sistina, achando que Deus o abandonara! Oh, os atos que Ele exigira! O camerlengo cara de joelhos, imerso em dvidas, os ouvidos esperando ouvir a voz de Deus, mas ouvindo apenas o silncio. Ele implorara por um sinal. Por orientao. Rumo. A vontade de Deus era aquela? A Igreja ser destruda por escndalos e abominao? No! Deus  que desejara que o camerlengo agisse! No fora Ele?
    Ento, o camerlengo viu. Pousado no altar. Um sinal. Comunicao divina  algo comum visto sob uma luz incomum. O crucifixo. Singelo, feito de madeira. Jesus na cruz. E tudo se esclarecera: o camerlengo no estava s. Nunca estaria s.
    Aquela era a vontade Dele, o Seu significado.
    Deus sempre pedira grandes sacrifcios queles a quem mais amava. Por que o camerlengo levara tanto tempo para compreender? Seria ele temeroso demais? Humilde demais? No fazia mais diferena. Deus encontrara um meio. O camerlengo at compreendia agora por que Robert Langdon fora salvo. Para trazer a verdade. E provocar aquele final. Como naquela noite fatdica semanas atrs, o camerlengo foi tomado por vertigens enquanto caminhava no escuro. Aquele era o nico caminho para a salvao da Igreja!
    O camerlengo sentia-se flutuar ao descer para o Nicho dos Plios. O efeito da morfina chegara a um ponto mximo, mas ele sabia que Deus o guiava.
    Ouvia ao longe o alarido dos cardeais saindo da capela, gritando instrues para a Guarda Sua.
    Mas nunca o encontrariam. No a tempo.
    Sentia-se atrado, cada vez mais depressa, descendo as escadas para o espao rebaixado onde luziam as 99 lamparinas. Deus estava devolvendo-o ao solo consagrado. Encaminhou-se para a grade sobre a abertura que levava  Necrpole. A Necrpole, onde aquela noite terminaria. Na sagrada escurido subterrnea. Pegou uma lamparina e preparou-se para descer.
    Ao atravessar o Nicho, porm, ele se deteve. Algo no estava certo. Como aquilo serviria a Deus? Um fim solitrio e silencioso? Jesus sofrera exposto aos olhos do mundo inteiro. A vontade de Deus no poderia ser aquela! O camerlengo tentou escutar a voz de seu Deus, mas havia apenas o confuso zumbido da droga em sua cabea.
     Carlo  era sua me , Deus tem planos para voc.
    Perturbado, o camerlengo continuou andando.
    Ento, sem prambulos, Deus chegou.
    O camerlengo estacou. A luz das 99 lamparinas projetara a sombra do camerlengo na parede de mrmore atrs dele. Gigantesca, temvel. Um vulto nebuloso rodeado por uma luz dourada. Com as chamas cintilando em torno de seu corpo inteiro, o camerlengo parecia um anjo subindo aos cus. Parou um momento, elevou os braos estendidos, contemplou a prpria imagem. E voltou-se para o alto das escadas.
    A mensagem de Deus era clara.
    Trs minutos tumultuados passaram-se nos corredores fora da Capela Sistina e ningum ainda localizara o camerlengo. Era como se o homem tivesse sido engolido pela noite. Mortati estava prestes a solicitar uma busca em grande escala na Cidade do Vaticano quando um brado jubiloso irrompeu l fora na Praa de So Pedro. Uma comemorao espontnea da multido, muito ruidosa. Os cardeais se entreolharam, preocupados.
    Mortati fechou os olhos.
     Que Deus nos ajude.
    Pela segunda vez naquela noite o Colgio dos Cardeais saiu para a Praa de So Pedro. Langdon e Vittoria foram arrastados pelo agrupamento de cardeais e tambm saram para o espao a cu aberto. As luzes das emissoras estavam todas dirigidas para a baslica. E l, tendo acabado de aparecer na sacada papal localizada bem no centro da imensa fachada, estava o camerlengo Ventresca com os braos levantados. Mesmo  distncia, ele parecia a personificao da pureza. Uma estatueta. Vestida de branco. Inundada de luz.
    A energia na praa cresceu como a de uma grande onda e logo rompeu as barreiras formadas pela Guarda Sua. A massa humana fluiu para a baslica em uma eufrica torrente de humanidade, uma investida irrefrevel com gente cantando, os clares das cmeras relampejando. Um pandemnio. As pessoas corriam para perto da fachada da baslica provocando um caos to intenso que parecia que nada mais as faria parar.
    E ento algo as fez parar. Por completo.
    No alto, o camerlengo fez o menor dos gestos. Juntou as duas mos no peito. E curvou a cabea em uma prece silenciosa.
    Uma a uma, depois s dezenas e s centenas, as pessoas curvaram as cabeas junto com ele.
    A praa mergulhou no silncio como se um encanto tivesse sido lanado.
    Em sua mente, girando e distante, as preces do camerlengo eram um turbilho de esperanas e tristezas... perdoai-me, Pai... Me... cheia de graa... vs sois a Igreja... que possais compreender este sacrifcio de seu nico filho concebido. Oh, meu Jesus... salvai-nos do fogo do inferno... levai todas as almas para o cu, em especial as que mais necessitam da vossa misericrdia...
    O camerlengo no abriu os olhos para ver a multido l embaixo, nem as cmeras de televiso, nem o mundo inteiro o assistindo. Sentia tudo isso em sua alma. Mesmo cheio de angstia, a comunho daquele momento era embriagante. Como uma rede de conexes estendida em todas as direes pelo mundo. Diante das telas das televises, em casa, dentro dos carros, o mundo todo rezava junto. Como sinapses de um corao gigantesco sendo ativadas em srie, as pessoas se voltavam para Deus, em dezenas de lnguas, em centenas de pases. As palavras que murmuravam eram recm-nascidas e ainda assim to familiares quanto suas prprias vozes  antigas verdades marcadas nas suas almas.
    A harmonia parecia eternizar-se.
    Mas o silncio aos poucos se desfez, cnticos alegres comearam a ser entoados novamente. Chegara o momento.
    Santssima Trindade, eu vos ofereo o mais precioso Corpo, Sangue e Alma... em reparao pelas ofensas, sacrilgios e indiferenas...
    O camerlengo j sentia a dor fsica se instalando. Espalhava-se por sua pele como uma peste, tinha vontade de enfiar as unhas na prpria carne como fizera semanas antes quando Deus viera ao seu encontro pela primeira vez. No se esquea da dor que Jesus suportou. J sentia as emanaes em sua garganta. Nem a morfina amenizaria o ardor.
    Meu trabalho aqui est terminado.
    O Horror cabia a ele. A Esperana,  multido.
    No Nicho dos Plios, o camerlengo seguira a vontade de Deus e untara seu corpo. Seu cabelo, seu rosto. Sua batina de linho branco. Sua carne. Estava encharcado com os leos sagrados, vtreos, das lamparinas. Tinham um perfume doce como o de sua me, mas queimavam. A ascenso dele seria misericordiosa. Miraculosa e rpida. E o que deixaria para trs no seria escndalo, mas uma nova fora e um novo prodgio.
    Deslizou a mo para dentro do bolso e segurou o pequeno isqueiro dourado que trouxera consigo do incendirio do Plio.
    Murmurou um versculo de Juzes. E, quando se elevaram as chamas do altar para o cu, subiu tambm com as chamas o Anjo do Senhor.
    Seu polegar fez um movimento.
    Estavam cantando na Praa de So Pedro.
    A viso que o mundo testemunhou ningum jamais esqueceria.
    Na alta sacada, como uma alma que se libertasse de seu envoltrio fsico, uma pira de chamas luminosas irrompeu do meio do corpo do camerlengo. O fogo subiu, engolfando-o por inteiro no mesmo instante. Ele no gritou. Levantou os braos acima da cabea e olhou para o cu. A conflagrao rugia a seu redor, envolvendo-o todo em uma coluna de luz. Ardeu por um tempo que pareceu infinito tendo o mundo como testemunha. As labaredas ficaram cada vez mais brilhantes. Ento, gradualmente, as chamas se dissiparam. O camerlengo se fora. Se cara por trs da balaustrada ou se desintegrara no ar, era impossvel dizer. Tudo o que restou foi uma nuvem de fumaa ondulando no cu acima do Vaticano. 

CAPTULO 135

    O dia demorou a raiar sobre a Cidade do Vaticano.
    Uma chuvarada esvaziara a Praa de So Pedro. A imprensa no arredou p, seus representantes amontoados debaixo de guarda-chuvas e nos furges comentando os acontecimentos da noite. Em todo o mundo, as igrejas ficaram cheias. O momento era de reflexo e discusso para todas as religies. Havia muitas perguntas e, no entanto, as respostas pareciam provocar apenas perguntas mais profundas. At ento, o Vaticano se manteve em silncio, sem fazer qualquer pronunciamento.
    Nas Grutas do Vaticano, o cardeal Mortati ajoelhou-se sozinho diante do sarcfago aberto. Estendeu a mo e fechou a boca enegrecida do velho Papa. Sua Santidade agora parecia em paz. Repousando serenamente para toda a eternidade.
    Aos ps de Mortati havia uma urna dourada cheia de cinzas. Mortati pessoalmente juntara as cinzas e as levara at ali.
     Uma oportunidade de perdo  disse ele para Sua Santidade, colocando a urna dentro do sarcfago ao lado do corpo do Papa.  No existe amor maior do que o de um pai por seu filho.
    Mortati escondeu a urna sob as dobras da roupa do Papa. Sabia que aquele local sagrado era reservado exclusivamente para as relquias dos Papas, mas de alguma forma ele achava que aquela era uma atitude apropriada.
     Signore?  disse algum, entrando nas grutas. Era o tenente Chartrand, acompanhado de trs guardas suos.  Esto esperando o senhor para o conclave.
    Mortati assentiu com um gesto de cabea.
    Lanou um ltimo olhar para o sarcfago e depois se levantou. Dirigiu-se aos guardas.
     J  hora de Sua Santidade ter a paz que mereceu.
    Os guardas se adiantaram e, com grande esforo, empurraram a tampa do sarcfago de volta para o lugar. Ela fechou com um estrondo conclusivo. Mortati estava sozinho ao atravessar o Ptio Brgia em direo  Capela Sistina. Uma brisa mida agitou a batina dele. Um cardeal saiu do Palcio Apostlico e veio ao seu encontro.
     Posso ter a honra de acompanh-lo ao conclave, signore?
     A honra  toda minha.
     Signore  disse o cardeal, com ar embaraado.  O Colgio lhe deve desculpas por ontem  noite. Estvamos cegos com...
     Por favor  interrompeu-o Mortati.  Nossas mentes s vezes vem o que nossos coraes gostariam que fosse verdade.
    O cardeal calou-se por um longo tempo. Finalmente, falou:
     J lhe contaram? O senhor no  mais nosso Grande Eleitor.
    Mortati sorriu.
     J. Agradeo a Deus pelas pequenas bnos.
     O Colgio insistiu que o senhor fosse elegvel.
     Parece que a caridade no morreu na Igreja.
     O senhor  um homem sbio. Seria um bom lder.
     Sou um homem velho. Seria lder por pouco tempo.
    Os dois riram.
    Ao chegarem ao fim do Ptio Brgia, o cardeal hesitou. Virou-se para Mortati entre perplexo e inquieto, como se a precria reverncia da noite anterior se insinuasse de novo em seu corao.
     O senhor sabia  cochichou o cardeal  que no encontramos restos na sacada papal?
    Mortati sorriu.
     Talvez a chuva os tenha levado embora.
    O homem olhou para o cu tempestuoso.
     , quem sabe... 
    
CAPTULO 136
   
    O cu da manh ainda estava pesado de nuvens quando saram da chamin da Capela Sistina as primeiras baforadas de fumaa branca. Os alvos fiapos encresparam-se no firmamento e aos poucos se dissiparam.
    L embaixo, na Praa de So Pedro, o reprter Gunther Glick observava calado, refletindo. O captulo final.
    Chinita Macri aproximou-se por trs dele e apoiou a cmera no ombro.
     Est na hora  disse ela.
    Glick sacudiu a cabea com ar lgubre.
    Virou-se para ela, alisou o cabelo e respirou fundo. Minha ltima transmisso, pensou. Uma pequena multido reunira-se perto deles para assistir.
     Ao vivo em 60 segundos  avisou Macri.
    Glick olhou por cima do ombro para o telhado da Capela Sistina.
     D para pegar a fumaa?
    Macri concordou, paciente.
     Sei como enquadrar uma cena, Gunther.
    Glick calou a boca.  claro que ela sabia. A atuao de Macri atrs da cmera na noite anterior provavelmente daria a ela o Pulitzer. A atuao dele, por outro lado... Nem queria pensar no assunto. Tinha certeza de que a BBC o mandaria embora. Seguramente, teriam problemas legais com diversas entidades poderosas  o CERN e George Bush, inclusive.
     Voc est bem  disse Chinita, protetora, afastando o rosto da cmera com um semblante ligeiramente preocupado.  Ser que posso lhe dar um...  ela hesitou, interrompendo-se.
     Um conselho?
    Macri suspirou.
     Eu s ia dizer que no precisa fechar a matria com espalhafato.
     Eu sei  replicou ele.  Voc quer um resumo oficial.
     O mais oficial do mundo. Confio em voc.
    Glick sorriu. Um resumo oficial? Ela ficou maluca? Uma histria como a da noite anterior merecia muito mais. Uma virada. Uma declarao estrondosa no final. Uma revelao imprevista de verdades chocantes.
    Felizmente, Glick tinha uma carta na manga.
     No ar em... cinco... quatro... trs...
    Ao olhar atravs da cmera, Chinita Macri reparou que havia um brilho sorrateiro no olhar de Glick.  uma loucura deix-lo fazer isso, pensou ela. Onde eu estava com a cabea?
    Mas o momento para reconsideraes j passara. Estavam no ar.
     Ao vivo da Cidade do Vaticano  anunciou Glick no momento certo , aqui  Gunther Glick, para o noticirio da BBC.  Deu um olhar solene para a cmera, com a fumaa branca da Capela Sistina subindo atrs dele.  Senhoras e senhores, agora  oficial. O cardeal Saverio Mortati, um progressista de 79 anos, acabou de ser eleito Papa na Cidade do Vaticano. Apesar de no ser um candidato provvel, Mortati foi eleito por uma unanimidade sem precedentes pelo Colgio dos Cardeais.
    Macri respirou aliviada. Glick parecia incrivelmente profissional. At austero. Pela primeira vez em sua vida, Glick de fato se comportava e falava como um reprter.
     Conforme j noticiamos  acrescentou Glick, a voz se intensificando perfeitamente , o Vaticano ainda no fez qualquer pronunciamento sobre os miraculosos acontecimentos de ontem  noite.
    timo! O nervosismo de Chinita diminuiu mais um pouco. At aqui, tudo bem.
    Glick assumiu uma expresso pesarosa em seguida.
     Embora a noite passada tenha sido uma noite de prodgios, foi tambm uma noite de tragdias. Quatro cardeais morreram no conflito de ontem, assim como o comandante Olivetti e o capito Rocher, da Guarda Sua, ambos no cumprimento do dever. Outras baixas incluem Leonardo Vetra, o renomado fsico do CERN e pioneiro da tecnologia da antimatria, e Maximilian Kohler, o diretor do CERN, que aparentemente veio ao Vaticano em um esforo para oferecer ajuda, mas que, de acordo com as informaes, faleceu nesse meio tempo. Nenhum relatrio oficial foi divulgado ainda a respeito da morte do senhor Kohler, mas se supe que tenha sido provocada por complicaes decorrentes de uma antiga doena.
    Macri balanou a cabea para ele. A reportagem estava indo muito bem. Justamente como tinham combinado.
     E, em conseqncia da exploso no cu acima do Vaticano na ltima noite, a tecnologia da antimatria produzida pelo CERN tornou-se o assunto quente entre os cientistas, despertando interesse e controvrsia. Uma declarao lida em Genebra pela assistente do senhor Kohler, Sylvie Baudeloque, anunciou esta manh que o conselho diretor do CERN, embora entusiasmado com o potencial da antimatria, est suspendendo todas as pesquisas e licenciamentos at que investigaes posteriores sobre sua segurana possam ser efetuadas.
    Excelente, pensou Macri. Agora, a reta final.
     Uma ausncia notvel em nossas telas ontem  prosseguiu Glick  foi o rosto de Robert Langdon, o professor de Harvard que veio para a Cidade do Vaticano a fim de colaborar com seus conhecimentos sobre os Illuminati. Acreditava-se que teria morrido na exploso da antimatria, mas temos informaes de que foi visto na Praa de So Pedro aps a exploso. Como ele chegou ainda  especulao, mas um porta-voz do Hospital Tiberina afirma que o senhor Langdon caiu do cu no rio Tibre logo depois da meia noite, foi medicado e liberado.  Glick arqueou as sobrancelhas para a cmera.  E se isto for verdade, essa foi certamente uma noite de milagres.
    Perfeito! Macri abriu um sorriso largo. Um resumo impecvel! Agora, encerre a transmisso!
    Mas Glick no encerrou. Fez uma pausa e deu um passo na direo da cmera. Sorriu, misterioso.
     Antes de encerrarmos, porm...
    No!
     ... gostaria de convidar uma pessoa para conversar conosco.
    As mos de Chinita gelaram segurando a cmera. Uma pessoa? Que diabos ele vai fazer? Que pessoa? Encerre agora, seu idiota! Mas sabia que era tarde demais. Glick j se comprometera.
     O homem que vou apresentar  disse Glick   um americano, um famoso acadmico.
    Chinita ficou indecisa. Prendeu a respirao enquanto Glick se dirigia ao pequeno grupo de pessoas em torno deles e fazia um sinal para que seu convidado se adiantasse. Ela fez uma orao silenciosa. Por favor, que ele tenha de alguma forma localizado Robert Langdon e no um desses malucos obcecados por conspiraes dos Illuminati.
    Quando o convidado de Glick apareceu, porm, o corao de Macri se apertou. No era Robert Langdon coisa nenhuma. Era um homem careca de jeans e camisa de flanela. Usava uma bengala e grossos culos de grau. Macri ficou apavorada.  um dos malucos!
     Quero lhes apresentar  anunciou Glick  o respeitado professor Joseph Vanek, especialista em assuntos do Vaticano da Universidade De Paul, em Chicago.
    O homem juntou-se a Glick na imagem da cmera. No era um manaco por conspiraes. Ela at j ouvira falar daquele sujeito.
     Doutor Vanek  comeou Glick , o senhor tem algumas informaes surpreendentes para nos dar sobre o conclave da noite passada, no ?
     De fato, tenho  disse Vanek.  Depois de uma noite de tantas surpresas,  difcil imaginar que ainda existam mais surpresas. Entretanto...  ele fez uma pausa.
    Glick sorriu.
     Entretanto, existe um detalhe estranho em tudo isso.
    Vanek assentiu.  Sim. E, por mais desconcertante que seja, acredito que o Colgio dos Cardeais elegeu dois Papas neste fim de semana.
    Macri quase deixou cair a cmera.
    Glick deu um sorriso astuto.
     Dois Papas, o senhor disse?
    O especialista concordou.
     Sim. Antes de mais nada, devo explicar que passei a vida estudando as leis da eleio papal. A judicatura do conclave  extremamente complexa e grande parte dela est hoje esquecida ou  deixada de lado como obsoleta. Talvez nem o Grande Eleitor esteja ciente daquilo que vou revelar agora. Todavia, de acordo com leis antigas e esquecidas enunciadas no Romano Pontifice Eligendo, Numero 63, a eleio no  o nico mtodo pelo qual um Papa pode ser eleito. H outro mtodo, mais divino. Chama-se eleio por aclamao  ele fez uma pausa.  E aconteceu ontem  noite.
    Glick lanou um olhar penetrante a seu convidado.
     Como devem lembrar  prosseguiu o acadmico , na noite de ontem, quando o camerlengo estava no telhado da baslica, todos os cardeais embaixo comearam a gritar seu nome em unssono.
     Sim, eu me lembro.
     Com essa imagem em mente, permita-me ler o texto original das antigas leis eleitorais.  O homem tirou uns papis do bolso, pigarreou e comeou a ler:  A Eleio por Aclamao ocorre quando todos os cardeais, como se por inspirao do Esprito Santo, livre e espontaneamente, unanimemente e em voz alta, proclamam o nome de um indivduo.
    Glick, sorridente, perguntou:
     O senhor est dizendo ento que, ontem  noite, quando os cardeais repetiram juntos o nome de Carlo Ventresca, eles na verdade o elegeram Papa?
     Sim, com certeza. Alm disso, a lei estabelece que a eleio por aclamao suplanta a exigncia de elegibilidade de um cardeal e permite que qualquer membro do clero  padre ordenado, bispo ou cardeal  seja eleito. Portanto, como pode ver, o camerlengo estaria perfeitamente qualificado para a eleio papal por esse procedimento.  O doutor Vanek olhou direto para a cmera.
     Os fatos so estes: Carlo Ventresca foi eleito Papa na noite de ontem. Reinou por menos de 17 minutos. E, se no tivesse ascendido aos cus milagrosamente em uma coluna de fogo, estaria agora enterrado nas Grutas do Vaticano com os Outros Papas.
     Obrigado, doutor  e Glick deu uma piscada maliciosa para Macri.  Foi muito esclarecedor. 

CAPTULO 137

    Do alto dos degraus do Coliseu, vittoria riu e voltou-se para ele, l embaixo, chamando-o.
     Ande, Robert! Devia ter me casado com um homem mais moo!  o sorriso dela era mgico.
    Ele tentou acompanh-la, mas suas pernas pesavam como se fossem feitas de pedra.
     Espere  pediu.  Por favor...
    Sua cabea latejava.
    Robert Langdon acordou sobressaltado.
    Escurido.
    Ficou deitado um tempo enorme na maciez estrangeira da cama, incapaz de saber onde estava. Os travesseiros eram de plumas de ganso, imensos e maravilhosos. O ar cheirava a pot-pourri. Do outro lado do quarto, duas portas de vidro abriam-se para uma generosa sacada, onde uma brisa ligeira corria sob a lua meio encoberta pelas nuvens. Langdon tentou lembrar-se de onde estava e como fora parar ali.
    Farrapos de lembranas filtravam-se por sua conscincia.
    Uma pira mstica de fogo, um anjo se materializando em meio  multido, a mo leve pegando a sua mo e levando-o pela noite afora, guiando seu corpo exausto e machucado atravs das ruas, levando-o para l, para aquele apartamento, empurrando-o meio adormecido para uma ducha escaldante, levando-o para aquela cama e velando por ele enquanto ele adormecia como se desmaiasse.
    Na penumbra, Langdon enxergou uma segunda cama. Os lenis estavam desarrumados, mas a cama estava vazia. De um dos aposentos ao lado, ouviu o rudo abafado mas constante de um chuveiro aberto.
    Ao olhar de novo para a cama de Vittoria, entreviu um braso bordado em cores ntidas no travesseiro dela e a inscrio: HOTEL BERNINI. Langdon teve de achar graa. Vittoria escolhera bem. O luxo do Velho Mundo com vista para a Fonte do Trito, de Bernini  no havia hotel mais apropriado em toda a Roma.
    Deitado ali, ouviu batidas e percebeu o que o acordara. Algum estava batendo  porta. Agora com mais fora.
    Confuso, Langdon levantou-se. Ningum sabe que estamos aqui, pensou, meio inquieto. Vestiu um elegante roupo do Hotel Bernini e saiu do quarto de dormir para o vestbulo da sute. Parou um instante junto  pesada porta de carvalho e ento a abriu.
    Um homem alto e vigoroso vestido numa profuso rebuscada de amarelo e roxo olhou para ele.
     Sou o tenente Chartrand  disse o homem.  Da Guarda Sua do Vaticano.
    Langdon sabia muito bem quem ele era.
     Como... como nos encontrou?
     Vi quando saram da praa ontem  noite. Eu os segui. Estou aliviado por ainda estarem aqui.
    Langdon sentiu uma ansiedade repentina, cogitando se os cardeais teriam enviado Chartrand para escolt-lo juntamente com Vittoria de volta para a Cidade do Vaticano. Afinal, os dois eram as nicas pessoas alm dos membros do Colgio dos Cardeais que sabiam a verdade. Eram uma ameaa.
     Sua Santidade incumbiu-me de dar isto ao senhor  disse Chartrand, entregando-lhe um envelope lacrado com o sinete do Vaticano. Langdon abriu o envelope e leu o bilhete manuscrito.
    Senhor Langdon e Senhorita Vetra,
    Embora seja meu profundo desejo solicitar sua discrio a respeito dos assuntos das ltimas 24 horas, no posso deforma alguma ter a presuno de lhes pedir mais do que j concederam. Sendo assim, sem nada pretender, recolho-me esperando que deixem seus coraes os guiarem nessa questo. O mundo hoje parece um lugar melhor e talvez as perguntas sejam mais poderosas do que as respostas.
    Minha porta estar sempre aberta para ambos.
    Sua Santidade, Saverio Mortati
    Langdon leu duas vezes o bilhete. O Colgio dos Cardeais sem dvida escolhera um lder cheio de nobreza e generosidade.
    Antes que Langdon pudesse dizer qualquer coisa, Chartrand entregou-lhe um pequeno pacote.
     Em sinal do agradecimento de Sua Santidade.
    Langdon segurou o pacote. Era pesado e estava embrulhado em papel pardo.
     Por decreto do Santo Padre  disse Chartrand , esse objeto do cofre papal  confiado ao senhor em emprstimo por tempo indefinido. Sua Santidade pede apenas que em sua ltima vontade e testamento o senhor estabelea que ele deve voltar para o lugar de onde veio.
    Langdon abriu o embrulho e perdeu a fala. Era o ferro de marcar. O diamante Illuminati. Chartrand sorriu.
     Fique em paz  disse, virando-se para ir embora.
     Muito... obrigado  Langdon conseguiu por fim dizer, as mos trmulas segurando o valioso presente.
    O guarda hesitou, j no corredor.
     Senhor Langdon, posso lhe perguntar uma coisa?
     Claro.
     Os outros guardas e eu estamos curiosos. Naqueles ltimos minutos, o que aconteceu l em cima dentro do helicptero?
    Langdon ficou um tanto apreensivo. Sabia que aquele momento chegaria  o momento da verdade. Ele e Vittoria tinham conversado sobre o assunto na noite anterior enquanto se afastavam da Praa de So Pedro. E tinham tomado uma deciso. Antes mesmo do bilhete do Papa.
    O pai de Vittoria sonhara que sua descoberta da antimatria causaria um despertar espiritual. Os acontecimentos da vspera seguramente no eram o que ele pretendia, mas havia um fato que no se podia negar: naquele momento, em todo o mundo, as pessoas estavam pensando em Deus como nunca haviam feito antes. Quanto tempo a mgica iria durar, Langdon e Vittoria no tinham a menor idia, mas nunca seriam capazes de quebrar aquele deslumbramento com escndalos e dvidas. O Senhor trabalha de estranhas maneiras, disse Langdon a si mesmo, conjeturando se talvez, quem sabe, o dia anterior correra de acordo com a vontade de Deus, afinal de contas.
     Senhor Langdon?  repetiu Chartrand.  Eu estava perguntando sobre o helicptero...
    Langdon deu um sorriso tristonho.
     , eu sei  e deixou que as palavras viessem de seu corao, no de sua mente.  Pode ser que tenha sido o choque da queda, mas a minha memria... parece... est toda embaralhada...
    Chartrand fez uma cara desanimada.
     No se lembra de coisa alguma?
    Langdon suspirou.
     Tenho a impresso de que isso vai ser um mistrio para sempre.
    Quando Robert Langdon voltou para o quarto, a viso que o aguardava fez com que parasse no meio do caminho. Vittoria estava na sacada, de costas para a grade, os olhos profundos pousados nele. Uma verdadeira apario dos cus, a silhueta radiante com a lua brilhando por trs. Poderia ter sido uma deusa romana, envolta em seu roupo atoalhado, a faixa apertada na cintura acentuando suas curvas esbeltas. Na rua, uma nvoa clara pairava como um halo sobre a Fonte do Trito, de Bernini.
    Langdon sentia-se tremendamente atrado por ela, mais do que por qualquer mulher em sua vida. Com cuidado, colocou o diamante Illuminati e a carta do Papa em sua mesa-de-cabeceira. Haveria muito tempo para explicar tudo aquilo depois. Foi ao encontro dela na sacada.
    Vittoria mostrou-se contente ao v-lo.
     Voc acordou  murmurou ela, com um ar de timidez afetada.  Finalmente.
    Langdon sorriu.
     O dia de ontem foi longo.
    Ela correu a mo pela cabeleira abundante, o decote de seu roupo abrindo-se ligeiramente.
     E agora suponho que voc queira sua recompensa.
    A observao pegou Langdon desprevenido.
     O que... o que foi que disse?
     Somos adultos, Robert. Pode admitir. Voc est com vontade. Estou vendo em seus olhos. Uma fome intensa, carnal.  Ela sorriu.  Eu tambm. E essa vontade ardente est prestes a ser satisfeita.
     Est?  ele se animou e deu um passo em direo a ela.
     Completamente  ela lhe estendeu um cardpio de servio de quarto.  Pedi tudo o que eles tm aqui.
    O banquete foi suntuoso. Os dois jantaram juntos ao luar, sentados na sacada saboreando uma salada frise, trufas e risoto. Bebericaram um vinho Dolcetto e conversaram at tarde da noite.
    Langdon no precisaria ter sido especialista em Simbologia para decifrar todos os sinais que Vittoria lhe mandava. Durante a sobremesa de creme de amoras raras com savoiardi e o Romcaffe fumegante, Vittoria encostou suas pernas nuas nas dele sob a mesa e lanou-lhe um olhar carregado de significados. Parecia estar querendo que ele largasse os talheres naquele instante e a levasse para dentro em seus braos.
    Mas Langdon nada fez. Comportou-se como um perfeito cavalheiro. Este  um jogo de dois, pensou, disfarando um sorriso maroto.
    Quando acabaram de comer, Langdon foi sentar-se sozinho na beirada de sua cama, onde ficou virando e revirando o diamante Illuminati nas mos e fazendo comentrios interminveis sobre o milagre de sua simetria. Vittoria olhava fixo para ele, sua incompreenso transformando-se em uma evidente frustrao.
     Voc acha esse ambigrama tremendamente interessante, no ?  perguntou ela.
    Langdon concordou.
     Fascinante.
     Diria que  a coisa mais interessante neste quarto?
    Langdon coou a cabea, fingindo ponderar com cuidado a pergunta.
     Bem, h uma coisa que me interessa mais.
    Ela sorriu e se aproximou dele.
     Que ?
     Como voc refutou aquela teoria de Einstein usando atuns.
    Vittoria lanou os braos para cima.
     Dio mio! Chega desses atuns! Pare de brincar comigo, estou lhe avisando!
    Langdon deu um sorriso largo.
     Em sua prxima experincia, voc deveria estudar linguados e provar que a Terra  plana.
    Vittoria estava furiosa, mas os primeiros vestgios de um sorriso exasperado apareceram em seus lbios.
     Para sua informao, professor, minha nova experincia vai marcar a histria da cincia. Pretendo provar que os neutrinos tm massa.
     Os neutrinos tm massa?  Langdon fez uma cara espantada.  Eu nem sabia que eles eram comestveis!
    Com um movimento fluido, ela o derrubou e o imobilizou.
     Espero que voc acredite na vida depois da morte, Robert Langdon.  Vittoria ria enquanto se sentava em cima dele, as mos prendendo-o, os olhos cheios de malcia.
     Na verdade  disse ele, rindo mais ainda , sempre achei difcil imaginar alguma coisa alm deste mundo.
      mesmo? Quer dizer que nunca teve uma experincia religiosa? Um momento perfeito de xtase glorioso?
    Langdon sacudiu a cabea, negando.
     No, e duvido muito que eu seja o tipo de pessoa que jamais possa ter uma experincia religiosa.
    Vittoria deixou cair seu roupo.
     Voc nunca foi para a cama com uma mestra de ioga, foi? 
    
    Fim do livro
    
